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Oceano Entre Nós e as cicatrizes de uma juventude islâmica

Prestes a completar 20 anos, o atentado às Torres Gêmeas já foi representado diversas vezes na mídia e, assim como a maior parte das obras hollywoodianas, da TV e best-sellers literários, sua ótica vem sendo majoritariamente branca. É claro que, se tratando de uma tragédia que aconteceu nos Estados Unidos, a perspectiva coletiva assume que suas cicatrizes mancham a história do país e de seus cidadãos. Mas, quando falamos de cidadania, será que as dores do 11 de setembro são validadas em toda a população norte-americana e, mais especificamente, naqueles que compartilham com o “inimigo” etnia e religião?

Essa pergunta é respondida pela autora Tahereh Mafi no livro A Very Large Expanse Of Sea, traduzido recentemente no Brasil como Oceano Entre Nós, pela Universo dos Livros. Por meio de um romance que mescla o melhor do gênero young adult com os ingredientes de todo bom coming of age, Tahereh reflete sua adolescência como uma mulher muçulmana e filha de imigrantes na história de Shirin Jafari, sua protagonista um tanto quanto autobiográfica. A história de AVLEOS (uma abreviação do nome incapaz de reduzir a grandeza da obra) se passa dois anos após o ataque terrorista e acompanha a adolescente de 16 anos em sua abertura emocional e convívio com o preconceito, intensificado pela propaganda anti-islâmica e pelo medo coletivo do terrorismo.

Shirin inicia os estudos em uma escola nova e, como de costume, enfrenta os olhares curiosos e a objetificação de sua pessoa por seus colegas e professores. Ela se protege das agressões implícitas e do racismo que tanto a machucou durante sua vida por meio de uma muralha impenetrável de rancor, por trás da qual está escondida uma menina corajosa, amável e grande fã de breakdance. Eis que, enquanto lida com as consequências de um atentado que não foi cometido por ela, a jovem também deve lidar com os contratempos da adolescência, entre eles o relacionamento inesperado que surge entre ela e um colega de classe. E é esse o ponto de partida para uma história que, mais que emocionante, é humana em cada uma de suas 320 páginas.

“Estou cansada de ser paciente com fanáticos. Estou cansada de tentar explicar porque eu não mereço ser tratada como um pedaço de merda o tempo todo. Estou cansada de implorar a todos que entendam que as pessoas de cor não são todas iguais, que nem todos acreditam nas mesmas coisas, sentem as mesmas coisas ou experimentam o mundo da mesma maneira. — Eu balancei a cabeça — Estou apenas — estou cansada de tentar explicar ao mundo por que o racismo é ruim, ok? Por que esse é meu trabalho?”

A escrita poderosa de Tahereh Mafi

Se você, como eu, cresceu com sagas distópicas como Jogos Vorazes e suas irmãs de outras mães Maze Runner e Divergente, talvez esteja familiarizado com o nome de Tahereh Mafi e sua série de romance distópico (ou talvez até fantástico?) Estilhaça-me. Até mesmo se você acompanha as comunidades literárias no Twitter, Instagram e TikTok, já ouviu falar da escrita poética e envolvente da autora. Acontece que, apesar de ter feito seu nome por meio da distopia, é visível o brilho e amadurecimento da escrita de Tahereh Mafi  em um coming of age como Oceano Entre Nós. É na história de Shirin que a autora tem o espaço necessário para explorar sua ancestralidade (previamente presente, ainda que de modo efêmero, em Estilhaça-me, por meio da personagem Nazeera Ibrahim), e o faz de modo glorioso e relacionável.

Os conflitos vivenciados pela adolescente em um cenário de fragilidade política e xenofobia intensa são mesclados aos dramas rotineiros da juventude de forma tão natural e realista que é impossível não se identificar com Shirin, ainda que minimamente. É claro que nunca fui uma mulher muçulmana ou alvo de racismo, mas ver como Shirin lida com percalços mundanos e até banais — como o questionamento dos próprios sentimentos, o afastamento familiar inerente da rebeldia adolescente e a criação de identidade própria — é uma forma da autora de desenvolver o aspecto mais importante dessa obra: a empatia.

“Essas, as injeções regulares de veneno que eu recebia de estranhos, eram definitivamente as piores coisas sobre usar um lenço de cabeça. Mas a melhor coisa foi que meus professores não podiam me ver ouvindo música.”

