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Kaoru & Rilakkuma: um convite para desacelerar o dia a dia

Uma jovem adulta, perto dos seus 30 anos, solteira e funcionária de um escritório na cidade grande, vive em um apartamento pequeno, meio velho, com seus animais de estimação. Nada de novo sob o sol, não é mesmo? Talvez você se encaixe na descrição, conheça alguém assim ou tenha visto, pelo menos uma vez, alguma personagem em um livro, filme ou série que poderia ser descrita dessa maneira.

Esta é a graça e o triunfo da animação Kaoru & Rilakkuma, distribuída pela Netflix e produzida pelo estúdio de animação Dwarf. Lançada em 2019 pela plataforma de streaming, a série, dividida em 13 episódios com cerca de 10 minutos de duração, é um lembrete de como é importante — e delicioso — desacelerar e saber aproveitar os pequenos momentos no nosso dia a dia.

Kaoru, a protagonista da série, vocês conheceram lá em cima. Uma jovem com uma vida comum, a não ser pelo fato dela morar com dois ursos fofíssimos, mas um tanto preguiçosos — Rilakkuma e Korilakkuma — e um pássaro com mania de limpeza, Kiroitori. Ao longo da série, acompanhamos a vida dos quatro por um ano. Alegrias, reflexões, inseguranças, novos amigos e muitos petiscos dão o tom do cotidiano dos quatro e da própria animação: acolhedor e relaxante, mesmo que o mundo lá fora nem sempre seja assim.

Parte do efeito que Kaoru & Rilakkuma nos causa é, claro, fruto do trabalho do estúdio Dwarf. A série foi feita em stop motion e impressiona pela riqueza de detalhes. A atenção a pontos que passam geralmente despercebidos para nós espectadores, como o ângulo da luz do sol durante o dia e de acordo com as estações, não só demonstra o cuidado dos profissionais com a produção, mas também reforça um dos pontos principais da animação — de como as amenidades e tantas outras coisas as quais nem sempre damos atenção podem ser encantadoras.

Kaoru & Rilakkuma

Em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, o clássico filme francês, a protagonista tem uma lista de pequenos prazeres cotidianos: jogar pedras no canal Saint Martin, quebrar a cobertura do creme brulée com a colher, entre outros. São ações muitas vezes banais, simples, mas que tornam o dia de Amélie (Audrey Tautou), de alguma forma, mais feliz. Assim como Amélie, Kaoru também tem os seus pequenos prazeres, mesmo que não tenha uma lista definida como a personagem francesa. A protagonista gosta de cozinhar, comer petiscos depois de um longo dia de trabalho com o trio de animais, caminhar no fim da tarde ao lado do rio que passa perto de sua casa… são situações comuns, mas em que é perceptível ver como a personagem relaxa e se sente mais alegre.

Relaxar, inclusive, é parte da essência do Rilakkuma. Personagem criado pela San-X, uma rede de papelaria japonesa, o nome do ursinho é uma junção das palavras “relax” e “kuma” (urso, em japonês). Apesar de não ser tão popular por essas bandas, ele é um absoluto fenômeno na Ásia, estampando os mais variados tipos de produtos.  A popularidade não só tem a ver com a fofura do Rilakkuma, mas também pela personalidade que a San-X construiu para ele. Superficialmente, pode parecer uma decisão aleatória, mas que no entanto, reflete os anseios e o comportamento de um grupo — no caso, os millennials. Somos uma geração exausta, ansiosa e frustrada — logo, os personagens criados para nós devem nos contemplar.

Enquanto Rilakkuma representa a vontade (e a importância) de relaxar, outros como Gudetama, o ovinho preguiçoso, e Aggretsuko, a panda vermelha que extravasa o estresse do trabalho cantando heavy metal (ambos de outra empresa, a Sanrio, e que também tem suas respectivamente animações) também trazem essa identificação. Mesmo que estes três personagens sejam de empresas japonesas e Kaoru & Rilakkuma se passe no Japão, nada disso nos impede de conseguirmos nos identificar com eles. É fato que cultura, sociedade e mercado de trabalho tem suas particularidades e diferenças em qualquer lugar do mundo. No entanto, nossas dúvidas e frustrações, por terem suas similaridades, conseguem nos aproximar, apesar de todos esses aspectos.

As frustrações dos millennials

Kaoru & Rilakkuma

O estilo de vida que é exaltado e tido como o ideal coloca o trabalho como centro da nossa vida. Na nossa sociedade capitalista e fã de discursos meritocráticos, nosso tempo deve ser usado para sermos ainda mais produtivos, para fazermos mais dinheiro, para estarmos sempre lá na frente, como se a vida fosse uma eterna maratona. Mesmo que o fim seja incerto e você precise de uma pausa para respirar e reavaliar a vida, você nunca pode perder o fôlego. Sempre deve continuar indo, mesmo contra sua vontade ou pela pura necessidade.

