Categorias: COLABORAÇÃO, MÚSICA

Um diálogo entre Ícaro, Emicida e Ismália

Alguns dos muitos dados presentes na internet, em fontes seguras, mostram que 66,7% da população carcerária brasileira em 2019 era negra (FBSP) e 78% dos mortos pela policia eram negros. Esses dados são uma justificativa muito importante para trazer esse debate à tona nas linguagens artísticas, em razão das linguagens artísticas acabarem sendo a válvula de escape da comunidade negra, é como se fosse o lugar em que eles se humanizam diante de um sistema que os desumaniza.

“O principal modo de se expressar desses sujeitos periféricos está na fala, por isso a importância de se perceber a oralidade como propulsora da produção e transmissão de conhecimentos e da história não-oficial, cujos relatos podemos encontrar no RAP, pois é sua poética que vai trazer a humanização desse sujeito” (MELLO; PINTO, 2020, p. 108)

A chegada de produtos culturais como o rap de Childish Gambino, em 2018, com “This is América” nos Estados Unidos e “Crime Bárbaro” de Rincon Sapiência no Brasil, demonstram que, cada vez mais, surge por parte da juventude o desejo de se discutir sobre o racismo na sociedade.” (SANTOS; CORAÇÃO, 2021 p. 368)

Diante de toda essa violência que está aumentando contra a população negra, também uma resistência, uma resposta da comunidade negra, principalmente dentro da arte. Sendo assim, aqui estará presente a canção Ismália” de Emicida e o poema Ismália” de Alphonsus Guimaraens, além do mito grego de Ícaro.

A perspectiva do voo em ambas as obras pode ser visto como alçar o inalcançável, como a desestabilidade como ponto de partida e a queda. Além dessa perspectiva, também será abordado o racismo, que é o ponto chave desse artigo, que é identificado como estrutura de dominação, como estereótipos do enlouquecimento e da personificação do negro como Ícaro e como Ismália.

Ícaro é filho de Dédalo, que era um arquiteto. Dédalo, junto ao seu filho foram condenados a viverem para sempre na ilha de Creta, porque Dédalo havia matado seu sobrinho por inveja. Dédalo, arquiteto, criativo, inventor, não queria que seu filho Ícaro vivesse preso naquele lugar para sempre, queria que ele visse o mundo, conhecesse outros lugares, alçasse voo. Pois então, Dédalo construiu para Ícaro um par de asas com madeira, cera de abelha e pena, e aconselhou ao filho para não voar muito baixo porque as penas poderiam molhar nas águas do mar e ele cair, mas também para não se aproximar do sol, porque o calor poderia derreter a cera e fazer com que ele caísse.

Ícaro, quando consegue fugir, se vê apaixonado pelo que vê, e então começa a voar cada vez mais alto e acaba por esquecer o conselho do pai, as asas derretem, Ícaro cai e morre. É interessante pensar a queda como símbolo de uma das mais antigas angústias do homem, o medo da queda, o medo da derrota. Ao passo que temos o voo como alcançar alguma coisa, ultrapassar, ascender na vida, já que na mitologia os únicos que voavam eram os deuses.

Já o poema Ismália”, que tem o mesmo nome da música de Emicida, foi escrito pelo poeta brasileiro Alphonsus de Guimaraens, temos logo no começo “quando Ismália enlouqueceu”, já há uma ideia de que o poema gira em torno da loucura de Ismália. Ismália se perde em sua loucura e quer duas coisas ao mesmo tempo que são opostas uma da outra, e são impossíveis de alcançar em vida: ela quer o céu, ao mesmo tempo que ela quer o mar, veja:

“Queria subir ao céu
Queria descer ao mar”

E é na morte, quando ela se lança da torre, que ela encontra o que sempre almejou: sua alma sobe e seu corpo desce e ela tem finalmente as duas coisas que não teria em vida. Esse paradoxo é o tema central deste poema. É interessante observar, tanto no mito da antiguidade clássica de Ícaro quanto no poema simbolista de Alphonsus de Guimaraens, o que se quer e o que se tem.

