Categorias: TV

Quem tem medo do folclore brasileiro de Cidade Invisível?

Com o caminho trilhado pelo audiovisual brasileiro na última década nos sistemas de streamings, era mais que natural que uma hora ou outra aparecesse uma grande produção com enredo baseado nas histórias tradicionais que percorrem o país. Essas histórias contadas por nossos avós, pais, tios, tias e professores estão enraizadas na identidade brasileira e muitas vezes são denominadas folclore.

Saci, Mula Sem Cabeça, Cuca, Lobisomem, Iara, Boto, e muitas outras são histórias contadas de geração em geração, estão vivas no imaginário da população. É bem provável que uma dessas figuras já tenha aparecido para algum parente, ou mesmo que algum conhecido tenha travado uma guerra com alguma delas. Esses seres estão entre nós, e Carlos Saldanha deixa isso ainda mais explícito na série da Netflix, Cidade Invisível.

Atenção: este texto contém spoilers!

Com a morte repentina da esposa Gabriela (Júlia Konrad) em um incêndio florestal, o policial ambiental Eric (Marco Pigossi) começa a ter experiências bizarras envolvendo personagens fantásticos. Horas depois de encontrar por acaso um boto morto na praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, e deixá-lo na caçamba de sua caminhonete, ele acaba se deparando com o corpo de um homem no lugar do animal. Ali começa a jornada do policial para investigar quem matou Manaus (Victor Sparapane), o homem-boto, e consequentemente descobrir quem assassinou sua esposa.

A narrativa parte de um clichê das histórias noir no qual o policial perde a família ou uma parte dela e passa a trama tentando encontrar respostas para o motivo do assassinato ou o culpado. A série vai fundo no clichê, sem entregar nada novo ou inédito. Na contramão do que vem sendo feito em séries policias como Bom Dia, Verônica — que conseguiu subverter o estereótipo da narrativa ao mudar o gênero de seu personagem principal —, Cidade Invisível prefere se ater aos enredos clássicos, não só se utilizando de um ator branco e cis para interpretar Eric, como recheando a existência de seu personagem principal com elementos típicos de seriados em que policiais se deparam com o sobrenatural como, por exemplo, a criança possuída, a volta da morte e o reencontro com a esposa no além.

Depois do Gótico Tropical e do Caipirogótico, vemos a formação do gênero guarda-chuva Horror Tropical, que usa e abusa do grotesco em relação aos animais: animais mortos jazendo em barro, terra e areia povoam essas obras de forma incansável. Na comunidade ribeirinha de Cidade Invisível, nada mais lógico que esses animais sejam aquáticos. Os peixes mortos não indicam nada, nem servem para a narrativa, mas dão o tom e ilustram o assustador vindo da entidade que ronda o local.

A investigação de Eric é inexistente, já que todas as pistas e achados caem em seu colo por sorte ou manipulação de outros personagens. Como policial ambiental, Eric é certamente o policial menos interessante da ficção brasileira. Apesar de basear sua investigação no amor pela sua família, principalmente pela filha, as interações entre o pai e a menina são raras e não passam ao espectador o relacionamento esperado. Eric fica mais fora de casa do que presente, e interage pouco com Luna (Manu Dieguez). Além disso, os flashbacks da relação familiar o apresentam como pai, se não ausente, ao menos alheio a tudo que diz respeito à garota.

O pano de fundo da série traz a trama superficial de uma construtora pressionando moradores ribeirinhos a saírem de suas casas para que seja iniciada a construção de um resort no local. Essa trama, que acaba sem resolução e é totalmente desconectada da trama principal dos assassinatos, também não se liga a Eric em momento algum, nem por meios pessoais, nem por meios investigativos. Talvez, o único fio conectando o policial à luta dos ribeirinhos seja o sobrenatural, mesmo que por uma meada frágil.

