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Vale Night: nenhuma grande novidade

Daiana e Vini são um casal adolescente que tem um filho. Depois de dar à luz, Daiana abandona a escola e se vê obrigada a amadurecer, confinada em casa para cuidar da criança. Enquanto isso, Vini ostenta a imaturidade que nossa sociedade segue permitindo aos homens. Uma noite, entretanto, a menina resolve deixar o filho aos cuidados do namorado para visitar a avó. Vini, fiel ao seu traço central de personalidade, leva o menino a uma festa e o perde. Essa é a premissa de Vale Night, longa brasileiro dirigido por Luis Pinheiro, que estreia hoje nos cinemas.

Protagonizado por Gabriela Dias (Daiana) e Pedro Ottoni (Vini), o filme conta também com nomes como Yuri Marçal, Linn da Quebrada, Tia Má (Maíra Azevedo) e Neusa Borges no elenco. A história é ambientada em favelas de São Paulo e faz um bom trabalho na construção dessa ambientação, muito bem complementada por uma trilha sonora maravilhosa, que dá vontade de sair rebolando a bunda pela sala de cinema.

Vale Night se vale de uma construção cômica para tentar lançar luz a uma questão social importante: a gravidez na adolescência. Segundo relatório de 2018 elaborado pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS) em conjunto com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF/OMS), o Brasil é o país da América Latina com a maior taxa de mães na adolescência. A gravidez precoce está associada à ocorrência de problemas socioeconômicos, como abandono escolar, falta de condições financeiras para cuidar de um bebê, não aceitação da família e do parceiro e empregos mal remunerados. Esse fenômeno é retratado de forma quase didática no filme. Daiane, ainda que conte com o apoio da família e do parceiro, abandona a escola para cuidar do filho, fato lamentado pela mãe e pela avó em diversos momentos.

Apesar da importância da crítica e da validade do tema, a questão não é tão bem representada ao longo da obra como um todo. Enquanto o impacto da maternidade na vida de Daiane é mencionado e em seguida relegado a segundo plano, o foco da trama é voltado para Vini, sobre quem a paternidade tem um efeito completamente diferente. Sua relação com a educação formal nunca é mencionada; ao que parece, ele vive com Daiane e sua família e trabalha como barbeiro em uma calçada, cortando o cabelo dos vizinhos. Seus traços centrais de personalidade parecem ser a infantilidade e a irresponsabilidade. Vini não faz ideia de como cuidar de um bebê (derrete a mamadeira, coloca achocolatado na fórmula, alimenta a criança de seis meses com coxinha e refrigerante), e isso é o núcleo do humor proposto pelo filme.

Só isso já deixa muito claro a forma desigual com que a maternidade e a paternidade são retratadas na sociedade. Fosse Daiane se comportando como Vini se comporta, ninguém acharia engraçado. O cuidado com os filhos ainda é visto como uma obrigação da mulher, atrelada a um suposto “instinto feminino”. Mulheres carregam o peso de uma imensa parcela do trabalho de cuidado (com a casa, com os filhos, com os idosos, os doentes, e até com os homens). É uma realidade social brutal e hereditária, como o filme mesmo mostra por meio de algumas falas de Regina, mãe de Daiane, e da avó, que não se conforma com o abandono escolar da neta.

No outro polo, a infantilização é um traço marcante e frequente da masculinidade. Homens são sempre retratados como “apenas garotos” que não sabem o que fazem, imaturos. Ninguém espera mais deles e ninguém cobra uma postura diferente. Aqui, entretanto, precisamos fazer um recorte claro de raça: o epítome da síndrome de “é um menino” são os homens brancos. Homens e meninos negros nem sempre (para não dizer raramente) têm o mesmo espaço para serem crianças, mesmo quando de fato o são. Sim, Vini é um rapaz negro, mas nesse ponto o roteiro acaba mantendo conexão íntima com o conceito original em que o casal protagonista era branco e de classe média.

Pela premissa, podemos ver que talvez Vale Night tivesse se saído melhor em outra época. No nível atual de desenvolvimento dos movimentos sociais, fica difícil rir quando um pai perde um filho por irresponsabilidade e sua maior preocupação é a bronca que vai levar da mãe da criança, não o bem-estar do bebê. Bebê esse, por sinal, que não tem muita importância durante o filme — nem nome o coitado tem. Em nome da comédia, ele termina seguro e de volta aos braços da família, mas não antes de passar pelas mãos de uma pessoa intoxicada, vários desconhecidos, e ser transportado em um case de DJ e em uma caixa de papelão na garupa de uma moto como se fosse uma coisa. Apenas uma breve ilustração de quão pouco as crianças são vistas como pessoas na nossa sociedade.

Um ponto que me animou com o filme é a participação da Linn da Quebrada no papel da DJ Pulga, amiga de Vini, acidentalmente envolvida no sumiço da criança e depois ativamente envolvida na sua busca. Além do mote de sua primeira apresentação em uma festa ser o gatilho que impulsiona a história, a personagem vive um romance com Linguinha, personagem de Yuri Marçal, com direito a cenas de insinuação sexual sem fetichização. Me pareceu uma representação muito bacana de uma personagem travesti para além dos papéis tradicionais eventualmente concedidos a essas pessoas — até que descobrimos, na cena final, que a personagem é aparentemente cisgênero. Não vou contar como descobrimos, apesar de não ser um grande spoiler, mas essa surpresa me deixou dividida. Por um lado, não é incomum (apesar de muito problemático) vermos mulheres cis e até homens cis interpretarem o papel de mulheres trans e travestis — por que não, então, o oposto? Por outro lado, o mundo do entretenimento é tão carente de boa representação de pessoas trans e travestis que sinto que foi uma ótima oportunidade que acabou se perdendo. De qualquer forma, não deixa de ser muito significativo ver uma atriz travesti ocupando esse espaço e interpretando essa história.

De forma geral, Vale Night não é um filme ruim. É um tanto anacrônico no seu humor, mas não merece ser “cancelado” por conta disso. Apesar dos pesares, o filme ainda traz um elenco de peso completamente negro, com ótimas atuações, ótima ambientação, ótima música, e uma representação da vida na favela que vai muito além das histórias tradicionais focadas na violência e na desgraça. O final, ainda que apressado demais, busca ser um norte, um sinal esperançoso de que as coisas podem ser diferentes.


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