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Nightflyers: a ficção científica de George R.R. Martin

George R.R. Martin é mundialmente conhecido por seu trabalho em As Crônicas de Gelo e Fogo, mas antes disso o autor já havia produzido uma extensa bibliografia que conta, inclusive, com tramas de ficção científica. Este é o caso, por exemplo, de Nightflyers, conto que mistura ficção científica e terror, publicado originalmente em 1980 e posteriormente em uma antologia, em 1985, que leva o mesmo título do conto, e que chega ao Brasil pela Suma de Letras em uma edição de capa dura caprichada e com ilustrações impactantes de David Palumbo, no interior do livro, e de Julio Zartos, na capa.

Nightflyers não tem uma trama exatamente original. Uma expedição científica composta por nove acadêmicos com diferentes especializações se prepara para chegar às fronteiras do universo com o objetivo de estudar uma misteriosa raça alienígena chamada de volcryn. São tantos os mistérios envolvendo os volcryn quanto aqueles envolvendo a nave em que estão à bordo, a Nightflyer que dá título ao livro, e nada é o que parece ser. Devido à missão complexa que Karoly d’Branin tem em mente, apenas o capitão da Nightflyer aceitou transportar a ele e sua equipe, e a nave, que parecia uma maravilha tecnológica a primeira vista, se transforma no pior pesadelo de toda a sua tripulação.

As estranhezas da Nightflyer começam logo por seu capitão, Royd Eris, que só se comunica com seus passageiros por meio de um holograma, o que acende um sinal de alerta em cada um deles. Parecendo mais um fantasma do que um capitão de uma imponente nave, Royd Eris é um ser misterioso e cheio de segredos. Ainda que as esquisitices de Royd não pareçam ser realmente um problema em um primeiro momento, é quando Thale Lassamer, o telepata do grupo, começa a sentir uma presença ameaçadora e desconhecia por perto, que a tripulação fica agitada e temerosa, com a desconfiança aumentando na mesma proporção em que o medo toma conta de cada um deles. Os nove cientistas não confiam em Royd Eris, e suas explicações e garantias quanto a segurança da tripulação não parecem ser suficientes para acalmá-los.

Mortes estranhas começam a acontecer dentro da Nightflyer e ninguém está seguro. A narrativa de George R.R. Martin é capaz de manter o leitor curioso e pendurado nas pouco mais de 140 páginas do livro, mas nem mesmo a tensão criada pelo autor é suficiente para compensar o desfecho dessa história. Nightflyers reúne ficção científica e terror de maneira orgânica, mas como não é possível criar muitos vínculos com os tripulantes da nave, com exceção, talvez, de um deles, quando as mortes têm início o leitor não está realmente preocupado — como Nightflyers é um conto, não há muito espaço para desenvolver os personagens e fazer com que o leitor simpatize com eles.

O que Martin cria, ao invés disso, são arquétipos presentes em boa parte dos filmes de ficção científica, o que não ajuda no momento de criar empatia com esses personagens. Enquanto lia Nightflyers, eu estava muito mais interessada em saber o que era a presença sombria que tomava conta da nave do que saber quais tripulantes sobreviveriam ao final da jornada. Entre os personagens que recebem um pouco mais de atenção, estão os já citados Royd Eris, capitão da Nightflyer, Karoly d’Branin, o líder da expedição, e Melantha Jhirl, uma supermulher de pele escura e geneticamente modificada para ser mais rápida, ágil e inteligente do que um humano comum.

Nascida na elite de Prometheus e filha de dois magos da genética, Melantha foi completamente aperfeiçoada antes mesmo de nascer. Com um metabolismo mais eficiente, um corpo mais forte e durável, e uma expectativa de vida uma vez e meia superior ao do humano normal, Melantha é facilmente a pessoa mais bem preparada para adversidades à bordo da Nightflyer. Ela é uma das primeiras a compreender os mistérios da nave, e de seu capitão, mas nem mesmo Melantha é capaz de proteger a todos e evitar que mortes aconteçam.

Em seu Not A Blog, George R.R. Martin contou, em 2017, como, da ocasião da estreia da série da Netflix inspirada em seu livro, Melantha finalmente recebeu a representação adequada e por ele pretendida quando escreveu Nightflyers. Vencedor do Locus Award e indicado ao Hugo Award, prestigiosos prêmios voltados para livros de ficção científica, a primeira edição de Nightflyers teve Melantha, uma das personagens mais importantes do livro, embranquecida. Na capa do livro, figurava a ilustração de uma mulher loira e assustada, algo completamente diferente da Melantha escrita por Martin. Sobre isso, o autor escreveu:

“Eu não fiquei satisfeito. Ressaltei que Melantha era negra. Meu editor reconheceu o problema, mas se recusou a fazer qualquer mudança. ‘Você quer que seu livro venda?’, ele me perguntou. Respondi que, claro, queria. ‘Bem, se a gente botar uma mulher negra na capa, ninguém vai comprar.'”

Com uma carreira correndo risco à época do lançamento de Nightflyers em 1985, George R.R. Martin reconhece que não lutou o suficiente para que sua personagem fosse retratada de maneira fiel na publicação. O mesmo, conta o autor, aconteceu no filme baseado em seu livro: lançado em 1987, Martin não teve contato com a produção e, novamente, Melantha Jhirl sofreu embranquecimento, dessa vez sendo interpretada pela atriz branca e loira Catherine Mary Stewart. Tais erros só vieram a ser reparados quando o conto foi adquirido pela Netflix e transformou-se em série pelo serviço de streaming: ainda que tenha sido cancelada após apenas uma temporada, Melantha Jhirl finalmente foi interpretada por uma mulher negra, a atriz Jodie Turner-Smith.

Foram necessários mais de 30 anos para que justiça fosse feita à Melantha. A personagem, em Nightflyers, é o mais próximo que temos de uma protagonista e é apenas por ela, e sua história, que o conto se torna tão interessante. O mistério em volta do que está à bordo da nave, matando a tripulação, é um ponto importante de toda a trama, mas é a humanidade de Melantha que nos faz seguir a leitura até ao final.

De maneira geral, Nightflyers possui uma trama interessante e que prende a atenção, mas peca no pouco desenvolvimento dado a seus personagens — o que é aceitável devido ao fato da publicação ser um conto. Como dito anteriormente, é difícil criar empatia e se importar com o destino da tripulação da nave, mesmo que os horrores estejam a um corredor de distância. A narrativa de George R.R. Martin é ótima como sempre, mas o desfecho de seu conto de terror no espaço deixa um pouco a desejar. O trabalho da Suma de Letras com a edição gráfica do livro está impecável, e as ilustrações de David Palumbo conseguem captar com maestria a ambientação sombria e soturna da Nightflyer, navegando no espaço em busca do desconhecido e encontrando mortes e horror no lugar.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


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2 comentários

  1. Olá!! 🙂 Já começo com um comentário polêmico: não sou fã do autor, nunca vi nem li Game of Thrones. Maaaas, assisti Nightflyers na Netflix pois apareceu nas minhas recomendações e eu gosto demais do tema. Com algumas ressalvas, eu achei muito bom e fiquei curiosa pra ler. Até coloquei na minha listinha da Amazon a edição de um livro de contos dele que tem essa história.

    Conto é bom, por um lado, porque não tem como enrolar, mas por outro, quando a história é boa, parece que fica faltando.

    Uma pena a série ter sido cancelada.

    1. Oi Andrea, obrigada pelo comentário! Ao contrário de você, não assisti à série da Netflix mas concordo que é uma pena ter sido cancela — não tanto pela trama em si, mas pela representatividade acertada da Melantha.