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Crítica: As Viúvas

“Os melhores filmes, na minha opinião, são aqueles que subvertem o próprio gênero para abordar questões que são geralmente discutidas em outros espaços”. Foi assim com Garota Exemplar, romance homônimo de Gillian Flynn adaptado para o cinema com Ben Affleck e Rosamund Pike. Também poderíamos falar sobre Corra!, cujo principal medo do personagem principal está centrado na figura do racismo. O cinema continua tão revolucionário nesse aspecto quanto o foi na época em que vigorava o Código de Censura, o tão temido Código Hayes.

Em 2018, fomos presenteadas com As Viúvas, thriller dirigido por Steve McQueen, com roteiro assinado pelo próprio diretor em parceria com Gillian Flynn. O peso desses nomes traz a certeza de quase duas horas de subversão, na qual você vai se deparar com questões sobre racismo, política e mulheres. As Viúvas é baseado em uma série britânica homônima dos anos 80, escrita por Lynda La Plante, considerada uma dama de mistério por lá. A trama segue a história de quatro mulheres que têm as vidas despedaçadas quando seus maridos morrem e precisam assumir uma dívida deixada por um deles, senão correm o risco de morrer. A série foi exibida no horário nobre britânico entre 1983 e 1985.

O impacto causado pela série naquela época foi gigantesco. Pense em todos os filmes noir que você conhece: quantas personagens femininas estão lá apenas para causar a derrota do protagonista, meramente como as femme fatales? A história desse tipo de trama sempre é contada de uma perspectiva masculina, e o As Viúvas de 1983 se dispôs a quebrar esse paradigma ao colocar quatro mulheres a frente de um crime, em um mundo de homens, que usavam suas “fraquezas” a seu favor. Lynda se motivou a escrever a série por conta dos diálogos pobres que recebia enquanto atriz visto que, à época, as mulheres nunca podiam ser agentes do próprio destino em gêneros como mistério e thriller. La Plante decidiu, então, mudar esse fato na marra. Além da série ter sido escrita por uma mulher, ela também foi produzida por uma, Verity Lambert.

Atenção: este texto contém spoilers!

As Viúvas

Esse background fantástico já nos mostra a importância de um filme como As Viúvas. Se a série já quebrava paradigmas na televisão, chegou a hora de essas convenções sobre filmes de mistério e thriller também se desfazerem no cinema. Com um elenco de peso, incluindo Viola Davis e Michelle Rodriguez, As Viúvas de 2018 se propõe a discutir a questão feminina, mas sem deixar de lado o racismo e a política que, muitas vezes, andam de mãos dadas e misturam-se. Para começar, a história é ambientada em Chicago, e isso não é fruto do acaso. Chicago é a cidade de Al Capone, da bebida ilegal e de todos os gângsters que povoaram o imaginário do cinema, interpretados por James Cagney e Edward J. Robinson. É impossível negar esse passado que se soma a uma cidade hoje atravessada pelo racismo institucional e violência policial.

Por trás das quatro mulheres, há esse contexto e ele se mistura à história de uma maneira muito verdadeira, embora isso só vá ficar claro lá pela metade do filme. Na história, acompanhamos a disputa do Distrito 18, uma região majoritariamente pobre e de maioria negra, por dois políticos, Jammal Manning (Brian Tyree Henry) e Jack Mulligan (Colin Farrell). Jack representa o establishment e os privilégios, pois sua família governa aquele distrito há pelo menos três gerações. Como bem pontua seu rival: “Você tem sua casa no outro lado da cidade, não sabe o que está acontecendo por aqui”. A família Manning é marcada por escândalos políticos e pelo racismo e xenofobia, representados pela figura do patriarca, Tom Mulligan (Robert Duvall).

Já Jammal é a nova promessa, um candidato da região e que conhece os problemas dela. Ele representa uma ameaça à família Mulligan, pois pode ser o primeiro homem negro a comandar o Distrito 18. No entanto, no quesito negócios escusos, Jammal acaba se parecendo muito com o oponente. O personagem quer poder, e sua candidatura é movida por isso. Jammal parece usar a questão racial e a revolta dos moradores do Distrito 18 para angariar votos. Neste contexto de disputa política, também há o redesenho dos distritos, algo de extrema importância para entendermos o que está em jogo entre esses dois personagens. Redesenhar distritos é um ataque à democracia, pois reestrutura as zonas de votação. Quem votava na zona X, não pode mais. Dessa forma, distritos outrora de maioria republicana tornam-se maioria democrata, e vice-versa. Essa é uma forma de atacar a democracia. Os Estados Unidos também têm se valido da estratégia de dificultar a votação, ou seja, não é mais possível votar sem documentos. Quem sai perdendo com isso são as minorias, é claro. Os personagens de As Viúvas parecem não ligar para a democracia. O próprio pai de Jack declara duas vezes ao longo do filme que ele pode ligar para o prefeito e pedir para adiantarem a eleição, tamanho seu poder de influência.

