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Primeiro Eu Tive que Morrer e a naturalidade de um amor entre mulheres

“Quanta coragem existe em alguém tão pronta para o amor?”, pensa, ao olhar para Gloria, a narradora de Primeiro eu tive que morrer, de Lorena Portela (edição independente, 2020). Mas antes que eu conte a vocês a história que envolve essa narradora e essa Gloria, acho importante que conheçam um pouquinho sobre a narrativa deste livro como um todo.

Atenção: o texto a seguir pode conter spoilers.

Primeiro eu tive que morrer conta a história de uma publicitária de 30 anos cujo nome não sabemos, que vive em Fortaleza (capital do Ceará), e que, como muitas mulheres, adoece por causa do excesso de trabalho, da necessidade de provar a cada dia ser boa o suficiente para tudo, fazendo para isso mais do que o corpo e a mente podem suportar, e também devido ao machismo presente nas mais diversas situações. No início do livro, nossa narradora não comporta mais o seu existir. Assim, após muitos momentos de angústia, ela toma a decisão de se afastar por um tempo do trabalho, da sua vida, e ir para a pousada de um casal de amigas argentinas em Jericoacoara (Ceará).

“A vontade de desaparecer era repetitiva, como o relógio que eu ouvia marcando segundo a segundo. O barulho do ponteiro se mexendo tranquiliza e desespera, ao mesmo tempo. Acho que isso também acontece quando se morre e se tem consciência disso. Deve ser tanto triste quanto pacífico saber que se vai morrer em breve. A dor e o descanso, talvez.”

Para além, é interessante pontuar que este livro é construído ao redor das mais diversas relações entre mulheres. Mãe e filha, vó e neta, amigas, companheiras de vida — inclusive, o livro foi todo feito por mulheres: diagramação, revisão, ilustrações, capa… No entanto, hoje resolvi falar sobre a história da narradora e da Gloria. Uma narrativa de amor que permeia todo o livro.

Gloria surge na história através de um e-mail que manda para a narradora dizendo estar com saudades. Esse é um momento do livro bem clichê de comédias românticas, quando alguém do passado aparece do nada e a gente tem aquele sentimento de quentinho no coração de quem tem consciência de que a partir dali algo vai acontecer, “Receber um e-mail inesperado da Gloria foi como domingo de Carnaval”. Ficamos sabendo do passado entre as duas moças logo em seguida. No meio de uma brincadeira com uns colegas de trabalho, a nossa narradora se recorda de um beijo entre elas, que aconteceu durante um réveillon em Lisboa. Nada mais ocorreu e cada uma seguiu sua vida. Nunca mais se viram. Quando a narradora, então, responde carinhosamente ao e-mail, convida Gloria para ficar com ela em Jeri. E é aqui que começo a pensar sobre esse relacionamento. Sobre como ele aparece na obra, como é trabalhado.

Talvez seja possível dizer que na superfície desta narrativa o relacionamento entre mulheres não configure uma problemática, uma questão a ser discutida. A escritora conduz os acontecimentos de maneira natural, como deve ser, não há situações caricaturais. O casal mostrado como aquele que todo mundo sonha em ser é formado por mulheres, Sabrina e Ana, as amigas donas da pousada em Jeri. Não há um questionamento sobre isso, elas são apenas um casal admirável, “[…] Formavam aquele casal que enche os demais de inveja. Tinham sintonia, leveza, respeito, admiração e eram muito carinhosas uma com a outra”.

Para explicar melhor essa naturalidade, peço licença para ir além das páginas de Primeiro eu tive que morrer e adentrar por um breve instante Um teto todo seu (1929), de Virginia Woolf — ensaio baseado em duas palestras dadas por ela para moças que frequentavam o Newnham College e o Girton College, faculdades dentro da universidade de Cambridge. Em um dado momento desse ensaio, Virginia traz à tona a obra de uma escritora, criada por ela, começa a contar o que vê no livro, e de repente diz:

“Somos todas mulheres, vocês me asseguram isso? Então eu posso dizer a vocês que as palavras que li em seguida foram estas: “Chloe gostava de Olívia…” Não se espantem. Não se ruborizem. Vamos admitir, na privacidade de nossa própria sociedade, que essas coisas às vezes acontecem. Às vezes as mulheres gostam realmente de mulheres.”

