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Warrior Nun: entre a cruz e a espada

O que vem a sua mente quando você pensa em freiras? Uma senhora doce, amável e caridosa? Uma idosa amarga, rancorosa e ranzinza? Ou jovens que passam seus dias estudando diferentes artes marciais a fim de se tornarem guerreiras contra as forças do mal? Em Warrior Nun, temos um pouco das duas primeiras hipóteses, e muito das freiras guerreiras.

Warrior Nun tem como base a mitologia católica e estreou em julho no catálogo da Netflix, ao lado de Cursed. Diferente da série sobre as lendas arturianas, a aventura das freiras se passa nos tempos atuais em uma realidade semelhante a nossa. Ao mesmo tempo, essa história também se trata de uma fantasia com protagonismo feminino. A produção audiovisual com “freiras guerreiras” não é original, mas sim baseada no mangá Warrior Nun Areala, criado por Ben Dunn, com primeiro volume lançado em 1994. A arte e o roteiro da obra não eram muito comentados, porém, muitas controvérsias surgiram por se tratar de uma narrativa que usava elementos católicos apresentados por personagens femininas que frequentemente apareciam seminuas, com corpos de traços exagerados nos seios, entre outros estilos potencializados pelas lentes do sexismo.

Diferente dos quadrinhos, a Netflix usa de bom senso para retratar de forma mais adequada suas heroínas. E esta não é a única diferença entre a obra original e a nova adaptação: enquanto a narrativa criada por Dunn se passa em Nova York, a série adaptada por Simon Barry tem a Espanha como cenário. Apesar disso, na grande maioria do tempo os diálogos ocorrem em inglês. Além disso, o enredo também sofre modificações, uma vez que nos quadrinhos somos apresentados à uma Valquíria que se converte ao catolicismo e é batizada de Aureala. Ela usa diferentes avatares humanas em cada geração para continuar sua missão como guerreira contra o mal. Já na adaptação de 2020, Aureala é apresentada como uma guerreira cristã durante as Cruzadas e abençoada pelo arcanjo Adriel. O anjo abre mão de sua auréola, a Halo, para salvar e fortalecer a guerreira. Neste contexto, a cada geração uma nova freira é escolhida pela Halo para ser sua portadora e liderar o combate aos demônios que invadem a dimensão humana. Para cumprir essa missão, a escolhida é agraciada com habilidades especiais, como levitação, capacidade de atravessar superfícies sólidas, super-força, autocura, entre outras. A principal habilidade, porém, pode ser considerada a visão sobrenatural — que possibilita enxergar os demônios presentes na nossa dimensão e, assim, caçá-los.

Um outro ponto importante na fantasia criada pela Netflix diz respeito às suas pitadas de ficção científica. Um embate entre uma grande empresa tecnológica e a Igreja é traçado no decorrer dos capítulos de Warrior Nun. Tudo por conta do Divinium, um metal tido como sagrado que é usado na luta contra o mal. Sua manutenção é monopolizada pela Igreja, mas após a traição de um membro do Vaticano, uma empresária bilionária decide estudar e utilizar o metal fazendo uso de um discurso de inovação — escondendo, claro, motivações e ambições pessoais.

O trailer oficial da série, agitado por A Palé de Rosalía como trilha sonora, cumpre sua função e já adianta o clima do que podemos ver no serviço de streaming: as aventuras de uma jovem de 19 anos com um humor peculiar, que se torna “a escolhida” de um típico enredo de fantasia, ao mesmo tempo em que tenta viver como uma garota qualquer, com romance, festas, amizades, mas ainda perseguida por mistérios, lendas e guerras seculares.

Atenção: este texto contém spoilers!

A morte como início

A história começa com a morte de Ava Silva (interpretada pela portuguesa Alba Baptista). A jovem órfã tetraplégica de 19 anos morre supostamente de suicídio, dias antes da sua liberação do orfanato de São Miguel, em Andaluzia, Espanha. Seu corpo está sendo velado em uma antiga catedral, quando, em paralelo, uma equipe de freiras guerreiras chega ao local buscando proteção após uma missão fracassada contra forças demoníacas. A líder do grupo, Irmã Shannon (Melina Matthews), abençoada pela Halo, foi ferida por armas de Divinium, o único material que impede sua regeneração. É então que uma outra morte acontece. Irmã Shannon falece e a Halo deve ser passada para Irmã Lilith (Lorena Andrea), membro da mesma equipe e a próxima na linha de sucessão no legado de Aureala.

Infelizmente, as freiras guerreiras foram seguidas por demônios até a igreja e o templo é invadido antes que a Halo possa ser passada para Lilith. Enquanto ela e o resto da equipe lidam com os inimigos, a irmã responsável pela recolocação da Halo esconde o instrumento mágico no corpo sem vida de Ava — que, para surpresa de todos, desaparece no meio da confusão.

E, por óbvio, não se trata de uma mera ocultação de cadáver, mas sim de uma ressuscitação. A garota desperta da morte com um corpo forte e curado das lesões em sua coluna, permitindo que ela fuja dos demônios, da igreja, e saia pelas ruas espanholas celebrando sua segunda chance, sem entender se está sonhando ou numa espécie de pós-vida. E mesmo com toda confusão em sua mente, ela decide aproveitar a oportunidade para viver a vida de uma forma que nunca pode antes, explorando a cidade, indo em festas, dançando, correndo pela praia.

Em busca da juventude perdida

No dia seguinte, enquanto uma crise toma a Ordem da Espada Cruciforme, a organização das freiras guerreiras, Ava acorda em uma mansão na praia, que havia sido arrombada por jovens que viajam pela Europa se hospedando em casas vazias de milionários — sem autorização. A medida que a protagonista percebe que sua nova vida é real, ela decide aproveitar as novas amizades e tenta engatar um romance com um dos garotos do grupo, JC (Emilio Sakraya).

