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Orgulho & Paixão e todas as mulheres da trama

Quando a chamada para Orgulho & Paixão começou a passar nos intervalos da grade da Globo anunciando a trama de época que ocuparia o horário das 18h, as opiniões ficaram bastante divididas: a inspiração da novela nos romances de Jane Austen, clássica escritora inglesa do século XIX, era bastante evidente e o resultado poderia, aparentemente, ser tão surpreendente quanto embaraçoso. Há anos as obras de Austen vêm sendo relidas e adaptadas nos mais diversos formatos, alguns mais fiéis à trama original do que outros, e a recepção positiva ou negativa do público depende não apenas da perspectiva que o diretor e os roteiristas pretendem abordar e do trabalho de produção como um todo, mas também da disposição com que nós, janeites, abrimos nossas mentes às adaptações. Orgulho & Paixão, assinada por Marcos Bernstein, estreou dia 20 de março de 2018 e, em quase três meses no ar, assistimos o suficiente para comentar o andamento inicial da trama e a evolução das personagens.

Uma aposta na adaptação de um trabalho de Jane Austen raramente é perdida. O enredo de qualquer um dos seis livros publicados, das novelas concluídas e inacabadas, ou das peças escritas em sua juvenília acabam rendendo, no mínimo, um bom material para entretenimento e talvez análises mais elaboradas. Mas, primeiro, é importante lembrar por que o nome de Jane Austen foi eternizado na literatura inglesa e seu trabalho é tão difundido até os dias de hoje, e a razão é uma: Jane Austen escreveu livros protagonizados por mulheres além do seu tempo, e fez isso retratando muito bem os costumes da época e o funcionamento da sociedade inglesa no final do século XVIII, início do século XIX. Seus romances não são apenas romances, eles mostram mulheres enxergando possibilidades além do casamento e priorizando seus próprios sentimentos acima do conforto e da conveniência que o matrimônio poderia oferecer. Em uma sociedade dividida por classes sociais delimitadas, era um absurdo, porém um absurdo fascinante, que as heroínas de Austen com suas posições mais modestas recusassem um bom pedido de casamento ou tivessem de enfrentar uma saga para chegar no seu amor (por coincidência ou destino, rico). A exceção à regra é Emma, que nasceu em uma família rica, e por isso considera o casamento dispensável. Sua jornada acaba sendo sentimental, fundada pela quebra de sua realidade e o autoconhecimento.

Contudo, pensando no formato do entretenimento brasileiro mais popular, fazia sentido unir todos as tramas de Austen em uma só para que a nova trama pudesse se sustentar por, em média, 200 capítulos, com um dinamismo que mantivesse a taxa de audiência alta — afinal, a quem queremos enganar?, o objetivo das novelas não é só homenagear escritoras famosas — e nada mais justo do que nacionalizar também todas as características do mundo austeniano. Dessa forma, Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Mansfield Park, Emma, A Abadia de Northanger e Lady Susan tiveram seus melhores ingredientes reunidos e misturados na cidade fictícia do Vale do Café, no interior de São Paulo do início do século XX, e passou a nos proporcionar o passatempo de adivinhação e contraste entre personagens originais e inspirados, com seus erros e acertos, indignações e suspiros, celebrando diversas jornadas femininas no primeiro plano, e no pano de fundo, a história — romanceada, vale frisar — do nosso país.

Orgulho & Paixão

A mudança do mundo austeniano para o Brasil do começo do século XX, é claro, acarreta em alterações bastante significativas no pano de fundo que existe por trás das histórias das heroínas de Orgulho & Paixão. Para além dos vastos cafezais que servem de cenário para a trama, estamos em um mundo onde as classes sociais não são tão bem demarcadas em termos de títulos e ocupações, e as diferenças repousam principalmente na oposição entre aqueles que têm ou não dinheiro; além disso, as personagens transitam com maior liberdade pelo mundo, ainda que as convenções sociais e as expectativas a respeito das moças bem comportadas continuem a existir. A mudança de cenário também torna injustificável que a novela, firmemente fincada em solo brasileiro, seja tão branca quanto qualquer adaptação que se passe na Inglaterra rural do século XIX. Depois de muitas críticas nas redes sociais, o roteiro da novela incluiu alguns personagens negros em sua trama — os quais ainda parecem existir principalmente para comprovar o quão bons e não racistas são os mocinhos e mocinhas casadoiros que transitam em primeiro plano. A trama de Tenória (Polly Marinho), que descobre ser filha do Barão de Ouro Verde (Ary Fontoura) com uma das escravas da propriedade, por enquanto oferece possibilidades dramáticas interessantes, e também a possibilidade de uma crítica social contundente, mas ainda falta estofo à personagem, tratada mais como mero acessório narrativo do que como uma personagem bem realizada como são as meninas brancas do Vale do Café.

