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A Casa dos Sonhos como esqueletos no armário

Quando se fala em orgulho ou em visibilidade lésbica (e LGBT de forma geral) o discurso mais comum gira em torno de “direito de amar”. Afinal de contas, amar é importante, e ter o direito de amar conforme a própria sexualidade é um elemento essencial para uma existência digna. Mas a questão vai muito além disso. Somos lésbicas mesmo quando não estamos em um relacionamento romântico e independente de sentirmos atração sexual. Somos lésbicas quando trabalhamos, criamos, comemos, fazemos faxina, andamos na rua, mascamos chiclete. Somos lésbicas em todos os âmbitos da vida — não só no amor. O foco excessivo no amor, inclusive, é um elemento que contribui para abafar uma outra questão de suma importância: a possibilidade de relacionamentos abusivos e violentos entre mulheres. É aí que entra Na Casa dos Sonhos, de Carmen Maria Machado, lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras.

A obra mistura teoria, cultura pop, ensaio e memórias fragmentadas como uma forma de elaborar e tentar dar sentido ao trauma de um relacionamento abusivo que a autora viveu com “A Mulher da Casa dos Sonhos”, uma ex-namorada que permanece anônima. Carmen é uma mulher bissexual, mas em grande parte das referências que ela aborda ao longo da obra ela própria faz referências a relacionamentos lésbicos, como esclarecido no epílogo, e pode ser compreendido como aplicáveis a relacionamentos entre mulheres de forma geral.

A Casa dos Sonhos e suas memórias

A Casa dos Sonhos é uma construção física, mas é muito mais do que isso. Simbolizada pela casa em que a ex-namorada morava, no estado de Indiana, a Casa dos Sonhos é um lugar de idealização, esperança, grandes começos e grandes decepções. Ainda no começo do namoro, Carmen ajuda a então namorada a encontrar uma casa para morar, e sonha com uma vida futura idílica, poliamorosa (e, ao mesmo tempo, estranhamente convencional). Com o passar do tempo, entretanto, aquele imóvel cheio de sonhos se torna mais e mais o lugar do pesadelo, do medo, da violência íntima.

Na Casa dos Sonhos está bem longe de ter uma narrativa linear e bem-comportada. A coleção de memórias abarca um período desde a infância até depois do fim do relacionamento e tenta reconstruir os elementos que contribuíram para o abuso. Baixa autoestima, rejeições amorosas, passado religioso, relacionamentos românticos problemáticos, casamento tóxico dos pais. Uma série de tentativas de tentar compreender — muito mais do que explicar — como ela pode ter deixado as coisas chegarem àquele ponto, como ela se submeteu àquelas situações. Um modo de tentar compreender o incompreensível e afastar a culpa por algo que nunca foi sua culpa. Ao mesmo tempo, essas digressões podem ser entendidas como formas de margear a questão, de adiar o momento do confronto com o horror do que aconteceu.

Violência doméstica e grupos oprimidos

Fica muito evidente em diversos pontos uma preocupação política com as consequências da exposição da violência dentro de relacionamentos entre mulheres. Ao reclamar das violações sofridas dentro do nosso próprio meio, estaríamos dando munição para aqueles que rejeitam a nossa existência? Estaríamos contribuindo para a vilanização do nosso próprio grupo? São questões importantes e expressas abertamente ao longo da obra. Também é fundamental pensarmos o quanto o apagamento dessa possibilidade retira de nós uma parte da nossa humanidade e ameaça a nossa integridade física, psicológica, social.

Capa do livro Na Casa dos Sonhos

Carmen Maria Machado equaciona a experiência de demorar a entender a própria sexualidade com a de não entender imediatamente que está sofrendo abuso. Como podemos compreender algo que não existe no nosso vocabulário? Algo ainda existe se é invisível? São muitas as questões que a autora apresenta, para as quais nem ela nem nenhuma de nós tem resposta. Como um recurso maravilhoso, Na Casa dos Sonhos reúne referências da cultura pop, teoria e experiências alheias documentadas sobre a questão da violência doméstica em relacionamentos entre mulheres como uma forma de elaborar a experiência da autora, convencer o leitor (ou a si mesma?) de que esse fenômeno existe e sempre existiu, mesmo que paire sobre ele um silêncio quase absoluto.

Quando se trata de um grupo oprimido, denunciar uma violência perpetrada por uma igual — alguém que deveria ser uma aliada política, além de uma parceira sentimental — adiciona uma camada de traição aos conflitos e sofrimentos já inerentes à experiência de um relacionamento abusivo. Traição em mais de um sentido: traição da outra que deveria estar do nosso lado. Traição nossa ao movimento como um todo por denunciar. Ao mesmo tempo, não denunciar é contribuir para manter a invisibilidade do assunto.

