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O Outro Lado do Paraíso: o mesmo lado da moeda

O Outro Lado do Paraíso, novela que estreou na última segunda-feira (23) na Rede Globo, tem uma história para contar. Uma patroa rica, branca e racista. Uma empregada preta e pobre. Um filho rico que se apaixonada pela empregada preta. Nada novo até aí. A patroa branca, rica e racista se repete no país inteiro e nas telinhas há anos. A empregada preta e pobre? Também. E o mesmo acontece com o branco rico que se apaixonada pela empregada negra, é claro.

A sugestão desse núcleo da novela é, provavelmente, discutir a questão racial no Brasil. Mais provavelmente ainda, a mãe ficará indignada com o romance dos jovens e a empregada preta, ao final, encontrará a redenção por todos os seus sofrimentos no amor do homem branco. Mas, quando se trata de racismo e representatividade, esse enredo resolve alguma coisa?

Em 2004, essa história já era contada. Preta (Taís Araújo) não era empregada em A Cor do Pecado, mas era pobre e tinha uma beleza “exótica” que atraiu o branco rico, Paco (Reynaldo Gianecchini). O casal passou por muitas dificuldades enquanto durou o folhetim apenas para, no final, o amor vencer. Segundo a própria emissora, “preconceito racial norteava a primeira novela da Globo com uma protagonista negra em uma trama contemporânea e urbana” —  que se chamava, vale lembrar, A Cor do Pecado, atributo de cunho racista que relaciona a cor preta ao erro e à luxúria; atributo pelos quais meninas pretas são chamadas muito antes de terem noção da sua própria sexualidade.

O enredo da negra pobre que se apaixona por um homem branco rico e que enfrenta inúmeros problemas por conta do preconceito para estar com ele no final e encontrar sua redenção no amor não é suficiente. E é triste ver que, há pelo menos 13 anos, ele tem se repetido em inúmeras novelas da emissora de maior audiência do país. A indústria do pensamento  —  isto é, os produtos comunicacionais, séries, livros, filmes, jornais, revistas —  constrói a opinião pública e o imaginário social, transforma nossa cultura e atua diretamente na maneira como enxergamos o mundo e as pessoas ao nosso redor — e por isso representatividade nesses meios importa tanto. A partir do que é mostrado, a sociedade constrói seus conceitos, ideias e entendimentos acerca do mundo. O que é representado pela novela reverbera no ideário social. Nos produtos mais populares e acessíveis produzidos pela indústria do pensamento, a história da negra pobre que resolve seus problemas no amor de um homem branco é uma narrativa que reforça a associação das mulheres negras a uma vida de miséria e empregos de baixa qualidade que ainda as prendem em uma situação de servir a uma família branca. Não é uma história mentirosa, mas não é a única narrativa possível para as mulheres negras.

Além disso, o enredo também reforça a ideia de que o amor de um homem branco é suficiente para deixar para trás todas as marcas do racismo. Que o amor de um homem branco é o máximo que uma mulher preta pode ter. De tudo, esse é o ápice de sua realização, o que deve aspirar durante sua vida. O que se repete nas novelas ecoa fora delas e o processo de branqueamento do Brasil continua, além de reforçar a mentalidade colonializadora por trás dessa narrativa. O branco é bom. E, por isso, imagina-se que, para mulheres negras, estar com um homem branco, ter um filho de pele mais clara e uma família cada vez mais branca e menos negra, é algo a ser almejado.

Segundo documentos oficiais, em 1600, o Brasil possuía 10 mil brancos e 20 mil africanos/descendentes. Em 1798, o número de brancos subiu para um milhão e o de negros para 1,9 milhões (dos quais 1,6 milhões eram africanos escravizados). Em 1822, o número de brancos era de 1,04 milhões, enquanto o de pretos era de 1,93 milhões e o de pardos, 526 mil. Entre 1872 e 1950, o número de brancos aumentou em 61%, enquanto o de negro em 10% e o de pardos, em 26% — fazendo com que, em 1950, o país fosse composto por 32 milhões de brancos, 5,6 milhões de negros e 13 milhões de pardos.

