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Navillera e as relações humanas com o amor

Quando pensamos em amor, é comum que a primeira imagem que venha em mente seja a de um casal apaixonado, com finais felizes e um pote de ouro no fim do arco-íris. Porém, há muita riqueza para além do amor romântico quando colocamos esse sentimento em pauta. Por exemplo, o amor existe em conseguir aprender uma nova receita, em presentear um amigo durante seu aniversário, em escrever um bom texto ou simplesmente assistir aquela série que deixa o coração quentinho.

O amor existe no cheiro de pão caseiro que acabou de sair do forno, no abraço familiar durante um feriado e em ver um pôr do sol pela janela do quarto. O amor também existe em nos entregarmos às nossas paixões e termos coragem de assumir quem somos, ainda que a sociedade insista em nos dizer não. O dorama Navillera trata sobre essas e outras formas de amor que, com certeza, podem mudar o mundo.

Em primeiro lugar, Navillera é um dorama, ou série de televisão sul-coreana para os mais formais. Nesse sentido, tem doze episódios e foi produzido pela tvN, sendo distribuídos pela Netflix. Estreou no dia 22 de março de 2021, com exibição de episódios de 67 minutos até o dia 28 de abril, quando foi finalizado. Navillera narra a história de Shim Deok-chul (Park In-hwan), um carteiro aposentado de 70 anos que decide perseguir seu sonho de aprender balé na terceira idade, o que desagrada sua família profundamente. Na academia de dança ele conhece o jovem Lee Chae-rok (Song Kang), um dançarino profissional de 23 anos que se apaixonou pelo balé após experimentar diferentes esportes.

Navillera

A própria mãe de Chae-rok era bailarina, mas acabou falecendo quando ele era jovem. Desse modo, inicialmente aprendemos que a paixão pela dança surgiu em seu filho como forma de se conectar com ela após o falecimento. Desde as primeiras cenas do dorama o jovem protagonista é apresentado como uma pessoa em crise, preocupado com as dificuldades da vida adulta e prestes a desistir da carreira no balé. É na academia de dança, quando Shim Deok-chul e Lee Chae-rok se encontram, que a história dos dois começa de vez com o senhor aposentado pedindo para aprender balé com o jovem ao vê-lo durante uma performance solo. A princípio, há grande relutância, e Chae-rok se apresenta como uma pessoa rabugenta, prepotente e convencida. No entanto, seu professor, retratado como Senhor Ki na maior parte da série, o obriga a ajudá-lo como forma de reacender a paixão de Chae-rok pelo balé.

Desse ponto em diante, a história se encaminha com os dois protagonistas envolvidos em dramas familiares, jornadas de autoconhecimento e incontáveis cenas de alongamento na sala de balé. A princípio, Navillera apresenta uma composição interessante no próprio enredo, porque posiciona dois personagens em diferentes etapas da vida lidando com problemas semelhantes e relacionando-se um com o outro. Sendo assim, há um importante processo de amadurecimento de Chae-rok no relacionamento com Deok-chul, pois o senhor o ensina sobre valores da vida que ele desconhece na sua juventude. Em contrapartida, Chae-rok o mostra uma forma de viver que o próprio personagem nunca teve acesso, tendo em vista suas origens humildes e as dificuldades que enfrentou para sustentar a própria família.

Mais ainda, ambos começam a ter um relacionamento para além da sala de aula, criando uma amizade que alcança a família. Nesse sentido, Chae-rok desempenha uma importante participação no processo de aceitação dos filhos de Deok-chul diante do desejo do pai em aprender balé. Por outro lado, o senhor também tem um papel fundamental em auxiliar o bailarino a remediar o relacionamento problemático com o pai.

Navillera

Acima de tudo, essa é uma série que trata do amor em suas diversas formas e configurações, em especial nos diferentes campos sociais e espaços que ocupamos no mundo. Não há na narrativa uma retratação de amor romântico como estamos acostumados a ver em filmes ou em outras produções. Apesar de haverem casais, como o próprio Deok-chul e sua esposa, ou no relacionamento conjugal de seus filhos, é abordado um amor pela ótica das dificuldades, do amadurecimento, do envelhecimento e das mudanças naturais que acontecem ao longo da vida.

A princípio, Navillera aborda uma forma de amor que movimenta a personalidade e a individualidade de uma pessoa. Ao colocar o balé como protagonista nas transformações dos personagens, a série narra o que as paixões, os gostos e os talentos podem fazer por um indivíduo, desde o obrigar a sair da zona de conforto até o estimular a se levantar todos os dias para praticar um pouco mais. Portanto, mais do que um elemento de conexão entre os protagonistas, o balé surge para retratar o amor relacionado à criatividade, ao que dá sentido à vida, fazendo o coração bater mais rápido de felicidade e nos impulsionando para o movimento, seja ele qual for.