Esse trecho é um tanto ambíguo, me arrisco a dizer, propositalmente — mulheres podem ser amigas de mulheres ou se apaixonar por mulheres? Arriscando-me novamente, acredito mais que Virginia tenha querido dizer que mulheres podem se apaixonar por mulheres. Pois bem, no excerto, Virginia fala para as moças não se espantarem, não ruborizarem, afinal é algo que se precisa “admitir”, “às vezes mulheres gostam de mulheres”. O que eu quero dizer com essa digressão? Que em Primeiro eu tive que morrer não há qualquer rubor ou espanto. É natural que mulheres amem mulheres.

O início da relação entre a narradora e a Gloria é, a princípio, aparentemente muito tranquilo, sem um grande pensar sobre o interesse de uma pela outra, sobre o gostar. Contudo, ao sairmos da superfície e mergulharmos no texto, podemos perceber vislumbres de questionamentos por parte de nossa narradora. Por exemplo, logo após a troca de e-mails entre as duas, a narradora pensa: “‘eu estou paquerando a Gloria?’. Eu não sabia”. Depois ela continua: “Só havia aquele sentimento engraçado que paira sobre duas pessoas que já se beijaram e não foram além disso. A dúvida se, eventualmente, vão se beijar de novo e se algo vai nascer dali”. Vemos que ela não se aprofunda na dúvida, ela não diz que o questionamento vem à tona por Gloria ser uma mulher. Apesar disso, ao ler, é essa sensação que temos.

Mais adiante, quando elas já estão juntas em Jeri, envolvidas, vivendo uma relação — muito gostosa de ler, aliás —, a narradora vai se perguntar se o que ela sente é porque está vivendo algo com a Gloria ou se é tão bom porque é com uma mulher. Eu preciso salientar que até então a narradora só havia tido relacionamentos com homens. A Gloria é o seu primeiro estar com uma mulher.

“Era novo para mim estar com alguém que dava ao amor a medida que ele merecia. Que encarava os sentimentos como algo que valia a pena ser vivido e demonstrado, não algo que alguém deveria se envergonhar. Não sei se era uma diferença de se estar com uma mulher, mas era, no mínimo, uma diferença em estar com a Gloria.”

Apesar dessas pequenas questões, a narrativa da relação é, de fato, muito serena, até a chegada de Amália. Personagem envolta em mistérios, perturba a cabeça da nossa narradora, causando atração e repúdio. Toda a tranquilidade do sentimento entre Gloria e a narradora é quebrada nesse momento.

“— […] Que bom! Você vem sempre à praia sozinha?
— Não. Na verdade, eu venho com a Gloria, uma amiga.
— Amiga? Ou namorada?
Eu ri, meio sem jeito.
— Não é namorada, mas digamos que é um pouco mais que amiga.
[…]
— Você e a Glória, a Sabrina e a Ana… a Pousada das Lésbicas.
Eu me senti desconfortável quando ela disse isso. Um frio na barriga, mas de um jeito indesejado. Não fiquei ofendida. Não me importava de ser vista como lésbica, embora eu não fosse. Mas achei inapropriado, teve tom de deboche.
— Como assim, “Pousada das Lésbicas”? É assim que você descreve a pousada?
— Não só eu, outras pessoas comentam também.
Outras pessoas.”

O olhar dos outros sobre a sua relação com Gloria parece incomodar. Para além, talvez haja aí um sentimento desconhecido ao pela primeira vez se pensar como lésbica, “Um frio na barriga, mas de um jeito indesejado”, apesar de naquele instante não se ver como tal. Novamente os pensamentos da narradora não são amplamente trabalhados – o que, aqui, faz um pouco de falta, talvez fosse interessante haver uma discussão interna mais aprofundada… mas, isso é coisa de leitora envolvida com a história, que deseja sempre saber mais. Fato é que, a partir daí, acontecem mudanças na relação entre Gloria e a narradora. Aquela relação de amor tão pacífica ganha rusgas, barreiras, rachaduras. E a narradora acaba tendo de se voltar para si para se entender. Para entender o que quer, quem se é e o que sente.

Apesar dessa problemática que acaba por acontecer, por mexer na relação entre a narradora e Gloria, em nenhum momento Lorena Portela nos faz questionar o amor entre mulheres. Em nenhum momento é mostrado como algo errado, fora do normal. Pelo contrário. Essa é uma história que, como eu disse, deixa o coração quentinho, com vontade de viver amores verdadeiros, sejam eles quais forem.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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