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Samantha!: de volta aos anos 80

Uma parte muito especial da nossa cultura popular são os grupos que foram lançados em programas de auditório e reality shows dos anos 80 e 90, e fizeram um sucesso estrondoso até saírem à francesa da mídia por motivos variados. Uma ou duas décadas depois, suas reaparições são uma fórmula infalível de arrancar exclamações de surpresa do público e ganhá-lo novamente pela nostalgia — difícil é fazer o interesse durar além disso. Recém-lançada, Samantha!, a primeira sitcom brasileira da Netflix, foi criada nesse cenário e centra-se na vida de Samantha (Emanuelle Araújo), ex-estrela mirim que foi mais uma vítima da fama passageira com seu grupo musical, a Turminha Plim Plom, e agora, na vida adulta, tenta a todo custo voltar aos holofotes sem se desapegar da sua imagem do passado, mas com um adicional de dois filhos, Cindy (Sabrina Nonata) e Brandon (Cauã Gonçalves), e Dodói (Douglas Silva), seu ex-marido, ex-jogador do Flamengo e também ex-presidiário.

A estética dos anos 80 é algo que as pessoas nunca esquecem: ela foi marcada por programas de família com cenários e figurinos psicodélicos e mascotes hoje em dia considerados inapropriados ou assustadores, mas que até então eram normais e ninguém sentia necessidade de proteger as crianças do que era exposto na televisão. Aos dez anos, Samantha desfrutava a fama sem modéstia alguma. Líder do grupo, ela percorria os estúdios intimidando a todos e agindo como bem entendesse. Ainda assim, as vítimas do bullying se submetiam às suas maldades infantis, porque ela era uma estrela. Corta para 2018, e a Samantha de 40 anos segue cantando o mesmo velho hit sobre OVNIs, só que agora para uma casa vazia e sob o gerenciamento de um empresário capenga prestes a desistir dela. Indignada, e arrastando Cindy e Brandon consigo, Samantha sai e é abordada não por uma fã, mas pela filha de uma fã — “Meu nome é Samantha também, por sua casa, mas o meu é com Y”, diz a personagem de Alice Braga, que também é uma das produtoras executivas da série criada por Felipe Braga — e a realidade do ostracismo cai como outro balde d’água. Chegando em casa, ela se depara com uma multidão de paparazzi em sua porta, não por ela, mas por Dodói, que acabara de ser libertado da prisão e tinha retornado para a família. Samantha, é claro, nada quer com ele depois de ter passado mais de uma década criando seus filhos sozinha enquanto o marido estava detido. No entanto, a ocasião trouxe-lhe os flashes que ela queria e ideias começaram a surgir.

Descaradamente, Samantha! faz uma sátira ao anacronismo das duas fases vividas pela protagonista, ao mesmo tempo que também aponta o dedo para as nossas influências culturais da atualidade, desde às maneiras que a própria Samantha busca para retomar sua carreira até o ativismo da filha pré-adolescente e a precocidade do filho caçula. Ao mesmo tempo, a série ainda consegue transmitir as nuances que constroem a personalidade determinada e fanática de Samantha, a começar pelo fato de ela ter crescido em um ambiente que era muito atraente, mas também muito hostil. O modo como tratava as pessoas com a quais conviviam muito tem a ver como o medo de ser substituída em um trabalho que adorava e não era mantido com facilidade — era preciso muito ensaio e um certo carisma para continuar conquistando o público, tanto que seu eventual ostracismo não veio à toa. Talvez por isso que sua face mais gentil só aparecesse quando Samantha estava na companhia de Zé Cigarrinho (Ary França), o mascote da Turminha Plim Plom que gostava dela de verdade e sempre a incentivava a nunca deixar de acreditar, permanecendo ao seu lado a vida inteira.

Além disso, em sua vida adulta, Samantha também precisa lidar com a vida dupla de ser (ex-)artista e mãe solo, já que Dodói, embora preocupado com os filhos, passou o tempo de vida deles inteiro na cadeia, mas basta retornar à sociedade para que ele consiga visibilidade mais fácil do que ela. No primeiro dia, por exemplo, enquanto Samantha usa muito jogo de cintura para conseguir dar uma entrevista que se concentre nela e não no seu casamento ou nos baixos da sua carreira, Dodói consegue uma reportagem simplesmente levando os filhos para jogar bola no estádio e posando de pai legal (quando deveria apenas ter levado as crianças na escola e não induzi-las a matar aula). E esse é apenas o começo da retratação de injustiças entre o homem e a mulher, na parentalidade, e principalmente, na mídia.

O maior atrativo da série, contudo, não é a crítica social em si, mas a construção dela sobre uma época que é relembrada com tanto ardor pelo público. Incontáveis são as referências que vivem nitidamente na nossa lembrança, e que também rendem uma série de publicações no Buzzfeed instigando a nostalgia e demarcando a passagem do tempo que ninguém quer notar, mas que bom que deu tempo de a gente viver isso tudo ou uma época muito próxima. É quase impossível não se render ao jogo de tentar adivinhar as atrações dos anos 80 ou as atuais que inspiraram os elementos da série, desde a própria Samantha — que claramente tem uma forte semelhança com a Simony, uma das integrantes de O Balão Mágico — aos realities que ela participa e as outras celebridades com quem ela cruza, como a instagrammer Laila (Lorena Comparato), que documenta literalmente cada minuto de sua vida nas redes sociais, e até mesmo Gretchen, que faz uma participação como ela mesma, via FaceTime, como uma velha conhecida de Samantha.

E, apesar de o humor ser o que há de melhor na série, a trama não é construída apenas para render umas risadas, ela também trata a jornada da Samantha de uma forma humana e bastante sensata considerando seu contexto de vida. Em alguns pontos ocorrem-lhe flashbacks da infância que a faz repensar seu comportamento, e como isso afetou — e ainda afeta — o modo como ela se relaciona com as pessoas e até indica a dificuldade que ela tem de se abrir, muito provavelmente porque os holofotes estavam sobre ela o tempo todo, e a liberdade que tinha para cometer os mesmo erros que uma pessoa comum ou ser apenas vulnerável era bastante reduzida. Mas é nessas circunstâncias que ela também tem a oportunidade de mostrar o melhor de si: essa ex-estrela que tem muita determinação a dar a volta por cima sem depender de ninguém; ela já não tem mesmo mais nada a perder. E, ao mesmo tempo em que ela faz seu retorno um pouco enferrujada com as mudanças na TV, seu diferencial é a maturidade que os anos lhe trouxeram, para o bem ou para o mal.

Já renovada para a segunda temporada, Samantha! promete manter a qualidade das produções brasileiras na plataforma de streaming sem descartar as referências que ganharam notoriedade na televisão e permanecem sendo um dos nossos ópios favoritos. Embora o ritmo da série seja um tanto lento, o número de episódios por temporada e o tempo de duração deles funciona muito bem para sustentar o interesse no que Samantha pretende inventar em seguida. Quando nos damos conta, conseguimos imaginar porque um dia ela foi a criança mais amada do Brasil e o quão legal teria sido ser influenciada por essa pessoa e ter cantado “Abraço Infinito” no karaokê com tiara de estrelas — afinal, parte de nós até hoje vive para isso.


** A arte em destaque é de autoria da editora Yuu.

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