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Me Sinto Bem Com Você e o amor nos tempos de pandemia

Dora (Thati Lopes) não suporta mais o namorado, Fernando (Victor Lamoglia), com quem tem um relacionamento há cerca de três anos. Apenas a existência dele já é o suficiente para tirá-la do sério. Seja quando ele faz uma piada envolvendo o Wi-Fi da igreja vizinha ou quando lambe o rosto dela, uma espécie de brincadeira do casal. Tudo relacionado a ele a faz pensar em mil formas de terminar com o rapaz ou o assassinar, o que lhe der na telha primeiro. No entanto, quando o próprio Fernando propõe o término do namoro, junto com uma lista de 97 motivos pelos quais eles não devem mais ficar juntos, é demais para Dora pensar em uma vida na qual ele não faça parte.

Enquanto isso, Tom (Matheus Souza) recebe uma mensagem de Adriana (Manu Gavassi) que, em meio a uma crise depressiva, resolve entrar em contato com o ex-namorado, com quem terminou em meio a traições e silenciamentos nas redes sociais. Já Priscilla (Clarissa Muller) e Giovanna (Gabz) tentam dar continuidade ao relacionamento que começou pouco antes do isolamento social. Eduardo (Richard Abelha) e Helena (Amanda Benevides) estão na mesma situação, mas não sabem como seguir uma relação que envolvia sexo casual sem a parte do sexo. Já Vanessa (Thuany Parente) e Lívia (Bel Moreira) são duas irmãs que tentam lidar com a quarentena e a perda precoce da mãe fazendo chamadas de vídeo temáticas.

Já era de se esperar que um acontecimento como uma pandemia em escala mundial fosse tema de filmes, séries, livros, músicas e outros produtos culturais, visto que o ponto de partida de qualquer objeto artístico é a realidade do próprio criador. Porém, é um pouco assustador pensar que, por anos, pudéssemos estar atrelados a um único assunto. E que uma hora seria cansativo demais e tudo pareceria igual porque qualquer coisa que consumiríamos seria sobre a perspectiva de pessoas brancas e privilegiadas que têm a possibilidade de ficar em casa, protegidas de um vírus — e de um governo — que fez com que o país alcançasse mais de 450 mil mortos em pouco mais de uma ano.

Me Sinto Bem Com Você

De fato, Me Sinto Bem Com Você é sobre jovens que têm o privilégio de ficar em casa em meio uma das maiores crises sanitárias do país — embora tenha um elenco muito diverso. Mas o longa, filmado todo em menos de um mês durante a pandemia e disponível exclusivamente no catálogo da Amazon Prime Video, também consegue provar a pluralidade de histórias que podemos ter partindo de uma única situação.

É claro que um vírus que tem como uma das principais formas de prevenção o isolamento social iria afetar nossas relações. Estamos ansiosos, tristes, deprimidos e sentindo tudo com mais intensidade. Tudo isso multiplicado pela falta ou uma diminuição gigantesca de contato humano. Somado a isso, temos a exaustão das telas e até mesmo a falta de assunto devido a sensação da vida ter parado — ou diminuído extremamente o ritmo — quando conseguimos falar com quem amamos. Como se sustenta uma relação apenas por trocas de mensagem, ligações telefônicas e chamadas de vídeo?

Não é de hoje que o cinema usa datas específicas como ponto de partida para uma antologia. Simplesmente Amor (2003) utiliza o Natal para contar diversas histórias de amor. Idas e Vindas do Amor (2010) tem a mesma premissa, só que no Dia dos Namorados. Noite de Ano Novo (2011) também e, como o próprio nome adianta, dessa vez é a virada na noite de Réveillon o foco de cada trama. Mas se o acontecimento em questão, em vez de um dia comemorativo, fosse uma tragédia como a pandemia, o resultado ainda poderia ser uma dramédia?

