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O Corpo Dela e Outras Farras: a violência está nos detalhes

Corpos e festas podem ser imprevisíveis. A possibilidade do prazer e o risco do tédio. O desejo de diversão e a realidade do embotamento. É fácil ir embora de uma festa quando ela contraria nossas expectativas. No entanto, o que acontece quando nossos corpos são o que nos deixam vulneráveis à violência e negligência? Os oito contos reunidos em O Corpo Dela e Outras Farras, livro de estreia de Carmen Maria Machado, exploram o medo e a sensação de instabilidade que perpassam a experiência de ser mulher num mundo hostil.

As histórias trazem elementos fantásticos, tons de erotismo e a construção de tensões entre as protagonistas e suas percepções da realidade. A admiração de Machado por autoras como Shirley Jackson e Angela Carter se faz presente no terror psicológico e nos elementos de contos de fada, seu estilo lembra um pouco a argentina Samantha Scweblin em Pássaros na Boca.

O livro começa com o ótimo “O Ponto do Marido” que mistura a paixão pelo ato de contar histórias, ideias sobre a relação entre narrador/ouvinte/leitor e a vida de uma narradora que se declara como uma mulher banal, exceto pelo fato de ela ter uma fita em seu pescoço, parte de quem ela é, e que às vezes se torna motivo de angústia e preocupação pela curiosidade que a fita desperta nos homens.

“O Ponto do Marido” tem relação com a episiotomia, corte feito na região do períneo das mulheres em partos naturais, sob o pretexto de facilitar a passagem do bebê. A prática corta nervos, músculos e vasos sanguíneos que interferem na contração vaginal e no prazer da mulher após a cicatrização — e passou a ser considerada violência obstétrica. O “Ponto do Marido” seria um ponto “extra” dado pelo médico com o objetivo de aumentar o prazer sexual do homem, e com frequência causa dor e desconforto para a mulher no momento da penetração. O terror se infiltra na forma como a história de se apaixonar por um homem, se casar, engravidar e ficar em casa para cuidar do filho é pontuada por diferentes contos populares sobre filhas que se perdem de suas mães, esposas que servem a própria carne ao marido, e no entanto, a narradora não relaciona as morais dessas histórias e o curso de sua vida até ser tarde demais.

“Inventário” é composto de fragmentos em que uma mulher se recorda de todas as suas experiências sexuais, revelando parte de sua vida e os acontecimentos no mundo. Um dos pontos fortes de O Corpo Dela e Outras Farras é que a bissexualidade ou a lesbiandade das personagens são tratadas com naturalidade. A narradora sem nome registra características físicas, traços psicológicos de suas amantes e de seus parceiros. Diante do caos e da perspectiva da extinção da humanidade, o sexo pode estabelecer conexões de prazer, afeto e alegria, unindo as pessoas com um senso de continuidade e de sobrevivência — menos quando é usando para suprir vazios e reforçar relações de poder.

As personagens de Machado gostam de sexo e não há mistério quanto a isso. Pode ser descompromissado, associado a uma relação amorosa, e não há uma hierarquia entre essas possibilidades. O prazer é uma das formas como o corpo se faz presente nos contos, e algumas cenas evocam a excitação e o perigo simultaneamente.

“Mães” aborda um relacionamento lésbico e uma gravidez improvável de forma não-linear. A insegurança e a inadequação da protagonista diante de uma recém-nascida, a consciência da fragilidade daquela vida, dos cuidados necessários. Neste conto, o corpo se associa a casa, à ideia de um lar, intimidades, refeições, mas não há segurança ou garantias. A maternidade e o amor podem ser experiências assustadoras, ou arriscadas, quando não há instinto de autopreservação.

