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The Dropout: entre golpes, feminismo liberal e capitalismo

Entre o ano passado e esse ano estamos vendo uma enxurrada de produções de séries sobre o que chamo de white scammers [golpistas brancos]. Baseadas em fatos reais, os documentários ou versões fictícias de pessoas que deram golpes milionários estão por toda parte nos serviços de streaming. Filmes e séries como Fyre Fraud e FYRE: O Grande Evento que Nunca Aconteceu, Bad Vegan, O Golpista do Tinder e Inventando Anna são alguns exemplos, além — é claro — de The Dropout.

Sou fissurada por true crime e se não assisti a todas essas histórias, assisti a maioria — e muita gente assistiu também. Algumas, inclusive, ganharam com isso, inclusive os próprios criminosos: Shimon Hayut, o Golpista do Tinder, aumentou sua fortuna depois que o documentário sobre suas fraudes estreou na Netflix. O me leva a questionar: por que essas histórias são tão atraentes?

Foi com muitas ressalvas que comecei, então, a assistir a minissérie da Hulu, The Dropout. Já conhecia a história de Elizabeth Holmes, criadora da empresa Theranos, depois de assistir a vários vídeos sobre o caso no YouTube e estava desconfiada desse tipo de série em que todos os golpistas têm a mesma cara (branca). Mas alguns amigos começaram a assistir, recomendaram e o elenco de fato chama a atenção, visto que a série conta com nomes de peso como Amanda Seyfried, Naveen Andrews, Elizabeth Marvel, Sam Waterston e Stephen Fry. Ainda assim, achei que assistiria o primeiro episódio e não precisaria continuar (como aconteceu com Inventando Anna), mas a verdade é que The Dropout me conquistou.

É spoiler se é uma história real? Não sei, mas a seguir será comentando o caso da Elizabeth Holmes e como ele é desenvolvido na série The Dropout.

Elizabeth Holmes foi considerada uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela revista Times em 2015. Aos 19 anos de idade, fundou o laboratório Theranos que prometia revolucionar a maneira como os exames de sangue eram feitos. E como a história é sobre golpes e mentiras, a empresa de Elizabeth era uma farsa. Uma farsa que enganou o Vale do Silício, grandes empresas farmacêuticas e tornou a vida das mulheres no mundo corporativo ainda mais difícil.

Holmes é uma capitalista convicta e segue todos os passos que os maiores capitalistas da década seguiram: saiu da prestigiada Universidade de Standford antes de terminar o curso de engenharia química (daí o nome da série e do podcast em que a série foi baseada — “dropout” em inglês se refere a pessoas que deixam a faculdade sem concluir os estudos. Outros famosos dropouts foram Mark Zuckerberg e Bill Gates). Ela explorou o trabalho de pessoas mais qualificadas do que ela, colocou seu nome em patentes que nunca conseguiria fazer sozinha. O que isso tem a ver com feminismo? Ela é uma mulher fazendo exatamente aquilo que os homens capitalistas exploradores fazem.

Elizabeth Holmes ganha vida na pele de Amanda Seyfried, famosa por interpretar Karen, uma das mais engraçadas Meninas Malvadas (2004) e a romântica Savannah Curtis de Querido John (2010). Seyfried é perfeita como Holmes e já está cotada para o Emmy pela performance. A personagem é um caso a parte — foram justamente sua personalidade e aparência que a ajudaram a ganhar o Vale do Silício e Amanda entendeu muito bem suas excentricidades. Holmes muda completamente durante a série: no início ela é esquisita, tem dificuldades de se enturmar e de entender as outras pessoas, mas, mesmo assim, é sincera e tenta ter empatia com as pessoas a sua volta. É com empatia e capacidade de persuasão que ela consegue um time de peso e financiamento para começar seu laboratório. Suas ambições, porém, são maiores que sua ética.

Com o passar do tempo, Elizabeth entende que para ser uma CEO de sucesso ela precisa ser como os homens — ou o que ela entende sobre homens. Como ainda tem dificuldade de se adaptar, ela mais uma vez olha para seus ídolos — CEOs homens do Vale do Silício — e passa a imitá-los não só em suas ações como dona de uma startup, mas como suas personalidades, modo de falar, agir e vestir. Ela engrossa a voz, começa a se vestir como Steve Jobs, toma atitudes extremamente dúbias com pessoas que sempre foram seus aliados. Amanda consegue interpretar fielmente essas mudanças. Nada é sutil. Holmes é forçada, quase robótica em todas as situações. Até mesmo com sua família ou com o namorado secreto.

No início, achei que a série colocaria Elizabeth Holmes como uma desbravadora do Vale do Silício, a maior das girlbosses. Não foi o caso. Durante sua trajetória, Elizabeth se utiliza dos argumentos das feministas liberais e de termos que ficaram famosos nos anos 2010. Essa foi a época que começamos a ver lojas cheias de camisas estampadas com a palavra “feminismo” e toda garota queria ser uma girlboss. O feminismo estava na moda e, como tudo no capitalismo, passou a ser vendido e desviado de seu significado real. Mas o que a série faz com brilhantismo é ilustrar como essa versão — a de que Holmes é um símbolo do feminismo no Vale do Silício — é insuficiente e não condiz com a realidade. Elizabeth Holmes não é uma feminista, ela não quer abrir caminho para outras mulheres se tornarem CEOs. Está pensando somente nela mesma o tempo todo. É sobre individualismo e capitalismo, não sobre feminismo. A ideia de que um feminismo pode existir nessas condições é absurda e é o que faz a série ter seus momentos de comédia. Em certo momento Holmes se compara com Margaret Thatcher.

