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Vikings, o começo de um novo ciclo

A primeira temporada de Vikings, série original do History Channel, foi ao ar em meados de maio de 2013. Naquele momento, Ragnar Lothbrok (Travis Fimmel) começou a trilhar os caminhos que o levaria ao desfecho intenso da quarta temporada, encerrada agora, em fevereiro de 2017. De lá para cá, muitas coisas mudaram na vida dos personagens, que nos apresentaram os costumes vikings, a sede de batalha e a vontade de explorar o desconhecido. Se, na temporada de estreia, Ragnar desejava expandir seus horizontes, descobrir o que havia para lá de Kattegat e, talvez, iniciar os primeiros assentamentos vikings fora da Noruega, seus descendentes, no entanto, agora vislumbram caminhos nunca antes imaginados, como as incursões à terras inglesas ou explorações para além do Mar Mediterrâneo.

Atenção: este texto contém spoilers!

A quarta temporada tem início com a recuperação de Ragnar após o desfecho da invasão à Paris em seu plano megalomaníaco que se resolve com um estratagema curioso. Após a vitória do exército viking e de deixar Rollo (Clive Standen) como responsável pelo novo assentamento nórdico, Ragnar retorna para Kattegat apenas para se ver a deriva em suas próprias conquistas. Para quem era apenas um fazendeiro, Ragnar trilhou um caminho árduo até conseguir se tornar earl, vencendo disputas nos reinos ingleses e na Frankia, e se tornando rei. Mas isso não parece ser o suficiente e ele começa a ter sonhos com os portões de Valhalla fechados para ele — vencer todas as batalhas não terá sido o suficiente para ser aceito no reino de Odin? Enquanto Ragnar foge de seus deveres para com Kattegat, é a Rainha Aslaug (Alyssa Sutherland) quem toma as rédeas do lugar já planejando reinar sozinha em um futuro próximo. Ragnar começa a sair de seu estado de estupor apenas quando Bjorn (Alexander Ludwig) ordena a prisão de Floki (Gustaf Skarsgård) pelo assassinato de Athelstan (George Blagden). 

No núcleo nórdico de Hedeby, Lagertha (Katheryn Winnick) precisa, novamente, lidar com homens colocando-se entre ela e sua liderança. Dessa vez ela se alia a Kalf (Ben Robson) e, sem pestanejar, mata Einar (Steve Wall) para assegurar sua soberania — mas cruzar o caminho de Lagertha não termina bem, como o próprio Kalf descobrirá mais tarde, quando a escudeira o passar para trás e se tornar a única e legítima earl de Hedeby. Concomitantemente, do outro lado do mar, em Frankia, Rollo novamente trai Ragnar e decide aceitar o acordo proposto por Charles III (Lothaire Bluteau): Rollo deve exterminar todos os vikings que ficaram para cultivar o novo assentamento de maneira a receber não apenas o título de duque e terras, mas a mão da Princesa Gisla (Morgane Polanski), ainda que esta seja totalmente contra a barganha e resista ao casamento até o último instante. Agarrando a oportunidade de finalmente abandonar a sombra do irmão e crescer por conta própria, Rollo ordena que arqueiros matem todos os seus conterrâneos e, sem remorso evidente, os observa serem assassinados sem fazer nada para impedir. As peças da nova trama são, portanto, dispostas, e só os deuses, ou o Vidente, sabem o que os aguarda daqui para a frente. 

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Os primeiros dez episódios da temporada são responsáveis por preparar o terreno para a queda de Ragnar. Desde a segunda expedição à Frankia, é notável a falta de vitalidade e dinamismo do líder viking, demonstrando que aquele que se sobressaiu e levou os seus para explorar o mundo está definhando. Ragnar não parece ter se recuperado totalmente desde a última batalha e a perda de Athelstan, a partida de Bjorn e as traições de Floki, Aslaug e Rollo parecem ter minado o espírito do líder viking. Mais introspectivo do que de costume, Ragnar decide atacar Frankia novamente, mesmo que os augúrios não sejam os melhores e parte com sua frota em direção ao mar. Sua liderança é posta à prova quando a primeira batalha é perdida e a situação piora quando Rollo, prevendo os passos do irmão, monta uma estratégia imbatível para proteger Frankia. Em um embate intenso, o Ragnar termina em desvantagem e volta para Kattegat emocionalmente abalado, o que refletirá em sua fuga e desaparecimento por um longo período.

