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Sense8: Amor Vincit Omnia

“O amor conquista tudo”. É com esse título no episódio final que Sense8 se despede de seus fãs após duas temporadas e vinte e quatro episódios repletos de mensagens de amor, empatia, diversidade e inclusão. A série escrita, produzida e dirigida por Lilly e Lana Wachowski junto de J. Michael Straczynski começou a ser vendida para o público, em sua estreia na Netflix, em 2015, como um drama de ficção científica, mas nem nós, espectadores, e nem o serviço de streaming, ouso dizer, fazia ideia do que teríamos pela frente.

Cancelada de forma prematura e sem que as irmãs Wachowski pudessem contar a história da maneira como desejavam, Sense8 conquistou uma sobrevida na forma do episódio/telefilme “Amor Vincit Omnia”. O episódio especial tenta aparar as arestas da trama sci-fi enquanto conclui as jornadas de seus oito protagonistas, tudo isso enquanto nos conta uma grande história de amor. Amor, sim, pois ainda que lide com uma organização maléfica que quer dominar os sensates, explicações que mais confundem do que elucidam alguma coisa, além de uma grande fuga e perseguição ao redor do mundo, Sense8 é, antes de tudo, uma história de amor.

Uma das séries mais ambiciosas da Netflix, concorrendo em matéria de custos apenas com The Crown, do mesmo serviço, Sense8 teve um orçamento estimado em US$ 4,5 milhões por episódio e locações que percorreram quase uma dezena de cidades pelo mundo, acompanhando seus oito protagonistas espalhados pelo globo. Por meio das duas temporadas da série, pudemos passear junto dos sensates por São Francisco e Chicago, nos Estados Unidos, a capital inglesa, Londres, a bela e fria Reykjavik na Islândia, além da moderna Seul, na Coreia do Sul, da colorida Mumbai, na Índia, de Berlim na Alemanha e Nairóbi, no Quênia, e a Cidade do México. Cada cidade agiu quase como um protagonista à parte para contar as histórias de seus protagonistas, mostrando as culturas de cada lugar além das características intrínsecas à cada personagem.

Atenção: este texto contém spoilers!

Em linhas gerais, Sense8 conta a história de um grupo de oito pessoas que se vê conectado de uma hora para a outra por meio de sua consciência. Quando Angélica (Daryl Hannah) morre de maneira chocante e violenta, essas oito pessoas — Will Gorski (Brian J. Smith), Riley Blue (Tuppence Middleton), Capheus Onyongo (interpretado na primeira temporada por Aml Ameen e, na segunda, por Toby Onwumere), Sun Bak (Doona Bae), Lito Rodriguez (Miguel Ángel Silvestre), Kala Dandekar (Tina Desai), Wolfgang Bogdanow (Max Riemelt) e Nomi Marks (Jamie Clayton) — sentem a dor dela intensamente e descobrem, na sequência, que estão mentalmente e emocionalmente ligados. Essa ligação permite que cada um deles experiencie os sentimentos e sensações uns dos outros, além de se tornarem capazes de se comunicar mentalmente entre si e utilizar do conhecimento, da linguagem e habilidades que os outros possuem. As pessoas capazes de se comunicar dessa maneira são chamados de sensates, enquanto o grupo formado por eles é dominado cluster.

Sua maneira única de se comunicar e sentir os deixa confusos, e enquanto o cluster tenta descobrir o motivo pelo qual se conectaram sem nunca antes terem se visto, Jonas Maliki (Naveen Andrews) surge como uma ajuda misteriosa e inesperada que vai tentar colocá-los em segurança. Como se não bastasse a tentativa de entender o que está acontecendo com eles, Will, Riley, Capheus, Sun, Lito, Kala, Wolfgang e Nomi se tornam alvo de Sussurros (Terrence Mann), o homem por trás de uma organização poderosa que caça sensates em todo mundo a fim de utilizá-los em suas pesquisas e experimentos. Os sensates fazem parte de um tipo diferente de ser humano, o Homo Sensorium, e são os únicos que conseguem se conectar de maneira telepática, tornando-os especiais na mesma medida em que colocam um alvo em suas costas. Caçados por parte da OPB — Organização de Preservação Biológica —, eles precisam fugir da entidade que tem medo de que sua evolução coloque em risco a existência do Homo Sapiens visto que os sensates fazem parte de uma espécie superior.