Como uma mulher muçulmana e filha de imigrantes iranianos, Tahereh Mafi usa seu talento para a escrita e suas plataformas digitais para expor sua realidade e dar vazão à sua voz. Casada com o autor Ransom Riggs, de O Lar Da Senhorita Peregrine, Tahereh já desabafou nos stories do Instagram o repúdio social que sofre ao sair na rua com a filha birracial do casal, uma vez que as pessoas encaram sua filha de cabelos loiros e pele branca com estranheza ao perceberem sua mãe muçulmana com o hijab cobrindo a cabeça. A ocorrência e denúncia de fatos como esse são importantes para expor a dor de mulheres islâmicas e mostrar que, ainda que velados, o racismo e intolerância vivenciados por esses grupos étnicos-religiosos persistem.

Com Oceano Entre Nós e seu romance mais recente, An Emotion Of Great Delight (Uma Emoção De Grande Deleite, na tradução literal), Tahereh Mafi tem a chance de expor sua infância e adolescência, e não falha ao chocar o leitor e mostrar-lhe seu próprio preconceito, e digo isso por experiência própria. As palavras da autora me mostraram uma realidade que há muito eu ignorava, por sua complexidade e distância do que eu mesma vivo. Talvez por isso, ou simplesmente pela imensa qualidade do livro, Oceano Entre Nós se tornou um dos meus livros favoritos. A força da narrativa me abriu os olhos para o meu próprio privilégio e me fez questionar minha própria visão de mundo. Em um mundo onde a busca por proteção a todas as mulheres nem sempre é plural, quantas vezes não nos vemos aptas a defender o expurgo do uso de lenços por crer que esses são uma forma de aprisionamento? Quantas vezes deixamos de compreender como o islã ainda possui mulheres adeptas quando, na cultura ocidental, somos levadas a crer que a religião as reprime?

Pois eu digo com pesar no coração: muitas vezes. E talvez por isso esse livro tenha me impactado tanto, pois, ainda que velados, esses comportamentos são nocivos. E mais uma vez vem a calhar a necessidade do lugar de fala e de dar espaço na indústria do entretenimento para grupos minoritários.

“Pessoas — e muitas vezes homens — gostavam de dizer que as mulheres muçulmanas usavam lenços de cabeça porque estavam tentando ser recatadas, ou porque estavam tentando encobrir sua beleza, e eu sabia que havia mulheres no mundo que se sentiam assim. Eu não podia falar por todas as mulheres muçulmanas — ninguém podia falar — mas foi um sentimento com o qual eu discordei fundamentalmente. Eu não acreditava que fosse possível esconder a beleza de uma mulher. Eu achava que as mulheres eram lindas, não importava o que vestissem, e eu não achava que elas devessem a ninguém uma explicação para suas escolhas de roupas. Diferentes mulheres se sentiam confortáveis em roupas diferentes.

Elas eram todas lindas.”

A representatividade deve ir além das telas e das páginas, mas presente naqueles que constroem as narrativas. E, no caso de Tahereh Mafi, a linguagem metafórica e intimista presente na sua obra de estreia, Estilhaça-me, cresce, e muito, tornando-se grandiosa em Oceano Entre Nós e acolhendo novos aliados a uma luta comumente negligenciada.

Confiança, identidade e anos 2000

“Depois de outro dia emocionante no panóptico, eu caí no sofá.”

Uma das características mais marcantes de Oceano Entre Nós é o fato que Shirin é uma personagem muito segura de si mesma. Talvez pela necessidade de autovalidação que sua vivência implica, sua personalidade é repleta de segurança e determinação. Enquanto lia Oceano Entre Nós, a ambientação do livro nos anos 2000 (Alexa toque “Paranoid Android” do Radiohead) e o lado durona da protagonista me lembraram a heroína de 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você, nossa querida megera (in)domada Kat Stratford. Mas a questão interessante de Shirin Jafari é que, por trás de seu lado agressivo e, às vezes grosseiro, estão cicatrizes de guerra. Uma guerra travada dia após dia contra seu próprio país, fomentada pelo pensamento ocidental e supremacista branco. Por ser muçulmana e persa, Shirin tem a cidadania estadunidense, direito seu por nascimento, questionada constantemente pela maioria à sua volta. Tal fato faz com que seu lado defensivo seja justificado, e não apenas mais uma característica do padrão de garota rebelde. A personalidade admirável da personagem vai além de mera “atitude”, é um mecanismo de defesa que a torna um exemplo para todas as garotas, mas ainda mais para suas semelhantes.