Algumas escolhas narrativas também trazem alterações notórias no papel de cada personagem livremente inspirado naqueles criados por Jane Austen. A escolha de manter vivos o pai e a mãe de Darcy e Bingley, respectivamente, retira deles o papel de completos condutores dos próprios negócios, fortunas e vidas, e acaba fazendo de muitas de suas escolhas — especialmente as moças com quem querem se casar — embates com os progenitores, o que certamente traz mais possibilidade de identificação por parte do público do que homens muito ricos escolhendo esposas. Nesse sentido também parece caminhar a decisão de destituir personagens originalmente muito ricos, como Bingley e Emma, de suas posses para que possamos vê-los caminhando verdadeiramente com os próprios pés ao iniciarem suas vidas adultas — um processo difícil para ambos. Outra opção feita na novela é a de excluir da trama das Bennet a questão da casa e da herança que elas perderiam na ocasião da morte de seu pai, de modo que o desespero da mãe para casá-las parece bem menos compreensível e justificável, mais fruto da reafirmação das expectativas sociais que recaem sobre as jovens mulheres do que de qualquer tipo de necessidade financeira. Em Orgulho & Paixão, o aspecto do casamento que fazia dele também um negócio se torna muito menos presente, e o foco de fato é dado ao aspecto romântico dele — pelo menos na maior parte dos casos.

Quem está em evidência entre todos os núcleos da trama é, claro, as versões brasileiras de Elizabeth Bennet e Mr. Fitzwilliam Darcy, Elisabeta Benedito (Nathalia Dill) e Darcy Williamson (Thiago Lacerda), o casal principal que dá sentido ao título. A mocinha, advinda de uma família interiorana, os Benedito, composta pelo pai, Felisberto (Tato Gabus Mendes), a mãe, Ofélia (Vera Holtz), e outras quatro irmãs, Jane (Pâmela Tomé), Cecília (Anajú Dorigon), Mariana (Chandelly Braz) e Lídia (Bruna Griphao), todas solteiras e sem grandes fortunas; o mocinho é filho de um lorde inglês, empresário com grandes negócios de expansão no Brasil, e portanto, com uma grande fortuna. Mas o relacionamento deles não é fácil: ela é tempestuosa, determinada e quer mais da vida do que o matrimônio pode lhe oferecer; ele é deveras reservado, orgulhoso, e um tanto preso às convenções de sua classe. No que isso pode levar?

O protagonismo de Elisa

Orgulho & Paixão

Quando pensamos nas heroínas escritas por Jane Austen, Elizabeth Bennet é quem vem mais facilmente à memória. Protagonista de Orgulho e Preconceito, publicado nos idos de 1813, Lizzy é a segunda das cinco filhas da família, a preferida do Sr. Bennet e, aparentemente, a menos querida por sua mãe, a Sra. Bennet, que não vê na filha a mesma beleza cativante de Jane, sua primogênita, e nem o gênio mais próximo ao seu, como é o caso de Lydia. Elizabeth possui uma personalidade forte, é inteligente e uma observadora perspicaz, sempre capaz de fazer comentários espirituosos e certeiros sobre qualquer situação, o que a faz se sair bem até quando momentos constrangedores surgem em seu caminho.