O Julgamento

A questão ainda vem acompanhada por uma bela dose de julgamento social. Como se a responsabilidade recaísse sobre quem sofreu o abuso, e não sobre quem cometeu. Como se não existisse uma dinâmica de poder, dominação e manipulação envolvida que torna a questão muito mais profunda e complexa do que um “se submeter ou não” a uma situação “tóxica”. Em um ponto específico de Na Casa dos Sonhos, a autora faz referência à reação dos outros quando ela comenta sobre o que ela viveu. Alguns não sabem como reagir, mas muitos desacreditam o relato, invertem a culpa.

Apesar disso, o grande julgamento perceptível ao longo da obra é o da própria autora. Uma carga pesada e muito clara de culpa por não ter salvado a si mesma antes, uma tentativa de justificação. Isso faz com que ela busque memórias muito antigas e diversas, quase como uma forma de dizer à leitora (ou, mais uma vez, a si mesma?) como toda a sua história de vida a levou até ali e contribuiu para que ela ficasse presa na casa dos sonhos por tanto tempo. Por essa e por outras, o livro parece ser escrito muito mais para a própria autora do que para o público, o que fica claro também pelo uso da segunda pessoa na narrativa. Uma conversa consigo mesma, com uma versão passada, presente e/ou futura de si mesma.

Outra questão muito pesada e muito profunda abordada em Na Casa dos Sonhos é a diferença de tratamento social entre violência física e violência psicológica. A violência psicológica ainda é muito relativizada e invisibilizada, justamente por não deixar marcas físicas. Os abusos sofridos por Carmen são, em geral, psicológicos, e ela chega a desejar que tivessem sido físicos, para que ela pudesse ter provas do que aconteceu. Para que pudesse mostrar ao mundo, e a ela mesma, que não foi invenção. Esse é o nível de sofrimento contido nas linhas.

Fotografia por Linette and Kyle Kielinski

Escrevendo a própria porta de saída

No meio de tudo isso, a escrita acaba aparecendo com um papel terapêutico muito palpável. Escrever sobre não vai desacontecer o que já aconteceu, nem apagar as marcas deixadas, mas é uma forma de elaborar essas experiências traumáticas e seguir adiante, reconhecendo que esses fatos sempre vão fazer parte de sua história. Esse parece ser o objetivo do nascimento de Na Casa dos Sonhos, mesmo que não seja um movimento necessariamente consciente.

A autora menciona na obra que, no início do processo, ainda não sabia que aqueles escritos se tornariam um livro. Mas é isso que escritores fazem: escrevem (direta ou indiretamente) sobre si como forma de externalizar e compreender as próprias questões. E o processo de escrita de Na Casa dos Sonhos parece ter sido tão não-linear quando o resultado final. Em vários trechos a autora cita momentos e locais em que partes do livro foram escritas, indicando que a obra que podemos ter hoje em mãos não veio ao mundo de forma suave.

A dor transpassa na escrita, o sofrimento, a aflição, a falta de esperança. Mas, no fim, Carmen Maria Machado nos leva desde o mar de esperanças do começo, passando pelo fundo do poço, e então pela recuperação. A mensagem que fica é que algumas histórias nunca vão ficar completamente para trás, mas existe uma saída. Existe um processo de reconstrução e de cura à frente, existe vida depois. Existe felicidade. Se há um testemunho de esperança maior do que esse, desconheço.

Ao que parece, Carmen escreve porque precisa, porque é uma escritora. Mas essas páginas poderiam ter passado a vida em um fundo qualquer de gaveta. Por que publicar? Por que expor uma situação tão delicada? A resposta: Porque é preciso. E no fim da obra a própria autora expressa a esperança de que esse trabalho, uma parte dela, possa contribuir para diminuir a invisibilidade sobre o tema. Para que a próxima de nós que passar por isso possa ter olhos para ver e palavras para falar.

“O primeiro livro sobre abuso lésbico foi publicado no ano em que nasci. Não é a obra mais antiga do mundo, mas também não é nenhum lançamento. Por que ninguém me falou sobre isso? Mas quem teria me falado? Eu conhecia tão poucas pessoas queer, e a maioria tinha a minha idade e ainda estava se descobrindo. Imagino que, um dia, vou convidar jovens queer para tomar chá com queijos e conselhos, e poderei dizer: pessoas que parecem iguaizinhas a vocês podem machucá-las. Não só pode acontecer como provavelmente vai acontecer, porque o mundo está cheio de pessoas machucadas que machucam as outras. Mesmo que a cultura dominante te veja como uma anomalia, isso não significa que você não pode ser normal, carne de vaca de tão normal.” (p. 333)

Banner Na Casa dos Sonhos, Carmen Maria Machado, Brochura, 360 páginas, Tradução Ana Guadalupe, 5 estrelas.

O exemplar foi cedido como cortesia por meio de parceria com a Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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