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Estamos vivas: como a cultura pop muda nossas vidas

No início de maio, completamos dois anos de existência. Se nosso primeiro aniversário foi marcado pela sensação de estarmos atravessando a linha de chegada depois de uma maratona complicada, a conclusão desses dois anos deixa a impressão de que estamos caminhando — às vezes correndo — num mundo diferente. Não só porque o mundo está mesmo mudando aos poucos, e a prisão de Harvey Weinstein na semana passada é só uma prova disso, mas porque todos os dias nós mudamos e somos transformadas pelas experiências que vivemos e pela cultura pop que consumimos, as duas coisas se influenciando mutuamente, o que reflete também no site e no conteúdo que produzimos.

Para marcar esse segundo ano, com o mundo e nossas vidas em constante estado de mudança, reunimos algumas editoras e colaboradoras do Valkirias para falar sobre qual experiência com cultura pop mudou a sua vida ao longo desse último ano e qual foi o impacto dessa transformação. Confira aqui a continuação!

Sobre Hard Times, Hard Feelings e se permitir sentir

Por Ana Vieira, editora

cultura pop

No início de 2017, tive a sensação de que teria muita coisa pra viver naquele ano, de que ele seria exaustivo, de que ele tiraria o máximo que poderia de mim. Estava na reta final do curso de Direito, tinha um TCC para desenvolver, fora a vontade de já prestar o Exame de Ordem. Foi cansativo, e não faço nem ideia de quem eu fui naquela época.  Essa época turbulenta foi marcada pelo novo álbum do Paramore, After Laughter, e também teve resquícios das primeiras novas músicas da minha amada Lorde, com sua luz verde e tudo. Melodrama foi um abraço quentinho que falou muito, muito comigo. Minha trilha sonora me cantava que nem tudo estava bem, mas estava tudo bem assim mesmo. No fim das contas, tudo deu certo na vida acadêmica: houve aprovação em OAB, houve apresentação com nota dez e elogios, e houve, acima de tudo, o buraco existencial que quem termina uma graduação experimenta. Não sabia o que iria fazer a seguir. Não conseguia voltar pro site porque estava com uma dificuldade enorme em escrever. Não conseguia ler nem me concentrar na maioria das séries; havia um cansaço muito grande. Misture a culpa à ressaca acadêmica.

Tentando me recuperar da exaustão, me permiti uma maratona de Big Little Lies junto da pessoa amada; foi honestamente um dos melhores momentos do meu ano porque eu senti, naquele dia (quase que unicamente) que, por fim, as coisas iriam voltar pro lugar: eu me sentia bem, eu estava tranquila, assistindo uma série realmente boa enquanto bebericava cerveja. 2017, num geral, foi um ano que a solidão esteve sempre logo ali. Apesar das coisas boas, fora a canseira, eu sentia a solidão, a inadequação, como uma presença inerente a mim. Meu relacionamento acabou, a “presença” se intensificou, e como necessário fui abraçada pela banda inglesa Daughter, que cantava tudo pra mim, tudo sobre mim. O final do ano me resguardou uma maratona de BoJack Horseman que me marcou tanto que só recordo me sentir assim com Mad Men.

2017 foi, sobretudo, um ano de se voltar para dentro de mim. Eu precisei me sentir abraçada por coisas que eu realmente amo: músicas, bandas, cantoras, álbuns, seriados, o que fosse. Eu precisei me apaixonar por uma série adolescente da noruega, outra sobre três amigas em Nova York, e uma sobre um meio homem meio cavalo depressivo. Precisei sentir que poderia! coisas! enquanto assistia uma super-heroína no cinema. Precisei me permitir passar horas apenas deitada, produzindo nada, ouvindo uma neozelandesa no repeat. Eu precisei me sustentar em coisas que me faziam — e fazem — bem. Me afastei um bocado das Grandes Discussões da Internet e não mais que uma vez percebi que esse ambiente não me faz mais tão bem. Poder sentir coisas, todas as coisas, no embalo daquilo que a gente gosta é tão ruim quanto é bom, e eu sou eternamente grata.

