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As mulheres de Torto Arado

É comum ouvir falar dos grandes heróis — ou anti-heróis — da literatura. No cenário nacional não poderia ser diferente, estamos cercados dos protagonistas masculinos mais célebres, novos ou velhos, vivos e até mesmo mortos e definitivamente imortalizados nas páginas dos considerados clássicos, escritos por Machado de Assis, Lima Barreto, José de Alencar e outros. Entretanto, o que mais desperta meu interesse na literatura é o oposto disso. Admito que pouco leio os já consagrados, me interesso muito mais pela produção contemporânea e de preferência protagonizada por mulheres.

Foi seguindo a minha inclinação que cheguei a Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, publicado em 2019 pela editora Todavia e protagonizado por duas irmãs. O que mais me chamou atenção nos comentários que circulavam sobre o livro foi a exaltação do romance como um clássico. É a união das duas tendências: uma obra atual, mas já muito consagrada. Um clássico dos nossos dias sem heróis, mas recheado de heroínas. Vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos do ano passado, a força de Torto Arado reside, em especial, nas suas personagens femininas.

Bibiana e Belonísia: separação e união por fio de corte

As protagonistas do romance são Bibiana e Belonísia, irmãs e filhas de trabalhadores rurais do sertão baiano. Descendentes de negros que foram escravizados, vivem na fazenda Água Negra, onde as casas são feitas de barro e o plantio é a sobrevivência. A narradora da primeira parte é Bibiana, que começa a narrativa com 7 anos. Acompanhada da irmã um ano mais nova e movida pela curiosidade, ela aproveita uma distração de Donana para fuxicar a mala que a idosa guarda com tanto esmero. Após remexer os pertences da avó paterna, um ato de pura inocência tem um desfecho que une o destino das irmãs. Com a faca de cabo de marfim nas mãos e o sangue escorrendo pelo corpo, a dependência entre elas estava criada.

O evento trágico aumenta ainda mais a intimidade e a cumplicidade entre as irmãs durante a infância e o início da adolescência. É a história delas que vai se desenvolver nas páginas que se seguem, entrecortada pelas relações familiares, as questões de raça, as tradições religiosas afro-brasileiras, os diálogos com o período escravista e seus reflexos na sociedade mesmo após a abolição. Bibiana e Belonísia continuam a crescer quase como um único ser, uma incorporada a outra, uma transmitindo os desejos da outra para o resto do mundo.

Para falar indiretamente do que ocorrerá com as garotas durante a adolescência, Itamar Vieira Junior introduz outras duas mulheres, também irmãs, Crispina e Crispiniana. As histórias das duas duplas se misturam e se refletem, até que o rompimento entre Bibiana e Belonísia acontece. A mais velha foge de casa em busca de uma perspectiva que Água Negra não dará.

A segunda parte do livro é narrada por Belonísia, sem a irmã como seu par, mas ainda assim desenvolvendo-se e criando raízes na fazenda. Ela descobre o prazer que sente em cuidar da terra e a dor de um relacionamento que não tem um bom futuro. Amadurece também ao ver o martírio da vizinha Maria Cabocla, que sofre com as agressões do marido. Depois de anos, Bibiana retorna, casada e com filhos, e o laço entre as duas se estreita novamente apesar dos problemas do passado. A união entre as duas mostra-se mais forte do que qualquer mágoa de abandono ou desavença da juventude.

Bibiana e Belonísia são personagens que vão ficar marcadas no cânone literário nacional. São independentes, completas, autênticas, munidas de gostos, temores e anseios que as fazem reais. E nada traz mais profundidade a um personagem do que pensar: “essa mulher existe”.

As outras figuras femininas de Torto Arado

Além de Bibiana e Belonísia, Torto Arado é povoado por outras mulheres, tão espirituosas e complexas como as duas protagonistas. As irmãs Crispina e Crispiniana, que poderiam ser um espelho para o relacionamento das jovens, e a mãe Salustiana, que acompanha o crescimento das filhas, são alguns exemplos. No entanto, é a avó Donana, que mobiliza maiores suspenses e tem uma trama própria apresentada.

Donana já é introduzida, no primeiro capítulo, no meio de um mistério. A mala que esconde de todos contém pedaços da sua história que só vão ser descritos ao longo do livro, num retorno ao seu passado em outra fazenda. Seu trabalho diário, seu lado espiritual, sua viuvez e seu relacionamento com os filhos, principalmente com Carmelita e com José Alcino, que virá a ser pai de Bibiana e Belonísia, revelam a personalidade da mulher. As ações de Donana contrapõem o seu silêncio e demonstram que ela está longe de ser uma pessoa fraca.

Salu, como costumam chamar a mãe das meninas, também tem seu papel de importância. Não é apenas a esposa de Zeca, o curandeiro e líder religioso, é também uma figura relevante em Água Negra, uma mulher que reúne conhecimentos sobre a terra e passa a frente a memória dos ancestrais. A história dos antepassados é parte fundamental para os personagens de Torto Arado e é função das mulheres repassá-la aos mais novos.

Na terceira e última parte, o autor introduz mais uma força feminina para tomar conta da narração. Santa Rita Pescadeira, que desde o início aparece no jarê por meio de dona Miúda, conduz a resolução dos mistérios em meio à polifonia. A entidade vaga sobre a fazenda, que já não é mais a mesma. O abandono enrustido de liberdade é cada vez mais evidente. Após a perda de duas lideranças, os moradores de Água Negra estão dispostos a lutarem pelo o que pertence a eles por direito, pelo pedaço de terra que sempre cuidaram e cultivaram. E na linha de frente estão as irmãs e a encantada, as três potências femininas que impulsionam o romance.

Mulheres para serem lembradas

As personagens femininas de Torto Arado são uma lembrança de mulheres pouco faladas, de lugares esquecidos, que trazem consigo uma força descomunal e todas as facetas que uma mulher de carne e osso têm. De Bibiana a Belonísia, as irmãs que são opostas e complementares, passando pela avó Donana e pelas irmãs Crispina e Crispiniana, que preenchem a trama com personalidades diversas. As personagens do romance contam a história de um Brasil que precisa ser olhado.

Seja pela visão crítica da juventude de Bibiana, pela maturidade de Belonísia ou pela onisciência e onipresença de Santa Rita Pescadeira, o livro levanta as questões de raça e classe sob uma nova perspectiva, em um novo lugar e com novas figuras. Os atravessamentos históricos são narrados com um olhar de cuidado e de luta. Torto Arado já é um clássico do nosso tempo e dessa vez, quem dita as regras são as mulheres.

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