Categorias: TV

Full House, Fuller House, o que é engraçado e porque não deveria ser

Alguém aqui cresceu nos anos 90 e nunca assistiu a nem um episódio perdido de Full House (ou Três é Demais)? Se não assistiu, com certeza já ouviu falar — se não na época, pelo menos recentemente, quando a Netflix resolveu lançar o spin-off Fuller House, que, com o elenco original depois de muitos anos, brinca com a continuação da história.

Na série original, Danny Tanner (Bob Saget) perde sua esposa e, ao se ver sozinho com três filhas para criar, recruta seu cunhado e seu melhor amigo para morarem em sua casa e então os três passam a criar as meninas juntos. Por tudo o que escuto falar do seriado até hoje, acredito que tenha sido um sucesso na época.

Na história atual, anos se passaram, mas a fórmula se repete: dessa vez, quem ficou viúva precocemente foi DJ (Candace Cameron), antes Tanner, agora Fuller, a filha mais velha de Danny. No momento em que ela começa a encarar a vida sozinha com seus três meninos, sua irmã mais velha, Stephanie (Jodie Sweetin), e sua melhor amiga, Kimmy (Andrea Barber), resolvem morar na casa com ela para ajudar. Naturalmente, os espectadores ficaram empolgados com a perspectiva de matar as saudades dos personagens da série original e ainda aproveitar uma nova ótima série de comédia. Mas, pelo o que li e ouvi, acredito que só a primeira expectativa tenha sido cumprida.

Logo que comecei a assistir ao spin-off e ler os comentários que pipocavam dizendo que a repetição da fórmula tinha tudo para dar muito certo, mas não estava dando, resolvi pensar no porquê e, não com satisfação, digo que encontrei em menos de cinco minutos: a gente aprendeu com a sociedade que três homens cuidando de crianças só tem como render algo engraçadíssimo porque eles obviamente não sabem fazer isso, enquanto três mulheres cuidando de crianças são… bem… só mais três mulheres cuidando de crianças.

Há quem diga que o mundo está ficando politicamente correto demais quando a gente começa a questionar “até” o humor. Eu também era uma dessas pessoas, até que uma amiga abriu meus olhos, alertando que o problema não é que as coisas são engraçadas; o problema é por quê elas são engraçadas, e uma vez que começamos a vê-las por esse viés, não conseguimos desver nunca mais.

O problema não é se divertir com três homens tomando conta de três crianças e não se divertir tanto com três mulheres tomando conta de três crianças. O problema é o que faz com que isso seja engraçado; o problema é a estrutura social que nos ensinou desde sempre que mulheres eram feitas para cuidar da casa, dos filhos; que tinham dom, talento, instinto e genes para isso, enquanto os homens não sabiam trocar fraldas ou fazer faxina. O problema é saber com quanta força essas ideias continuam se perpetuando e o esforço que a gente tem que fazer diariamente para crescer enquanto sociedade pensante e quebrar esses paradigmas: não, as mulheres não são especiais ou iluminadas e por isso sabem cuidar da casa e das crianças; elas só vêm fazendo isso mais do que os homens porque um dia foi decidido que deveria ser assim.

É indiscutível que as mulheres já tiveram muitas conquistas ao longo dos anos e que a vida já é, sim, bem melhor do que há décadas atrás. O que é discutível é quem acha que somos malucas quando lutamos por igualdade e direitos que aparentemente já temos, quando ainda nos falta tanto.

Meu professor de Teoria e Crítica Literária da pós-graduação mandou que lêssemos Um Mestre na Periferia do Capitalismo, de Roberto Schwarz. O livro é uma análise crítica e minuciosa de Memórias Póstumas de Brás Cubas e outras questões da obra de Machado de Assis. Dentro dele, em determinado capítulo, o autor analisa os personagens pobres retratados na obra de Machado e, em certo momento, comenta que a vida do pobre é muito complicada porque se ele tentar lutar por algo maior e sair de sua condição, é visto como ridículo; enquanto que, se ele nem sequer tenta fazê-lo, é visto como vadio e acomodado — um paralelo que também se aplica à condição feminina.

Não é de hoje que escuto e leio barbaridades que ora criticam as mulheres por quererem trabalhar fora — em pleno século XXI — e ganharem o mundo, ora criticando-as por quererem ficar em casa e cuidar dos filhos. É fácil existir desse jeito, não é? Por isso, seguimos brigando e tentando quebrar paradigmas, todos os dias, um atrás do outro. Posso ser esperançosa demais, mas acho que se a Full House original fosse lançada hoje, 29 anos depois do ano em que foi de fato lançada, ela já seria bem menos engraçada; evoluímos um bocado desde então e homens trocando fraldas já é visto com mais naturalidade e menos como uma piada. A espera é que, em tempo, a piada simplesmente deixe de existir.

E quanto ao humor? Bem, aí fica outro desafio para a galera da criação: renovar o humor com algo que realmente tenha graça e não com algo que aprendemos erroneamente que deveria ter.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

6 comentários

  1. O que eu gostei de Fuller House (e, enfim, gostei do spin off em geral, no mínimo pra uma maratona de evitar as obrigações, nada mais que isso) foi justamente as mulheres. Tipo óbvio que teve várias problematizações a serem feitas, que nem você disse aí, mas gostei da vibe migas que trouxe, sabe?

    also: Ramona. uma personagem maravilhosa <3

    1. Oi Lore! Eu achei divertidinho também, mas fiquei encucada mesmo quando comecei a ouvir todo mundo falando que a primeira versão era muito engraçada e essa não era. Também gostei da vibe justamente porque as mulheres parecem bem livres e bem resolvidas, sabe? Enfim! Também amo a Ramona!!

  2. Nossa, nem sabia que as pessoas não tinham amado Fuller House, to chocada!
    Eu gostei muito do seriado, e sei lá, não sei se é só comigo, mas eu não consegui relacionar o humor ao fato das mulheres estarem cuidando das crianças, porque essas crianças já são super desenvolvidas, e achei que mostrava muito mais os dramas pessoais delas, e as escolhas da vida em geral. Ao contrário de Full House, que aí sim, concentra todo o humor nessa história do cuidado.
    Achei o post muito bom, e me fez parar pra pensar sobre o assunto. E é engraçado como essa ideia de quem deve cuidar da casa e dos filhos tá encrustrado na gente! Eu não conseguiria fazer essa análise toda de Full/Fuller House, simplesmente porque nem consigo enxergar essas coisas… (Agora que você falou eu vi tudo, e achei lindo!)

    1. Oi Ana!
      Eu na verdade fiquei meio chateada quando percebi? HAHAHA
      Também acho que a série nova foca menos no cuidado e mais nos dramas pessoais. Eu gostei, mas não achei tão engraçado – mas também não sei o que eu acharia da primeira hoje em dia, já que realmente só vi episódios soltos quando era pequena, então não consigo comparar com base em mim, foi mesmo com base no que eu li por aí e ouvi as pessoas comentando 🙂
      Que bom que curtiu o texto!
      Beijo!

  3. A serie não é engraçada pq é ruim, não tem relação o fato das protagonista serem mulheres cuidadando de crianças, e a anterior homens. A autora do post está cheia de mimimi , mais um vez o feminismo vitimizado, dando lugar à critica técnica.