“— Meu inglês — eu disse. — não é muito bom. Meu inglês é perfeito pra caralho.”

Tahereh Mafi mostra a potência de sua voz ao, ainda, desconstruir a imagem coletiva do uso do hijab, mostrando seu verdadeiro significado: poder de escolha. O lenço é uma armadura lustrosa empunhada por mulheres muçulmanas que o escolhem utilizar, contrariando um senso comum deturpado de repúdio a beleza feminina  — e propagado de forma irresponsável por tantas mídias (cof cof, Nadia de Elite). É uma representação de que mulheres muçulmanas também têm direito a escolha e a se fazerem presentes e notáveis no meio social, e isso não deve ser questionado.

“— Eu gosto que você tenha que pedir minha permissão para ver meu cabelo.
Os olhos de Ocean se arregalaram de repente. — Posso ver seu cabelo?
— Não.
Ele riu alto.”

Sua experiência é potencializada ainda pelo gênero. A distinção entre Shirin e seu irmão mais velho, Navid, é uma questão a ser levantada quando analisamos o livro. Enquanto Navid torna-se popular no ambiente escolar, especialmente entre as garotas, que o consideram exótico — mais um ponto a ser debatido quando pensamos na sexualização de homens racializados (olá, Zayn Malik) —, Shirin torna-se invisível, quando não alvo de discurso de ódio. A relação distinta dos dois com sua herança racial distancia-os brevemente, porém a fraternidade é logo reatada através da paixão pelo breakdance.

A dança é, inclusive, uma das partes mais cativantes da história. Mais ainda ao pensarmos que a própria autora, Tahereh Mafi, pratica breakdance e é uma grande fã. A imagem mental de uma adolescente muçulmana, em seu hijab, fazendo manobras de dança é um dos elementos mais carismáticos da obra, e faz com o que o leitor revisite sua infância/adolescência (se você está lendo esse texto, provavelmente cresceu de alguma forma nos anos 2000 e assistiu algum Se Ela Dança Eu Danço). A trilha sonora majoritariamente R&B também contribui para a atmosfera nostálgica da obra, sendo o tipo de livro que você lê e corre para o Spotify depois pra ouvir Fugees e Ms. Lauren Hill. A presença de e-mails, internet discada e MSN vão te trazer um sorriso no rosto em algum momento, seja pela fofura das situações, seja pelo conforto das memórias afetivas.

“jujehpolo: Você quer falar no celular?
riversandoceans04: Sim
jujehpolo: Por que?
riversandoceans04: Eu quero ouvir sua voz”

Empatia e coração quentinho

Como todo bom coming of age, Oceano Entre Nós tem sim romance, para  felicidade dos amantes do amor juvenil. Ao relacionar Shirin com Ocean James, um colega de classe da protagonista, Tahereh Mafi usa as diferenças religiosas, étnicas e raciais entre o casal para expor relações de privilégio e o silenciamento das vozes de mulheres muçulmanas. E a afirmação da autora, se já não explícita no decorrer do livro, é reafirmada em uma citação de imprimir e sair distribuindo por aí:

“Ainda assim, não foi difícil para mim entender como chegamos aqui. Eu estava esperando por isso. Eu estava temendo isso. Mas era tão difícil para Ocean sentir que o mundo estava cheio de pessoas tão terríveis. Eu tentei dizer a ele que os fanáticos e os racistas sempre estiveram lá, e ele disse que honestamente nunca os viu assim, que ele nunca pensou que eles poderiam ser assim, e eu disse sim, eu sei. Eu disse que é assim que funciona o privilégio.”

A fascinação súbita de Ocean por Shirin causa estranhamento à primeira vista, pois, após vivenciarmos o turbilhão de medo e trauma da protagonista, estamos tão descrentes da humanidade quanto ela. Mas essa é a parte boa de um coming of age: os protagonistas evoluem, aprendem e desmancham quaisquer amarras que os impeçam de conquistar o mundo. No caso de Shirin, a construção cuidadosa e sensível com que Tahereh Mafi empenha sua história a guia numa jornada de confiança e vulnerabilidade, que logo a faz se entregar ao sentimento genuíno e mútuo construído ao longo do livro. É claro que a trajetória é árdua e dolorosa (esse é um livro em que filho chora e a mãe não vê), mas acompanhar o crescimento da menina é gratificante e nos dá orgulho ao final.