Com a febre de coaches, a ascensão de empreendedores e a popularização e normalização de discursos do tipo “trabalhe/estude enquanto eles dormem”, o status quo é sentir que você nunca está fazendo o suficiente. O tempo que você gastou maratonando uma série, dando um rolê com os amigos ou simplesmente tirando aquela gostosa soneca à tarde é visto como perdido. Algo tão valioso, que você deveria usar para aprender um idioma novo, fazer aquele curso para incrementar o currículo e dar um jeito na sua vida você usou, olhe só, lendo uma thread qualquer no Twitter. Um desperdício! Certo?

Se foi ou não, não é esta a discussão, e sim como esse discurso consegue ser tóxico. Acabamos nos repreendendo por algo que nem deveríamos estar nos culpando, que é simplesmente descansar. É por isso que se diz que os millenials são a geração do esgotamento. Acabamos ficando doentes, física e mentalmente, nos esquecendo de olhar para nós mesmos e anulando, muitas vezes, nossa própria essência.

Mesmo que Kaoru & Rilakkuma seja uma série leve, ela não se esquiva de reflexões mais profundas. Em um dos episódios da série, por exemplo, Kaoru passa pela vitrine de um pet shop e fica observando os filhotes de cachorros. Quando vê o preço de um, ela se pergunta: “Qual será o meu valor?” A conclusão que ela tem é de que ela não vale nada. Em suas palavras, ela é apenas um “pedaço de lixo flutuando no universo”, de onde ela não pode escapar.

Ver e ler uma afirmação dessas não é incomum na geração millennial. Nossos memes e lamentos nas redes sociais, muita das vezes, têm um lado auto-depreciativo. Kaoru, consciente e inconscientemente, assume essa visão sobre si. Em outro episódio, enquanto vê várias formigas caminhando pelo chão, ela se pergunta se seu trabalho, afinal, tem importância ou faz diferença na empresa que trabalha. Ela poderia ser assim tão facilmente substituída?

Kaoru & Rilakkuma

Além do trabalho, Kaoru também tem suas inseguranças e frustrações na vida pessoal. Ela se compara com as amigas e colegas de trabalho, que viajam para outros países, estão namorando ou casadas, e são bem-sucedidas. Compra compulsivamente pela internet só para poder interagir com o carteiro que é seu crush, o que a leva a comprar vários aparelhos de ginástica que ela nunca vai usar e muitas dívidas. Seus dilemas são próximos de nós porque são reais: o diretor Masahito Kobayashi explicou que os dramas de Kaoru são baseados nos relatos das mulheres da equipe de produção da animação, o que torna tudo mais fidedigno.

Em meio a todas essas questões, reflexões quanto a idade também são muito presentes para Kaoru. Isso acontece não só por essa sensação de se sentir deixada para trás, mas também por ela, em momentos de seu cotidiano, perceber que está envelhecendo. Isto não vem com uma conotação negativa, mas de uma forma em que ela percebe cada vez mais as mudanças que a idade adulta trouxe. Mesmo que Kaoru não seja a mulher adulta que a sociedade esperaria que fosse em sua idade (casada, com filhos e uma vida estável), ela também não é mais uma menina. Com o amadurecimento, se deixa de lado a ingenuidade da infância e adolescência. Em certos episódios, existe uma reflexão quanto a isso, sobre como quando ficamos adultos, deixamos de acreditar no que parece irreal.

Não existe um julgamento por trás disso, sobre ser algo positivo ou negativo — é encarado como mais uma mudança que vem naturalmente, aos poucos. Talvez, nem seja uma questão de que quando crescemos, deixamos de acreditar no que é fantasioso: só esquecemos, no meio de toda a loucura e pressa do dia a dia, de fazer e exercitar este nosso lado. Rilakkuma, Korilakkuma e Kiroitori e mais alguns amigos e visitas surpresas estão lá justamente para lembrar Kaoru de que a vida, afinal, nem sempre precisa seguir fórmulas ou ter alguma lógica. Se faz sentido para você, isso basta e é suficiente.

“É impossível as coisas ficarem iguais para sempre”, diz a frase final de um dos episódios. Esta é tanta a graça da vida como o nosso maior dilema. Assim como as estações passam pela série, Kaoru e seus amigos vivenciam mudanças, tanto físicas como dentro deles mesmos. E no estilo mais japonês possível: “shoganai”, ou seja, “não há o que fazer”. Se elas vêm, por bem ou por mal, o melhor a se fazer é encarar de forma mais leve possível e tirar proveito disso — se possível, com um dango a tiracolo e animais fofos para deixar seu coração quentinho.

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