Se a primeira parte da temporada serve para alinhar as peças dispostas no tabuleiro, é por meio dos dez episódios finais que todo o jogo se fará visível para o telespectador. Enquanto Ragnar esteve desaparecido, questionando a si mesmo, a vida não parou para esperar por ele. Estender a temporada, dobrando o número de episódios, foi responsável por diminuir o ritmo dos mesmos, o que atrapalha um pouco a dinâmica pelo qual Vikings se tornou conhecida. Temporadas mais enxutas tendem a ser mais diretas no tratamento dos conflitos e alongar a quarta temporada, além de dividi-la em duas partes, pode não ter sido a melhor das estratégias. O hiato entre a exibição dos episódios também atrapalha o espectador, visto que os meses que separaram as partes um e dois faz esquecer de detalhes e acontecimentos diversos. De qualquer maneira, enquanto a parte um se mostrou mais como uma introdução, não há erro em dizer que os maiores acontecimentos foram reservados para os dez episódios finais.

A queda de Ragnar

Uma verdade universalmente reconhecida — ao menos para aqueles que se interessaram pela história nórdica — é que Ragnar vivia com seus dias contados e, quase quatro temporadas depois, era possível saber que seu fim estava próximo. Na segunda parte da quarta temporada vemos o retorno obsessivo e apagado do há muito protagonista. Ragnar retorna a Kattegat almejando uma última incursão e aos poucos procura remendar os estragos que provocou naqueles que, há anos, deixara para trás. São poucos aqueles que ainda compram as ideias do rei. Sua vitalidade se esvaiu, seus filhos o desprezam na mesma medida em que não deixam de o admirar; o rei está em declínio e todo mundo sabe disso. Ragnar está incoerente, sem pose, sem força, e desacreditado. Desesperado, utiliza de ofertas de ouro para comprar aliados, algo que jamais haveria ocorrido em tempos passados: o simples fato de navegar ao lado do grande Ragnar era suficiente. Até mesmo seus filhos desdenham a vontade do pai, com exceção daquele que Ragnar sempre renegou: Ivar, o Sem Ossos (Alex Hogh Andersen).

Vikings

Apagado e com um exército defasado, Ragnar, Ivar e um número singelo de companheiros — comprados — navegam para Mercia. Aslaug sonha com um naufrágio e isso não demora a acontecer, fazendo com que Ragnar, Ivar, e os poucos sobreviventes, cheguem ao litoral da Mercia em farrapos. Logo, os soldados do Rei Ecbert (Linus Roache) perceba a presença viking na ilha e a notícia chega aos ouvidos exultantes de Aethelwulf (Moe Dunford), que, acredita, será capaz de aprisionar Ragnar desta vez. O líder viking tem um plano formado e, para dar continuidade a ele, mata todos os homens que sobreviveram ao naufrágio, exceto o filho. A ideia, a princípio, era se entregar a Ecbert e cultivar a semente que floresceria mais tarde, no maior ataque viking da história (da série). Ao se entregar e plantar a ideia na mente do rei saxão, Ragnar deveria ser enviado ao Rei Aelle (Ivan Kaye), não fazendo mais nada do que mover as peças do tabuleiro para um xeque-mate impressionante.

