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Demolidor: mais sombrio do que nunca

O ano é 2018 e produções que envolvem super-heróis já deixaram de ser novidade há muito tempo — provavelmente, há mais de uma década. A fórmula é quase sempre a mesma: alguma tragédia dá superpoderes a algum humano qualquer. As habilidades são desenvolvidas. Alguns querem combater o crime, outros querem fama. A maioria tem algum grande vilão para lutar contra. A receita é igual, mas o resultado do bolo nem sempre é o mesmo. No caso da terceira temporada de Demolidor, lançada na Netflix em outubro, o resultado é muito melhor do que o esperado, inegavelmente superior às suas temporadas anteriores, e melhor que as suas irmãs-Marvel do serviço de streaming.

A nova temporada de Demolidor foi lançada entre a notícia de que Punho de Ferro e Luke Cage, duas das séries que tomam lugar no mesmo universo daquela, foram canceladas pela Marvel. Os ânimos, talvez, não fossem os melhores para recepcionar a nova série do super-herói, ainda mais considerando o futuro incerto de Defensores — provavelmente cancelada? —, e a segunda temporada difícil de digerir de Jessica Jones. Contudo, para a agradável surpresa dos fãs fiéis — eu inclusa —, a terceira temporada de Demolidor retorna para entregar tudo aquilo o que a gente mais queria: a mesma qualidade da primeira temporada da série.

Atenção: o texto contém spoilers!

Os eventos tomam lugar após o final de Defensores, onde o herói, juntamente com Jessica Jones (Kristen Ritter), Punho de Ferro (Finn Jones) e Luke Cage (Mike Colter), luta contra o Tentáculo, que ameaça de forma inequívoca a cidade de Nova York. O final da temporada foca na explosão do prédio da Midland Circle, local do qual Demolidor não consegue sair, e, tempos depois, com o vigilante acordando em um lugar desconhecido e com a presença de uma freira. Esse lugar, ficamos sabendo, nada mais é do que a igreja e orfanato onde Matt Murdock (Charlie Cox) cresceu durante a infância e a adolescência, após a morte do pai. Nos primeiros episódios, a aura é de adaptação — Matt se adapta com a realidade de ainda estar vivo, porém lesionado, com os sentidos embotados. Karen Page (Deborah Ann Woll) e Foggy Nelson (Elden Henson) estão em processo de adaptação com a ideia de Matt estar morto, onde um parece aceitar a contragosto, enquanto a outra está convicta na ideia de que o amigo ainda está vivo. No início da temporada também somos apresentados à Ray Nadeem (Jay Ali), um agente do FBI que não consegue subir de posição dentro da instituição e que se torna presa fácil para a manipulação de Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), que prepara seu grande retorno, ao se ver engessado pelo sistema. Ray ocupa muito bem o espaço de fiel ao desse sistema enquanto frustrado com o sistema: é um imigrante que enxerga a si mesmo em uma função limitada, mas acreditando, piamente, em tudo aquilo em que trabalha. É com Ray tentando fazer seu trabalho que Fisk começa a colocar em prática seu plano para deixar a cadeia e voltar ao conforto de uma vida de luxos e regalias.

O nosso protagonista, por sua vez, está passando por uma crise de fé, resultando em um Matt Murdock mais sombrio e menos piedoso do que aquele que os telespectadores estavam acostumados a assistir. A casca de Murdock endurece e azeda quando, de longe, assiste ao maior criminoso do qual já deu conta (em tese) ser mantido “preso” no mais luxuoso apartamento de um hotel. A performance de Charlie Cox, nessa terceira temporada, talvez seja a melhor do ator no curso da história como o personagem. É fácil sentir com ele o que é que seja que Matt está sentindo e lidando no momento.

O retorno de Fisk liga o sinal de alerta não só em Matt, mas em todos ao redor do criminoso. É o que acontece com Karen Page, por exemplo. Além de ter auxiliado Matt a colocar Fisk na cadeia, Karen carrega sua própria parcela de fantasmas, como é o caso do assassinato de James Wesley (Toby Leonard Moore), o até então braço-direito de Fisk. Foggy, à sua própria maneira, busca trilhar um caminho na advocacia de carreira, a fim de, em nome da justiça, fazer com que Fisk retorne para cadeia. Durante o curso da temporada somos apresentados a novos rostos: Ben Poindexter (Wilson Bethel), em um primeiro momento, é apenas um dedicado agente do FBI, com uma mira espetacular, e um tanto quanto marrento. No entanto, a introdução de Poindexter na série serve para pavimentar caminho para um dos mais emblemáticos vilões dos quadrinhos que deram origem à adaptação da Netflix, Bullseye. Facilmente manipulável, Poindexter é um psicopata nato, com uma porção de demônios pessoais com o qual precisa lidar todos os dias. Frio, calculista, preciso e sem remorso em matar, acaba servindo como peão no jogo de Fisk. Utilizando a antiga vestimenta de Demolidor, Poindexter aterroriza Hell’s Kitchen em uma tentativa de manchar a pequena reputação do vigilante da região.