O núcleo das freiras guerreiras fica parcialmente de lado durante grande parte da série, lidando com crises internas que vão até o Vaticano. Porém, obviamente, Ava está sendo procurada pelas Irmãs da Ordem e também por “Shotgun” Mary (Toya Turner), uma freira não ordenada que está em busca dos assassinos de Irmã Shannon. Seus caminhos se cruzam junto ao de Jillian Salvius (Thekla Reuten), uma bilionária da área de tecnologia que está secretamente em busca de uma cura para a doença misteriosa de seu filho, e acredita que Divinium pode ser parte da solução.

Após ser encontrada pelas irmãs da Espada Cruciforme, Ava decide passar um tempo no convento, para melhor compreender o que está ocorrendo com ela e os seus poderes recém descobertos. Neste meio tempo, ela é protegida pelo Padre Vincent (Tristan Ulloa), o líder da Ordem, que a informa de toda mitologia por trás da abençoada Halo e da origem da organização.

Juntos, Ava, Vincent, Mary, e as irmãs Camila e Beatrice descobrem os antigos diários das escolhidas que vieram antes de Ava, e percebem que a falecida Irmã Shannon estava desconfiada de que um membro da Igreja planejava trair a Deus e se aliar às forças malignas. As suspeitas recaem sobre o Cardeal Duretti (Joaquim de Almeida), sedento por poder, com grandes ambições políticas.

Com uma imaturidade compreensível considerando sua idade e, principalmente seu passado, Ava não é a heroína que estamos acostumadas. Ela não aceita de bom grado seu novo destino e, por isso, é muitas vezes preguiçosa nos treinos com suas irmãs de Ordem, desmotivada, e temerosa em relação a tudo que está acontecendo. Por isso, ela por várias vezes segue por outras direções, deixando as freiras de lado e voltando para seus recém-amigos e seu breve relacionamento com JC, cogitando, até mesmo, se aliar com Jillian, a empresária, contra o Vaticano.

Entre a cruz e a espada

No meio de toda confusão, Ava é uma das únicas ligações entre os núcleos da série e, por ser a protagonista, acaba puxando a atenção por onde passa. Talvez por conta disso, as tramas políticas da Ordem da Espada Cruciforme contra o resto da Igreja, as maquinações de Julian e até mesmo a história de seus amigos ficam em um segundo plano quando ela não está por perto, o que prejudica a compreensão total do enredo. As dúvidas da protagonista, apesar de dar um ar de realidade maior a história — afinal, quem não estaria em crise na situação dela? —,  acabam por trazer muita inconstância para a narrativa.

Por onde quer que olhemos, encontramos furos no roteiro. De um lado vemos a cruz, do outro a espada, e em lugar nenhum enxergamos respostas. São inúmeras perguntas que não foram respondidas, detalhes omitidos, personagens e núcleos inteiros que desaparecem de forma mal explicada, ou até mesmo sem explicação alguma. A falta de coesão e até mesmo de coerência na produção faz com que ela deixe muito a desejar, o que é uma pena, visto que a história tinha bons elementos para dar certo, contando com um elenco diverso e plot interessante.

Ainda assim, a desorganização do roteiro não é a única crítica que pode ser direcionada a Warrior Nun. Há também uma frustração quando falamos da versão da Igreja apresentada na obra. Uma frustração que, na verdade, não chega como surpresa. Apesar do protagonismo feminino quando o assunto é arriscar a vida pela Igreja, não encontramos mulheres em uma posição de autoridade dentro da Ordem da Espada Cruciforme. A figura da Madre Superiora (Sylvia De Fanti), responsável pelo treinamento das freiras guerreira, surge como uma possível figura de poder dentro da organização, mas logo percebemos que ela é apenas mais um peão nas articulações tanto de Padre Vincent quanto do Cardeal Duretti. E até mesmo a figura de Aureala, personagem principal do mito fundante do enredo, é ofuscada pelo arcanjo Adriel no decorrer da série.

Percebemos que mesmo na ficção, em uma fantasia que usa o cristianismo — mais especificamente o catolicismo — como mitologia, ter mulheres no alto escalão da Igreja parece inimaginável, ao menos em uma primeira temporada. E, no que foi apresentado até o momento, a tradição machista permanece, onde mulheres continuam sendo representadas como submissas a autoridades masculinas dentro da Igreja, se doando ao máximo, enquanto pouco a elas é oferecido.

Um outro ponto de atenção e frustração está na representatividade de personagens LGBTQI+. Ou melhor: na falta dela. Há diversas insinuações de possíveis romances entre as personagens femininas, no passado e no presente retratado na série. Entretanto, essas mesmas sugestões estão abertas para interpretação do público, que pode ver ou não algo que foge da heteronormatividade. E a palavra “lésbica”, por sua vez, é dita apenas uma vez em voz alta, se referindo a uma personagem morta há quase um século. Sim, ainda estamos falando da Igreja Católica, mas também estamos falando de freiras guerreiras. O compromisso de Warrior Nun vem desde o nome: é uma fantasia, não um documentário — e, embora a Igreja condene a relação de pessoas do mesmo sexo, em uma obra de entretenimento o espaço para explorar se expande. No entanto, isso não ocorre na série, que opta por flertar abertamente com o queerbaiting.

A boa — ou a má — notícia, é que os roteiristas e produtores terão tempo e a possibilidade para desenvolver melhor essas questões, visto que Warrior Nun foi renovada para uma segunda temporada, com expectativa de lançamento para 2022. Até lá, o que temos até aqui não passa de uma narrativa morna e inconsistente, da qual torcemos pela melhora.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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