É possível dizer que Marcos Bernstein pegou emprestado da Elizabeth de Jane Austen todas essas características, misturando-as posteriormente com a Bela, do clássico A Bela e a Fera. Elisabeta possui um espírito aventureiro e quer mais do mundo do que aquilo que o Vale do Café tem a lhe oferecer, e não permitirá que ninguém a impeça de conquistar seu sonho. Ao mesmo tempo, assim como Lizzy, ela é jovial, inteligente e observadora, e sempre tem uma resposta pronta na ponta da língua para qualquer que seja a ocasião. Outro traço que o autor da novela trouxe da trama de Jane Austen é o relacionamento entre Elisabeta e o Sr. Benedito: da mesma maneira que ocorre em Orgulho e Preconceito, pai e filha são cúmplices e se entendem perfeitamente bem, mostrando um relacionamento carinhoso e pautado na confiança. O Sr. Benedito sabe que a filha precisa explorar o mundo para ser feliz e, sendo assim, concede sua bênção para que Elisa se mude para São Paulo e experimente o mundo por conta própria.

Uma vez em São Paulo, o objetivo principal de Elisa é encontrar o seu chamado, e por isso ela recusa o casamento com Darcy, embora a esta altura já esteja bastante óbvio que ela o ama, antes de entender qual exatamente é o espaço que ocupa no mundo e o que quer ser. Desde o começo da novela, Elisabeta demonstra semana após semana exatamente o quanto é uma mulher à frente de seu tempo, questionadora a respeito dos papéis tradicionais que são esperados dela e de suas irmãs e das convenções sociais e padrões duplos impostos às mulheres da sociedade. A novela pode ter pecado no exagero de sua caracterização no começo, quando Nathalia Dill por vezes chegava a gritar em cena para demonstrar o quanto Elisabeta era capaz de se impor em todos os espaços, mas com o tempo o tom foi corrigido e o enredo da personagem foi ficando cada vez mais interessante conforme ela passa a trabalhar e tomar as rédeas da própria vida, sendo força ativa nos rumos tomados por seu relacionamento com Darcy. Relacionamento que, ainda que de vez em quando sucumba às incontáveis e cansativas idas e vindas típicas das novelas (bem como alguns tropos deveras manjadas, como cartas falsas), tem sido muito bem desenvolvido.

A liberdade criativa da nova trama permite, inclusive, que Elisabeta e Darcy se tornem muito mais íntimos antes do casamento do que uma trama de Jane Austen permitiria — o que não desabona a Orgulho & Paixão em nada, ainda que alguns fãs puristas dos escritos da inglesa possam ficar de cabelos em pé com as novas tramas e desenvolvimento romântico. Elisa, dona da própria vida e do próprio nariz, é suficientemente bem resolvida para decidir que não quer esperar pelo casamento para viver sua paixão.

A matriarca e as outras irmãs Benedito

Orgulho & Paixão

Em Orgulho e Preconceito, a ocupação da vida da Sra. Bennet é buscar casamento para suas cinco filhas, todas solteiras, com homens de posses — algo que ela não faz pensando no bem estar das filhas, visto que deseja que Elizabeth se case com o absolutamente ridículo Sr. Collins ou que celebra alegremente o casamento de Lydia com o destituído e aproveitador Sr. Wickham. Dito isso, diante da perspectiva de perder a propriedade da família, e sem um filho no qual pudesse se apoiar, é em alguma medida compreensível que ela tema pelo futuro das filhas, e pelo próprio, apostando as fichas no casamento. Em Orgulho & Paixão, no entanto, estas questões não têm espaço — e ao vermos Elisabeta e Jane trabalhando por conta própria na cidade grande, também vemos um mundo que oferece mais oportunidades às jovens solteiras. Talvez por isso, na novela, o comportamento de Ofélia seja suavizado: ela continua tão espalhafatosa como sempre, mas vemos na Sra. Benedito de Vera Holtz uma mulher que parece genuinamente preocupada com a felicidade das filhas, ainda que sua visão do que significa uma vida feliz seja deveras limitada e bastante sufocante para suas crias. A ocupação de sua vida, no entanto, não muda, e casar as cinco jovens Benedito continua sendo seu grande objetivo.

Para compor a família Benedito, Marcos Bernstein optou por cortar da trama as irmãs Bennet com menos relevância dentro da trama, Mary e Kitty, e incluir na família as versões brasileiras de Marianne Dashwood, de Razão e Sensibilidade, e de Catherine Morland, de A Abadia de Northanger, livro que dialoga com os muito populares romances góticos da época. Ao lado das irmãs Elisabeta, Jane e Lídia Benedito, portanto, temos na novela também Mariana e Cecília.