Em sua essência, The Dropout e a história de Elizabeth Holmes são uma ilustração sobre o feminismo liberal e branco do início dos anos 2000 (e, diria, de agora também). Dentro da cultura hierárquica e patriarcal do Vale do Silício, que mesmo com uma cara moderna continua tendo os mesmos preconceitos de qualquer outra indústria, Holmes se utiliza da linguagem feminista pop dos anos 2010 e a série consegue mostrar o completo absurdo do feminismo dentro de um sistema capitalista exploratório. Ela não perde tudo por ser mulher —  perde tudo por não fazer bem seu trabalho. Ela não apenas não seguiu as regras (o que acontece sempre, nenhum bilionário é bilionário por ser ético e justo), como não tinha o conhecimento e tecnologia suficientes para colocar suas ideias em prática. Essa é uma discussão que não tenho muito como opinar. Se Elizabeth realmente começou a acreditar em suas próprias mentiras ou se ela estava apenas fingindo para comprar tempo até descobrir uma maneira de fazer sua invenção funcionar, não sei. Mas a série não deixa explícita uma versão ou a outra, e é isso que gostei sobre a versão da Hulu.

A série não é completamente parcial a Elizabeth, mas também não a coloca como um monstro. Ela é uma mulher em um mundo dominado por homens. Tem dificuldade de ser relacionar e fazer amigos e foi vitima de abuso sexual durante a faculdade. Todos esses fatos fazem com que tome as decisões que tomou, mas não a desculpe de seus pecados. Elizabeth é fria e calculista. É uma mulher branca de classe média alta que possui muitos privilégios. Namora um homem mais velho que é controlador, mas no momento que ele não a serve mais, ela o larga. Não vê problema em passar por cima das pessoas que um dia foram importantes para ela. Nada é uma verdade absoluta e isso faz com que a trama seja muito mais interessante.

The Dropout é a melhor produção da leva de golpistas por muitos motivos: como disse antes, o elenco é de invejar. O roteiro também é muito bom e eles vão direto ao ponto, sem muito tempo perdido em cenas sem importância. The Dropout é também uma janela para os anos 2010, em que as pessoas faziam filas para o novo iPhone, Katy Perry lançava seu hitFireworks” e o Facebook ainda era relevante para os jovens. A série faz questão de lembrar a todos os millennials que eles estão ficando velhos, que o mundo mudou e que temos que aceitar que somos cringe agora. Em todo caso, recomendo a série aos amigos millennials.

Inventando Anna (série da Netflix sobre Anna Delvey) tem uma história muito parecida com The Dropout: duas mulheres brancas nos anos 2010 utilizando seu gênero e feminismo para lucrar de maneira não lícita. Mas, sem focar muito na história, que também é muito interessante, a série de Shonda Rhimes não está no mesmo nível esteticamente. Mesmo assim, séries como Inventando Anna, Bad Vegan: Fame, Fraud, Fugitives e The Dropout fazem um recorte muito específico da história: aquilo que muitas mulheres ao longo dos anos lutaram tanto para ter — liberdade, autonomia, respeito — foi utilizado pelas próprias mulheres para ganho pessoal. Isso é muito ruim?

A resposta é sim: depois que Elizabeth foi desmascarada, muitas mulheres no próprio Vale do Silício sofreram retaliação. Houve até o caso de mulheres que decidiram mudar a cor do cabelo para não serem lembradas como mais uma Elizabeth Holmes. Um ambiente que já era hostil contra mulheres só se tornou mais nefasto. Sem falar que essas mulheres possuem todo tipo de privilégio: são brancas, geralmente jovens, bonitas e de classe média. Conseguem pagar fiança, ficar o tempo mínimo na prisão (quando ficam) e faturar com a fama. É fácil cair no conto feminista de mulheres enganando homens  (girlpower!) mas a realidade é que quem sofre com esses golpes são as próprias mulheres — mulheres essas, em sua maioria, pobres e não-brancas. Erika Cheung, que ajudou a denunciar Holmes, uma mulher de descendência asiática, perdeu o emprego, dinheiro, a paz e não ganhou uma série sobre sua vida. Além delas, muitas outras sofreram com as golpistas não só diretamente, mas com seus legados.

Apesar disso, não vou terminar esse texto colocando tudo na conta das mulheres. Temos muitos exemplos de homens golpistas e esses também fazem estragos que vão além do que é visto em primeira mão. No início do texto perguntei por que essas histórias são tão atraentes. É catártico ver qualquer pessoa conseguir enganar grandes corporações ou bilionários exploradores. Durante o caso do Fyre Festival, por exemplo, achei muito engraçado ver pessoas ricas serem enganadas por um homem rico padrão. Um grande Robin Hood reverso. Mas a verdade é que as pessoas ricas vão se recuperar e levar a vida adiante enquanto trabalhadores braçais e assistentes que também foram enganados no processo perdem tudo o que conquistaram durante uma vida. No final, nada no capitalismo é justo — nem mesmo os golpes.


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