O fim de Ragnar é triste e desolador. De acordo com uma das teorias nórdicas, o grande líder viking teria sido morto pelo Rei Aelle e, da mesma forma, Vikings recria a cena em que Ragnar é machucado e jogado, ainda vivo, em um fosso cheio de cobras venenosas. Durante o seu suplício, ele jamais pediu por clemência: Ragnar sabia que tudo era parte do seu plano de incitar em seus filhos e conterrâneos a sede de vingança que os faria retornar às terras inglesas. Aelle sente-se exultante diante do sofrimento de Ragnar, mas “how little piggies will grunt when they hear how the old boar suffered?” É por essas e outras que Ragnar é um personagem tão interessante e, impossível negar, fará tanta falta no futuro. Sua entrega nas mãos de Ecbert, a ideia de ser levado para Aelle e tudo o que veio em decorrência disso apenas mostra como Ragnar foi capaz de visualizar os desdobramentos das ações de todos os envolvidos, garantindo os resultados que esperava desde o início.

Ragnar foi um líder carismático e inventivo, e teve visão como poucos; nem sempre um homem correto, mesmo com suas esposas e filhos, foi uma pessoa sedenta por descobrir e expandir seu mundo. Se não fosse por Ragnar desejar descobrir o que havia do outro lado do mar, os vikings jamais teriam aportado em Wessex, não teriam invadido Paris ou alcançado o Mar Mediterrâneo. Mais do que invadir para saquear as riquezas dos povos conquistados, Ragnar sentia verdadeira sede de saber — e não foi à toa que se conectou tanto com Athelstan e o cristianismo. Por fim, ele soube plantar com maestria a vingança na mente de Ivar que, como bom filho do seu pai, retornou a Kattegat — com permissão de Ecbert — para reunir um exército e clamar por vingança. O momento em que todos os filhos do líder sentem a morte do pai é também muito simbólico: tido como descendente de Odin, a aparição de um homem com um tapa-olho e um corvo sobre os ombros de cada um dos filhos mostra como Ragnar é tido em alta conta no salão dos deuses. Vikings não se utiliza com frequência da mitologia, mas quando o faz é para homenagear um grande personagem.

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Lagertha vs. Aslaug

Talvez uma das tramas mais desnecessárias da temporada tenha sido a invasão de Lagertha a Kattegat, que culmina no posterior assassinato de Aslaug. Colocar Lagertha como uma mulher rancorosa e ainda apaixonada por Ragnar, mesmo depois de tanto tempo, é incoerente com quem ela sempre foi. Retomar o assunto, especialmente depois de Lagertha ter dito perdoar Aslaug (quando o único culpado na questão era o próprio Ragnar), só a torna mais fora de lugar, uma maneira simplista de retirar a rainha de cena.

Por se tratar de uma série violenta, muitos discorrem que o assassinato de Aslaug pelas mãos de Lagertha (e com uma flechada pelas costas) se faz compreensível. O argumento cai por terra quando pensamos que, em quatro temporadas, a faceta que tivemos da escudeira sempre foi de uma mulher independente e segura de si, alguém que seguiu em frente com sua vida após a traição do marido. Sua guerra nunca foi para ter um lugar ao lado de Ragnar: sua trajetória sempre foi sobre conquistar seu lugar só seu. A artimanha escolhida pelos roteiristas na segunda parte da temporada desmereceu o longo caminho trilhado pela personagem, diminuindo-a e oferencendo ao telespectador mais do mesmo: mulheres brigando por homens. O desserviço foi grande e é impossível não torcer o nariz para a escolha do roteiro. Se era necessário tirar a Rainha Aslaug de cena para que seus filhos pudessem trilhar um caminho independente da mãe (ou motivar a vingança por meio da morte de uma mulher, outra saída fácil e clichê), outros meios poderiam ter sido pensados — e em uma série que sempre prezou pela complexidade das personagens femininas, surpreende que um desfecho tão bobo tenha sido utilizado.

O público tem uma predileção clara por Lagertha, mas o que se esquecem de analisar é que o único em um relacionamento sério à época da traição era Ragnar. Mesmo que os costumes vikings sejam diferentes dos de uma sociedade monogâmica, naquele momento, Lagertha e Ragnar viviam em comum acordo como marido e mulher. Se Ragnar a traiu com Aslaug, a culpa é dele e de mais ninguém. Lagertha e Aslaug sempre foram personagens opostas em questão de personalidade, e o público tem a tendência de gostar mais das mulheres guerreiras àquelas dedicadas ao papel doméstico — quase como acontece com as personagens Arya (Maisie Williams) e Sansa Stark (Sophie Turner) em Game of Thrones. Enquanto a primeira é exaltada por qualidades não femininas, a segunda é execrada por ser feminina e romântica. A sensação, portanto, é que a audiência não consegue visualizar força em Aslaug da mesma maneira que visualiza em Lagertha, em que essa força é muito mais literal: a rainha criou os filhos praticamente sozinha enquanto Ragnar buscava a realização das batalhas e governou Kattegat com pulso firme.

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Os filhos de Ragnar

O filho mais velho de Ragnar, Bjorn, partiu em uma jornada de autoconhecimento, enfrentou um urso e um berserker, e decidiu explorar o Mar Mediterrâneo utilizando-se de um mapa encontrado em uma incursão anterior. Não há mais vestígios do menino da primeira temporada e Bjorn demonstra ter amadurecido para se transformar em um guerreiro formidável capaz de seguir os passos de seu pai. Enquanto isso, os filhos de Ragnar e Aslaug, aparecem finalmente crescidos e com sede de se mostrar guerreiros tão valorosos quanto o pai. Embora Ubbe (Jordan Patrick Smith), Hvitserk (Marco Islo) e Sigurd (David Lindstron) não recebam tanto tempo de tela quanto Ivar, todos possuem características bem delineadas e personalidades distintas, o que acenderá a fagulha das disputas entre eles.

Apesar de Ubbe ser praticamente um doppelgänger do pai, é Ivar quem possui um espírito mais parecido com o de Ragnar, embora sua loucura possa ser elevada à décima potência. Se Ragnar era cauteloso e calculista, estudando todas as faces de uma questão antes de abordá-la, Ivar é movido por seus impulsos e emoções — o que culminará no assassinato do próprio irmão durante uma discussão acalorada. Embora seja um homem impulsivo, é a Ivar que se deve o sucesso da última grande batalha da quarta temporada. Com um talento nato para a guerra, suas ideias podem soar insanas em um primeiro, mas ao serem executadas, mudam o tom de uma batalha: deixam de ser impulsivas para serem ganhas no cansaço e na inteligência.

Observa-se também uma mudança na personalidade de Bjorn. Antes um filho aprendendo os passos do pai, agora ele se torna um homem com os próprios pensamentos e ideais. A teimosia de Ragnar é um traço que se reflete na personalidade do filho. Em busca de si mesmo, Bjorn sai em um período sabático e, ao voltar, ocupa o espaço deixado pelo pai, servindo também de exemplo aos irmãos. Na segunda parte da temporada, em particular, Bjorn está menos maleável, mais fechado e inquieto. Seguindo os passos do pai, ele trai Torvi (Georgia Hirst), até então sua companheira, com Astrid (Josefin Asplund), a atual companheira da mãe, Lagertha. A traição é intragável, pois pouco se desenvolve da relação entre Bjorn e Torvi — sempre muito apaixonados — para dar espaço para fazer com o que o ocorrido se justifique ou faça sentido. A atitude do primogênito, por vezes arrogante, faz parecer que ele quer ser aquilo que um dia foi o pai, mas lhe falta a graciosidade e ferocidade de Ragnar, o que faz Bjorn, por vezes, soar como uma imitação fajuta.

Além das tramas envolvendo Bjor e Ivar — este indo para sua primeira grande jornada —, os outros irmãos recebem histórias mais simples em comparação. Ubbe, Hbitserk e Sigurd passam boa parte do tempo se revezando com a escrava Margrethe (Ida Nielsen) até que Ubbe, contrariando as ordens de Lagertha, a liberta e se casa com ela. Mesmo assim, ela e Hvitserk continuam envolvidos, em um triângulo amoroso que não leva nada a lugar nenhum. Margrethe, enquanto escrava, não tem autonomia própria e aceita se casar com Ubbe porque essa é sua única oportunidade de sair da escravidão. Outro momento dos irmãos com um pouco mais de relevância está relacionado ao assassinato de Aslaug. Lagertha os engana, utilizando Margrethe como isca, mantendo-os longe da mãe para que a escudeira pudesse invadir Kattegat sem maiores problemas. A partir de então, e acompanhados por Ivar, que retornou de Wessex, eles tentam se vingar de Lagertha, mas não têm sucesso em seu plano.

Com a ausência de Ragnar e a vitória em reino inglês, a próxima temporada será responsável por dar destaque a eles, seja pelo desenrolar da trama do assassinato de Sigurd, seja pelas disputas de poder sobre o novo assentamento viking no reino inglês. A quarta temporada apenas deu um vislumbre dos irmãos e a expectativa é que eles continuem o legado de Ragnar Lothbrok.

Mulheres em destaque

Impossível negar, porém, que na última temporada de Vikings as mulheres tiveram um destaque muito além do que o costume. Lagertha se estabeleceu como uma rainha poderosa. Sua companheira, Astrid, também uma novidade, ainda que com pouco tempo de tela, demonstrou ser uma lutadora impetuosa e apaixonada. Torvi encontrou uma nova vocação como escudeira, mas também se reveza no papel de mãe e esposa. Embora a sociedade nórdica seja essencialmente centrada em seus homens, é seguro dizer que as mulheres possuíam mais liberdade e direitos que outras mulheres de sua época. Apesar de casarem cedo — há relatos de meninas casadas com apenas 12 anos — e de terem que cuidar da casa enquanto os maridos velejavam, desde que não fossem escravas, as mulheres podiam herdar propriedades, pedir o divórcio e até mesmo reaver seus dotes caso o casamento terminasse. Ainda que não haja evidências históricas de que de fato existiu uma grande comunidade de escudeiras e guerreiras como as de Lagertha, Vikings demonstra que mulheres podem ser tão fortes e resilientes quanto homens.

Do outro lado do mar, no reino inglês, temos na figura de Judith da Northumbria (Jennie Jacques), mulher de destaque na corte do Rei Ecbert. Após a morte de Athelstan, Judith aceita se tornar amante de Ecbert contanto que ele a respeite enquanto mulher, o que ele faz. A trajetória de Judith é uma das mais interessantes, principalmente se levarmos em consideração o quanto a mulher cristã daquela época era submetida às vontades dos homens à sua volta, fosse seu pai, marido ou rei. Por meio de sua aliança com Ecbert, Judith abraça seu novo destino e sente-se finalmente livre para ser quem ela deseja ser, passando, inclusive, a estudar as iluminuras — para horror de seu monge tutor.

Na Frankia, o destaque fica por conta da Princesa Gisla, agora Duquesa da Normandia devido a seu casamento com Rollo. Gisla resiste enquanto pode ao casamento, ridicularizando Rollo sempre que possível e fazendo pouco de seus esforços para se transformar em um nobre ou aprender a língua dela. Mesmo que Gisla aceite Rollo posteriormente, isso não apaga a determinação dela em resistir ao casamento de interesses que o pai a entregou — Gisla é uma mulher de temperamento forte e tempestivo, além de ser muito protetora com relação a sua família e seu povo. Uma mulher inteligente, ainda que um tanto impulsiva, Gisla foi, por muito tempo, o braço direito do pai nos assuntos da corte: por ter uma posição privilegiada em um mundo de homens, ela é relativamente independente e pode dizer o que pensa, mas nem isso a livrou de ser o objeto de troca em um casamento por interesse ainda que, no caso dela, as coisas tenham se desenrolado de uma maneira positiva no final.

