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Aladdin: uma aventura colorida em um mundo não tão novo assim

Com um filme em live-action por vez, a Disney vem repaginando algumas das grandes produções animadas do estúdio. Já tivemos Cinderela, A Bela e a Fera, o outro lado da história em Malévola, e agora recebemos, direto das noites da arábia, Aladdin. Para quem cresceu assistindo as animações incontáveis vezes, em repetição quase infinita (assiste, rebobina o VHS!, assiste de novo), é sempre um momento emocionante quando a música tema dos estúdios Disney toca e o filme tem início. E não foi diferente com Aladdin.

A história do ladrão de bom coração que entra na Caverna das Maravilhas e retorna com uma lâmpada mágica e um tapete voador é bem conhecida, então a missão do diretor Guy Ritchie era transformar o que já vimos na animação em algo mais, atualizando o conto para o momento em que vivemos culturalmente. Em alguns aspectos, o roteiro consegue fazer essa modernização de maneira satisfatória, principalmente com relação ao papel da Princesa Jasmine interpretada por Naomi Scott, mas em outros ele peca por não inovar tanto assim — apesar de ser sempre um prazer revisitar uma trama, ainda que batida, mas de que gostamos muito. É assim, com a certeza do carisma de seus atores principais, que Aladdin se transforma em uma aventura colorida e empolgante que usa da nostalgia para cativar seu público.

No live-action, Aladdin é Mena Massoud, ator nascido na cidade do Cairo, no Egito, e criado em Toronto, no Canadá. Se é verdadeira a história de que o personagem da animação de 1992 teve os traços inspirados no ator Tom Cruise, é Mena Massoud quem consegue incorporar com maestria o ladrão pé-rapado que vive nas ruas de Agrabah nessa nova versão. O filme não diverge muito do enredo da animação que lhe deu origem, mas isso não é realmente um problema; Aladdin já se baseia em um dos contos de As Mil e Uma Noites e sua versão em live-action continua bebendo na fonte original, mas com mudanças pontuais. No início do longa, narrando a história para duas crianças em um pequeno barco, está o Gênio de Will Smith em sua versão humana; enquanto no original é um mercador quem conta a história — dublado pelo saudoso Robin Williams, também o Gênio original — aqui já temos uma pequena mudança que será explicada ao final das mais de duas horas de filme.

Aladdin

O número de abertura de Aladdin não poderia ser outro que não a canção “Arabian Nights” que, na voz de Will Smith, e um pouco mais longa da original, consegue cumprir sua função de fazer com que o público abandone quaisquer reservas que tenha com relação ao filme e se entregue por completo para o que está aparecendo na tela. A partir de então, acompanhamos Aladdin cometendo seus furtos pelas ruas de Agrabah ao lado de Abu, Jafar (Marwan Kenzari) elaborando seus planos para resgatar a lâmpada mágica da Caverna das Maravilhas para ser o novo sultão, e Jasmine explorando, disfarçada, o mercado de sua cidade. Além dos conhecidos personagens da animação de 1992, Aladdin nos trás novas adições como Dalia (Nasim Pedrad), dama de companhia de Jasmine, e o Príncipe Anders (Billy Magnussen), um dos pretendes da princesa; enquanto Anders não faz nada além de ser inconveniente, Dalia é uma grata adição ao elenco, principalmente por ser confidente e amiga de Jasmine que, no original, não tinha outra companhia além de seu tigre Rajah.

Como acontece nos outros remakes da Disney, Aladdin repagina sua trama em pontos específicos, o que significa dizer, de maneira geral, que é o desenvolvimento da personagem feminina que passa por mais alterações. Enquanto Aladdin entra na Caverna das Maravilhas, é enganado por Jafar e acaba encontrando o Gênio que o transformará em Príncipe Ali — tal qual o original —, na versão de 2019 é Jasmine quem retorna com muito mais agência e ambição. Na versão de Guy Ritchie, Jasmine ainda é refém do sistema patriarcal que impera em Agrabah e mesmo sendo a melhor escolha para suceder o pai no trono, não pode fazê-lo por ser mulher. Espera-se que Jasmine, como princesa, encontre um marido a altura e não que seja a nova sultana, mas ela tem outros planos em mente. Jasmine se preocupa com o povo de Agrabah, é estudiosa e consciente dos problemas de seu lar e sabe que é a melhor opção para o reino. Ela, assim como sua contraparte animada de 1992, não está interessada nos pretendes que aparecem na porta do palácio e tem ideias próprias sobre como deseja conduzir sua vida.

Mesmo que Aladdin não aprofunde muito na questão política em que Jasmine está envolvida, é importante que meninas possam ver uma personagem feminina desejando mais para sua vida do que apenas encontrar um príncipe encantado; se vê-la desafiando as regras impostas pelos homens ao seu redor, desejando suceder o pai no trono de Agrabah enquanto canta que não será silenciada é especial mesmo pra mim, uma mulher adulta, que dirá para meninas de todas as idades que terão o primeiro contato com Jasmine dessa maneira. Devido a essas mudanças na trama, a Jasmine de Naomi Scott talvez seja a personagem que mais se distancia de sua contraparte animada. A personalidade ácida da princesa da animação de 1992 desaparece um pouco na atuação de Scott, o que não chega a ser um problema, apenas uma maneira diferente de conduzir a personagem. A essência de Jasmine, no entanto, permanece, o que a faz desafiar o sistema em que está inserida, a debochar dos príncipes que vêm bater à sua porta — inclusive o disfarçado Aladdin — e a confrontar Jafar.

