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15 anos depois, é possível perdoar Olívia?

Concebida como uma das protagonistas pelo autor Manoel Carlos, mas percebida como vilã pelo público, a Olívia de Ana Paula Arósio é a síntese do grande problema de Páginas da Vida (2006): funciona de uma forma no papel, mas em tela se traduz de outra maneira. Com uma trama interessante, mas se perdendo em muitos núcleos paralelos e grandes atores utilizados como “figurantes de luxo”, Páginas da Vida é considerada a última “grande novela de Maneco” e o início do declínio do autor como cronista do Leblon. Ambientada no famoso bairro carioca, o folhetim traz mais uma Helena de Regina Duarte como protagonista, dessa vez uma médica obstetra, seu último papel com Manoel Carlos.

Na verdade, apesar do nome da atriz e da personagem terem destaque, na prática a protagonista é Nanda (Fernanda Vasconcelos), que mesmo morrendo no começo da trama ainda une núcleos e move a história, gerando diversos embates entre os personagens. Em Amsterdã, a doce Nanda se descobre grávida de Leo (Thiago Rodrigues), enquanto no Rio de Janeiro Olívia se casa com Sílvio (Edson Celulari) numa festa suntuosa. Na lua de mel do casal na Europa, Nanda e Olívia se esbarram na capital holandesa e se tornam grandes amigas. Após a viagem tudo volta à rotina, mas Leo rejeita Nanda e os filhos fugindo para Londres e a deixando sozinha. Desesperada e com uma gravidez avançada de gêmeos, Nanda volta para o Rio onde sofre com mais um desprezo: o de sua mãe, Marta (Lilia Cabral), uma mulher prática e fria, que sente na gravidez inesperada da filha um fracasso pessoal. A moça encontra consolo no pai Alex (Marcos Caruso), um tipo frágil, mas amoroso; no irmão Sérgio (Max Fercondini), um atleta que segue os passos do pai; e na amizade com Olívia.

Já no capítulo 27, Nanda falece em decorrência de um atropelamento. É a Dra. Helena quem salva os bebês prematuramente nascidos, e assim se conecta com Clara (Joana Mocarzel) após a rejeição da avó. Olívia é a primeira a saber do acidente, já que a amiga tinha o telefone de Nanda consigo na hora. É Olívia quem avisa a todos e paga as despesas do hospital e do funeral da amiga. A morte de Nanda é imprescindível para a trama de Páginas da Vida iniciar. Desde Por Amor, Manoel Carlos vinha ensaiando inserir a história da jovem mãe que falece no parto deixando um bebê, e conseguiu de forma satisfatória apenas 20 anos depois. A tragédia da morte da personagem é o que dá o mote da novela até o seu final. Todas as ações se desenrolam a partir e por causa da morte de Nanda, as consequências e as reações dos personagens à ela.

páginas da vida

O realismo dos capítulos em que Nanda está no hospital, seu falecimento e o funeral,  dão a dimensão da importância da personagem no decorrer da novela. Nesse momento, se fazem presentes as três principais personagens femininas da trama, que dão movimento e motivo a ela, cada qual à sua maneira e ligadas por Nanda: Helena, que salva os bebês e adota Clara; Marta, que forja a morte da neta e assim cria o clima de tensão e suspense da narrativa; e Olívia, que, por transitar entre os mundos de Helena e Marta é a única que consegue as informações para elucidar o caso.

Olívia foi a primeira personagem contemporânea de Ana Paula Arósio em uma telenovela. Antes havia apenas participado de novelas de época, com grande sucesso. A atriz estava no auge da carreira quando interpretou Olívia, uma personagem complexa, confusa em si mesma, e que dependia inteiramente do carisma da atriz para gerar empatia no público. A carga emocional e de trabalho dos papéis de Manoel Carlos, que já havia sido criticada três anos antes em Mulheres Apaixonadas, acabou por fazer a atriz desmaiar no set de filmagem (ela não foi a única; Marly Bueno, a Irmã Maria, também desmaiou em casa), o que resultou em seu afastamento da trama por vários capítulos. Olívia traz consigo não apenas o estigma de ser Olívia dentro da trama, mas também de ser interpretada por Ana Paula Arósio. Apesar de encher a tela no inicio da novela, a estafa da atriz se faz visível do meio para o final, e Olívia perde um pouco da força psicológica ao se juntar a Leo.

