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Homem-Aranha: Longe de Casa – novos tempos para o MCU?

Há muito com o qual Homem-Aranha: Longe de Casa precisa lidar. O filme é o primeiro lançamento da Marvel desde a estrondosa estreia de Vingadores: Ultimato; o 23º a compor seu Universo Cinematográfico e também o último da fase atual, iniciada em 2016, mesmo ano em que o personagem fez sua primeira aparição no MCU. Assim, parece correto afirmar que, para além de seu antecessor — que a essa altura parece existir em um lugar muito, muito distante para ser realmente relevante —, Homem-Aranha: Longe de Casa ocupa um espaço duplo de transição, inserido entre um passado ainda muito recente para ser esquecido e cujas consequências continuam a ter grande impacto no universo em que se inserem, e um futuro ainda incerto, sobre o qual há muito o que se especular.

Atenção: este texto contém spoilers!

É um desafio que Jon Watts encontra enquanto diretor, mas que o próprio Peter Parker (Tom Holland) também encontra em sua trajetória pessoal. Após o desfecho do filme de Joe e Anthony Russo, resta aos remanescentes o desafio de assimilar o mundo pós-blip (como é chamado pelos adolescentes o estalar de dedos que transformou metade da população global, incluindo o próprio Peter, em pó) e suas mudanças inevitáveis — como o fato de que aqueles que não desapareceram continuaram a envelhecer normalmente, causando certa confusão entre aqueles que não estavam ali para acompanhar esse desenvolvimento e, por sua vez, retornaram exatamente como eram antes; ou o futuro dos Vingadores, agora sem líderes aparentes, que permanece em suspenso; uma pergunta sem resposta que ninguém parece realmente capaz de responder.

A ausência desestabiliza todo um mundo de pessoas que confiavam sua segurança a essas figuras e que agora precisam assimilar não apenas a falta, mas a verdade incontestável de que mesmo super-heróis não estão além da mortalidade. Para Peter, no entanto, há um outro tipo de trauma, tão complexo quanto a consciência de sua própria mortalidade que, em princípio, é justamente o que o leva a enxergá-la com mais clareza: a perda. Com Tony Stark (Robert Downey Jr.), Peter entende o que é ter um mentor, alguém capaz de guiá-lo em meio aos percalços que inevitavelmente surgiriam em seu caminho como super-herói. Stark o mantinha ligado a um grupo maior e, consequentemente, a um contexto mais amplo, que não se restringia aos causos da vizinhança, mas ele é, sobretudo, o seu relacionamento mais importante, alguém que, uma vez ausente, é quem lhe faz mais falta. Luto e legado são dois temas recorrentes em Homem-Aranha: Longe de Casa, que os utiliza como alicerce para o desenvolvimento de um Peter mais consciente sobre as dores e deveres de ser um herói e, por isso mesmo, menos convencido de que esse é o lugar em que deseja estar.

Para todos os efeitos, no entanto, Peter continua a ser o herói que restou e a atenção que recebe como Homem-Aranha não deixa de demonstrar o quão desconfortável isso pode ser. Da perseguição da mídia às insistentes ligações de Nick Fury (Samuel L. Jackson), é óbvia sua necessidade de ter algum tempo e algum espaço. Se o futuro não deixa de ser uma incógnita — e ele é, para todos nós — e uma preocupação prática para um planeta que dificilmente sobreviveria sem a ajuda de super-heróis, para Peter essa é uma questão muito mais emocional do que efetivamente racional. E que também não existe de maneira isolada: apesar de tudo, ele continua a ser um adolescente, o que significa ter outras preocupações — o que pode parecer pequeno diante de vilões megalomaníacos e ameaças interplanetárias, mas que não deixa de ser relevante a um nível pessoal. Jon Watts sabe disso, e aborda com muita sensibilidade e delicadeza suas frustrações, dúvidas e angústias adolescentes, reconhecendo o quanto essas experiências são importantes para um jovem em idade de formação.

