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Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial: “desde o início nós vagamos, e vagamos até hoje”

O terceiro volume da série Wayfarers, de Becky Chambers, não poderia ter chegado até mim em um momento melhor. Fiz a leitura durante o recesso de final de ano mesmo que o tenha recebido alguns meses antes disso — não queria me apressar na leitura, visto que Chambers é uma das minhas autoras favoritas, e podia sentir que esse livro seria especial de alguma maneira. Em Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial ainda estamos no universo de ficção científica criado pela autora, mas os temas de que ela trata — morte, pertencimento e a busca por um recomeço — são próximos às nossas vidas reais como nunca antes.

O ano de 2020 não foi fácil, e só chegamos até aqui com muito esforço — algo parecido com o que aconteceu aos humanos que precisaram deixar seu moribundo planeta Terra em busca de um novo lugar para chamar de lar. Porém, até serem resgatados pela CG, a Comunidade Galáctica, as naves que compõem a frota do Êxodo vagaram por anos tendo apenas a si mesmas como companhia. Projetadas por arquitetos para serem o melhor possível no que se refere a transporte, residência e suporte à vida, as naves continuaram a ser utilizadas pelos humanos mesmo depois de terem sido aceitos como parte da CG — a frota do Êxodo não era mais o único lugar em que poderiam viver e enquanto muito deles decidiram explorar as múltiplas possibilidades ao redor do vasto universo e planetas variados, morando em cidades alienígenas ou em colônias terrestres, outros tantos optaram por continuar vivendo em suas já conhecidas naves.

Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial difere um pouco dos dois livros anteriores escritos por Becky Chambers — A Longa Viagem a Um Pequeno Planeta Hostil A Vida Compartilhada em Uma Admirável Órbita Fechada — por que, embora ainda estejamos no espaço, a trama de seu terceiro livro foca especialmente nos humanos, suas relações enquanto comunidade e o que esperam da vida como parte da frota do Êxodo e da CG. Os humanos estão presentes nos outros livros, claro, muitos dos personagens principais são como eu e você, mas aqui a trama fala muito mais de perto com o que significa ser humano, a efemeridade da vida, o apagar das memórias e o que o universo tem haver com tudo isso. No livro de Becky Chambers, séculos atrás, os últimos humanos deixaram a Terra em busca de um novo lar, um recomeço, e a frota do Êxodo é uma relíquia viva desses tempos, é a memória dos últimos humanos nascidos na Terra e que precisaram desbravar o espaço para continuarem vivos. Os humanos que lá vivem, agora, não precisam ficar restritos às suas naves, que chegaram ao destino e cumpriam sua função de mantê-los vivos, mas alguns questionamentos a respeito de seu papel no universo são tão comuns quanto sempre foram.

Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial

É por meio desses questionamentos que acompanhamos cinco personagens principais em sua jornada em Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial: Isabel, uma mulher já idosa que trabalha nos Arquivos de uma das naves do Êxodo e se lembra de como os humanos foram recebidos na CG (spoiler: nem todos queriam dar uma chance para a nossa espécie); Tessa, uma jovem mãe de duas crianças que gosta de seu trabalho na nave porém começa a pensar em outras possibilidades para o futuro, principalmente por conta dos filhos; Eyas, uma cuidadora que dá o destino final para quem morre nas naves parte da frota; Kip, um adolescente que não se sente muito inclinado a continuar vivendo em uma neve, cansado de todo o intrincado sistema necessário para que a comunidade deles permaneça funcionando; e Sawyer, um jovem forasteiro que chega na frota e, ainda que seja humano, vivia até então em Mushtullo, um lugar marcado pela fome e o crime, que decide tentar a sorte na frota ao ouvir falar de que todos os seus membros são cuidados e que ninguém passa fome. Por meio dos olhares desses cinco personagens é que seremos conduzidos pelos meandros da frota do Êxodo, seu sistema, sua comunidade, sua cultura, sua memória e, principalmente, seu futuro.