Em Razão e Sensibilidade, Marianne Dashwood, assim como acontece com Lydia Bennet, é seduzida por um jovem galanteador e aproveitador. Se a história de Lydia termina em um casamento com Wickham, muitíssimo celebrado pela garota, Marianne é abandonada por seu próprio boy lixo, Willoughby — mas também termina em um casamento (pintado em tons muito mais positivos) com o Coronel Brandon, um homem mais velho, mais tranquilo e mais seguro. Uma ideia interessante em Orgulho & Paixão é a de juntar as figuras de Wickham e Willoughby em um mesmo personagem, o autodeclarado poeta Uirapuru (Bruno Gissoni), uma vez que o papel dos dois, em suas respectivas tramas, é bastante similar. O resultado dessa escolha, no entanto, foi um pouco infeliz.

Desde a chegada de Uirapuru no Vale do Café ele é disputado pelas irmãs Lídia e Mariana, que protagonizam cenas bastante esdrúxulas — com direito a guerra de comida e se estapearem por aí por causa dele. Poderíamos ter passado muito bem sem isso, mas fica pior. Mariana é usada e descartada sem pudores por Uirapuru, e mesmo depois que Lídia vê a irmã sofrendo e acamada devido ao tamanho de sua desilusão — complementada ainda pelo fato de Uirapuru ter uma noiva em outra cidade —, Lídia acha de bom tom fugir com ele para São Paulo, num nível de insensibilidade e estupidez muito maiores do que aqueles em que Lydia Bennet, em toda sua frivolidade e futilidade, conseguiu chegar. Por enquanto, o roteiro da novela não nos permitiu enxergar Lídia para além disso.

Mariana, por outro lado, vem ganhando um desenvolvimento muito bem vindo depois de passar por todo esse drama (e depois de receber apoio das irmãs, do pai e, numa cena muito bonita, de Charlotte Williamson (Isabella Santoni), outra vítima de Uirapuru). Sua admiração pelo controverso justiceiro do Vale do Café, o Motoqueiro Vermelho — alter-ego do Coronel Brandão (Malvino Salvador) —, foi estabelecida desde suas primeiras aparições. O que o Motoqueiro representa para ela, acima de tudo, é um pouco de vida, de aventura, em meio ao marasmo de sua cidade interiorana. Quando descobre a verdadeira identidade do justiceiro, Mariana passa a se sentir subitamente atraída pelo próprio Brandão, que ela achava tão desinteressante, conforme as figuras começam a se fundir em sua cabeça — e também conforme ela começa a descobrir o lado aventureiro dele, nas corridas de motocicleta das quais ele participa. Mas o encantamento de Mariana a leva a buscar algo além de assistir a esses momentos das margens: ela quer aprender a pilotar, quer correr e criar para si mesma a narrativa emocionante a que sempre almejou.

Na contramão dessa trama está a de Jane, que se declara plenamente feliz depois de finalmente se casar com Camilo (Maurício Destri) após muitas idas e vindas. Como Jane Bennet, Jane Benedito é muito doce, compreensiva e possui um coração do tamanho do mundo, mas ela também tem certa dificuldade de expressar seus sentimentos com clareza, o que gera muitos mal entendidos em seu relacionamento. Infelizmente, o roteiro da novela tem levado a fragilidade de Jane a níveis exagerados, contando com cenas em que a menina cai no choro ao ver Ema e Ludmila discutindo sobre vestidos, ou então literalmente desmaiando depois de confrontar Julieta (Gabriela Duarte). Chega a parecer quase justificável que Camilo opte por esconder dela todas as dificuldades a fim de “protegê-la”. Embora tenha essa tendência desagradável de nunca ser completamente honesto com Jane, Camilo até agora tem sido um personagem mais interessante do que ela. Assim como Charles Bingley, Camilo tem dificuldade de se impôr diante daqueles que possuem mais força vital e acreditam saber o que é melhor para ele. Quando finalmente consegue escapar do controle da mãe, Camilo tem dificuldade em lidar com a vida de maneira independente, e sua jornada tem sido uma mistura complexa de orgulho e fragilidade; fragilidade esta que aparece em sua melhor forma quando o texto da novela dá a ele muitos sentimentos, especialmente dentro de sua amizade profunda e sincera com Darcy.

Enquanto isso, um romance plenamente salutar existe na trama de Cecília, ainda que essa trama seja justamente a mais absurda de todas. Como Jane, Cecília também é uma menina muito doce, mas ela se destaca principalmente pela sua paixão pelos livros — algo que sua mãe não necessariamente condena, mas que a leva a dizer que a menina vive no mundo da imaginação e confunde realidade e ficção. Apesar de seu gosto por literatura ser muitas vezes tratado com certo estranhamento, quando Cecília conhece Rômulo (Marcos Pitombo) e eles gradativamente se apaixonam um pelo outro, é notável que ele se esforça constantemente para entender sua paixão e participar de seu mundo. O arco dramático maior de Cecília, no entanto, não é esse, e sim seus medos diante da Mansão do Parque e do Almirante Tibúrcio (Oscar Magrini), pai de Rômulo — e de assombrações. Por ser baseada em A Abadia de Northanger, que em sua paródia gótica é o romance de Jane Austen que menos se parece com o restante de sua obra, a trama de Cecília também acaba sendo, em termos de temática, a mais deslocada do resto de suas irmãs — algo que não é incomum em novelas, com seus muitos núcleos, mas que ainda assim não parece coeso com os temas explorados em Orgulho & Paixão.

Julieta, Susana e Fani: nuances de antagonistas

Uma das personagens mais enigmáticas da trama em termos de sua inspiração não estar clara e sua história de vida não ter sido entregue ainda, Julieta Bittencourt é uma viúva amargurada; mãe de Camilo, filho a quem protege (e controla) a todo custo; e, acima, de tudo, uma mulher de negócios. Autointitulada Rainha do Café, Julieta e sua assistente para assuntos aleatórios, Susana (Alessandra Negrini), chegam ao Vale a fim de negociar as terras do Barão do Café e expandir os negócios. Julieta vive para sua fama de mulher irredutível e defensiva — sua vida inteira se resumiu a ser subestimada por homens, começando pelo seu falecido marido, que leva a fama pelo império construído por ela mesmo após a sua morte, e se isso não é uma justificativa boa o suficiente para o comportamento dela, é porque você nunca se deu conta da dificuldade de ser uma mulher em um ambiente masculino. Some isso ao fato de a trama se passar no início do século XX, e Julieta inspira ares de respeito.

Sua pessoa se torna antagônica quando o assunto é a vida amorosa do filho Camilo, que se apaixonou por uma mulher que, socialmente, não está a sua altura e, portanto, não deve assumir qualquer tipo de compromisso com ela. Nesse caso, Julieta é uma mulher que interfere, trama e executa todo o tipo de “sacrifício” para garantir que seu único herdeiro esteja no caminho certo. Seus planos de manter Camilo longe de Jane são todos justificados pelo amor de mãe, e por isso ela planeja viagens de afastamento que incitam mentiras, dá ultimatos e corta relações (e privilégios!) de maneira frígida como a mulher que precisa ser. Por todas as lágrimas derramadas pelo jovem casal e seu jeito incisivo de fazer negócios, ela arranca rosnados do público, mas ainda tem muito a ser revelado sobre ela antes de batermos o martelo em qualquer julgamento.

Esse também é caso de Fani (Tammy Di Calafiori), a única menina Pricelli, que desde criança vive na Mansão do Parque como governanta da casa, e ressente-se muito de sua família por tê-la vendido para a família do Almirante Tibúrcio, ainda que fosse para que ela pudesse ter uma condição de vida melhor. De personalidade misteriosa e sombria, quando Rômulo começa a namorar Cecília e decide se casar com ela, Fani não mede esforços para separá-los. É ela quem tortura Cecília psicologicamente, abusando da crença da jovem de que a Mansão do Parque é mal assombrada, enquanto deseja que o novo casal sofra tanto quanto ela sofreu vivendo ali. O motivo de suas atitudes é um segredo bem guardado na trama da novela, mas tudo indica que Fani faz o que faz por excesso de mágoa que guarda no coração, e em algum momento vai buscar sua redenção, visto que a personagem que a inspira em Mansfield Park é o completo oposto do que sua versão em Orgulho & Paixão tem aparentado ser até agora. Fanny Price, ao contrário, tem a fama de ser a heroína mais insossa criada por Jane Austen, pelo excesso de ingenuidade, bondade e submissão.