Ainda nesse campo, a série traz uma discussão pouco presente, mas extremamente necessária a respeito da terceira idade. Fora da romantização desse período como a época de descanso, onde a aposentadoria permite atividades leves e muito tempo com a família, Navillera apresenta essa etapa da vida como um campo de possibilidades. A narrativa sobre a independência e autonomia de idosos posiciona a terceira idade como um período de liberdade. Contudo, a retratação da forma com que Deok-chul e sua esposa lidam com os filhos, com o envelhecimento e o tempo livre modificam a percepção da velhice como estagnação, apresentando tanto sobre a solidão dos pais e avós quanto sobre o que de fato significa chegar no último trecho da jornada pelo mundo.

Navillera

Há também importantes discussões sobre o amor familiar e o amor fraternal entre irmãos. Essa abordagem acontece na família de Deok-chul, por meio do relacionamento entre seus três filhos em diferentes idades e na forma com que eles se relacionam com os pais. Mais do que retratar a linha “família não se escolhe”, Navillera vai além para mostrar que existem, sim, importantes escolhas no âmbito familiar, como quando falar mais alto para defender os próprios sonhos ou saber quando interferir dentro das hierarquias tradicionais. Nesse sentido, percebe-se uma transformação importante em todos os personagens da série, desde os protagonistas até os coadjuvantes com pouco tempo de tela. O amor aparece como catalisador desses processos, onde os desafios cotidianos, as provações e dúvidas são manejadas por meio do carinho entre pai e filho, ou até mesmo entre amigos de infância.

No que diz respeito às amizades e o amor entre amigos, cabe citar os relacionamentos de Chae-rok. Por um lado, há a presença de Kim Se-jong (Kim Hyun-mok) um amigo de infância que faria absolutamente tudo por ele, estando ao seu lado desde a época em que jogavam futebol, e o apoiando incondicionalmente em sua carreira no balé. Contudo, surge o antagonista, na figura de Yang Ho-bum (Kim Kwon), armado de uma mágoa profunda pela maldade do pai de Chae-rok durante a infância dos dois, além de uma raiva enorme pelo fato de que o bailarino conseguiu ter sucesso na carreira artística enquanto ele falhou no esporte.

Apesar dos largos contrastes, ambos apresentam um arco de desenvolvimento interessante. Ainda que esse texto seja construído sem spoilers, cabe citar que, mais do que uma redenção, acontece uma verdadeira jornada de crescimento e amadurecimento dos amigos. Curiosamente, isso ocorre tanto por meio das ações de Chae-rok quanto por meio da intromissão de Deok-chul, que novamente vai além dos limites da relação entre professor e aluno para de fato cuidar do bailarino. Nesse ponto, onde a relação entre os protagonistas se transforma em outra forma de afeto que ultrapassa os limites do amor romântico, os desdobramentos da série desenvolvem o enredo para um nível de maior profundidade. Eventualmente, entendemos os motivos por trás da paixão de Deok-chul por balé, assim como o porquê de Chae-rok ter abandonado o futebol para se envolver com essa arte.

Navillera

Por meio desses momentos, conhecemos as motivações e os medos nas ações que inicialmente parecem exageradas ou rudes. Para além desse conhecimento, há um distanciamento entre os protagonistas apresentados nos primeiros episódios e quem eles se tornam na medida em que o enredo se desenrola. No geral, Navillera é uma série sensível, realista e tão humana que vai além de fazer chorar ou emocionar os espectadores. Acima de tudo, é um dorama que me surpreendeu do começo ao fim, primeiramente porque não esperava a profundidade nas mensagens e o caminho que a série iria levar, mas também pela beleza fotográfica e na composição do enredo.

Ao longo dos episódios, as lições transmitidas pelo senhor de idade e pelo jovem dançarino atravessam a tela para alcançar aqueles que estão assistindo. São mensagens de amor, de esperança, de coragem e resiliência em um período tão complexo como o que estamos vivendo no mundo. Mais do que apresentar diferentes formas de amor dentro dos relacionamentos interpessoais e da relação que temos com nós mesmos, a série apresenta o amor como catalisador para processos fundamentais de crescimento. Desse modo, Navillera ultrapassa as barreiras limitadas do amor romântico, com seus estereótipos e papel de gênero, ao construir uma história envolvente com as múltiplas facetas do amor no enredo dos personagens.

Navillera é uma série sobre o amadurecimento e o potencial transformador dos sonhos. Sobretudo, trata-se de uma mensagem de como o amor em seus diferentes formatos nos impactam enquanto seres humanos tentando encontrar nosso lugar no mundo.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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1 comentário

  1. “Acima de tudo, essa é uma série que trata do amor em suas diversas formas e configurações, em especial nos diferentes campos sociais e espaços que ocupamos no mundo.” É sobre isso! E quanta sensibilidade nesse texto, nesse drama!