Quatro mulheres e o mundo peculiar de Gillian Flynn

Como uma pessoa que está na Terra para enaltecer o trabalho de Gillian Flynn, é claro que não poderia deixar de dedicar um tópico a isso. Cada obra da autora é a possibilidade de olhar para uma questão diferente: em Garota Exemplar, tivemos a questão da mulher perfeita; em Objetos Cortantes a violência e mutilação e como ela afeta nossas vidas. Porém, ao lado Steve McQueen, ela pôde expandir a discussão, já que existem quatro personagens com questões muito próprias.

As Viúvas

Para começar, a líder da gangue é uma mulher negra e de classe alta. Veronica (Viola Davis) fazia lobby para o Sindicato dos Professores e, de todas as mulheres, é a que tinha um relacionamento mais verdadeiro com o marido. Não é à toa que a primeira cena do filme é um momento íntimo entre ela e Harry (Liam Nielsson). Porém, apesar de todo o prestígio, ela não escapa às questões que atravessam a vida das mulheres negras, e o filme acerta muito ao mostrar isso. Em uma cena, por exemplo, ela sofre racismo institucional pela enfermeira do patriarca Manning. É apenas um olhar, mas um olhar que diz muito: “Você não deveria estar aqui”. Após a morte de Harry, Veronica se vê sem rumo. Ela não é dona nem do apartamento em que morava, o que abre espaço para a questão: como era este casamento interracial?

A personagem também carrega um trauma muito grande: a morte do único filho, Marcus, durante uma batida policial. Um dia, enquanto andava com um carro de luxo, Marcus é parado pela polícia em uma clara demonstração de como a força policial trata de forma racista as pessoas negras visto que, para os oficiais, era óbvio que que aquele carro de luxo não poderia ser de Marcus. Ao colocar as mãos para cima, Marcus leva um tiro do policial e morre. Um thriller inserir nisso é simplesmente fantástico, tendo em vista que os negros sempre fazem o papel de bandidos nesse tipo de produção. É uma forma bastante clara de chamar a atenção para a importância de movimentos como o Black Lives Matter.

Já Alice (Elizabeth Debicki) é uma mulher que sofre violência doméstica do marido e é vista como um mero objeto. É interessante acompanhar a trajetória dela, especialmente porque ela vai quebrando padrões ao longo da trama. Alice supera a imagem de loira burra e acaba aparecendo com algumas das melhores soluções do filme. É interessante notar que As Viúvas traz quatro mulheres com problemas muito diferentes, atentando-nos para o fato de que questões de raça e classe influenciam — e muito — nas questões de cada uma. Veronica não passa pelos mesmos problemas de Alice, por exemplo, já que sua vida é atravessada pelo racismo e a solidão da mulher negra, dentre outros.

As Viúvas

Linda (Michelle Rodriguez) é uma latina com dois filhos pequenos. A questão da imigração não aparece tanto nessa personagem, mas é lindo perceber o quanto o As Viúvas de 2018 tem um elenco representativo, algo que a versão dos anos 1980 deixa a desejar. A grande questão de sua vida é a independência. Ela tinha uma loja de roupas para debutantes, mas isso lhe é tirado por causa do pagamento de uma dívida com o marido, o que faz com que Linda acabe entrando na sociedade das viúvas para ter seu negócio de volta.

As quatro mulheres recriadas por McQueen e Flynn têm momentos de fraquezas e de apoio mútuo. Em momento nenhum, o filme parece forçar uma relação de amizade entre elas, porque não é o que acontece. A sociedade é um negócio, e elas precisam se unir para ficarem vivas. Também é importante ressaltar que a força de cada uma se manifesta de diferentes formas. É permitido chorar, elas não precisam ser duras o tempo inteiro. Afinal, esse é um thriller com mulheres de verdade — e até mesmo a mais difícil delas, Veronica, consegue mostrar sua fragilidade.

Espero que As Viúvas seja um promessa para a award season que está chegando, especialmente no que diz respeito à atuação de Viola Davis. A combinação McQueen e Flynn consegue nos entregar um filme cheio de reviravoltas e que, ao mesmo tempo, consegue combinar questões sociais da maior importância de maneira verdadeira.

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