O maior erro em relação a Leo foi a escalação de Thiago Rodrigues. O ator, saído de Malhação, estava despreparado para atuar em um papel com tamanha complexidade. A trama, que seria de redenção, acabou por virar uma cruzada contra a felicidade de um grande personagem carismático da novela e seu neto (Alex e Francisco). Ao invés da percepção do reencontro de um pai perdido com seu filho, a atuação e direção acabaram por fazer Leo o grande vilão de Páginas da Vida, tentando destruir as famílias felizes de Alex e Helena.

A virada da trama se dá quando Olívia reconhece Leo em um restaurante. É ali que começa o seu verdadeiro papel: juntar todos os núcleos. Nesse momento, seu casamento com Sílvio já está desgastado e ele começa a se envolver com a artista Tônica Werneck (Sônia Braga). Desinteressada pelo próprio casamento, Olívia toma como objetivo reconciliar Leo e Francisco (Gabriel Kaufmann). Ela faz isso como uma resposta, talvez traumática, mas definitivamente tardia, à morte de sua mãe. Olívia quer para o filho de Nanda o que ela mesma sempre teve: uma família unida, amável, um pai amoroso, que está sempre ali para ajudar e orientar os filhos. Porém, Leo não é Tide (Tarcísio Meira), e Olívia não leva em consideração que as crianças já têm essa figura no avô e na mãe adotiva.

Já Leo, tenta resolver o erro do passado por um sentimento de culpa em relação a Nanda, aflorado pela presença constante de Olívia. Ao longo da trama ele minimiza sua parcela no abandono da ex e dos filhos. Para ele, esse é um erro que tem o direito de consertar, mesmo que de forma equivocada, oferecendo dinheiro, da forma que foi ensinado pelo pai. Como alguém que nunca teve seus direitos negados, a certeza que Leo tem em conseguir a guarda do filho se explica por seu direito genético sobre Francisco. Como homem de negócios, ao seu ver, Leo tem todos os recursos para consertar o erro do passado fazendo o que acha ser certo, sem ponderar se é realmente o correto ou não.

páginas da vida

Olívia mantém o mesmo pensamento ao longo da novela, e por isso é percebida como vilã — suas convicções, afinal, vão de encontro tanto à felicidade dos outros protagonistas quanto ao bom senso. Desde o início, Páginas da Vida estabelece Olívia como uma mulher impulsiva, sem grandes pudores e que está acostumada a fazer e ter o que quer. Ela não pondera as consequências de suas ações e toma atitudes no calor do momento — um traço de sua personalidade mostrado principalmente na educação do filho Guilherme (Rafael Machado) e que a aproxima de Leo. Ao tentar fazer o que é certo, Olívia não leva em conta todas as pessoas envolvidas na situação. Legalmente, um pai teria o direito de ir atrás da guarda e convívio do filho, mas, no caso de Leo, o abandono da namorada grávida e o fato de não ter procurado por Nanda nem pelas crianças durante cinco anos, pesam contra ele.

A culpa e o remorso de Leo não apagam o que ele fez e não lhe dão o direito sobre os filhos que abandonou. Os atos passados geram consequências que continuam a reverberar no presente. Por ser rico, Leo acredita que dinheiro pode resolver todos os problemas (como tentou fazer com Nanda quando pediu que ela abortasse e quando deu dinheiro para Alice sumir da vida dele). Manoel Carlos, no entanto, mostra que nem sempre dinheiro é o suficiente; Leo não pode viver uma vida diferente como se nada tivesse acontecido. O rapaz representa um tipo acostumado a ter tudo o que quer no momento que quer, e o autor dá esperanças ao público de que nem sempre esse tipo sai vitorioso. Ao se unir a ele, Olívia também sai vilanizada, mesmo tentando ao máximo ser fiel a si mesma e suas convicções o tempo todo.

“Eu não sou fraca, mas eu também… eu não sou de ferro como possa parecer. Eu tenho minhas dúvidas, eu tenho as minhas crises de insegurança, como qualquer mulher.”

Numa conversa com as irmãs, no capítulo 115, Olivia se revela, acima de tudo, extremamente insegura. Uma quase contradição em uma personagem que se coloca como segura de tudo: de si mesma, dos outros a sua volta, das situações em que se coloca e das pessoas com que se envolve. Ao contrário de Maria Eduarda (Gabriela Duarte) em Por Amor (1996), que internamente é segura de si, mas não consegue passar essa segurança para os outros, Olívia mostra uma segurança externa que na verdade ela não tem. A insegurança de Olívia aparece principalmente em suas atitudes e falas com o marido Sílvio. É essa insegurança que mina seu casamento e a faz duvidar das intenções de Sílvio para com Tônia (acusações que depois se revelam corretas). Nesse ponto, Alice (Regiane Alves) e Olívia são parecidas: ambas inseguras em seus relacionamentos, ao mesmo tempo em que minam esses mesmos relacionamentos com sugestões sobre outras mulheres que as fazem sentir inseguras. E ambas acabam por ter razão sobre essa insegurança, já que nos dois casos são abandonadas em favor dessas mesmas mulheres.