Os episódios seguem em um crescendo de mistérios e teorias conspiratórias enquanto descobrimos pouco a pouco o que cada personagem desse cluster tem pra contar, e é aí que Sense8 ganha sua audiência para sempre. O trunfo de Sense8 está em seus personagens perfeitamente falhos, reais e críveis muito mais do que na sua trama de ficção científica mirabolante. Lilly e Lana Wachowski foram capazes de criar personagens completamente únicos, com motivações, histórias de vida, sonhos e desejos que geram identificação imediata com grande parte de sua audiência. Ao reunir personagens tão diferentes como protagonistas de uma história que atua em escala global, as Wachowski também abrem a possibilidade de vermos pessoas diversas recebendo destaque e protagonismo — algo pelo qual ainda precisamos lutar para que seja simples, e não uma novidade digna de nota.

Dentro do cluster composto pelos oito protagonistas, por exemplo, temos homens e mulheres de diferentes origens e backgrounds, cis e trans, e de diferentes orientações sexuais. De um policial a um arrombador de cofre, de uma farmacêutica a uma hacker ativista, de uma DJ a uma economista expert em artes marciais, de um motorista de van a um ator de novela mexicana, o cluster formado pelos protagonistas de Sense8 consegue ser diverso de maneira natural e simples, sem soar como algo que existe apenas para cumprir um requisito. As interações entre personagens tão diferentes entre si também aparecem como outro adicional em Sense8 e nós, fãs, não nos cansamos de assistir as cenas em que as personalidades se sobrepõem e misturam, construindo sequências incríveis como a cena em que Sun ajuda Capheus na luta contra uma gangue em Nairóbi, no terceiro episódio da primeira temporada, “Smart Money Is on the Skinny Bitch”, ou quando todos se reúnem na parada LGBT+ em São Paulo no sexto episódio da segunda temporada, “Isolated Above, Connected Below”. A união e as interações entre os personagens cria uma dinâmica que empolga quem assiste e nos faz sempre torcer pelo sucesso dos protagonistas e daqueles que amam.

Sense8 se transformou em uma série especial e com uma legião de fãs apaixonados por conta de momentos como a icônica cena em que todos os oito sensates cantam “What’s Up?” do 4 Non Blondes como se suas vidas dependessem disso, ou a cena do aniversário no primeiro episódio da segunda temporada, “Happy F*cking New Year”, quando tudo parece fora de lugar, mas exatamente como deveria ser. O roteiro de Sense8 pode soar um pouco confuso quando tenta explicar a ciência que permeia a existência dos sensates, mas acerta perfeitamente quando volta seus esforços para contar as histórias daquelas oito pessoas especiais capazes de se conectar mentalmente ainda que estejam separados por oceanos de distância. Sense8 tem a capacidade de abraçar todas as pequenas singularidades de cada um dos membros do cluster e dizer que, ei!, você não tem que se desculpar por ser como é, apenas seja, apenas viva — e essa mesma mensagem tem a capacidade de transcender a ficção e encontrar lugar no coração de cada fã que se sente estranho ou fora de lugar por não ser como o senso comum determina. Se Sense8 tem uma mensagem para passar, é a mensagem de que unidos nas diferenças nós triunfamos, e que abraçar as singularidades de cada um é um caminho inevitável e sem volta no mundo em que vivemos. E tudo bem. Ainda bem.

Sense8 abraça todas essas diferenças e faz delas o seu foco e o seu nicho. Dos personagens LGBT+, dos relacionamentos amorosos, românticos ou de amizade, da cumplicidade e do companheirismo, do mover mundos inteiros apenas para proteger a quem se ama — todos os vinte e quatro episódios da série são uma ode ao amor em suas formas mais puras, uma celebração do amor como há muito não se via em uma superprodução, ainda mais quando falamos de ficção científica. Ainda que tenha sido cancelada e não tenha podido contar a história que desejavam, Lilly e Lana Wachowski fizeram um belo trabalho ao reunir o estranho e o impossível em uma trama sincera e apaixonante, em uma era em que o anti-herói cínico sempre faz sucesso. Aqui, pelo menos, não tem espaço para esse personagem, mas para aqueles que aceitam e abraçam seus sentimentos sem pudores.

