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Objetos Cortantes e a forma peculiar de Gillian Flynn contar histórias

Quando Garota Exemplar foi publicado em 2012, não foi necessário muito tempo para catapultar Gillian Flynn aos holofotes. A autora, que também é roteirista, escritora de quadrinhos e crítica de TV, já se aventurava pelo mundo literário há pouco mais de meia década. Gone Girl, no original, foi recebido com alvoroço pela imprensa, as críticas positivas foram da The New Yorker à Time, do New York Times à Entertainment Weekly. O livro emplacou em listas dos mais vendidos por várias semanas, sendo considerado um dos maiores fenômenos de 2012. Pouco mais de dois anos após sua publicação, a obra foi adaptada para o cinema, roteirizada pela autora e dirigida por David Fincher, angariando, mais uma vez, uma série de críticas positivas, muitas dirigidas à atuação de Rosamund Pike, que dava vida à protagonista, Amy Dunne.

Na época que o filme chegou aos cinemas, em meados do segundo semestre de 2014, li Garota Exemplar e fiquei meio embasbacada pela experiência. Trata-se de um livro de suspense e mistério sobre crime, vingança, relacionamentos, casamentos, manipulação — de tudo um pouco. É um thriller psicológico que traz uma nova roupagem para o estilo narrador não-confiável. É realmente bom, é cativante, e capta o leitor. A obra cinematográfica repete a dose — é igualmente cativante, envolve o espectador, e muito bem feita. A glória dessas duas experiências vem da maneira peculiar com que Gillian Flynn conta histórias.

Ser a Garota Legal significa que eu sou uma mulher gostosa, brilhante, divertida, que adora futebol, pôquer, piadas indecentes e arrotos, que joga vídeo game, bebe cerveja barata, adora ménage à trois e sexo anal e enfia cachorros-quentes e hambúrgueres na boca como se fosse anfitriã da maior orgia gastronômica do mundo ao mesmo tempo em que de alguma forma mantém um manequim 36, porque Garotas Legais são acima de tudo gostosas. Gostosas e compreensivas. Garotas Legais nunca ficam com raiva. Apenas sorriem de uma forma desapontada e amorosa e deixam seus homens fazerem o que quiserem. Vá em frente, me sacaneie, não ligo, sou a Garota Legal.” (Garota Exemplar, Gillian Flynn)

Aviso: este texto revela detalhes da trama.

Aviso de gatilho: este texto contém linguagem de automutilação.

Por assim o ser, quando em abril deste ano a HBO liberou o trailer para a série Sharp Objects, adaptação do primeiro livro publicado de Flynn, eu soube que precisaria ler — e logo! — Objetos Cortantes, que há muito estava na minha meta de leitura. A leitura flui rápido; no livro de pouco mais de 250 páginas, publicado originalmente em 2006, conhecemos a história de Camille Preaker, uma jornalista que poderia ser mais, mas acaba sendo apenas mediana, de um jornal sem prestígio em Chicago, nos Estados Unidos. Ainda que recém-saída de um hospital psiquiátrico, após um pesado episódio de automutilação, Frank Curry, o editor-chefe do jornal, acredita ser uma boa enviar Camille de volta a sua cidade natal, a pacata Wind Gap, Missouri, a fim de cobrir o assassinato de uma garota local e o recente desaparecimento de outra. Receosa de retornar à cidade onde perdeu tanto — a irmã mais nova, para uma doença não diagnosticada; o controle sobre si mesma, para a doença mental; e a habilidade de se reconhecer no espelho, para a automutilação — Camille aceita o pedido de Frank, buscando provar que consegue cobrir uma matéria decente para o jornal.

Gillian Flynn, autora de Objetos Cortantes
Gillian Flynn

Em Wind Gap, a jornalista fica hospedada na casa da mãe, Adora Crellin, uma mulher controladora, rica e dona de um dos grandes abatedouros da região, junto de Alan Crellin, marido de Adora, e Amma Crellin, a meia-irmã adolescente, com quem Camille pouco tem contato e quase nada conhece. Procurando juntar as peças do assassinato de Ann Nash e do desaparecimento de Natalie Keene — que não muito depois descobrimos ter sido também assassinada —, duas meninas arteiras da cidade, Camille passa a entrevistar antigos conhecidos, novos rostos e o pequeno e quase sem recursos grupo policial responsável pelo caso. Acostumada a cobrir casos policiais, é com o detetive enviado do Kansas, Richard Willis, que Camille consegue algumas primeiras informações sobre a investigação levada pela polícia local. Enquanto tenta montar o quebra-cabeça por traz dos assassinatos e procura esboçar o perfil das meninas assassinadas, Camille se envolve romanticamente com Willis, ao passo em que se aproxima de sua rebelde meia-irmã.