Me Sinto Bem Com Você

Ainda que tente lidar com todo esse amontoado de sentimentos em seus dez personagens, Matheus Souza, que escreveu (junto com Manu Gavassi, Amanda Benevides e Gabz) e dirigiu o longa, disse em entrevista ao jornal A Gazeta que, mais do que sobre a pandemia, Me Sinto Bem Com Você trata das relações humanas. Pode parecer uma afirmação um pouco esquisita, visto que ele aborda os relacionamentos dos personagens em isolamento, mas faz sentido. Falar sobre como o coronavírus afetou nossa rede de afetos é uma consequência da mensagem de que, em momentos difíceis, ainda podemos nos sentir bem na presença de quem amamos, seja física ou à distância. Ao Correio Braziliense, ele disse:

“Quis falar muito sobre escuta, sobre as conexões reais que estão por trás das virtuais. É um filme que tem muito humor, que fala sobre afeto, sobre acolhimento. É para divertir com a comédia, mas é para emocionar ao mesmo tempo.”

A premissa só funciona graças aos atores, que conseguem segurar uma química muito boa e nos fazem acreditar em cada núcleo, mesmo quase sem interagir fisicamente — com exceção do casal Dora e Fernando, que passam o isolamento na mesma casa. O cinema ainda tem muita dificuldade em representar trocas de mensagem e chamadas de vídeo (é só pensar na quantidade de personagens fazendo ligações via Skype no meio da rua, sem fone de ouvido), mas Me Sinto Bem Com Você tem um formato próprio em que tudo parece mais orgânico. Os personagens não estão ali apenas por recurso narrativo ou porque o roteiro precisa que eles interajam de alguma forma independente da distância física, e sim porque aquela interação faz parte da história.

Me Sinto Bem Com Você

A fotografia contribui para muito dessa naturalidade. Os tons quentes dão uma sensação de casa, de acolhimento, que nos inserem na história a ponto de nos familiarizar com o quarto dos personagens como se também fosse um pouco nosso — o que também acontece graças ao design de produção. Fica claro que todo o formato do filme é pensado para o streaming. O espectador pode, por exemplo, pausar a tela para ler a quantidade de mensagens que os personagens trocam entre si. Além disso, as cenas em que Adriana e Tom desenham monstrinhos e criam histórias para eles para representar os seus sentimentos não teria tanto charme e não seria tão bonita se não fosse acompanhada por uma animação.

Uma das poucas coisas que não funciona no roteiro do longa é quando ele tenta forçar piadas muito específicas do período de pandemia. Na primeira vez, é até engraçado ouvir uma tirada ou outra sobre passar álcool nas compras de mercado, mas em determinado ponto soa um pouco cansativo e como um recurso narrativo um pouco pobre para gerar identificação. Elas não precisavam estar ali em excesso justamente porque todo o resto funciona bem o suficiente para passar essa sensação.

Por ter dez personagens e cinco histórias que não se cruzam, é normal que o roteiro não se aprofunde muito em cada um — quem tem um arco mais fechado, com início meio e fim mais definidos são Adriana e Tom. Ainda assim, não fica a sensação de que está faltando algo para entendermos aquelas pessoas e os seus conflitos dentro do contexto. Também é normal que, para cada espectador, um núcleo vá tocar mais do que o outro e gerar aquele reconhecimento de “eu também passei por isso”, porque essa é justamente a intenção do filme.

Me Sinto Bem Com Você

Me Sinto Bem Com Você não deixa de ser sobre uma parcela socioeconômica muito específica de jovens durante a pandemia. Porém, isso não significa que seja ruim. O filme cumpre muito bem a proposta do conforto e do acolhimento, exatamente o que os dez personagens buscam, para quem vê. É um abraço quentinho no meio do caos e uma afirmação de que não precisamos passar por momentos tão difíceis — como uma pandemia em um governo que pouco se importa com o seu povo — sozinhos, porque sempre podemos contar com quem faz nos sentirmos bem.

Ou, como bem coloca a mãe de Tom, às vezes tudo o que precisamos é do coadjuvante que vai nos passar a grande mensagem daquela história. Mesmo que seja via uma chamada de vídeo com áudio picotando por causa da conexão ruim com a internet.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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