Categorias: LITERATURA

A Casa na Rua Mango: um poço de memória e sentimento

Eu sou uma pessoa de cidade pequena. Essa é uma das minhas principais características. Qualquer pessoa que tenha falado comigo mais do que duas vezes vai saber que vim de uma cidade pequena. E não só falo disso frequentemente, como também sou facilmente fisgada por qualquer tipo de história que tenha como cenário uma cidade pequena ou um bairro que funciona como tal. Essa foi uma das várias coisas que me fizeram gostar tanto de A Casa na Rua Mango, livro de Sandra Cisneros publicado por aqui em 2020, pela Editora Dublinense, com tradução de Natalia Borges Polesso.

A Casa na Rua Mango é um romance diferente. A primeira coisa que chama a atenção no livro é sua estrutura: a história é dividida em capítulos curtos, não necessariamente sequências uns dos outros, que se assemelham a pequenos contos. Isso, junto com a linguagem poética e leve da autora, faz com que a leitura seja rápida e fluida, mesmo quando os temas são pesados. O livro nos apresenta Esperanza, protagonista e narradora de todos os fragmentos tão coesos dessa história. Esperanza é filha de mexicanos, e nasceu e vive nos Estados Unidos, em um bairro periférico na cidade de Chicago.

É um romance que tem alguma coisa de um livro de contos e também tem alguma coisa de um livro de memórias. Muito do que faz parte da vida de Esperanza fez parte da vida de Sandra Cisneros, que também nasceu e viveu em Chicago e também tem origens mexicanas. E antes de sequer conhecermos Esperanza, temos a chance de conhecer um pouco a própria Sandra. A autora abre o livro com “Uma casa toda minha”, uma apresentação belíssima, em que fala de si mesma, de sua família, sonhos e os caminhos que a levaram até ali, à escrita deste livro. Precisei de poucas páginas para ter certeza de que ia gostar do livro: a introdução tem uma eficiência inegável de conquistar o leitor antes mesmo do começo da história.

Quando a história de fato começa, vamos conhecendo o bairro em que Esperanza mora um pouco mais a cada página. Os quatro primeiros capítulos são certeiros em apresentar quem é a protagonista e o que é importante para ela: sua casa, sua família, seu nome, suas origens, sua cultura. A narração em primeira pessoa de Esperanza é um grande trunfo. Além de dar unidade aos capítulos que formam o romance, a maneira simples de uma criança contar seu mundo é afiada e deixa a leitura ainda mais interessante. É muito rico conhecer o bairro pelos olhos dela, acompanhar as transformações da pré-adolescência e saber quais são seus sonhos e aspirações.

Enquanto alguns capítulos são mais pesados e tristes, outros são divertidos e cheios de ternura, o que faz com que a experiência de leitura seja ainda mais dinâmica. E todos os capítulos têm algo em comum: são fragmentos enxutos mas que dizem tanto. Esse é outro ponto forte da escrita de Sandra Cisneros. Ao longo dos capítulos, ela consegue falar de temas complexos e importantes, sem precisar recorrer a textões ou a diálogos intermináveis. Não é preciso dar longas explicações. As observações e anedotas contadas pela protagonista são mais do que suficientes para colocar questões como barreira linguística, preconceito, pobreza e violência –- coisas que estão emaranhadas nas vidas da família e dos vizinhos. Todos esses temas são inseparáveis da rua Mango e do bairro, que são um acontecimento em si.

“Aqueles que não sabem das coisas chegam na nossa vizinhança apavorados. Eles acham que nós somos perigosos. Eles acham que nós vamos atacá-los com facas brilhantes. É gente estúpida que se perdeu e chegou aqui por engano.
Mas nós não temos medo. Nós sabemos que o cara vesgo é o Davey, o Nenê, e o alto, do lado dele, com chapéu de palha, é o Eddie V., da Rosa, e o grandão que parece um adulto burro é o Fat Boy, embora ele não seja mais nem gordo nem menino.”

Tudo isso que eu disse até aqui é incrível. Não é por acaso que essa obra já vendeu mais de 6 milhões de exemplares em múltiplos idiomas. Mas, não é tudo. Arrisco a dizer que A Casa na Rua Mango é um sucesso porque é puro sentimento. E não no sentido de que é um livro metodicamente construído para te fazer chorar, com aquelas frases impactantes que explodem nas redes sociais. (Não que haja algo errado com esse tipo de livro. Só não é o caso.) Esse livro é puro sentimento de um jeito que consegue criar uma conexão muito forte com quem lê. É uma experiência tão rica de intimidade e proximidade que até o leitor mais distante do contexto de Esperanza e sua família pode encontrar alguma peça que vai tocar fundo.

A minha vida está muito distante da vida de uma pessoa latina nos Estados Unidos. Mas, ainda assim, algumas coisas nesse livro bateram de uma forma especificamente pessoal para mim. É maluco encontrar uma ligação tão forte com uma coisa que não é nada sobre você. É como no capítulo “Pai que levanta cansado no escuro”, em que o pai de Esperanza entra em seu quarto e dá a notícia de que o avô morreu. E chora. E eu, lendo, derramei outras lágrimas pensando no momento quase idêntico em que meu próprio pai entrou no meu quarto para dizer que a minha avó tinha morrido. E chorou. Ou já na introdução, em que a autora nos conta sobre os sonhos que seus pais tinham para que ela tivesse uma vida diferente da deles, e eu desafio qualquer filho que tenha sido o primeiro da família a concluir o ensino superior a não se emocionar.

“Você fecha os olhos. Parece que está dormindo. A viagem de avião deve ter te cansado. “Que bom que você estudou”, você diz sem abrir os olhos. Você está falando do meu escritório, da minha vida.
Eu digo a você: “Que bom”.”

Ainda que a escrita de Sandra Cisneros nada tenha a ver com a de Elena Ferrante, o bairro de Esperanza, em Chicago, me lembrou muito o bairro de Lenu e Lila, em Nápoles, da Tetralogia Napolitana. Não tanto pelas características deles, mas muito pelo sentimento. E, nessa linha, os sentimentos desses dois lugares literários me levam um pouco para os meus sentimentos com a minha pequena cidade natal: o conhecer todo mundo, o sentir-se ligada às pessoas, a vida que parece ser uma só, a vontade de sair. É difícil explicar essa conexão tão forte com o lugar de onde você vem quando ela está tão embaraçada com o desejo de sair de lá. De sair, não querer esquecer. Sandra Cisneros fez isso com maestria. A Casa na Rua Mango é a materialização desse sentimento.

“Um dia eu vou arrumar minhas malas de livros e papéis. Um dia eu vou dar adeus à Mango. Eu sou forte demais para que ela me prenda aqui para sempre. Um dia eu vou embora.
Amigos e vizinhos dirão: O que aconteceu com aquela Esperanza? Para onde ela foi com todos aqueles livros e papéis? Por que ela marchou para tão longe?
Eles não saberão que eu fui embora para voltar. Pelos que eu deixei para trás. Pelos que não podem sair.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *