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La Pointe Courte: a liberdade do cinema de Agnès Varda

Um jovem casal com problemas na relação e as dificuldades e alegrias cotidianas de um grupo de pescadores, histórias aparentemente simples. Mas como tudo na vida, se observadas de certo ponto, transformam-se em complexas tramas críticas e reveladoras tanto do íntimo do ser humano como da superfície da Terra. Neste caso, o ponto de vista é o da “câmera-caneta” de Agnès Varda, que materializa com maestria os contrastes entre preto e branco, calmaria e emoção, madeira e tecido de La Pointe Courte.

Pointe Courte, a pequena vila de pescadores no sul da França, foi o local escolhido como cenário do primeiro trabalho de Agnès Varda como cineasta. A belga começou sua carreira como fotógrafa e passou a realizar filmes quando percebeu que a imagem estática não era suficiente para expressar tudo que queria dizer. Sem qualquer formação oficial — e afirmando não ser cinéfila — Varda vai buscar na sétima arte as palavras; sem nunca, porém, abandonar a fotografia. Em La Pointe Courte, há diversos planos parados, composições tipicamente fotográficas como um frame do mundo real acompanhados de diálogos, criado na obra uma dúvida sobre sua própria natureza. Sobre seus trabalhos, Varda chegou a questionar se se tratavam de filmes dentro de fotos ou fotos dentro de filmes. É justamente a mistura entre imobilidade e movimento decorrente da sua experiência prévia como fotógrafa, a característica mais marcante e pessoal dessa cineasta que é tida por muitos como a mãe da nouvelle vague, a “nova onda” do cinema francês.

La Pointe Courte

Na cena cinematográfica francesa da década de 50, ferviam as ideias de críticos e cineastas jovens que iam na direção contrária à estética hollywoodiana da época. A nouvelle vague foi o início do chamado cinema de autor, obras de caráter mais pessoal, com mais liberdade criativa para desafiar as convenções e a lógica narrativa tradicional.

Há um debate, bastante desnecessário e machista, que questiona se Agnès Varda faria parte da nouvelle vague ou não, assim como se La Pointe Courte seria ou não o primeiro filme desse inovador movimento do cinema francês. O importante é que, de fato, a filmografia de Varda reflete todas as questões propostas pelos teóricos do movimento, e La Pointe Courte já possuía, em 1954, todos os elementos que marcaram outros filmes da nouvelle vague a partir de seu início oficial, com o filme Os Incompreendidos, de François Truffaut, em 1958 — com atores pouco conhecidos, filmagens de rua, cortes e ângulos pouco convencionais, temas cotidianos.

Do seu caráter de mostrar a vida cotidiana, Varda faz uma mescla de ficção e documentário. A parte da história do casal com problemas na relação que viaja até a pequena vila de pescadores onde o marido cresceu representa a história pré-escrita, sendo “vivida” por dois atores profissionais. Mas a cineasta vai além e documenta também a história que é escrita diariamente, a qual é vivida em cena e no mundo real pelas mesmas pessoas, os pescadores e suas famílias. Ao passo que as duas tramas se desenrolam separadamente, Varda faz os espectadores refletirem sobre as relações entre pessoal (micro-mundo) e coletivo (macro-mundo). O conflito do jovem casal parece trivial quando comparado aos dramas dos moradores locais. Em diálogos filosóficos e sem emoção, os jovens estão deslocados do dinamismo dos habitantes da vila que trazem a língua e a explosão de emoções da vida real. A partir de um determinado ponto, o casal responde ao mundo a sua volta e compreende em cena uma das principais reflexões do filme: o reflexo do ambiente na pessoa e identificação da pessoa com o ambiente.

La Pointe Courte

Vivemos todos em uma relação tênue de equilíbrio entre o íntimo e o externo, independentes mas interligados. La Pointe Courte é um filme marcado por temas complementares e contrastantes. Da mesma maneira que o preto precisa da contraposição com o branco para formar as lindas imagens do filme, a calmaria dos diálogos do casal colocado lado a lado com as afloradas emoções dos pescadores e das suas famílias cria um mosaico propício à reflexão. A primeira cena do filme, que passa de um close em madeira para panos esvoaçantes no varal, resume de forma simbólica toda a dualidade das cenas que se seguiriam, tanto no filme quanto na carreira brilhante de Agnès Varda: a imobilidade — da madeira, do casal e da foto — e o movimento — do tecido, do povo de Pointe Courte e do cinema.

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