Sobre fugir de uma história única

Por Analu Bussular, colaboradora

cultura pop

Pode parecer exagerado dizer que a palestra de Chimamanda Ngozi Adichie sobre os perigos de uma história única mudou a minha vida, mas se a gente parte daquele princípio de que os livros mudam as pessoas, é só a mais pura verdade dizer que sim, ela me mudou. Me mudou porque depois que assisti a essa palestra eu comecei, primeiro de forma inconsciente, a querer sair do mesmo. A pular fora dessa história única o máximo que eu conseguisse. A partir dessa motivação, descobri muitas coisas — em especial, as mulheres negras.

Quero deixar claro que entendo o meu lugar de privilégio nessa equação, o lugar de uma mulher branca que nunca vai sentir na pele o que é narrado por elas. O que eu quero dizer é que o conhecimento e a memória são importantíssimos agentes de transformação, e que quanto mais a gente tem contato com essas questões, mais vontade a gente tem de falar sobre elas e de lutar contra o que não é justo. A literatura de mulheres negras rompe a barreira dos livros de histórias nos quais só os opressores contam suas versões, e a gente precisa, cada vez mais, fugir não só da história única, mas da versão única de uma história.

Em Meio Sol Amarelo, da própria Chimamanda, pude conhecer a guerra da secessão da Nigéria, da qual nunca tinha ouvido falar. Com Americanah, pude imaginar como é ser um imigrante marginalizado. Em Hibisco Roxo, tive a oportunidade de descobrir algumas das barbaridades cometidas pelos colonizadores brancos em alguns grupos étnicos africanos, nesse caso nos vieses religiosos e culturais. Buchi Emecheta aborda com intensidade a questão da maternidade e dos costumes familiares vivenciados na Nigéria: como opera o machismo, como funcionam as relações poligâmicas, qual o peso de tudo isso na vida das mulheres de lá. Com Scholastique Mukasonga e seu A Mulher de Pés Descalços aprendi sobre o genocídio de Ruanda e, também, um pouco sobre as rivalidades entre grupos étnicos nesse país. Através de Angie Thomas tive certeza de que o racismo está presente de uma forma perversa no nosso cotidiano e de como os brancos nunca vão ser capazes de entender isso em sua forma mais literal. Com Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, pude entrar em contato com essas vivências do dia a dia no meu próprio país — infelizmente tão distante do que pareço habitar.

Essas histórias e as muitas outras com as quais ainda me encontrarei nessa busca me trouxeram uma visão de mundo muito mais ampla do que eu teria se não as tivesse lido. É por isso que sempre vou bater nessa tecla e tentar convencer as pessoas a buscarem livros diferentes, com histórias diferentes e versões diferentes. Abrir os olhos é fundamental.

Sobre quebrar o silêncio e planos para o futuro

Por Anna Vitória Rocha, editora

cultura pop

No meu trabalho de conclusão de curso na graduação, estudei o impacto gerado pelo “feminismo de internet” no “mundo real” dos jornais e revistas de grande circulação e nas conversas que temos nos almoços de família. Lembro que a ideia surgiu depois de ver a apresentação da Beyoncé no VMA, quando a palavra FEMINIST brilhou no seu telão pela primeira vez. Aquilo foi grande, extraordinário até, e me levou a um caminho de pesquisa no qual sigo até hoje. Com aquilo tinha acontecido? Sempre soube que queria seguir carreira acadêmica, mas fiz um trato comigo mesma que só tomaria esse rumo quando encontrasse uma inquietação tão forte quanto a provocada por Beyoncé em 2014, o que acabou acontecendo mais rápido do que eu esperava graças aos movimentos #MeToo, Mexeu com uma Mexeu com Todas, e seus desdobramentos.

