Categorias: LITERATURA

Tudo é Rio: a correnteza da existência humana

Já vimos novelas o suficiente para saber que a chance de um acontecimento não estar ligado a outro mesmo que remotamente, é muito pequena. O mesmo vale para pessoas — podemos pensar em três pessoas absolutamente diferentes, mas alguma coisa em comum elas têm.

Nada melhor do que uma tragédia para mostrar pra gente que ninguém é melhor do que ninguém, e a primeira coisa que você já vai sabendo quando pega pra ler Tudo é Rio, primeira obra de Carla Madeira, é que vai ler sobre uma tragédia, no mais forte sentido da palavra.

Carla é mineira de Belo Horizonte, e dona de três histórias já publicadas: Tudo é Rio (2014), A Natureza da Mordida (2018) e Véspera (2021). A primeira delas, e sobre a qual estamos falando aqui, foi publicada primeiro de forma independente, e depois republicada em fevereiro de 2021 pelo Grupo Editorial Record, e fez com que Carla fosse a segunda escritora brasileira mais lida no ano de 2021.

A trama se passa no interior de uma cidade que nós nunca sabemos qual é, mas que tem aquele ar de cidade de interior que a gente conhece muito bem, e poderia ser em qualquer lugar. Somos apresentadas ao amor de Dalva por Venâncio, ao amor de Venâncio por Dalva e ao amor de Lucy pelo caos, e pela sua profissão, que é ser prostituta.

Intercalando os momentos presentes com o passado de cada um dos personagens, Carla vai nos contando mais sobre o passado dessas três pessoas e o que pode ter acontecido para que essas três vidas se encontrassem — qual foi o rio do acaso que levou Venâncio a voltar para a cidade onde nasceu e trabalhar na loja do pai ao mesmo tempo em que fez Dalva carregar uma bandeja cheia de empadas para a mãe e passar na frente da oficina de Venâncio e trocar com ele o mais doce dos olhares? Qual foi a correnteza que passou na vida de Lucy e que a despiu de tudo que ela conhecia e que depois a fez se despir para retomar o controle?

Sem muitos rodeios, Carla Madeira apresenta não só o passado dos três para explicar porque eles são como são, mas também nos conta no presente o que levou Dalva a se separar emocionalmente de Venâncio e se transformar em um fantasma na cidade, o que levou Venâncio a ir procurar conforto na zona, e como a cidade sobreviveu à tempestade que foi quando Lucy resolveu que só queria transar se fosse com Venâncio, deixando todos os homens da cidade esperando que ela se resolvesse.

“E a vida, como metáfora de um rio, tudo traz, tudo leva, tudo lava. Menos o amor. O amor é uma verdade à prova do tempo.”

É complicado escrever sobre esse livro sem escrever sobre ele em todas as letras e acabar deixando pouco a ser saboreado pelo leitor, e conforme lemos sobre o passado e presente de Dalva, Venâncio e Lucy, mais achamos que entendemos as pessoas quando, na verdade, não entendemos, e como cada pessoa tem seu tempo.

Tudo é Rio é um exercício de empatia na sua mais pura forma, porque você se vê querendo julgar todas as pessoas e todas as atitudes, mas sempre sendo servido com algum acontecimento, alguma coisa, que faz com que a gente se coloque no nosso lugar e perceba que nós não podemos medir os outros com nossas próprias réguas, e vice-versa. Cada um é cada um.

E que mesmo que a gente desemboque no mesmíssimo mar um dia e que as nossas vidas se encontrem por aí, todo mundo é um rio diferente.


** A arte em destaque é de autoria da editora Duds Saldanha. Para ver mais, clique aqui!

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