Em “Mães” e “A Residente” a prosa de Machado vai do verossímil para o fantástico e cria a dívida se estamos diante de acontecimentos impossíveis, ou de mulheres, que em algum momento, perderam seu contato com a realidade. Elas relatam os acontecimentos sabendo que eles escapam do registro na normalidade, cabe a quem lê decidir se estamos diante da loucura, da mentira ou se da ficção permitindo que o improvável aconteça.

O conto mais longo da coletânea, “Especialmente hediondas” mistura a cultura pop com a literatura de terror. São 272 sinopses de episódios de Law and Order: Special Victims Unit. A ideia é curiosa, no entanto, a narrativa fragmentada perde um pouco o fôlego porque são incorporados muitos elementos. Investigações de estupros e assassinatos se misturam a doppelgängers, assombrações, paixões doentias, crises conjugais, algo maligno em Nova York. Embora a narrativa tenha bons momentos de nonsense e humor negro, crítica à banalização de histórias baseadas no sofrimento de mulheres como entretenimento, menos sinopses seriam mais contundentes.

Em “Mulheres de Verdade Têm Corpos”, as personagens começam a se tornar etéreas, invisíveis. O que pode ser compreendido como uma possibilidade de pensar o apagamento, o fato de as mulheres não terem seus direitos e existências respeitados plenamente. Elas não morrem, perdem a materialidade — não se alimentam, não podem ser tocadas, apenas vagam. A perspectiva dessa existência assombrada, que não é a morte, mas também não chega a ser uma vida, faz com que uma personagem reflita sobre os prazeres físicos, e mais: o afeto, a troca de carinhos, o que se constrói e mantém a partir do contato. Até que ponto se está realmente viva sem estar confortável no próprio corpo aproveitando suas possibilidades?

Em “Oito Bocados”, uma mulher é convencida por suas irmãs a se submeter a uma cirurgia bariátrica. Sabemos que a protagonista é uma mulher gorda, mas ambivalência da narradora instiga a dúvida de até que ponto a cirurgia é necessária, ou se sua motivação é expectativa ser outra. No entanto, se é possível transformar o corpo com um procedimento, uma mulher que não se suporta é incapaz de se reinventar se não souber o que precisar ser mudado. Já em “A Residente”, a memória e o trauma criam uma espécie de armadilha. Uma escritora é aceita em uma residência artística com escultores, fotógrafos, cineastas. O cenário é próximo de um lugar onde ela viveu um episódio tenso na infância, e as dificuldades com relacionamentos, no passado e no presente, desestabilizam a narradora.

A coletânea é encerrada por “Difícil em Festas”, em que uma mulher lida com a dor, a vergonha e sentimentos de desconexão depois de um estupro enquanto enfrenta as consequências desta violência sem sua vida afetiva. Ela não quer ser apenas uma vítima, e procura modos inesperados de retomar seu corpo e suportar o sofrimento. Quando tenta assistir a filmes p∅rnô para se masturbar, descobre que é capaz de ouvir o monólogo interior dos atores. A dissonância entre a imagem, a performance e a interioridade está em vários aspectos da vida.

O livro tem diferenças de ritmo e acabamento nos contos, mas apresenta uma autora estreante com paixão pela literatura e que trata aspectos duros das experiências das mulheres com inteligência, criatividade e sem simplismos. Vai ser muito interessante acompanhar as próximas histórias que Carmen Maria Machado tem para contar. O Corpo Dela e Outras Farras será adaptado numa série antologia, nos moldes de Black Mirror, pela FX.

Stephanie Borges é jornalista, tradutora e poeta. Trabalhou em editoras como Cosac Naify e Globo Livros. Publicou poemas nas revistas Garupa e Pessoa. Traduziu os livros Jihadi John: Como Nasce Um Terrorista, de Robert Verkaik, e As Estrelas Sob Nossos Pés, de David Barclay Moore, assim como ensaios de Claudia Rankine e de Audre Lorde. Escreve sobre suas leituras na newsletter a cartinha de banalidades.


** A arte em destaque é de autoria da editora Anna Vitória

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