Ocean é um rapaz tão sensível e honesto acerca dos próprios sentimentos que seu apelo está muito mais nos diálogos que nas descrições físicas propriamente. Diferente de muitas autoras de YA, Tahereh não se limita ao arquétipo “jovem deslumbrante de bonito”. É claro que, como um garoto prodígio de qualquer livro, ele é o padrão de sempre. Mas sua graça vai além disso, pois a autora não gasta linhas vangloriando sua beleza, mas deixando clara a sinceridade de suas falas e a inocência de suas ações. Ele é produto de um sistema que torna Shirin vítima, mas não a enxerga como apenas tal e luta contra as pré concepções que os permeiam. E tudo pelos motivos mais genuínos possíveis: ele é um jovem que achou uma garota bonita e tenta se aproximar dela e, o mais fascinante, conhecê-la propriamente.

“— Ouça — ele disse suavemente — Isso não tem que ser nada sério. Eu só quero te conhecer melhor. Eu só… quero dizer, eu acidentalmente encontrei você e não consegui respirar direito por horas — ele disse, sua voz firme novamente. — Eu me sinto meio maluco. Como eu não posso — quero dizer — eu só quero saber o que é isso, — ele disse finalmente. — Eu só quero saber o que está acontecendo agora.

Meu coração estava batendo muito forte. Muito rápido.”

O par romântico é um dos maiores exemplos de female gaze e boyfriend material, me lembrando, durante a leitura que tudo o que queremos às vezes é sermos ouvidas e, na experiência de Shirin, esse desejo é constantemente negado. É nesse fato, somado ao contraste entre o ingênuo amor juvenil de Ocean e a desconfiança e coragem de Shirin, que está a magia de Oceano Entre Nós. Apesar de não ser o foco, o romance garante parte do protagonismo ao nos sensibilizar e dar poder à Shirin, poder para enfrentar alguns demônios que a atormentam e poder sobre si mesma, para pôr em prática aquilo que deseja e lutar por isso.

“— Ei, estou dizendo o seu nome certo?
Fiquei tão surpresa que me sentei. Olhei para ele. — Não.
— O que? Você está falando sério? — Ele riu, mas parecia chateado. — Por que você não me contou?”

Uma leitura humanizante

Oceano Entre Nós requer um nível de empatia que nunca nos deixa após a última página. No cenário em que vivemos, em que a necessidade de um feminismo interseccional é cada vez maior, precisamos nos impor contra o silenciamento de vozes como a de Shirin e Tahereh Mafi. A escrita não precisa sempre nos fazer chorar através da morte de um personagem querido ou um final que choca pelo horror da realidade, mas também pode impactar através da sensibilidade. É um livro que deveria ser leitura obrigatória de qualquer leitor ávido, pois, mais que um entretenimento ou estudo, é um ato de humanidade se abrir para novas visões de mundo.

Não se assuste pela temática delicada, pois, ao mesmo tempo que lida com um tabu social e os percalços de sua própria vivência (viva a ascensão de autores own voice!), Tahereh Mafi não recorre a reviravoltas fatalistas e deprimentes, e sim a um retrato jovial, sensível e franco. Mas esteja ciente da representação crua do racismo, fazendo necessário alguns momentos durante a leitura para respirar (e chorar, se você for molenga como eu) e para desconstruir seu próprio preconceito. Eu lhe garanto que, depois desse livro, sua visão da cultura islâmica e de práticas consideradas “exóticas”, como o uso do hijab, será não de estranhamento, mas de reconhecimento de nosso próprio julgamento falho. E essa sensação de quebra durante a leitura é vital para o processo, pois, se não plural, que tipo de feminismo pregamos?

Acho que Tahereh Mafi tem a resposta.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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1 comentário

  1. Que texto BELÍSSIMO!!! Chorei lendo essa resenha completa desse livro que é tão gigante!! Que sensibilidade parabéns!! Esse livro mudou minha vida