Aladdin

O Jafar de Marwan Kenzari, inclusive, acaba se transformando no elo mais fraco do filme. Ele não tem o carisma e o encantamento proporcionados por Mena Massoud, Naomi Scott e Will Smith e não consegue entregar um vilão realmente ameaçador como sua versão original. É um pouco difícil encarar o live-action sem comparar com a animação de 1992, e Kenzari não consegue ser tão diabólico quanto o maligno grão-vizir original, embora aqui, em 2019, o personagem receba um pouco de background quando, ao conversar com Aladdin, revela que já foi um “rato de rua” e que também cometia furtos para sobreviver. O passado de Jafar, no entanto, não vai além disso e mesmo Iago (Alan Tudyk), que perde suas falas ácidas e apenas repete algumas frases durante o filme, não é capaz de levantar a performance de Kenzari durante o longa. Nós sabemos de antemão o que vai acontecer e não nos importamos realmente com as maldades do grão-vizir, só queremos que chegue logo na parte em que Aladdin aparecerá na varanda de Jasmine convidando-a a subir no Tapete.

E essa cena realmente não decepciona. Ainda que o CGI pareça estranho em alguns momentos, “A Whole New World” é sempre um momento doce e impactante, principalmente quando a canção é interpretada com tanto sentimento. Mena Massoud e Naomi Scott estão adoráveis como Aladdin e Jasmine, e enquanto ele não é um cantor de fato — Aladdin canta apenas duas canções em todo o longa —, Naomi rouba a cena com sua voz doce e cativante não apenas nesse momento mas também quando canta “Speechless”, canção composta especialmente para o filme por Benj Pasek e Justin Paul, vencedores do Oscar de Melhor Canção Original por “City of Stars”, de La La Land. Não é raro, nos dias de hoje, assistir grandes produções surfando na onda feminista e inserindo discursos feitos para essa audiência, mas é inegável a força que tem ver uma protagonista feminina, uma personagem não-branca (Naomi Scott tem descendência indiana), cantar que não será silenciada, que não ficará quieta e não será subestimada. Se para nós, a parte adulta da audiência, fica clara a capitalização em torno de um tema em alta como o feminismo (sem falar que remake já é, por si só, sinônimo para encher os cofres dos estúdios com mais dinheiro), para meninas que terão um primeiro contato com a Princesa Jasmine ouvir um discurso como esse pode fazer toda a diferença na maneira como elas se vêem inseridas na sociedade, principalmente se pensarmos como o desejo de Jasmine no filme é ser sultana.

De maneira geral, Aladdin é um bom filme que se vale de uma história já conhecida, e da nostalgia de sua audiência adulta, para encantar. Mena Massoud incorpora um Aladdin que balanceia carisma, doçura e a esperteza das ruas, conseguindo transpor para o live-action o espírito do personagem da animação. É fácil torcer por ele e vibrar junto com ele, e isso é mérito do ator que é capaz de nos fazer importar com o destino selado do personagem, afinal nós já sabemos como esse conto termina. Naomi Scott rouba a cena com o protagonismo de Jasmine e se mostra competente como atriz, cantora ou dançarina; a nova trama de Jasmine se apoia em palavras da moda como “empoderamento”, mas, reiterando o que já foi dito, não faz mal algum que meninas possam assistir a princesa demonstrando sua ambição em governar, mostrando-se muito mais competente e preparada do que seu rival masculino.

Aladdin

Will Smith, que ficou com a pesada tarefa de incorporar o Gênio após o irretocável trabalho de Robin Williams, se sai muito bem no papel mesmo que as cenas em que ele é azul e feito de CGI pareçam um pouco estranhas. A única ressalva para esse novo Gênio fica, realmente, com o interesse amoroso que impõe a heteronormatividade — mas esse é assunto para um outro debate. Smith não tenta emular o Gênio de Williams mas cria sua própria versão: um ser poderoso, debochado, um tanto irônico e impaciente, mas carismático em igual medida. Carisma é, muito provavelmente, a força que move Aladdin: com exceção de Marwan Kenzari — que é, sim, um ótimo ator, não me entenda mal — que não faz muito por seu Jafar — o que é culpa do roteiro, e não necessariamente do ator —, o trio principal composto por Massound, Scott e Smith se entrosa maravilhosamente e tem ótimos momentos.

As canções originais receberam novos arranjos, e as cenas em que são cantadas empolgam — mas, novamente, esbarram em uma computação gráfica estranha que nos lembra a todo momento de que nada daquilo é real. Mas isso não impede a audiência, principalmente os mais novos, de se divertir. A função primordial de todos esses remakes promovidos pela Disney é de alimentar os cofres do estúdio, o que é bastante óbvio, mas isso não é obstáculo para que boa parte do público embarque nessa aventura das mil e uma noites.

Aladdin não nos trás um mundo completamente novo com milhões de coisas para ver, mas às vezes, tudo o que precisamos de um filme é o resgate de uma mensagem positiva — seja sempre você mesmo e não se deixe seduzir pelo poder! — para continuar dando um salto adiante.

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