Tudo isso é uma pena, pois um personagem ligado à Polícia Ambiental poderia ser uma ferramenta ótima para mostrar como esses profissionais atuam nas questões de dano ao patrimônio florestal do Brasil. Quando no roteiro se tem uma fala como “se tivesse morrido um ipê-roxo o caso era nosso” e o personagem a interpreta em tom de zombaria, isso passa a mensagem de menosprezo ao importante trabalho que a Polícia Ambiental faz no país. O Brasil tem uma grande extensão e nossa biodiversidade é diminuída a cada segundo por criminosos que colocam fogo na mata nativa para abrir espaço para grandes latifúndios, pescam e caçam ilegalmente ou extraem espécies de áreas protegidas de forma predatória.

Os brasileiros sabem por quem e porquê nossas matas são destruídas pelo fogo — e não são por criaturas míticas e extraordinárias. Se essa narrativa política não é abordada, a história fica vazia. Milhares de ativistas ambientais e nativos brasileiros são mortos no nosso país, e suas histórias não saem nos noticiários, sendo relegadas apenas a notinhas de passagem. São pessoas sem voz que parecem gritar ao vento, fazendo um trabalho que deveria ser da polícia e dos fiscais. Uma série como Cidade Invisível, com um personagem policial ambiental como Eric, seria a oportunidade perfeita para potencializar as mensagens de preservação ambiental, levando o assunto para o público geral por meio de debates relacionados à cultura pop. Desse modo, o seriado teria um lugar na teledramaturgia brasileira comparado ao que foi O Vigilante Rodoviário para os anos 1960, uma atração para toda a família que mostrasse as dificuldades de se preservar o Brasil e gerasse discussão em prol da causa.

Infelizmente, apesar da série ser ambientada no Rio de Janeiro, ela não parece querer tomar conhecimento de sua própria brasilidade. Ao invés disso, prefere tratar os assuntos aos quais se propõe de forma rasa ou mesmo não usar de criações típicas de nossa cultura para tratar dela mesma. O seriado deixa de lado o estilo do realismo mágico já tradicional nas obras literárias da América Latina e no audiovisual brasileiro — com Dias Gomes, Aguinaldo Silva e Ariano Suassuna, por exemplo —, e investe no anglicanismo da fantasia urbana, com o herói que descobre ser um escolhido mítico e um mundo invisível que existe junto ao nosso de forma bem marcada e separada. Alguns personagens especiais têm acesso a esse mundo, enquanto a maioria da população vive suas vidas sem tomar conhecimento sobre ele.

Essa mudança de subgênero faz com que a narrativa subestime o espectador, que recebe todas as histórias de origem dos personagens de forma mastigada e maçante. Isso também faz com que as histórias acabem se distanciando do imaginário herdado pela população. Enquanto no mundo real o folclore é vivo e está presente todos os dias em nossas vidas, em Cidade Invisível ele é obscurecido, secreto, um submundo especial. É clara a inspiração nos seriados e obras de sucesso do mercado externo, principalmente na série Deuses Americanos.

Com a história de origem de todos os personagens dada de forma tão didática, seria de se esperar que eles próprios fossem construídos no presente de forma completa e interessante. Mas sem exceção acabam tendo personalidades e narrativas pequenas, que iniciam em lugar algum e terminam em um vazio de significado. A maioria dos seres “fantásticos” tomam decisões aleatórias, que além de não influenciarem a narrativa, os fazem ocos de ações próprias, sendo levados a bel prazer do roteiro.

Já a escolha da ambientação da série vai por um lugar-comum empobrecido. Manaus, Belém ou Palmas seriam cidades muito mais apropriadas para receber a narrativa, não por serem “exóticas” ou “distantes” — até porque essas características estão marcadas apenas no imaginário do povo sudestino —, mas sim porque essas cidades são grandes metrópoles de nosso país que comportam narrativas modernas. As questões sociais de trabalho e classe se fazem tão presentes nelas quanto nas capitais do Sudeste, e talvez a questão ambiental seja até mais forte nessas regiões, proporcionando uma narrativa mais profunda e relevante.

Não existe só o Rio de Janeiro no Brasil. Esse monopólio paulista e carioca nas narrativas do audiovisual limita as possibilidades de história e faz com que esses lugares tenham uma hegemonia que beira a xenofobia. Ver apenas São Paulo e Rio na tela faz com que os outros lugares de nosso vasto país não pareçam ter a mesma importância, o que gera no público geral uma espécie de aversão. Normalizar o Brasil em sua totalidade no audiovisual é crucial para colocar as diferenças entre as regiões em um lugar-comum e manter todo o povo em níveis iguais de importância.

Fica claro que nenhum nativo brasileiro fez parte da produção da obra (apesar de atores nativos interpretarem figurantes sem fala). Os aspectos religiosos que permeiam alguns temas abordados pela narrativa são ignorados completamente, com tratamento que (na melhor das hipóteses) beira o desrespeito. Sim, o Brasil é um país sincretista, mas sincretismo não é bagunça. É preciso que se saiba que o que está sendo abordado é a fé de grupos de pessoas, não apenas histórias de super heróis, e é necessário retratar isso de forma respeitosa, sem estereótipos. Pela postura da série de lidar de forma superficial com vários assuntos, esse — que é o mais importante e que deveria ter atenção especial — acaba também sendo deixado de lado de forma quase vergonhosa.

É necessário um meio termo entre as obras mais artísticas e de nicho que tratam o universo brasileiro de um jeito profundo e filosófico como A Febre (2019) ou Trabalhar Cansa (2011) e as mais comerciais que ignoram ou estereotipam em função de um apelo a um público maior ou internacional. É imprescindível que histórias de minorias sejam normalizadas e contadas dentro de narrativas mais populares, com o protagonismo que não só merecem, mas que já deveria ser delas, ao mesmo tempo que lidam com situações sociais, religiosas, raciais e políticas que tenham relevância.

A representação inexistente da série é quebrada apenas por Isac (Wesley Guimarães), Camila (Jessica Córes) — ambos negros — e Márcia (Áurea Maranhão), colega de trabalho de Eric. No meio da trama é revelado de forma desnecessária que Márcia é uma mulher que gosta de mulheres. Para a série, os dois atores e a narrativa de Márcia é quase uma isenção da necessidade de inserção de representatividade nos personagens principais. E é o que a torna estereotipada, relegando diversidade apenas a seus personagens secundários, fazendo com que seja possível questionar o motivo desses totens existirem. Márcia gosta de mulheres, mas talvez essa característica tenha sido impressa na personagem para que o público não sinta que pode ligá-la romanticamente a Eric. Ponto para a amizade dos dois, mas algo que diz muito sobre como tratamos o relacionamento entre homens e mulheres cis em nossa sociedade. Talvez fosse interessante a segunda temporada transformar Márcia na personagem principal e abordar sua luta com outro monstro tipicamente brasileiro: a burocracia dos casos abertos deixados pelo desaparecimento de seu colega.

Com Cidade Invisível, a Netflix atinge um nível de produção nos quesitos efeitos especiais, direção e atuação que pode vir a se igualar à qualidade das obras seriadas só vista no país em produções do Conglomerado Globo. A utilização dos efeitos especiais é comedida e certeira, sem exageros, e a atuação tanto de nomes experientes como Alessandra Negrini (Inês) e Fábio Lago (Iberê), quanto de iniciantes e semi-iniciantes como Wesley Guimarães, Jimmy London (Tutu) — já conhecido do público por ter sido vocalista da banda Matanza, mas em seu primeiro papel em uma obra de ficção —, Áurea Maranhão e Jessica Córes, fazem do seriado um produto atraente, o favorecendo em relação à aceitação do público.

Apesar do roteiro e da construção da narrativa falhos, de um segundo episódio mais instigante e melhor produzido que o piloto — algo que vem acontecendo em diversas produções nacionais do streaming —, a primeira temporada de Cidade Invisível é consistente em angariar espectadores. A empresa tem um grande mercado interno, sedento para assistir a si mesmo em tela de uma forma diferente dos folhetins da TV aberta. Cidade Invisível é o primeiro passo para que mais histórias brasileiras sejam contadas, no futuro abordando questões mais específicas, mais nacionais e mais representativas da extensão de território e população de nosso país.

Banner Cidade Invisível - Brasil 2021 - 3 estrelas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *