Categorias: TV

The Haunting of Hill House: toda história de fantasmas é uma história de amor

“Every love story is a ghost story” [“toda história de amor é uma história de fantasmas”] é uma frase atribuída a David Foster Wallace que aparece em suas correspondências, em um de seus romances, e é o título de sua biografia mais famosa, mas até D. T. Max, o biógrafo, não sabe afirmar com certeza se a frase é mesmo de sua autoria. Pensar no seu sentido é uma tarefa ainda mais complicada quando não se tem um contexto completo. The Haunting of Hill House, série de terror da Netflix lançada pouco antes do Halloween, me deixou mais comovida e chorosa do que assustada, e foi nessa suposta frase de DFW — ou pelo menos numa versão dela — que pensei enquanto tentava entender minha reação: toda história de fantasmas também é uma história de amor.

É mais ou menos dessa mesma ordem a definição que Steven Crain (Michiel Huisman), um dos protagonistas da série, dá a uma viúva que jura estar sendo assombrada pelo fantasma do marido, logo no primeiro episódio: “Um fantasma pode ser um monte de coisas. Uma memória, um sonho, um segredo. Dor, raiva, culpa. Na minha experiência, na maioria das vezes eles são aquilo que queremos ver.” Steven é especialista em histórias de fantasmas, o suficiente para ser chamado para ouvir a respeito de assombrações em casas alheias e tentar flagrá-las, como um caça-fantasma. Na maioria das vezes, ele descobre que os barulhos estranhos vêm do vento, da rua, de um eletrodoméstico velho, e a imaginação, o medo, o sono e o desejo transformam isso num fantasma. Seu objetivo, no entanto, não é capturar fantasmas, mas sim as histórias que os dão vida. Steven nunca viu um fantasma, não que ele saiba, mas é autor de best-sellers de terror e se inspira nas histórias de dor, raiva, culpa, medo e amor de outras pessoas para escrever seus livros.

A visão pragmática que Steven tem dos fantasmas e de qualquer coisa sobrenatural existe em contraste com sua história pessoal. Na infância ele passou um verão na Residência Hill, uma das casas mais mal assombradas dos Estados Unidos, e sua família protagonizou um escândalo nos tabloides quando saiu de lá devido a um episódio misterioso que terminou com a morte de sua mãe, que ainda é um mistério para todos, menos para seu pai, Hugh (Timothy Hutton). A carreira de Steven como escritor decolou depois que ele escreveu A Maldição na Residência Hill, contando o que supostamente acontecera com a família Crain na mansão, uma versão construída em cima das experiências do seu pai e de seus quatro irmãos, Shirley (Elizabeth Reaser), Theodora (Katie Siegel), Luke (Oliver Jackson-Cohen) e Nell (Victoria Pedretti). Se no primeiro episódio Steven é categórico ao afirmar que nunca viu um fantasma, o mesmo não pode ser dito pelos outros.

The Haunting of Hill House é uma adaptação da obra de mesmo nome de Shirley Jackson, traduzida no Brasil como A Assombração na Casa da Colina, considerada uma das melhores histórias de terror do século XX. Para os fãs mais puristas, no entanto, talvez seja melhor considerar que a série é apenas inspirada no livro de Jackson, uma vez que o foco da trama é outro e o que existe de comum entre as duas é a Residência Hill e uma infinidade de easter-eggs e referências, que vão desde o nome de alguns personagens até minúsculos detalhes de cena que funcionam como um aceno ao livro. Em sua leitura, Mike Flanagan, que assina e dirige boa parte dos episódios, constrói a história em duas linhas do tempo diferentes: no passado, quando a família Crain vivia na casa, e no presente, com os irmãos na idade adulta enfrentando as consequências do episódio e os fantasmas que os acompanham. Na primeira metade da série, cada episódio é focado em um dos irmãos, e também é engenhosa a forma como o diretor e roteirista conduz os flashbacks de modo que possamos percorrer cerca de 20 anos no tempo de forma fluida, sem transições de tempo óbvias (pelo contrário), e os acontecimentos e personagens se organizam como num balé até que possamos conhecê-los um a um e encontrá-los no presente, tentando superar os traumas do passado.

Trauma, aliás, é uma boa palavra para definir o grande cerne dessa adaptação e também a matéria da qual são feitos os fantasmas que assombram a família Crain. Isso não os torna menos reais, pois não há dúvidas de que existe algo de sinistro e sobrenatural na Residência Hill, mas o que faz The Haunting of Hill House uma série tão interessante é justamente a noção de que cada fantasma poderia ser desmantelado a partir da lógica que Steven emprega com seus clientes. Em vez de vento, portas que rangem e geladeiras que fazem barulho, os monstros de Shirley, Theo, Luke, Nell, Hugh e, sim, Steven, poderiam ser tratados na terapia. Ao lado de Sharp Objects, a série é um dos destaques televisivos do ano que tem o trauma como tema principal, e é curioso pensar no inconsciente coletivo que leva as duas a existirem em 2018.

Quando a dor é muito grande e o trauma não é devidamente processado, eles se materializam tanto internamente, na forma de transtornos psicológicos, dependência química, obsessão por controle; quanto externamente, na forma de fantasmas. “Nenhum organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta” é a frase que abre o livro, uma das mais famosas da literatura universal, e não é à toa.

Atenção: este texto contém spoilers!

Para além das manifestações de horror protagonizadas pela Residência Hill, o grande trauma que assombra os Crain é a morte de sua mãe, Olivia (Carla Gugino). Ao longo dos episódios, acompanhamos a deterioração mental da personagem, que é quem sente com mais força os efeitos nefastos provocados pela casa. Se desconsiderarmos as forças ocultas que fazem parte da mitologia da história, no entanto, Liv pode ser interpretada como uma mulher psicótica ou esquizofrênica que morre de forma trágica — seja por suicídio ou assassinada pela casa — depois de tentar envenenar os filhos mais novos e Abigail (Olive Elise Abercombie), filha dos Dudley, caseiros da Residência. Sua intenção não era matá-los, mas sim acordá-los do pesadelo que a vida naquele lugar se transformara ou ainda levá-los de volta para casa, como a matriarca repete várias vezes ao longo da série.

Em The Haunting of Hill House, pode-se dizer que cada irmão Crain representa um dos cinco estágios do luto — do mais velho para o mais novo, do primeiro ao último — uma teoria surgida inicialmente no Tumblr e que depois fora confirmada pelo próprio Mike Flanagan. Steven, cético com relação às experiências sobrenaturais do resto da família, que acredita que tudo é produto de uma doença mental que passou da mãe para os filhos, é a negação. Shirley, com sua necessidade de controlar e culpar tudo e todos e sua autodisciplina para reprimir os próprios sentimentos, frustrações e desejos, é a raiva. Theo, com seus métodos escusos para conseguir o que quer, seu raciocínio pragmático e sua dificuldade em formar vínculos, é a barganha. Luke, com seus olhos fundos e o vício em heroína que o transformou em zumbi da criança absolutamente adorável que fora, é a depressão — o estágio mais difícil de superação para o personagem com o obstáculo mais difícil de atravessar, e também o que foi mais afetado por todas as mortes da trama. E, por fim, Nell, a caçula, a mais sensível, assombrada pela Moça do Pescoço Torto, é a aceitação. Seu trágico suicídio no início da série, que força todo o clã a se reunir novamente, também é um símbolo: Nell é a primeira a voltar para casa.

Nell, apelido de Eleanor (que depois de casada torna-se Eleanor Vance, uma referência ao nome de uma das protagonistas do livro no qual a série se inspira), também oferece uma perspectiva muito interessante sobre saúde mental. Seu arco é onde o trabalho de Mike Flanagan como articulador da trama brilha com mais força pois, na história da personagem, o tempo da narrativa opera de forma cíclica, que lembra um pouco o círculo do tempo de A Chegada. Num dos episódios mais potentes de The Haunting of Hill House, “The Bent Neck Lady”, descobrimos que a Moça do Pescoço Torto, que assombra Nell desde criança, não é um fantasma e sim um trágico prenúncio do seu futuro.

O que Nell encontra ao voltar para Residência Hill é uma visão de todas as pessoas importantes de sua vida reunidas para dizer que acreditam nela, que sua dor é real. Carregar um buraco desses no peito é mais aterrorizante que qualquer visão fantasmagórica. Fantasmas são dores. Fantasmas são desejos.

Sempre tive problemas com filmes de terror que gastam muito tempo desmistificando seus monstros, principalmente quando isso é feito no final do filme. Na maior parte das vezes a solução é preguiçosa, com tendência ao xarope melodramático, com desfechos que revelam que os fantasmas são crianças que morreram precocemente, mulheres aprisionadas ou algo que o valha. Quando isso não é bem conduzido, perde-se o efeito de horror e nem sempre a alternativa dramática é bem sucedida. Isso não acontece em The Haunting of Hill House. Nell constantemente é a assombração à espreita de seus irmãos e sua figura convence e comove tanto pela dor que marca sua história como pelo medo que a visão de um fantasma evoca. Embora a caracterização das criaturas além-mundo da série não tenha me agradado — sou da escola do “quanto menos gráfico e distorcido, melhor” — os sustos são muito convincentes por surgirem muitas vezes desvinculados de trilha sonora, sem avisar, no susto mesmo, como uma lembrança traumática que nos acorda no meio da noite sem mais nem menos.

Esse tempo circular também é experimentando por Olivia, que em um de seus terrores noturnos enxerga coisas horríveis no caminho de seus filhos e é disso que ela quer tanto protegê-los. A tragédia que ela vê não é, contudo, fruto de uma maldição ou produto de um pesadelo, mas simplesmente aquilo que o futuro os reserva enquanto adultos, uma vida marcada por “tristeza, doenças, podridão, perdas e escuridão”. Essa visão acontece no penúltimo episódio, quando já passamos tempo o suficiente com os Crain para saber que todas elas se concretizam, em alguma medida. O sacrifício de Olivia, no fundo, é um esforço desesperado da mãe para protegê-los dos perigos do mundo lá fora, quando ela não puder mais olhar por eles. Toda história de fantasma é uma história de amor.

O luto de todos, portanto, é não apenas pela mãe morta, mas também pela deterioração do núcleo familiar assolado pelo trauma — uma metáfora frequentemente associada às histórias de casas mal assombradas. Hugh nunca contou aos filhos o que exatamente acontecera na noite da morte de sua esposa, o que o afastou de todos e corrompeu o relacionamento entre pai e filhos. Todo esse luto alimentado por anos, somado a traumas subsequentes — seja a morte de Nell ou a “traição” de Steven ao transformar a história em enredo de livro — explode em “Two Storms”, disparado o melhor episódio da série, quando, no velório da irmã, todos têm a chance, pela primeira vez em anos, de despejar toda a dor que sentem uns nos outros. Não é bonito de ver, e as cenas, filmadas em plano sequência, contribuem para a sensação que é um misto de confusão e claustrofobia, que deve ser parecido com o que eles sentem no momento.

Seguindo a estrutura clássica do gênero, a família precisa voltar ao lugar onde tudo começou para encontrar sua redenção, curar suas feridas e quem sabe seguir em frente. Nem todos conseguem: Hugh, ao morrer, se encontra novamente com a esposa — que sempre esteve do seu lado, mesmo depois de morta — e com a filha caçula, incapaz de deixar o passado ir embora. O mesmo acontece com os Dudley, que embora reconheçam que existe algo de maligno na Residência Hill, se recusam a sair de lá para manter viva a memória da filha. Para Steven, Shirley, Theo e Luke, no entanto, a perspectiva é mais otimista. O final feliz dos Crain remanescentes parece feliz demais diante de todos os horrores, principalmente os da vida real, que não se resolvem de forma tão simples e se emaranham dentro de nós assim como a estrutura labiríntica da casa, com cômodos que somem e aparecem de surpresa, sempre revelando coisas escondidas prontas para nos surpreender. No entanto, é uma catarse merecida após uma tensão muito bem construída e um excelente trabalho do elenco, apesar de meio cafona e até dissonante com o tom geral da série. Mas vamos deixar as duas coisas coexistirem em paz.

The Haunting of Hill House não é uma série perfeita, longe disso. Ela demora a encontrar seu ritmo nos primeiros episódios e sofre com diálogos pouco inspirados e metáforas redondinhas até demais. Do mesmo modo, os episódios finais patinam ao apresentar elementos que acabam pouco explorados, como aqueles relacionados ao passado da casa (que imagino que podem ser tema de temporadas futuras, embora nenhum anúncio oficial tenha sido feito), e principalmente nos monólogos que encerram a série, muito grandes, muito desesperados para fazer com que o espectador entenda qual exatamente é a emoção que eles estão buscando atingir. Não há necessidade disso quando nos nove episódios anteriores a atração tenha brilhado tanto ao contar uma das histórias mais interessantes do ano. The Haunting of Hill House brilha, sobretudo, por extrapolar os limites da obra original e abraçar, sem medo do que é feio, nojento e obscuro, a matéria profunda de nossos traumas humanos. Histórias de fantasma também são histórias de dor, e por isso temos medo delas, e em sua exímia construção de horror a série faz a elas grande justiça.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 comentários

  1. Nossa! Eu concordo tanto com tudo que vc escreveu! Amei perdidamente essa série…
    Acabei indo parar em outras resenhas e críticas, e mais outras, e outras… Amei o site! Que incrível! Já está em meus favoritos.

  2. Se me permite o comentário… eu tenho uma leve impressão que a Theo foi abusada sexualmente quando criança.
    Primeiro, a sensibilidade ao toque que ela possui. Segundo, toda a empatia que ela teve no caso da paciente dela. Terceiro, os fantasmas dela aparecerem com mãos invadindo o espaço pessoal dela, e agarrando o corpo dela a força.

    I don’t know why… se é uma interpretação minha, ou se foi uma real intenção do autor.