Li A Mãe de Todas Perguntas, de Rebecca Solnit, assim que ele foi lançado, e a forma como a autora articula a questão do silêncio na história das mulheres me fez perceber que eu tinha um novo projeto de pesquisa em mãos. No final do ano, a revista Time elegeu as quebradoras de silêncio — pessoas, em sua maioria mulheres, que denunciaram seus agressores e disseram “eu também” nos debates sobre assédio e abuso sexual — como a pessoa do ano de 2017. Talvez não seja justo dizer que certos silêncios foram rompidos só agora quando conhecemos a história de tantas mulheres que estão há anos falando sobre as violências que sofreram sem receber a devida atenção, por isso prefiro dizer que estamos vivendo uma época de romper o silenciamento.

Cada “eu também” e voz de apoio nos faz mais fortes, e isso me inspira como mulher, filha, amiga, editora, jornalista e pesquisadora; observar todos esses efeitos mostra como nossa voz, quando unida, pode ser forte. Ainda não é suficiente, é desolador ver como a violência faz parte da masculinidade e a vulnerabilidade a ela faz parte do que é existir como mulher no mundo, mas também é poderoso ver mulheres de preto atravessando o tapete vermelho de mãos dadas. Os mecanismos que tornaram essas rupturas possíveis estão mudando o mundo aos poucos e ser espectadora (e um pouco participante, afinal eu também) dessa mudança me inspirou um novo rumo profissional e acabou mudando um pouco a minha vida também.

Sobre ir à luta com Rose Tico

Por Débora Theobald, colaboradora

cultura pop

No final de 2017, o fãs de Star Wars foram agraciado com a obra-prima chamada Os Últimos Jedi. No décimo filme da franquia fomos apresentados à rebelde Rose Tico, interpretada pela atriz novata Kelly Marie Tran. Uma das primeiras personagens asiáticas de destaque da franquia, o papel desempenhado por Tico trouxe muito mais do que apenas representatividade para a tela. Com uma personalidade marcante e atitudes condizentes com sua ideologia, Rose me tocou logo em sua primeira cena, quando impede Finn (John Boyega) de desertar da Resistência mesmo idolatrando o herói. Suas façanhas continuam ao longo do filme, a sequência em Canto Bight que o diga, e o mais importante é que cada uma delas nos mostra como o amor por sua irmã e pela causa mantêm vivas sua esperança e confiança num mundo melhor, sedimentando sua luta em um das múltiplas facetas que uma revolução pode tomar: salvando aquilo que se ama.

Quando saí do cinema, não parava de pensar que eu queria ser um pouco mais como Rose Tico, queria me inspirar nela, deixar que suas visões se moldassem às minhas e conseguir, no mínimo, um terço da coragem dela para por em prática minhas crenças e lutar — realmente lutar — por elas, mesmo que isso signifique desafiar meus heróis. Até hoje a mensagem passada por Rose ressoa na minha cabeça e não me deixa parar de levantar diversos questionamentos sobre ideias e militância e comparar nossas atitudes. O quão dedicado e comprometido você precisa estar com algo para estar disposto a morrer por essa verdade? Mais do que isso, como chegar a esse nível de convicção sobre algo? Como quebrar a barreira do “Eu acredito nisso, mas onde consigo determinação o suficiente para entrar em um embate sobre meus ideais? Isso significa que não acredito o bastante neles?”

Vivemos em uma época que todos parecem ter certeza sobre tudo, dominando qualquer assunto polêmico que surja na internet e mostrando que são capazes de se impor, pelo menos na teoria, por essas opiniões. Talvez isso não seja bom em um lugar sem lei e sem muita transparência como a rede mundial de computadores, o que me faz novamente grata pela existência de Rose Tico, por ter me mostrado que o importante é basear minha caminhada de desconstrução em quantos questionamentos forem necessários e nunca cair na zona de conforto dentro desse processo. Assim, quem sabe um dia, alcançarei o nível de compreensão e certeza demonstrados por ela em sua jornada.