Não é uma surpresa que Homem-Aranha: Longe de Casa seja essencialmente estruturado como uma história de amadurecimento, que divide muitas semelhanças com as comédias românticas e histórias de formação adolescentes. Mesmo o conflito não é necessariamente estabelecido a partir da presença de um vilão (porque ainda estamos falando de um blockbuster de super-heróis, ter um vilão contra o qual lutar no fim do dia é um aspecto importante), mas onde a presença do vilão funciona como catalisador para questões mais profundas; ele não é o fim em si mesmo, mas o meio para um fim.

A ameaça dos chamados Elementais (Elementals, no original), identificados inicialmente como O Problema a Ser Resolvido, funciona apenas como ponto de partida para a introdução de um novo personagem: Quentin Beck, ou Mysterio, (Jake Gyllenhaal), como eventualmente passa a ser chamado, e de quem Peter se aproxima com evidente facilidade. Na urgência de ter alguém com quem dividir seus sentimentos e percepções, o jovem acaba depositando muito de sua confiança em Beck, que para o bem ou para o mal é uma pessoa que ele não conhece tão bem assim e isso, eventualmente, se mostrará um erro. A descoberta sobre a verdadeira identidade de Mysterio e suas reais intenções não chega a ser de fato uma surpresa (para todos os efeitos, Mysterio já era um nome bastante conhecido nos quadrinhos), mas nada disso torna menos compreensíveis os motivos que levam o jovem Aranha a agir de maneira tão descuidada. Mysterio surge como uma figura mais experiente que pode tanto lidar com as grandes ameaças que o adolescente se recusa a enfrentar quanto lhe fornecer o apoio e cuidado que ninguém parece imediatamente disposto a conceder. Que os dois construam uma dinâmica tão harmônica em tão pouco tempo é uma saída muito natural e que condiz com o momento bastante particular vivido pelo personagem. Naturalmente, a harmonia não dura muito e cabe a Peter resolver a confusão. Mas suas pequenas interações com o vilão são um lembrete do quanto lhe falta o cuidado e a atenção outrora dispensados por Stark, o que torna a rápida e óbvia traição de Quentin particularmente dolorosa. A vulnerabilidade não é necessariamente o que torna Peter mais forte, mas é uma nota do que o torna tão humano — uma característica fundamental nas histórias do Homem-Aranha.

Não é preciso dizer que, depois de falhar não uma, mas duas vezes, é a Happy (Jon Favreau) quem ele recorre, deixando de ignorá-lo como uma pessoa que estava ali, e continuaria ali apesar de seu relacionamento com tia May (Marisa Tomei). E alguém que estivesse ali era, de fato, o que ele precisava. Mais do que o suporte emocional, no entanto, é Happy quem revela a Peter detalhes da vida de Tony que não eram de seu conhecimento, fosse por ignorância ou por mera falta de oportunidade para destrinchá-los, e são eles que demonstram o quanto Tony podia ser, ao mesmo tempo, tão falho e tão altruísta. Medos, dúvidas e frustrações são parte da vida de qualquer ser humano, destaca o roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers, e nesse contexto, ser um super-herói acaba sendo apenas um detalhe. Assim, é ao tomar distância da perspectiva de protegido que tenta a todo custo se espelhar em alguém que julgara ser perfeito, mas que não era, que Peter passa a enxergar seus próprios deslizes com mais gentileza, retornando muito mais seguro de sua posição. Longe de Casa destina menos espaço a embates dicotômicos entre bem e mal, certo e errado, buscando respostas que, pelo contrário, não caberiam em concepções tão limitadoras — o que o distancia ligeiramente de suas incursões anteriores, como a trilogia Homem-Aranha, de Sam Raimi, e O Espetacular Homem-Aranha 1 e 2, de Marc Webb.