O mesmo não se pode dizer de Susana Donato, nova identidade de Genésia, uma mulher ambiciosa que se alia a Julieta por interesse. Ao que tudo indica, Susana ascendeu socialmente à base de mentiras, e junto a sua fiel escudeira Petúlia, ela trama planos esdrúxulos para enriquecer e separar as irmãs Benedito de Camilo e Darcy, tendo ela própria interesse no último. Susana é apresentada principalmente como uma personagem ambiciosa — mas suas aspirações e interesses nunca ficam muito claros. Ela parece existir apenas para ocupar o posto de vilã com traços cômicos, muito comum em novelas de época. Sua dinâmica com Petúlia funciona bastante bem na tela, e o carisma de Alessandra Negrini segura a personagem, mas a falta de nuances ou meras motivações claras tornam Susana, ao fim do dia, desinteressante se comparada a outras antagonistas da novela.

A jornada de Ema Cavalcante

Tentando incluir a cumplicidade feminina como um dos pilares da trama, a melhor amiga de Elisabeta, Ema Cavalcante (Agatha Moreira), ganha uma parcela significativa de atenção e realiza nosso sonho de ver duas das melhores protagonistas dos romances convivendo muito bem no cruzamento de enredos mesmo com suas personalidades tão distintas. A frase de abertura de Emma é marcante por resumir bem as principais características da personagem em qualquer adaptação — “Emma Woodhouse, bonita, inteligente e rica, com uma casa confortável e uma disposição alegre, parecia reunir algumas das maiores bênçãos da existência; e vivera quase vinte e um anos com muito pouco para a lhe causar angústia ou irritação” – e em Orgulho & Paixão não é uma exceção. De acordo com seu sobrinho, quando começou a escrever o livro, Jane Austen disse que criaria uma heroína de que ninguém, além dela, gostaria muito, uma afirmação que terminou por se provar bastante errônea. Só não gosta de Emma quem não a entende dentro do contexto de sua vida, e o mesmo se aplica à Baronesinha do Café da novela.

Ema Cavalcante é uma moça rica, mimada e protegida por seu avô Afrânio, o Barão do Café, dono de uma grande propriedade, e seu pai Aurélio (Marcelo Faria). Ema perdeu a mãe cedo e vive para a promessa que fez a ela de cuidar do pai e do avô, a qual ela cumpre com uma dedicação extrema, até. Por não se sentir livre para procurar um amor para ela mesma, ela ocupa seus dias em planejar festas e unir casais, o que faz com certo sucesso, e isso lhe causa a ilusão de sempre saber o que é certo para outras pessoas. Essa é sua maior diferença com Elisabeta e também o motivo das discussões mais graves entre as duas. O que Ema não sabe é que seu avô está completamente falido por má condução dos negócios, e nem ele, nem o pai, querem dar a notícia a ela, que continua levando um estilo de vida extravagante enquanto no escuro, uma das maiores alterações do livro para a novela. Emma Woodhouse jamais passou por uma decadência financeira, e com a saúde delicada do pai, já em idade avançada, embora à disposição dele, ela tinha pleno controle da administração da casa; suas maiores perturbações vieram de mal entendidos que ela mesma causou, fazendo-a sentir as angústias que até então nunca havia sentido. Ema Cavalcante, por outro lado, tem de que lidar com problemas em todos os âmbitos de sua vida ao mesmo tempo, em uma sincronia muito infeliz de acontecimentos.