Sobre psicanálise, vida acadêmica e Elena Ferrante

Por Fabiane Secches, colaboradora


Em um momento de crise da literatura, a obra de Elena Ferrante surgiu na contramão, causando uma comoção rara. Ao longo da minha formação em psicanálise, os romances de Ferrante inspiraram parte de meus trabalhos. Esses escritos se desdobraram em um projeto de mestrado, que comecei no ano passado. Minha orientadora, Aurora Fornoni Bernardini, é uma professora extraordinária: tem quase 80 anos e segue dando aulas, orientando, escrevendo, editando. Além disso, é crítica literária, tradutora, pintora, mãe, avó. Uma mulher brilhante, muito vivaz e corajosa, com quem aprendo sempre. O mestrado também me trouxe colegas queridas e professoras que admiro muito, como Cleusa Rios Pinheiro Passos e Yudith Rosenbaum. Cleusa e Yudith são coordenadoras do grupo de pesquisa de crítica literária e psicanálise, que tenho frequentado desde o ano passado.

Pouco antes de entrar no mestrado, perdi a minha avó paterna, Alayde, que também foi professora. Do hospital, ela acompanhou parte do processo seletivo. Disse que se acreditasse em reencarnação (ela não acreditava), gostaria de ser professora novamente. Tive a alegria de poder ouvir isso poucos dias antes de sua morte.

Essa jornada me permitiu estar mais perto dela e de outra parte importante de minha história: cresci escutando a minha avó materna, Dalva, contar histórias de seu pai, que veio ainda menino para o Brasil. Sou descendente de italianos dos dois lados da família e, por conta da pesquisa, vou passar uma temporada na Itália estudando e terminando de escrever a minha dissertação.

Sobre o ano com a mágica Joan Didion

Por Fernanda Menegotto, colaboradora

2017 foi o ano em que eu confirmei, depois de passar dois anos lendo e relendo suas palavras sobre a Represa Hoover, que se eu pudesse escrever como qualquer escritor na história, eu escolheria escrever como Joan Didion.

Para mim existe algo de mágico na escrita de Joan Didion, especialmente em seus ensaios menos políticos e mais pessoais: a capacidade de falar de si e da própria vida sem nunca aparentar despejar pensamentos num diário privado, suas emoções analisadas de dentro e de fora, a capacidade de manter um saudável afastamento de seu leitor mesmo ao trazê-lo para perto. Uma das críticas mais mordazes e famosas ao seu estilo veio de Barbara Grizzuti Harrison, que afirma que seu tema é sempre ela mesma. Entendo que nem todo mundo compre uma autora que coloque em pé de igualdade (dentro do próprio ensaio, é preciso salientar) o contexto de disruptura do final dos anos 60 nos Estados Unidos e o próprio colapso particular no ano de 1968. Mas para mim fez todo o sentido — afinal, somos quem somos e nossas vidas se transformam também por causa do contexto em que vivemos. Assim como faz todo o sentido quando ela fala, de um jeito sempre estranhamente controlado e arrebatador, sobre dínamos no deserto, redes de distribuição de água, casamentos em Las Vegas e sobre a Califórnia ou a Nova York onde nunca estive — o cenário é sempre muito particular em sua escrita, mas as emoções que ele desperta ou que confluem com ele não são. Sua voz para falar sobre elas é.

Do ano passado para cá, penso em Joan Didion quase sempre quando viajo de carro. Alguma coisa acontece todas as vezes que eu estou na estrada, e ela não está particularmente cheia, e o sol está lá e o céu é azul, e eu ultrapasso uma daquelas tendas cheias de estátuas de jardim nas quais eu nunca vi ninguém comprando. É algo que eu nunca consigo descrever em palavras para ninguém. Mas sempre tenho a certeza de que Joan Didion conseguiria, e talvez seja isso que eu continuo buscando enquanto consumo sua obra e penso, de novo e de novo, que escrever é isso.

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1 comentário

  1. Gostei muito de ler os depoimentos. Parabéns por esses dois anos, Valkirias, e por insistirem, contra todas as dificuldades, em um projeto independente feito por mulheres.