Wilson Fisk, agora finalmente chamado pelo nome dos quadrinhos (Kingpin, ou Rei do Crime), põe gasolina em uma fogueira de ânimos alterados, mas, mais uma vez, nos faz relembrar por que é um vilão tão bom — podendo ser, até, o melhor vilão do universo cinematográfico da Marvel. A performance de Vincent D’Onofrio, por si só, já merece aplausos. Wilson Fisk é um baita criminoso: ele mata sem pudor e também manda matar, manipula, ameaça, controla muitos e de muitas formas. Faz tudo isso enquanto, incólume, veste seus trajes metódicos e age como se nada fosse. Sua raiva contida, aquele tipo de raiva que está prestes a explodir, é muito bem explorada na terceira temporada. No entanto, criar um sentimento de inadequação, tristeza e solidão, fazendo com quem quer que seja que o assiste sentir, nem que por um lapso pequeno de tempo, empatia pelo vilão, é sem dúvidas o grande pulo do personagem.

Dos novos e velhos rostos da série, Irmã Maggie (Joanne Whalley) marca grande presença. Uma das freiras da igreja/orfanato onde Matt cresceu, a irmã é quem, sem delongas, confronta a crise de fé que acomete o protagonista. Ajuda-o sem que ele peça, acoberta-o sempre que possível. A personagem, em uma trama inesperada, é mais do que ficamos sabendo em primeiro momento, e é um acréscimo interessante na série. Por fim, Vanessa Fisk (Ayelet Zurer) está de volta. É Fisk porque, nessa temporada, se casa com o Rei do Crime. Uma personagem difícil de ler, conhecemos um pouco mais de Vanessa nos episódios finais, onde ela demonstra ser do mesmo material que o grande vilão da série.

Deixando um pouco o misticismo de lado, presente na segunda temporada da série e em sua antecessora cronológica (Defensores), Demolidor retorna às origens de grandes criminosos versus vigilante & humanos a fim de combater o crime. As cenas de luta são muito bem coreografadas, retomando o nível da primeira temporada, se não superior. Os confrontos entre Poindexter e Demolidor são eletrizantes, deixam claro os pontos altos e baixos do combate de cada um: Poindexter sendo letal de longe, onde tudo — de vidros à lápis — se torna munição, enquanto Demolidor permanece sendo cirúrgico e ágil no combate corpo a corpo. É o que acontece em “The Devil You Know”, sexto episódio da temporada, por exemplo. Para além das grandes lutas, é no quarto episódio da temporada, “Blindsided”, que vemos que a pancadaria bem ensaiada está com uma nova roupagem. Matt infiltra-se na prisão onde, até então, Fisk estava preso. Em um plano-sequência de onze minutos, o episódio é de tirar o fôlego e serve para mostrar que o showrunner responsável pela temporada — e o quinto responsável pela série! — Erik Oleson, não brinca em serviço.

Dar contexto à realidade de personagens já conhecidos e queridos pelo público, como é o caso de Karen Page e Foggy Nelson, está dentre os muitos pontos positivos da temporada. De Foggy conhecemos os pais e irmão, a dinâmica familiar, sua realidade dentro de casa e suas ambições no trabalho. Nelson sai do posto de “apenas o melhor amigo de Matt Murdock”, para se tornar um personagem do qual a vida sabemos um pouco mais. É sobre Karen, no entanto, que nas temporadas anteriores pouco se esclarece, mas a dívida com o telespectador é paga em “Karen”, o décimo episódio da temporada. Em forma de flashback, retornamos ao passado em uma cidade de interior, onde Page ajuda a tocar pra frente a decadente lanchonete da família. Para se divertir, bebe e usa drogas. Envolvida romanticamente com um moço de índole duvidosa, Karen tem zero perspectiva de um futuro promissor, o que só piora depois que, enquanto dirige embriagada, envolve-se em um acidente de carro que culmina na morte do irmão mais novo. O episódio faz uma costura interessante com aspectos de Karen como a conhecemos nos dias “atuais” — chorando sozinha em um carro porque seu pai não (mais?) dá abertura pra ela; ou, tendo dificuldade para lidar quando vai em busca de um dependente químico em um local pouco acolhedor.

Para uma série de muita pancadaria, Demolidor até que enche os olhos. A terceira temporada traz jogos de câmeras mais dinâmicos e angulosos, com a coloração típica da série acentuada, combinando com a nova realidade do protagonista. Tudo o que prometeu entregar, seja nos trailers ou no início da temporada, foi entregue pela série. Com tramas bem desenvolvidas, Demolidor conseguiu em sua mais recente temporada o que outras séries similares da Netflix não conseguiram da mesma maneira: fazer com o que telespectador espere, ávido, pelo que há por vir. Apesar de existir espaço para um possível, mas nada desejado, cancelamento, devido a como se encerrou a temporada, não há dúvida que a história dos vilões e do nosso herói está longe de ser finalizada — há muito mais o que contar. Demolidor nos prova, aqui, que a indústria dos super-heróis na TV ainda se sustenta e pode ser boa, envolvente e bem produzida. Ficamos nós, então, esperando pela notícia de uma renovação pelo vindouro serviço de streaming da Disney, visto que na Netflix a série não continuará.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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