Cansada de ser enrolada pelos homens da família Cavalcante, Julieta cobra as dívidas se apoderando da fazenda Ouro Verde, e expulsa a todos de supetão lançando a má notícia no colo de Ema como uma bomba, num episódio de carga emocional muito grande, mas que traz à tona toda a indignação dela por ter sido poupada como uma menina inocente e fútil. Com isso, ela rompe com a família e acompanha seus amigos até São Paulo, sem saber muito bem o que fazer, mas fazendo. Ao mesmo tempo, ela precisa lidar com seus sentimentos por Jorge (Murilo Rosa), advogado da família, por quem é apaixonada e correspondida. No entanto, a dificuldade de expressar esse amor por parte de ambos nunca foi sincronizada, e acreditando que jamais teria uma chance com Ema, algumas semanas antes Jorge pedira Amélia, uma amiga que sofre de uma doença terminal, em casamento, bem quando Ema chegou em sua casa para se declarar para ele. Desiludida e sozinha por ter estendido o infortúnio de seu sentimento para o relacionamento de Elisabeta e Darcy, o que resultou numa situação que os separou momentaneamente e fez a amiga afastar-se dela, Ema encontra consolo na companhia de Ernesto Pricelli (Rodrigo Simas), um rapaz simples, filho de imigrantes italianos, que começou a trabalhar em sua casa enquanto ela estava ausente.

Ema e Ernesto acabam se aproximando com a convivência, embora suas conversas quase sempre terminem em discussão devido à diferença de classe social e visão de mundo dos dois. A máxima que diz que os opostos se atraem, entretanto, se faz verdadeira na relação entre eles, que em pouco tempo evolui para uma atração turbulenta, porém recíproca e cativante o suficiente para induzir os fãs a romper com o cânone. Ema e Ernesto, como casal, conferem à novela o slow burn que Elisabeta e Darcy “falharam” em proporcionar como casal principal (especulando que, graças ao formato, a narrativa teria de ser um pouco mais dinâmica para segurar a audiência e com isso seria essencial ter a dose do romance derramada já nos primeiros capítulos) e reforçam o tema que dá nome à novela. Em contrapartida, os dramas do triângulo amoroso junto aos problemas financeiros e familiares tornaram Ema uma pessoa insegura em relação aos seus próprios sentimentos, em especial quando eles vão contra seus valores e deveres. A busca pelo próprio equilíbrio segue a passos lentos graças à excessiva preocupação da personagem com as pessoas ao seu redor, mas é, definitivamente, o objetivo do desenvolvimento dela. A crítica mais séria apontada em seu enredo não está no comportamento de Ema, e sim no modo como Afrânio e Aurélio a tratam, endossando os deveres de Ema para com eles, muitas vezes utilizando de chantagem emocional, principalmente o Barão.

Ludmila e Charlotte

Cultas e ricas, Ludmila de Albuquerque (Laila Zaid) e Charlotte Williamson entraram na novela quase ao mesmo tempo. Enquanto as Benedito ou Ema representam a mulher interiorana — um mundo naturalmente mais conservador e limitante — Ludmila, em especial, é a representação da mulher moderna: ela é dona da própria empresa, rica por si mesma, veste calças, transita por aí sem muitos pudores e é muito dona de si. Ela é ao mesmo tempo uma inspiração e um catalisador na jornada de Elisa, visto que dá a ela um emprego somente porque sim e, como consequência, Elisabeta ganha mais liberdade ao poder bancar a própria estadia em São Paulo.

Enquanto Ludmila é um livro aberto, Charlotte ainda é um enigma. A irmã caçula de Darcy fora usada e logo descartada por Uirapuru diante de uma proposta em dinheiro para desaparecer, mas em Orgulho & Paixão ela acaba se reaproximando do poeta após a volta dele a São Paulo — em uma trama por enquanto confusa e pouquíssimo explicada. Se em certos momentos Charlotte parece seguir balançada pelo seu antigo amor, a jovem também protagoniza belas cenas, como aquela em que conforta Mariana após o afogamento no lago.

Personagens como Ludmila e Charlotte parecem existir, acima de tudo, com um contraponto por vezes limitante à realidade do Vale do Café, buscando trazer mais nuances para a experiência feminina que é sempre o grande destaque da novela. Nesse sentido, fica ainda mais gritante o fato de, com exceção de empregadas domésticas sem nome e quase sem falas, tenhamos exatamente duas mulheres não brancas novela: Tenória e a recém-incluída Mariko (Jacqueline Sato), neta de imigrantes japoneses. Ao trazer Jane Austen para São Paulo, a equipe da novela acertadamente trouxe para dentro da trama tanto nosso passado escravista quanto as imigrações que fazem parte de nossa história, mas por enquanto falta — e muito — olhar com mais carinho para essas histórias.

