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O que The OA conta sobre ficção científica, sociedade e sobre nós mesmos

The OA chegou na Netflix em 2016 praticamente de surpresa. Originalmente, a plataforma divulgou a série como uma obra produzida por Brad Pitt e não indicou quase nada sobre a trama em si. Quem nunca tinha ouvido falar de Brit Marling (ou seu parceiro Zal Batmanglij) e da ficção científica que ela vinha fazendo aos poucos no cinema, com filmes como A Outra Terra (2011), praticamente ignorou o fato de que seu nome estava envolvido. Marling, no entanto, não só estrela a série, como também escreve e produz. Sua essência é parte fundamental da estrutura do seriado e na forma como a história, cancelada em sua segunda temporada, evolui.

Atenção: esse texto contém spoilers!

A trama começa com a narração de Prairie Johnson (Brit Marling), uma menina que quando jovem era chamada de Nina Azarov. Ao sofrer um acidente de ônibus, Nina acabou perdendo não só sua visão, mas também o seu pai e, após ser adotada por um casal que vive nos subúrbios de Michigan, ela se torna Praire. Na medida em que vai contando sua trajetória, ela fala sobre como foi sequestrada por um homem (Hap, vivido por Jason Isaacs) obcecado por rastrear pessoas que tiveram experiências de quase morte e como, eventualmente, recuperou a habilidade de enxergar.

Quando finalmente volta para viver com seus pais, ela não se reconhece mais como Praire, mas sim como The OA (ou Original Angel. Em tradução literal, o Anjo Original). Mais do que isso, começa a recrutar pessoas para ouvir sua história e que possam ajudá-la a recuperar o que perdeu durante todos os anos em que ficou sequestrada. Mais tarde, fica claro que a história é sobre realidades alternativas, um conceito muito explorado pela ficção em si, mas que aqui ganhou uma abordagem completamente diferente, brincando com a ideia de uma experiência de quase morte e como isso afeta as pessoas.

Com apenas oito episódios, The OA causou um impacto profundo na internet. Alguns críticos amaram a série, outros condenaram. O maior argumento daqueles que odiaram era que os conceitos apresentados por Marling eram cafonas, “difíceis de serem engolidos”. O que ninguém pareceu entender é que o seriado era justamente sobre acreditar no impossível, sobre fé. No mundo apresentado pela série, não existe espaço para cinismo, e isso fica claro durante o decorrer da história.

Em The OA nada é por acaso, todos os detalhes estão ali porque servem alguma função na história e não fogem da essência sensível que Brit Marling construiu. Até mesmo nas atuações isso pode ser visto. A cantora Sharon Van Etten, por exemplo, que também já tocou suas músicas em um dos episódios de Twin Peaks, vive Rachel — que ficou em cativeiro com Praire. Nas cenas em que elas aparecem presas, ao lado de Renata (Paz Vega), Scott (Will Brill) e Hommer (Emory Cohen), ela sempre está cantando, usando da voz para acrescentar sensibilidade na trama. E isso é uma característica presente também na sua carreira musical. Dona do álbum Are We There, de 2014, ela canta sobre o amor e sobre o medo e o frio na barriga que ele dá; sobre sentimentos desconhecidos, um salto de fé; é uma obra com identidade definida. De certa forma, seu disco faz um diálogo direto com a trama da série e, com certeza, Brit sabia disso.

Essa sensibilidade perpetuada por Brit Marling mais de uma vez se transforma em uma trama sagaz e inteligente, e é algo presente em cada uma das suas obras. Em seu primeiro filme, A Outra Terra, ela aplica conceitos parecidos da ficção científica, de realidades alternativas, para contar sua história — ou, para colocar de forma mais conveniente, passar sua mensagem.  Nesse trabalho, ela vive Rhonda Williams, uma astrofísica que após se envolver em um acidente de carro acaba matando uma família e vai parar na cadeia.

No filme, o conceito da “Outra Terra” — uma espécie de universo espelhado do nosso — brinca com o fato de que, talvez, aqueles erros que você cometeu desse lado, não tenham acontecido do outro; talvez, sua bagagem emocional seja muito menor daquele outro lado do espelho, que apresenta um universo tão familiar mas, ao mesmo tempo, desconhecido, diferente em detalhes. É por causa desse aspecto que o filme faz uma mistura de gêneros, muito como The OA. Para Marling, não existe como separar espiritualidade, drama e ficção científica, e isso fica claro em cada uma das suas produções. É verdade que em A Outra Terra isso não funciona tão bem e o conceito acaba até se perdendo para o final do longa, mas esse foi o primeiro grande projeto de Marling e isso só prova que a prática leva à perfeição.