“Assim, uma figura enlouquecida, do alto da torre, insulada em distâncias e exclusões, contemplando eminências de abismos, sonha. Do alto da torre, desejos se duplicam, dividem-se e o desvario em canto deságua em duplo impacto: um, em levitação, busca a lua (liberação e repouso); outro, em queda, afunda se no mar, afoga-se (pesadelo e aprisionamento).” (RICIERI, 2003, p. 197)

Essa questão do abismo é referenciada nos primeiros versos da estrofe da música de Emicida:

“Ela quis ser chamada de morena
Que isso camufla o abismo entre si e a humanidade plena”

Aqui já é possível identificar o abismo que há na obra de Alphonsus de Guimaraens como aquele abismo entre liberdade e aprisionamento que Emicida cita: o processo de embranquecimento de uma população negra não retinta, visto que ser chamada de morena, até pouco tempo atrás, camuflava esse abismo entre as pessoas não-brancas e os brancos. Isso também é visto no mito de Ícaro nas águas do mar e no sol, que poderia derreter suas asas. Esse alçar voo, na mitologia, era algo muito arriscado, visto que só os deuses o poderiam fazer. É possível comparar esse abismo como céu versus queda, num sentido de deuses versus não deuses, e trazendo para esse cenário de racismo como uma comparação entre os brancos, que são tidos como endeusados, como superiores, dominadores de uma sociedade e toda uma população racializada em queda, próxima do chão, perto do aprisionamento que a gente percebe em “Ismália”.

Em “Ismália” poema, vemos que ela só alcança aquilo que queria quando se suicida, porque o corpo vai para o mar, mas a alma vai para o céu. Podemos trazer essa alusão na questão dos corpos negros como quando se alça esse voo e acaba caindo, ou seja, quando corpos negros são violentados, mortos, como o caso de Moïse Kabagambe. Somente quando há a queda é que há a visibilidade, que passam em jornais, na televisão, nos Trending Topics do Twitter. Na música de Emicida, podemos ver isso em “Hashtags #PretoNoTopo, bravo! 

são agredidos, somente quando há a queda é que há essa visibilidade, que passam em jornais, na televisão, trend de twitter. Na música de Emicida, podemos ver isso em “Hashtags #PretoNoTopo, bravo!/ 80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo” e trazer também a questão do #BlackLivesMatter que surgiu nos Estados Unidos e se expandiu para todo o mundo com assassinato de George Floyd. Com isso, podemos identificar que só há o alcance dessa voz que os negros não possuem quando há a queda, ficando o paradoxo de só ter voz após a morte, só alçar voo depois da queda, ou melhor, como Emicida diz:

“No fim das conta é tudo Ismália (…)
Quis tocar o céu, mas terminou no chão
Ter pele escura é ser Ismália”

Porque parece que todos os esforços que a comunidade negra possa fazer em vida para alcançar espaços, para serem valorizados como pessoas, para mostrarem a sua cultura, viverem as suas religiões, toda vez que há esses esforços nada chega a esse céu de Ismália. Então, parece que somente na queda é que emerge essa discussão, essa voz da população negra.

Emicida enquanto pessoa negra e eu-lírico da canção, se coloca nesses lugares, mas também como toda a população negra. Tanto Ícaro quanto Ismália quiseram voar para alcançar algo e caíram, e é aí que Emicida se coloca em comparação a eles. Ou seja, um negro quando almeja lugares mais altos sempre vai ser tombado, seja porque ele vai ser atingido por um sistema racista, que domina a situação e que acaba por impedir seu voo, seja ser visto como louco: Ismália enlouqueceu, Ícaro não foi inteligente o bastante; é como se o sistema causasse essa desestabilidade emocional nas pessoas para que o negro não saia da torre de Ismália, para que não saia do labirinto de Ícaro. 


REFERÊNCIAS
RICIERI, Francine Fernandes Weiss. As várias formas de Ismália: espelhamentos, tensões, poéticas. Manuscrita: Revista de Critica Genetica, n, 11, 2002
SANTOS, Solange Stéfane; CORAÇÃO, Claúdio. A correria como forma de resistencia negra em videoclipes do rap brasileiro. Periferia, v. 13, n. 1, p, 363-386, 2021.
GUIMARAENS, Alphonsus de. Ismália. In. Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens / seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho. 4 ed. São Paulo: Editora Gloral, 2001.
ISMÁLIA. Direção: Emicida. Intérprete: Emicida. Letras [s. n.] 2019.
PINTO, Cecília Augusta Vieira; MELLO, Carla Cristiane. A Linguagem do RAP como Resistência à(s) Norma(s). Porto das Letras, v.6, n.1, p-93-113, 2020.

Lara Azevedo, às vezes Larica, às vezes Liveroviski. Fria e Calculadora, discente de Química, Literaturas e Língua Portuguesa, ex-monitora de Latim e poliglota. Míope para o mundo real, mas sempre no fundo do poço com alguns livros distópicos na mochila, além de um cafezim doce. Tem uma biblioteca de livros não lidos e outra dos que já leu, além da pilha dos que Dante, meu cachorro, roeu.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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