Por enquanto, num balanço geral, Orgulho & Paixão tem sido um refresco bem-vindo na grade de novelas. Seu nome é capaz de trazer de volta telespectadores que há muito abandonaram o entretenimento mais popular brasileiro pelo excesso de drama, abordagens distorcidas e sensacionalismo tão presentes nas últimas tramas, e aproveita para mostrar ao público como é o desenvolvimento de uma heroína da vida real; de carne e osso, com poucas posses, mas muita personalidade. Graças a isso, as expectativas para a novela são sempre altas, mas apesar de conhecermos as obras que a inspirou e gostarmos do jogo de comparações para prever o desenrolar dos enredos, também é preciso ter um olhar gentil em relação às diferenças de uma história para outra, de um formato para outro, de uma cultura para outra. No dia em que esse texto for ao ar, muita coisa vai ter acontecido e as reviravoltas provavelmente não serão pequenas; ainda há muito chão pela frente, e quase cinco mil palavras, com certeza não seriam suficientes para dar conta de tudo.

Texto escrito em parceria por Fernanda, Thay e Yuu.

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2 comentários

  1. Linda a matéria! Quando soube que haveria uma novela inspirada nas obras de Austen, achei um máximo e resolvi embarcar na trama de peito aberto. Sabia que várias alterações seriam feitas por ser tratar de mídia televisiva (aqui o telespectador é a segunda mão do roteirista), então decidi me divertir. As personagens femininas, cada qual a sua maneira, são ótimas. Mas chamo atenção para dois perfis: Elisabeta e Ema. A primeira me causou certa estranhamento pelo tom inicial dado. Como dito na matéria, para dizer seu ponto de vista e ideais ela gritava em cena; parecia muito mais ser uma personagem arrogante a uma moça à frente do seu tempo. Acertadamente, o tom foi ajustado e agora conseguimos enxergar uma Elisa com pensamentos modernos, inteligente e dona de si. Seu relacionamento com Darcy me decepcionou um pouco pela rapidez com que aconteceu. E o orgulho e preconceito, essenciais características do casal no livro, inexistem na novela. Mas ainda sim é um bom casal. Falando de Ema, a considero o melhor papel feminino da trama. A mais complexa, com várias camadas. É nobre, minada, por vezes fútil. Mas boa amiga, inteligente e com bom caráter. E também resignada com o destino de cuidar do avó e pai. Há uma certa melancolia em Ema, simbolizada com a fama de casamenteira dela. Nunca se permitiu amar e para preencher esse vazio, ela encontrava amores para as outras pessoas. Quanto ao seu par com Jorge, vejo o mesmo problema do casal principal. Descobriram que se gostavam muito rápido e também não gostei do plot da Amélia (a velha história de se casar com pena por uma mulher). O Jorge da novela é um personagem muito passivo, apático. Em contrapartida, Ernesto tem sido uma grata surpresa. Ema e Ernesto tem tido um bom desenvolvimento. Não se gostaram à primeira vista, pelo contrário. Ele por prejulga-la (se é rica, fresca, não tinha por que se interessar) e ela por achá-lo rude. Viviam se implicando e as diferenças sociais sempre pareceram oceanos entre os dois. Com o tempo foram se conhecendo melhor e aquilo que os separavam tornou-se menor. Apaixonaram-se. Mas Ema se viu obrigada a se casar por conveniência para ajudar a família a se livrar da miséria. Talvez por isso eu tenha gostado do mais desse casal. Ninguém se apaixona logo de cara, é o convívio que faz o amor nascer. Mas, enfim, a novela está otima e o melhor foi trazer esse universo feminino, com protagonistas femininas, com um olhar feminino para a televisão. Nada melhor do que Jane Austen que retrata tão bem a mulher.

  2. matéria bem bacana!! Pelo tempo acho que não tem chance de vocês publicarem outra levando em consideração a segunda metade da novela, né? ^^’ Eu vi a novela na época mas queria ver opiniões elaboradas assim a respeito!