Eu descobri que podia atuar e dirigir na faculdade, e quanto mais tempo eu passava nisso mais eu gostava da pessoa que estava me tornando (…) Eu estava mais empática e imaginativa. Mas essas qualidades pareciam estar em declínio (…) Atuar me pareceu uma busca nobre e até mesmo um pequeno ato de resistência. Hollywood foi, claro, um despertar rude desse tipo de idealismo“, disse em um texto que liberou para o The Atlantic, falando sobre Harvey Weinstein e a indústria de abuso perpetuado por décadas dentro de Hollywood.

De certa forma, The OA lembra séries recentes que foram ganhando espaço e que não contém uma narrativa tão comum como, por exemplo, Boneca Russa, também da Netflix. Os conceitos e a mitologia da série são aplicados de forma bem semelhante, oferecendo uma visão mais peculiar sobre os fatos. Ela também oferece algo refrescante para qualquer narrativa, de qualquer época: o roteiro sempre coloca as personagens acima da trama em si, priorizando sempre seu desenvolvimento e não apenas avançar a trama (apesar disso ser bastante importante também). Essa é uma página que foi resgatada de grandes obras como Harry Potter, Lost e, até mais recentemente, Stranger Things. O que nos leva ao próximo tópico.

Os protagonistas

Como já foi mencionado no texto, durante a primeira temporada, OA tem como objetivo recrutar pessoas que possam ajudá-la na sua missão, no seu “destino”. É assim que ela encontra Buck (Ian Alexander), Steve (Patrick Gibson), French (Brandon Perea), Jesse (Brendan Meyer) e Betty (Phyllis Smith). Cada um deles carrega uma frustração e problemas pessoais, excluídos pela sociedade de certa forma. Praire, no entanto, não julga. Ou sequer a série em si. A protagonista acaba entrando em um momento crucial na vida do grupo, moldando o que eles viriam a se tornar no futuro e estabelecendo uma dinâmica doce e sensível entre eles.

Não existe dúvida de que a relação que eles estabelecem entre si é algo importante para cada um deles, se não a coisa mais importante que eles tiveram em suas vidas. Eles tiram força da história de OA e o que sua história potencialmente significa. A dança que ela ensina para eles (que supostamente ajuda na hora do “salto” entre mundos e que foi um dos maiores alvos de críticas negativas para a série), toda essa experiencia de quase morte e universos distintos é quase muito bom para ser verdade, mas, de certa forma, ela ajuda Buck na sua transição. O menino transgênero vê na “Original Angel” um mundo onde existe mais aceitação, onde ele pode ser o que quiser. A mesma coisa acontece com French, que é gay, mas tem dificuldade de se aceitar para si mesmo e se abrir para sua família; com Steve, que nunca consegue lidar com sua raiva; ou até mesmo para Betty ou Jesse, que são duas das figuras mais solitárias já apresentadas no mundo das séries.

A dinâmica entre eles evolui muito durante as duas temporadas, e continua sendo sempre um dos melhores aspectos da série justamente porque eles representam o elo de OA com o mundo real. No núcleo desses personagens não existe tanto misticismo, apenas o sentimento humano de querer pertencer. E é por isso que The OA triunfa e se destaca, criando quase como um Clube dos Cinco da ficção científica.

A segunda temporada

É importante ressaltar que a segunda temporada da série é completamente diferente do seu primeiro ano. A longa espera com certeza teve a ver a concepção da trama, que ao decorrer dos episódios se torna cada vez mais complicada e profunda. O roteiro deixa o subúrbio de Michigan e passa para São Francisco, também nos Estados Unidos, assumindo um tom que é mais noir. As cores são mais vibrantes e até as roupas da protagonista passam a mostrar que ela está, finalmente, em outra época de sua vida. Praire descobre que, no universo alternativo onde vai parar após levar um tiro no final da primeira temporada, Nina nunca perdeu sua visão ou sequer o seu pai, e embarca em uma jornada de autodescoberta importante — que de certa forma acompanha a mitologia da série em si.

Dessa vez, existem ainda mais simbolismos e metáforas envolvidas na história e, durante os oito novos episódios, Marling teve a oportunidade de ir fundo não só na mitologia, claro, mas também no que isso significava para Praire (Nina, ou OA, como preferirem). Aos poucos, ela vai introduzindo conceitos que brincam entre as estranhezas das duas realidades que já foram apresentadas no seriado, sempre com elementos da natureza, da espiritualidade e até mesmo da história da humanidade, como fica claro no episódio “The Medium and The Engineer“.

Ainda mais para frente, a série dá uma curva inesperada mais uma vez e acaba se tornando sobre o amor entre OA e seu companheiro Hommer, que passou a segunda temporada inteira sem sequer se lembrar da história de ambos. A forma como eles voltam um para o outro constantemente, desafiando até mesmo algumas regras da física, é algo tirado diretamente dos livros mais aclamados de romance e, por sua vez, reforça as aspirações de The OA a ser mais do que apenas uma série de ficção e falar com mais de um público.

No final, OA faz mais um salto, dessa vez para uma dimensão onde ela na verdade é Brit Marling e é casada com o personagem de Jason Isaacs. Parece familiar, não? Nos poucos minutos que essa parte da trama fica acessível para o público, pode-se perceber algumas coisas. A primeira é que OA tem uma facilidade maior de “pular” entre mundos relativos. A série sempre deixou claro que a protagonista era uma espécie de entidade e que ela era o ponto crucial para entender a mitologia ao seu redor. Todos os contatos que ela estabeleceu nessa temporada também deixaram isso claro, inclusive a bela sequência visual onde ela entra em contato com o que pode ser muito bem o núcleo do universo — e a origem de tudo. Aliás, a cinematografia do seriado é incrível. O elemento da fantasia é, acima de tudo, reforçado por esse aspecto.

Os outros personagens, por sua vez, não conseguem fazer a transição de forma tão fácil como ela, pelo contrário. Hap tem que se alimentar da energia de várias pessoas para conseguir ter sucesso na missão, enquanto os outros personagens tem passos árduos e, na maioria das vezes, sem sucesso algum. Apenas vislumbres ou pedaços da situação ficam claros para eles, fragmentos de outros mundos.

Também notamos que Praire e Hap tem uma ligação que vai além do universo “original” da série, mas a natureza da mesma não descobriremos dado o cancelamento pela Netflix. Da última vez que vimos os personagens, eles são chamados pelos seus nomes verdadeiros, são casados e atores, vivendo as figuras da obra em questão em um seriado. Dessa forma, a narrativa dá um jeito que ligar todas as realidades possíveis, inclusive a que nós conhecemos e vivemos hoje. A ideia é diferente e acho que não existe nenhuma produção que tenha feito algo parecido até hoje. Infelizmente, se isso vai dar certo é algo que nunca vamos saber.

Recentemente, a Netflix anunciou que a série não voltaria para uma terceira temporada, mesmo que Brit Marling já tivesse deixado claro que existiam planos para os anos futuros. Não só a história ficou com alguns pontos cruciais em aberto, mas também a perda do seriado é algo que se pode analisar em mais de um plano. Para começar, a plataforma de streaming está com a mania de vender diversidade e inclusão como uma das suas maiores diretrizes, mas na hora de colocar no papel, os resultados não poderiam ser mais distantes da essência do discurso.

Séries como One Day at a Time, Sense8, The Get Down e até mesmo a animação Tuca and Bertie ofereciam uma visão única, importante e celebrada pela crítica (e eventualmente até pelo público), com equipes diversas na frente e atrás das câmeras. Infelizmente, elas acabaram canceladas. Assim com The OA. Se aprofundar nesse assunto é algo para outro texto, mas a contradição é algo que merece ser mencionado.

The OA continha uma narrativa que colocava no centro vozes que foram marginalizadas e esquecidas durante muito tempo na TV e no cinema, principalmente quando estamos falando do gênero da ficção científica. Apesar de ser um gênero conhecido por explorar o passado, o presente e o futuro da humanidade, sempre existiu um buraco que clamava por vezes diferentes e representativas. A voz de Brit Marling era, de certa forma, um passo na direção certa, sempre oferecendo uma narrativa intrigante, bem conduzida e que saía do lugar do comum, do convencional — sempre usando a imaginação, a fé e visuais incríveis. Não existe dúvida de que, olhando para trás, a série vai se tornar um dos maiores eventos do sci-fi criados. E então, justiça será feita.

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