Boa parte do primeiro romance de Gillian Flynn é dedicada ao trabalho jornalístico de Camille, com suas entrevistas e busca por respostas, e o desenvolvimento de suas relações pessoais, em especial com sua mãe e Amma. Além disso, uma parte não menos importante é reservada à relação de Camille com o próprio corpo, com a doença mental, e sua incessante vontade de exorcizar antigos demônios. Após a morte da irmã mais nova, Camille passa a se automutilar, beber até não poder mais e fazer sexo sem nenhum cuidado ou receio — ela quer que façam com o corpo dela o que bem entendem, pois ela já não se importa mais. Ao longo de muitos anos, a jornalista procede em cicatrizar na própria pele palavras diversas que, de alguma forma, relaciona a si mesma — e muitas delas podem ser relacionadas, também, ao ser mulher, pois quase sempre são direcionadas a elas, nunca a eles. Camille marca em si mesma palavras como wicked [perversa], bitch [puta], whore [vagabunda], punish [punição], favorite [favorita], entre outras. Sente que, ao longo de suas vivências, as cicatrizes ardem e conversam com ela. Em certo ponto, Objetos Cortantes menciona que seu corpo já está tão marcado que ela nem recorda mais a última vez que se relacionou com alguém — ainda que se relacione com o detetive, ela não o deixa vê-la nua. As palavras que escolhe são representações de suas inseguranças e vulnerabilidades e Camille, a todo custo, se esconde em roupas longas e evita espelhos. Uma das grandes e difíceis passagens de Objetos Cortantes é justamente Camille experimentando vestidos curtos após a insistência de sua mãe, onde é obrigada a encarar seus traumas.

“Eu me corto, sabe? E pico, e fatio, e gravo, e furo. Sou um caso muito especial. Eu tenho determinação. A minha pele grita, vê? Está coberta de palavras — cozinha, cupcake, gato, cachos — como se um garotinho com uma faca tivesse aprendido a escrever em minha pele.”

Ainda que tenha como pano de fundo um caso policial, não é isto que ganha destaque no livro. A matriarca Adora é uma personagem interessante e essencial à trama, uma mulher e mãe difícil de decifrar. Amma é a personificação da garota má fora de casa, e a boneca dentro dela; com seu grupo de amigas, lembra muito as meninas malvadas que comandam a escola nos filmes adolescentes; ela bebe e usa drogas, hipersexualiza o próprio corpo, tudo isso com apenas treze anos. Dentro de casa, usa vestidos infantis e brinca de boneca. Natalie e Ann, as duas crianças assassinadas, que não foram violentadas sexualmente, tiveram seus dentes arrancados e foram “cuidadas” — uma delas aparece de unha pintada, o que causa estranheza à família da menina e também aos policiais. Camille, por sua vez, é uma adulta que mora sozinha em Chicago, como se levasse uma vida boa, mas se resigna de sua realidade — sente-se mediana, morando em um apartamento decadente, sem ter relações afetivas, e na iminência de voltar a se mutilar. Os homens da trama ocupam um papel muito pequeno, quase irrelevantes, e é em torno das personagens mulheres que Objetos Cortantes gira e se desenvolve. Gillian Flynn pega a perspectiva feminina de algo, joga sua luz macabra em cima, e conta histórias de uma forma que um homem, no mesmo lugar, não contaria.

Escrito em primeira pessoa, ler Objetos Cortantes é realmente uma ótima experiência. A leitura engrena com facilidade, e é difícil largar o livro depois de finalizar cada capítulo — a vontade é devorar tudo rapidamente. É uma escrita marcante e ágil, mais ou menos da mesma forma que Garota Exemplar também o é. As ressalvas que podem ser feitas ao livro é que ele peca um pouco no seu final. Ainda há a característica principal de Gillian Flynn, qual seja, sua habilidade de construir plot twists interessantes, mas o final é um tanto corrido, e poderia facilmente ser diluído em mais páginas — a impressão que fica é que Gillian tinha um limite de páginas a cumprir e precisou apressar a conclusão do livro para não escrever mais do que deveria. De qualquer forma, continua sendo um livro capaz de cativar o leitor, mesmo que cruel e sombrio, ou principalmente por causa disso. As personagens femininas de Objetos Cortantes são tridimensionais, que lidam, à sua própria maneira, com seus demônios. Lê-las e tentar decifrar cada uma delas é o que faz do livro uma experiência em tanto. A espera agora é outra, e os dedos ficam cruzados em expectativa pela adaptação que chegará às telinhas no dia 8 de julho.


*A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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3 comentários

  1. Gosto das mulheres que Gillian escreve porque elas tem seus demônios e não passaram por uma violência sexual para tanto como acontece em muitos casos escritos por homens – em que a mulher se mostra meio louca ou manipulativa depois de um estupro, com uma sede de vingança (uma correção do seu texto, porém, é que as crianças assassinadas NÃO foram violentadas, isso inclusive causou confusão na investigação). Amy Dunne foi meu primeiro amor com toda sua complexidade e filha da putice (me perdoe a expressão), mas as Crellin e Camille também são muito bem escritas. Também li o livro muito rápido, acho que foram 3 dias, considerando trabalho e estudos…

    1. Oi, Nicole! Você tem razão, é muito bom ler mulheres complexas que não precisaram passar por esse tipo de violência como forma de justificativa pra… complexidade. Já corrigi o texto – acredito que tenha sido na hora da edição que o “não foram violentadas” virou “foram violentadas”, mas é um ponto realmente chave na história toda e eu gostei bastante desse detalhe. Agora vamos ver se a adaptação da HBO vai ser boa!

  2. Texto muito bom! Conheci a escrita da Gillian através de uma coletânea de contos chamada “Mulheres Perigosas”, de autoras convidadas pelo G.R.R.Martin, e o dela foi um dos meus preferidos. Mas só algum tempo depois liguei o nome à Garota Exemplar, e decidi ler tudo dela! E a coisa que mais me fascina nela é justamente a construção de personagens. Acredito que a Gillian deveria ser matéria básica pra quem gosta de escrever segundo esse critério!