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Lá também existe aqui

Gertrude Stein usou a frase “there are not there” (“lá não existe lá”, em tradução livre) para descrever a cidade de Oakland, um dos principais refúgios das populações originárias dizimadas pelos colonizadores nos EUA. Hoje majoritariamente urbana e fora da área de reservas, a população remanescente dos moradores originários luta para sobreviver à marginalização e sair do “não lugar” que lhes nega cidadania plena. É muito comum ouvir por aí coisas do tipo: “como assim índio, se tá fora de tribo e usa celular?”, “não é índio se comercia com grandes empresas”; frases como estas naturalizam o que é cultural e relegam aos povos originários o status de primitivos, lembrando muito o clichê do antropólogo que vai viver entre os “selvagens”. O modo de vida dessas pessoas mudou. Suas terras foram tomadas. Seus corpos, alienados de almas. Vive-se como pode, onde se pode, com os recursos que se tem. E se incomoda tanto o uso de artefatos como celulares pelos nativos, se é essa a lógica, bem, ninguém mais poderia comer tapioca (no meu país Piauí é beiju) ou deitar em redes.

Tommy Orange pega emprestada a expressão de Gertrude para o título de seu livro, que no início parecem ser contos isolados, mas que pouco a pouco montam uma história com um plot twist maravilhoso. Você sabe o que vai acontecer, mas chega um momento que tem muito muito mais. Inclusive, os últimos capítulos definem o espírito do que é um rolê aleatório. Antes da história em si, o autor fala da história dos povos originários nos EUA e de algumas leis absurdas, como o quociente de sangue nativo de 1705, introduzido no Estado da Virginia: se fosse ao menos meio nativo, não teria os mesmos direitos dos brancos. Orange fala de temas como alcoolismo, estupro, gravidez na adolescência, suicídio, vício em entorpecentes, mas também sobre mitologias, cultura, provérbios, sobre powwows (festivais de cultura focados em especial na reprodução de danças rituais). Sobre a relação dos nativos com o álcool:

“Não é o álcool. Não existe relação especial entre os índios e o álcool. É só o que é barato, disponível, legal. É o que temos para recorrer quando parece que não nos sobra mais nada.”

Quando se fala em abuso de drogas recreativas, a imagem mais comum é pensar em algum dos grupos mais marginalizados socialmente abandonado ao consumo sem freios. Mas de onde essa imagem vem? Quem a construiu? O que a colonização fez nas mentes dos colonizados é uma das razões. O ser dessas pessoas foi fragmentado e a elas foi imposto um modelo branco, racional, europeu, patriarcal e cristão que deveria lhe guiar e ser seu senhor a partir de então. A drogadição serve muito bem ao imaginário do índio indolente e irresponsável. O uso elevado de entorpecentes de todo tipo em pessoas em situação de marginalidade social muitas vezes é automedicação para transtornos de ordem psíquica, o que também ocorre em elevado grau entre a população negra. O dano nestas subjetividades é transcendente e contínuo: há as feridas do passado violento que sequer cicatrizaram, e além disso novas são abertas a cada dia.

Lá não existe lá

Aqui no Brasil, a expressão “pego a dente de cachorro” é muito usual para descrever a captura e violação de povos originários. Significa que estas pessoas foram tiradas de seu contexto para serem ou simplesmente assassinadas porque estavam no caminho. Durante a ditadura, povos nativos eram torturados em atos públicos pelos militares, e muitos livros os consideravam como pertencentes à fauna brasileira.

No Piauí, estado onde nasci e moro, só muito recentemente um mito cruel da colonização foi derrubado: o de que não havia índios por aqui desde o final do século XIX, o que não combinava de maneira alguma com os relatos sobre comunidades remanescentes colhidos ao longo do século XX, revelando que estes grupos não foram extintos, e sim deslocaram-se para pontos mais distantes para evitar os sequestros, violações e espoliações a que estavam expostos. As rotas de migração dos povos remanescentes varia muito entre Maranhão, Ceará, Piauí e Tocantins, além de muitos ajuntamentos terem se desagregado e urbanizado. Desaparecer de vista foi resistir. Porém, de fato, muitas comunidades sucumbiram diante da ganância e da crueldade dos exploradores.

O mito fundador do estado do Piauí, em seu hino, conta que “da aventura de dois bandeirantes”: as bandeiras eram empresas de expedição que como prêmio pela colonização do interior do Brasil ganhariam o domínio sobre terras e seus respectivos recursos. O contrato era explorar para que o Estado tivesse o domínio de seu próprio território como nação. A colonização do litoral para os sertões. A herança destes bandeirantes foi em sua maior parte para a Igreja Católica, que administrou as Fazendas Nacionais, territórios advindos desta exploração, por um longo tempo. Então, agrega-se mais um componente de extermínio: a catequese. Além dos corpos, são colonizadas as mentes. A missão dos povos originários era deixar-se colonizar e civilizar para que alcançassem as mesmas graças da civilizada Europa, porém sempre em patamar inferior.

“Não que estejamos quebrados. E não cometa o equívoco de nos chamar de resilientes. Não ter sido destruído, não ter desistido, ter sobrevivido não é nenhum distintivo de honra. Você chamaria de resiliente uma vítima de tentativa de assassinato?”

A história da minha família está diretamente ligada ao direito à terra negado aos nativos. Uma das estratégias para dizimar um povo está em destruir seus vínculos e inserir lógicas familiares estranhas à sua cultura. Ao tentar fazer isto, criam cisões. O ajuntamento em que meus bisavós moravam extinguiu-se quando, ao verem que todas as suas crianças haviam sido sequestradas com brutalidade, muitas para serem serviçais ainda na tenra infância, todos optaram pelo suicídio. Meus bisavós, pais do meu avô, findaram a vida assim. Muitos outros ancestrais de muitas outras famílias também. Ou trabalharam até morrer. Ou foram queimados em uma parada de ônibus.

Lá existe aqui.


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