O fim de um ciclo

Fica evidente, ao terminar o último episódio da temporada, que um ciclo foi encerrado. Alguns dos personagens que estiveram presentes desde a primeira temporada encontraram o fim e as coisas parecem diferentes, o que traz um misto de ansiedade e empolgação por aquilo que está por vir. Os vikings não contam mais com Ragnar e suas ideias mirabolantes para guiá-los ou inspirá-los, mas a última jogada do rei proporcionou um novo objetivo não apenas para seus filhos mas também para todo seu povo. Embora a série nem sempre seja historicamente correta, sabemos que as invasões vikings nos reinos ingleses perduram por anos, alcançando até mesmo o reinado de Alfredo — na série, filho de Athelstan e Judith —, o que significa que ainda há muita história para contar.

Nos últimos instante da season finale encontramos pela primeira vez Heahmund (Jonathan Rhys Meyers), um bispo saxão de Sherborne, cristão fervoroso e um guerreiro feroz. Ao que tudo indica, aqueles que decidirem continuar com Ivar as invasões a terras inglesas terão que bater de frente com esse novo personagem que tem tudo para atrapalhar o avanço viking. No mais, ainda acompanharemos o novo destino de Floki que, agora sem Helga (Maude Hirsti) ou Ragnar ao seu lado, se encontra a deriva e sem objetivos definidos; Bjorn explorando novamente para lá do Mar Mediterrâneo; e Ivar incitando os vikings a continuar suas invasões. Não vimos Lagertha no último episódio mas, ao que tudo indica, a escudeira dará um jeito de continuar a proteger Kattegat dos avanços daqueles que desejam o ponto próspero em que o lugar se transformou — principalmente Harald (Peter Franzén), que continua a nutrir o desejo de ser rei de toda a Noruega, e seu irmão Halfdan (Jasper Pääkkönen). 

Se a quarta temporada nos deu mais episódios do que de costume, nem todo o tempo extra em tela foi utilizado de maneira inteligente. Comparando-se as duas metades do novo ano, fica a impressão de que boa parte dos episódios iniciais foi utilizada apenas para preparar o terreno para os grandes acontecimentos dos episódios derradeiros, entregando-nos episódios com um ritmo lento. No geral, Vikings proporcionou, novamente, uma boa fonte de entretenimento, personagens bem construídos e muita sede de explorar.

Crítica escrita em parceria por Ana Vieira e Thay.

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5 comentários

  1. Obrigada por colocar em palavras tudo o que está na minha mente sobre Lagertha e Aslaug. Completamente desnecessária essa trama entre as duas sendo que há muito tempo já tava tudo resolvido. Em momento anterior nenhum a Lagertha promete se vingar de Aslaug – já aprendemos que eles cumprem todas as suas promessas, não é mesmo? – então qualquer outro desenrolar dessa narrativa teria sido mais digno. Sei lá, a Aslaug podia cair doente e Kattegat ficar a deriva sem um líder forte e a Lagertha interviria, ou ela podia até mesmo fugir com aquele suposto Deus que vem e vai a hora que bem entende só pra transar com todas (aliás, qual é a dele, hein?) ou vai embora sozinha decidindo que merece ser feliz sem aqueles filhos mimados que só dão trabalho, e pede pra Lagertha voltar, ou unir todo mundo, já que é tudo meio perto, sei lá. QUALQUER COISA seria mais digna do que isso que fizeram.

    Ufa, desabafei 😀

    1. Havia um sem número de saídas dignas para os roteiristas, mas eles apelaram para a mais clichê de todas, colocar uma mulher contra a outra. Essa trama foi muito desnecessária e totalmente equivocada, um desserviço às personagens, principalmente Lagertha, que sempre foi de uma firmeza incrível.
      Fique à vontade pra desabafar sempre que quiser, estamos aqui pra isso! 😉

  2. Eu queria saber qual foi o motivo de Ragnar matar a filha do Imperador Chinês, pra mim foi desnecessário e não demonstra ser o Ragnar que conhecemos.