E quando falamos sobre abraçar o que se sente, é impossível não destacar a delicadeza e cumplicidade do relacionamento que Nomi e Amanita (Freema Agyeman) constroem durante toda a série. Talvez por isso tenha sido o casamento entre as duas o acontecimento responsável por fechar a história dos sensates com chave de ouro: do alto da Torre Eiffel, as duas mulheres fizeram uma das trocas de votos mais lindas do universo da cultura pop.

“Vivemos em um mundo que não confia nos sentimentos. O tempo todo, somos lembrados de que os sentimentos não são tão importantes quanto a razão… que sentimentos são infantis, irresponsáveis, perigosos. Somos ensinados a ignorá-los, controlá-los ou negá-los. Mal entendemos o que eles são, de onde vêm ou como parecem nos entender melhor do que nós mesmos. Mas eu sei que os sentimentos são importantes.”

Se vivemos em um mundo que nos pune por sentir demais, Sense8 está aí para mostrar que é exatamente isso o que nos faz humanos — sejamos Homo Sensorium ou Homo Sapiens. Após lutar contra uma organização de poder mundial e uma família que não aceita o fato de Nomi ser trans, as duas mulheres encontram a prova de que todas as diferenças e todas as forças que tentam nos dividir não vão superar o poder do amor que é capaz de nos unir.

Outro relacionamento digno de nota é o que Lito, Hernando (Alfonso Herrera) e Daniela (Eréndira Ibarra) formam quase sem perceber. Lito precisa vencer o medo que tem de perder sua carreira de galã de novelas mexicanas para se revelar gay e assumir o namoro com Hernando, e Daniela surge nas vidas dos dois quase como a solução que precisavam quando aceita fingir ser a namorada de Lito. A farsa não dura muito tempo e quando o relacionamento de Lito e Hernando vem a público, seu mundo parece virar de ponta cabeça – pelo menos até o momento em que ele aceita que não quer viver mentindo e decide ser quem verdadeiramente é. Ainda que o trio Lito, Hernando e Daniela apareça como alívio cômico em alguns momentos, a maneira como levam sua vidas e aceitam o relacionamento que nasceu entre eles é leve e bonito de ver.

Sense8 tem a delicadeza de abordar a sexualidade de seus personagens de uma forma desembaraçada e natural, e mesmo quando todos os sensates se envolvem sexualmente por meio do elo que compartilham, não há muito o que dizer — e ainda que haja um constrangimento por parte de alguns na primeira vez que isso acontece, logo se torna algo genuíno e que não precisa de muitas explicações da mesma maneira que acontece quando Will fala francês apenas porque Riley também fala, ou quando Kala demonstra sua destreza em armas para Rajan (Purab Kohli), seu esposo, por conta da habilidade de Wolfgang que todos dentro do cluster podem compartilhar.

Sense8 se despede e nos deixa com um sabor agridoce na boca. Ainda que tenha conseguido amarrar algumas pontas soltas e deixar seus oito protagonistas (praticamente) felizes para sempre, é certo que a série idealizada por Lilly e Lana Wachowski ainda tinha muito o que dizer. De maneira geral, “Amor Vincit Omnia” — escrito e dirigido apenas por Lana devido ao afastando de Lilly por problemas pessoais — vem para marcar em tons fortes de cor-de-rosa que, sim, o amor conquista tudo: amor, inclusive, que faz parte dos pilares sobre os quais a trama de Sense8 foi desenvolvida desde o princípio, sendo o outro pilar a empatia. O episódio final vem como um presente para os fãs que podem ter se visto na tela e nas histórias daqueles personagens como nunca antes, e fecha sua trama com um lembrete da força do amor. Se Jonas diz a Will que a dor é o que os une, no caso do nosso cluster favorito dá pra dizer que, sim, a dor os une, mas é o amor que os mantém juntos até o fim.

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