Esse movimento contrário possibilita alguns dos momentos mais interessantes do filme, onde também é possível incluir os coadjuvantes amigos de Peter, que ganham mais espaço para se desenvolver por conta própria. Ned (Jacob Batalon) continua a ser o maior alívio cômico, mas deixa a sombra do protagonista ao se envolver com uma colega de turma e tornar-se, da noite para o dia, um especialista em relacionamentos. MJ (Zendaya), por sua vez, ocupa o espaço eventualmente vago ao lado do herói em suas aventuras, se envolvendo cada vez mais com os desdobramentos da trama. Se Homem-Aranha: De Volta ao Lar não lhe dá muito o que fazer, Longe de Casa a delineia como muito mais do que um interesse romântico: MJ ganha uma personalidade muito única, ao mesmo tempo cool e insegura, e com gostos um tanto específicos (destaque para o caso Dália Negra, um dos crimes mais famosos da história norte-americana e uma obsessão em particular da jovem, referenciado com frequência no longa). Mesmo quando se torna um alvo, o filme não a conduz a uma posição de donzela em perigo, libertando-a para se resolver sozinha. Na companhia de Happy e de alguns colegas da escola, MJ se desprende da luta entre Homem-Aranha e Mysterio para lidar com as consequências do conflito em paralelo. Somente quando a briga acaba é que os dois conseguem se reunir novamente e têm o seu final feliz — em meio aos escombros da cidade, como não poderia deixar de ser; uma cortesia sempre garantida pelos super-heróis e suas confusões.

Mysterio, de maneira similar, ganha espaço para ser muito mais do que a pedra no sapato de Peter, assumindo um discurso que é concreto o suficiente para ser, também, relevante. Como Hela (Cate Blanchett), em Thor: Ragnarok, Erik Killmonger (Michael B. Jordan), em Pantera Negra, e o próprio Adam Toomes (Michael Keaton) antes dele, Mysterio vem na esteira de vilões não necessariamente mais ameaçadores (embora, claro, também o sejam), mas consideravelmente mais complexos. Suas ações não são parte de uma barbaridade vazia, mas refletem padrões e estruturas sociais que não existem apenas naquele universo. Quando diz que as pessoas estão dispostas a acreditar em literalmente qualquer coisa, ao ponto de fabricarem seus próprios mitos e heróis elas mesmas, sua lógica não está errada, e é por isso que seu plano funciona tão bem. Quentin constrói para Mysterio uma personalidade cativante, um passado trágico, uma trajetória fascinante e impressionantes frases de efeito em um processo metalinguístico que critica super-heróis em um filme sobre… super-heróis. Não é por acaso que, até determinado momento, seu plano obtenha tanto êxito e com tanta facilidade que mesmo ele parece se surpreender: o controle que exerce sobre a própria narrativa continua a ser absurdo, mas é precisamente sua detalhada percepção de mundo, a observação sobre o fascínio igualmente absurdo exercido por essas figuras e os muitos clichês que os cercam que tornam seu papel tão potente e memorável — e o fato de ser interpretado por Jake Gyllenhaal em toda a pose de bom moço que quase lhe rendeu um papel como Homem-Aranha no passado apenas reforça o quanto ainda somos facilmente enganados por um homem branco com palavras bonitas e olhos azuis.

É uma crítica que, naturalmente, possui suas próprias limitações — a Marvel, afinal, se beneficia enormemente desse cenário. Mas para além de seu universo específico, a maneira como questiona a necessidade humana de encontrar figuras heroicas nas quais depositar confiança, responsabilidade e a expectativa de salvação encontra aplicações reais. Se na cultura popular a chamada Era dos Heróis é um fenômeno de grande influência, debatido e estudado a despeito da pouca idade, a obsessão por heróis e mitos, ou o culto à personalidade, não é um acontecimento recente, tampouco encontra-se restrito à ficção. De fato, muitos são os personagens de carne e osso criados com objetivos previamente delineados, que se utilizam de discursos que servem tanto para conquistar seguidores quanto alçar a si mesmos a um status mitológico, principalmente em contextos de instabilidade, quando essas figuras encontram espaço fértil para se desenvolver. Se, no caso de Mysterio, a ausência dos Vingadores é o que impulsiona sua ascensão, historicamente nos tornamos mais vulneráveis à ação dessas figuras em situações de inconsistência política, econômica e social.