O que sempre me atraiu nos livros de Becky Chambers, além da ficção científica em si, um gênero de que gosto muito, é a maneira como a escritora aborda os mais diferentes temas em seu trabalho com uma delicadeza ímpar, sempre apontando a importância de aprender a conviver com as diferenças e aceitar uns aos outros por completo. No universo de Chambers faz perfeito sentido que seus personagens se amem independente de gênero e orientação sexual (ou espécie alienígena), assim como faz todo o sentido entrar em uma nave para dar uma volta para ver o Sol após um longo dia de trabalho. Gosto da naturalidade com que Chambers insere temas atuais em seus livros, sempre desenvolvendo suas tramas como espelhos do nosso tempo, o que faz com que seus personagens passem por dramas tão comuns às nossas vivências e rotinas. É o caso, por exemplo, da relação de cada um deles com a morte.

Nós nunca lidamos tanto com a morte quanto nesse ano de 2020, e ainda que esse seja o destino final de todos aqueles que vivem, esse processo não precisaria ter sido acelerado por meio das aglomerações de pessoas que decidiram ignorar a letalidade do coronavírus. Some-se a isso um governo que pouco se importa com sua população e um presidente mais preocupado em expor roupas e a pescar do que lidar com seus eleitores, e temos a receita perfeita para o caos. Pode parecer forçação de barra amarrar a trama do livro de Becky Chambers com a pandemia que vivemos e enfrentamos diariamente desde o início do ano passado, mas enquanto leitora foi impossível não refletir a respeito do que vivemos enquanto lia a trama desenvolvida por ela. Em Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial a morte é uma constante tanto quanto em qualquer outro lugar do universo, estamos fadados a morrer desde o momento em que nascemos. O que faz diferença na equação final é o que decidimos realizar entre esses dois momentos, como encaramos a comunidade de que fazemos parte e o que construímos de positivo enquanto isso.

“A vida significava morte, sempre. Mas, da mesma maneira, a morte significava vida.”

Nas frotas do Êxodo as naves não possuem recursos infinitos, assim como nosso planeta também não possui. Dessa maneira, tudo o que pode ser reaproveitado, o é, e todas as pessoas que vivem na frota sabem disso e o que deve ser feito para que o sistema continue girando e suportando a vida no espaço. O trabalho de Isabel, nesse contexto, é tão importante quanto o de Eyas: enquanto Isabel cuida para que a memória da raça humana permaneça, com seus erros, acertos e tropeços, Eyas é uma das encarregadas para que mesmo no momento da morte o membro da frota possa contribuir para que esse ciclo continue existindo. O senso de comunidade que existe entre os habitantes da frota do Êxodo é forte e é o que faz com que seja possível que as naves permaneçam comportando suas famílias após gerações vivendo no espaço. É bonito e inspirador ver como tudo funciona na frota, quase uma utopia se formos pensar em como nosso mundo hoje é tão virado do avesso que as pessoas não conseguem ficar em casa nem mesmo para poupar a vida de seus familiares.

Ler Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial durante uma pandemia pode ter sido o melhor e o pior do mesmo mundo: o melhor porque a narrativa de Chambers é capaz de nos inundar de esperança e empatia, acreditando em um futuro compartilhado com consciência, e o pior por perceber que ainda nos falta muito para evoluir enquanto sociedade que pensa no próximo e não apenas em si mesmo para tomar decisões. Todos na frota sabem seu papel e, tanto por isso, os jovens, antes de serem designados para uma carreira, passam por todas elas enquanto estagiários — e é o que Kip faz, embora reclame um bocado a esse respeito. Para ele, um adolescente, não há sentido em continuar vivendo em uma nave quando cidades alienígenas e colônias terrestres podem ser uma opção, mas aos poucos ele começa a entender, principalmente após um chocante acontecimento tomar parte em sua nave, que não há apenas um sentido maior em preservar as naves (e as memórias) que deixaram a Terra centenas de anos atrás, como essa é uma função primordial para a raça humana como um todo.

E é nesse momento que entramos em outro tópico abordado por Becky Chambers em seu livro, o valor da memória. A função de Isabel, como parte da frota do Êxodo, é cuidar dos Arquivos, o que significa basicamente dizer que ela mantém os registros e as memórias da raça humana disponíveis para que seus descendentes, os nascidos no espaço, possam ter contato com seu planeta natal e seus antepassados. Nos cinemas que existem nas naves do Êxodo, por exemplo, são reproduzidas imagens de ambientes naturais do planeta Terra, e os moradores dessa comunidade podem desfrutar de cenas que não podem mais viver, afinal eles moram em naves cujos ambientes são automatizados, e ainda que os ciclos das horas — além de fenômenos naturais como nascer e pôr-do-sol — sejam simulados para manter a rotina, não há nada além da imensidão do espaço ao redor deles para qualquer lugar que se olhe.