Uma das afirmações mais confusas de Olívia, e que ela fez durante toda a trama, é sua crença na diferença entre lealdade e fidelidade. Para ela, o que a incomodou no fim do casamento não foi a infidelidade de Sílvio, mas o fato de ele ter sido desleal. Em outras palavras, o casamento termina não pela traição em si, mas saber que ele não a amava mais. A lealdade, para Olívia, não está ligada à fidelidade porque, para ela, lealdade é ser claro em suas intenções, enquanto fidelidade é estar sempre ali para a pessoa. Olívia não necessariamente esperava que Sílvio sempre estivesse presente; ela sabia que o casamento tinha um prazo de validade, assim como todas as outras pessoas ao seu redor também o sabiam (todos viam a diferença de personalidade dos dois). Mas, para ela, a pior traição de Sílvio foi nunca ter falado para a esposa que não a amava mais.

Além da insegurança, o casamento com Sílvio terminou principalmente pela incompatibilidade dos dois e suas vidas completamente diferentes. Sílvio não gostava que Olivia se dedicasse tanto ao trabalho, algo que ela gostava de fazer. Ao terminar com Olívia, Sílvio procura constantemente mulheres com o mesmo perfil que ela: trabalhadoras quase workaholics, focadas em outros assuntos, que veem o casamento como prioridade secundária. Tanto Tônia, a artista reclusa, quanto Márcia (Helena Ranaldi), que quase se separou do primeiro marido por causa do trabalho, priorizam suas vidas profissionais acima das pessoais. Sílvio procura, então, mulheres que ele possa modificar através de uma chantagem romântico-emocional para elevar seu próprio ego.

Ao terminar o casamento com Sílvio, Olivia inicia um envolvimento romântico com Leo, por ciúmes do ex-marido com Tônia. O troca-troca de casais é mais um erro de Páginas da Vida, com o autor apostando em casais inconsistentes, atores sem química, e que não tiveram um desenvolvimento necessário. Olivia e Leo se encaixam em todas essas categorias e acabam deslocados do tom romântico da trama.

A complexidade dos personagens fazem de Páginas da Vida a novela mais psicológica de Maneco, juntamente com Por Amor. Muitos personagens se comportam em oposição ao comportamento dos pais ou por causa de traumas causados por eles, como Gisele e a própria Nanda. Durante a trama, Olívia sempre busca se comportar diferente da santidade da mãe, ao mesmo tempo que quer um casamento perfeito como o dos pais. Todos os filhos de Tide têm comportamentos semelhantes, buscando ou se opondo ao comportamento dos pais; em busca de um relacionamento igual ao deles, o amor romântico ideal, que acaba não acontecendo (por motivos de incompatibilidade ou mau-caratismo do parceiro escolhido); tentando manter o mesmo relacionamento entre pais e filhos, com liberdade demais, o que leva os netos do Tide a não terem limites (como os filhos de Elisa) ou não terem relacionamento algum com os pais (filha da Márcia e Marina com Carmem), ou ainda com relacionamentos totalmente disfuncionais (Rafael e os pais, que sabem de tudo da vida dele, e Marina e Bira são alguns exemplos). É possível entender todas as motivações dos personagens além de apenas adjetivos superficiais

Olívia não foi inserida em Páginas da Vida para substituir Nanda como a mocinha jovem da novela. Por isso mesmo é uma das personagens mais complexas de Manoel Carlos. Ela erra, e muito, mas sempre em busca de ser verdadeira consigo mesma. Olívia tem uma bússola moral própria, que muitas vezes se choca com o senso comum, dos outros personagens e do próprio público. E ela paga por ser si mesma com suas inseguranças e certezas, com uma vilanização desproporcional à personagem, que a leva a ser considerada vilã, embora esteja, na verdade, apenas exercendo o papel que o próprio autor designou a ela: unir Clara e Francisco. Se não é possível perdoar Olivia, é possível, pelo menos, entendê-la.

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