O Outro Lado do Paraíso

Segundo Abdias do Nascimento, poeta, escritor e professor universitário ativista dos direitos civis e humanos das populações negras, esses dados devem ser analisados com cuidado: por conta da cultura do branqueamento —  que vai desde a proibição da entrada de negros no Brasil, em 1890, até o apoio a imigrantes não-negros  —,  existe uma tendência construída socialmente no negro brasileiro de se identificar com o branco. Assim, para o acadêmico, o negro costuma se declarar pardo e o pardo, se declarar branco. Mesmo agora, em 2017, o branqueamento ainda segue minando a população negra no Brasil. O enredo de O Outro Lado do Paraíso só reforça essa ideologia e sufoca outras narrativas pertencentes às vidas de pessoas negras.

E elas existem. Nem todo negro tem uma história de superação, nem todo negro é miserável. Ainda assim, os negros considerados bem-sucedidos socialmente não estão imunes ao racismo. O racismo não é uma questão de classe, como o enredo da negra periférica reforça. O racismo afoga negros de todas as classes, de todos os tons. Dos de pele escura, até os de pele clara.

O racismo no Brasil é uma estrutura construída desde a chegada do primeiro africano escravizado ao nosso solo. Não se resolve com o amor de um homem branco e rico; não termina ali. Seria muito mais útil aos povos negros uma novela que tratasse o racismo como ele é: um polvo com muitos tentáculos, que penetram em muitos lugares — na escola, na faculdade, no mercado de trabalho —, que não se importa se você é homem ou mulher, se é rico ou pobre, se tem diploma ou não. O silenciamento dessas narrativas só corrobora para a estrutura do racismo. Assim como não se celebram, na História do Brasil, os heróis negros que construíram o país, ao escolher uma única narrativa para a mulher negra periférica, deixa-se de celebrar muito dessas vivências, da cultura, da participação dos negros na sociedade.

O Outro Lado do Paraíso

A ausência de referências à história dos africanos escravizados no Brasil construiu um buraco na autoestima das pessoas negras. Ninguém conta sobre Zumbi, Dandara ou os lanceiros negros que lutaram na Farroupilha. Crescemos sem inspiração. Quantos países da Europa você consegue saber o nome? E da África? Pois é. Crescemos com a ausência, um buraco, com uma coisa que não sabemos explicar, que não conseguimos enxergar no espelho. Desde sempre, negros são marginalizados, à parte. Constroem o país, mas não na História oficial. E, agora, são silenciados nas narrativas que constroem a história do presente.

Negros não são apenas empregadas. São jornalistas, publicitários, acadêmicos, médicos, enfermeiros, advogados, juízes, professores, engenheiros, cientistas. E também queremos ser vistos dessa forma. A representatividade está em se enxergar e enxergar possibilidades de ser nos produtos comunicacionais. Como Chimamanda Ngozi Adichie diz em O Perigo de Uma História Única, ouvir apenas uma narrativa pode gerar ideias equivocadas  —  como se negros e negras não ocupassem espaços de poder, como se a única versão possível fosse a de serviçais periféricos, como se o que mais desejamos na vida fosse o afeto de um homem branco. É por isso que o enredo de O Outro Lado do Paraíso não basta para falar de racismo. Todas as narrativas que envolvem a vida de pessoas negras são importantes e todas elas também deveriam ocupar o horário nobre da maior emissora do país.

Existimos. Nossas histórias deviam ser contadas em sua totalidade tanto nos livros quanto nas novelas para construir a autoestima das pessoas negras. Mulheres e meninas têm que saber que elas podem ser mais do que a mulher pela qual um homem branco se apaixona. Elas têm que saber que se bastam.

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1 comentário

  1. Maravilhosa explicação! Realmente, em um tempo de tanta informação, dá vergonha alheia de uma emissora tão poderosa representar assuntos necessários e atuais de maneira tão burra. Se não sabem nada de representatividade, que selecionem pessoas entendidas para falar de racismo. Mas parece de propósito, né? Parece que querem reforçar os estereótipos ruins de propósito.