“(…) mesmo quando a gente perde alguém que ama, essa pessoa não nos abandona.” Ela trouxe a palma da mão para o peito. “Os nossos ancestrais são parte de nós. São eles que nos mantêm vivos.”

O historiador Pierre Nora diz que a memória é viva, e os Arquivos cuidados por Isabel servem para manter essa memória entre todos aqueles que descendem dos que deixaram a Terra em busca de um recomeço. Como diz a também historiadora Emília Viotti da Costa, “um povo sem memória é um povo sem história” e está fadado a repetir os mesmos erros do passado tanto no presente, quanto no futuro. Por isso a função de Isabel é tão importante — não apenas no contexto da trama de Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial, mas também para explicar para o leitor o funcionamento das naves da frota do Êxodo e de que maneira a comunidade de seres humanos conseguiu prosperar mesmo em situações tão adversas como uma fuga pelo espaço em busca de um lugar para continuar vivendo. Por meio dessa visão, da explicação de Isabel dos pormenores da frota, fica ainda mais evidente que viver em sociedade não é apenas existir ao mesmo tempo que o outro. Na verdade, vai muito além disso: nossas vidas estão conectadas umas às outras de maneiras que vão além do conhecimento imediato e cada ação e decisão importa no todo. O que decidimos individualmente, impacta no todo, e em um sistema que precisa funcionar à perfeição, como no caso da frota do Êxodo, cada decisão deve ser pensada e considerada em larga escala.

Dos três livros de Becky Chambers lançados no Brasil — todos pelas DarkSide Books com um impecável trabalho de edição, vale frisar —, Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial talvez tenha sido o que mais me tocou em nível pessoal. Adoro todos os três livros, mal posso esperar pelo próximo, mas esse, com certeza, devido a toda a situação em que vivemos enquanto sociedade, é o mais marcante. A autora sempre teve o costume de focar mais nas relações pessoais entre seus personagens do que nos enredos característicos de ficção científica como batalhas intergalácticas e afins, e aí está seu diferencial: suas tramas podem se passar no espaço, em meio às estrelas de uma comunidade galáctica muito mais avançada do que podemos imaginar, mas ainda assim são capazes de falar com a gente de maneira muito pessoal. Os problemas de Tessa, mãe de duas crianças e com um pai idoso, cujo marido fica fora em longas excursões, pode refletir com as questões de qualquer mãe comum que você conhece, da mesma maneira que Sawyer, querendo pertencer a algum lugar, faz o caminho inverso para tentar encontrar suas raízes. Nada é gratuito nos livros de Becky Chambers e tudo está perfeitamente conectado.

Quando escrevi sobre o segundo livro da série Wayfarers, A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada, disse que ficção científica também pode ser sobre pessoas, suas lutas e seus dilemas, seus sonhos e suas conquistas, e isso continua verdadeiro também a respeito desse terceiro livro. Becky Chambers tem a capacidade especial de refletir nossas questões mundanas em seres vivendo daqui a centenas de anos e ainda assim nos fazer conectar com eles, sorrir, chorar e torcer por desfechos positivos para suas histórias. Não queria terminar de ler o livro com pressa, queria aproveitar a jornada entregue por Chambers com toda a atenção necessária, mas foi difícil — ao mesmo tempo em que eu precisava chegar ao final para saber o que aconteceria a Isabel, Tessa, Eyas, Kip e Sawyer, também queria prolongar essa viagem o quanto possível. Assim como seus predecessores, Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial fala de sentimentos intrínsecos à raça humana de uma maneira que somente Becky Chambers é capaz de fazer.

“Do solo, nos erguemos. De nossas naves, vivemos. Nas estrelas, sonhamos.”

Os Registros Estelares de Uma Notável Odisseia Espacial

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora DarkSide Books.


** A arte em destaque é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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