Contudo, nem mesmo as muitas qualidades de Longe de Casa garantem que o material final funcione sem ressalvas. É verdade que o filme flui de forma muito natural, que seus personagens continuam ótimos e o elenco dá conta das muitas nuances que compõe cada um deles. Ainda assim, há momentos que parecem simplesmente deslocados — como a tão comentada fala sobre o multiverso Marvel que, na prática, não serve para muito mais do que alimentar teorias — ou promovem mudanças significativas naquilo que sempre fez de Peter um personagem tão singular. É evidente a ruptura com a versão mais antiga do herói, criada por Stan Lee e Steve Ditko, em 1962, no qual Peter vivia de maneira bastante modesta, precisava trabalhar para pagar as contas e o dinheiro, mesmo em momentos de aparente prosperidade, sempre guardava em si a possibilidade de se tornar novamente um problema — detalhes que, se não o tornavam mais realista, ao menos o faziam um semelhante. É verdade que De Volta ao Lar já ensaiava grandes mudanças na história de origem do herói, incluindo a morte de tio Ben, omitida pela nova franquia. E funciona. Mas o mais importante é que essas mudanças nunca interferiram em sua essência: Peter ainda é o herói da vizinhança, é órfão, vive com a tia em um apartamento bastante modesto no Queens. Mesmo o relacionamento com Stark não havia alterado essa dinâmica até então, e é despido das facilidades tecnológicas por ele oferecidas que Peter enfrenta Adrian Toomes, provando seu valor como herói. Não é a tecnologia que faz o herói, é o herói quem a faz, transforma e molda, e essa lógica continua válida em 2019. Entretanto, se é fácil perceber o que a torna destrutiva nas mãos da pessoa errada, Longe de Casa atribui aos apetrechos de Stark um valor capaz de definir quem ganha e quem perde na disputa entre heróis e vilões, em óbvia contradição ao discurso de outrora.

Existem muitas diferenças entre Peter e Stark, e essas diferenças são o que os tornam tão diversos entre si. Peter é gentil, sincero, por vezes ingênuo; Stark é impertinente, egocêntrico, insuportavelmente teimoso. Peter é um jovem de recursos limitados, um herói pela casualidade que nunca ambicionou salvar o mundo ou lutar contra ameaças que não estivessem restritas aos limites da vizinhança ou da cidade de Nova York. Tony é um bilionário, símbolo de uma América corporativista, herói por opção que tomou a dianteira diante de ameaças em escala global. Os dois partem de realidades muito distintas e, no entanto, isso não impede que Peter se espelhe em Tony em alguma medida; ele ainda é, afinal, o seu exemplo mais próximo naquilo que tange as experiências de ser um herói. Desde o princípio, porém, é evidente que existem mais nuances que cerceiam essa relação, ainda que Peter tenha alguma dificuldade em enxergá-las com clareza. Por isso todos os vilões enfrentados pelo Homem-Aranha até agora têm uma conexão com Stark, com quem estabelecem conflitos muito antes de Peter entrar em ação e interromper seus planos; são maneiras de delinear Stark como uma pessoa também bastante péssima, cuja personalidade irreverente apenas serve para desviar a atenção do tamanho poder que detém. E Peter, nesse sentido, funciona sobretudo como um contraponto. Uma vez que se utiliza desse poder, mimetizando o próprio Stark em situações passadas, no entanto, parte de sua essência também se esvai e é difícil determinar até que ponto as celebradas mudanças estão, de fato, interferindo positivamente em sua narrativa.

Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades nunca antes foi uma afirmação tão adequada. Longe de Casa brilha quando trabalha com menos, quando é menos pretensioso; onde Ultimato é grandioso, Longe de Casa permite a si mesmo ser mais modesto e o faz com louvor. Em uma história que sempre se beneficiou da vida interna de seus personagens, do quão complexos eles poderiam ser, não é uma surpresa que os momentos mais importantes e memoráveis do filme sejam justamente aqueles em que esse lado se torna mais evidente, quando suas nuances são trabalhadas com esmero pelo roteiro. Há muito o Homem-Aranha já não é o herói mais famoso da Marvel tanto quanto elaboradas cenas de ação não são um diferencial, e por isso entender suas particularidades, aquilo que o torna único, é tão importante. Jon Watts nem sempre consegue chegar lá, mas se existem percalços ao longo do caminho, seus esforços são certamente recompensados. Longe de Casa não é um filme inesquecível, mas suas pouco mais de duas horas de duração são suficientemente recheadas de diversão para que o tempo passe com muita facilidade. É uma obra que se conclui em si mesma, que de fato acaba quando termina, e que apenas sugere o que pode vir a seguir, sem trabalhar com certezas ou delinear intenções absolutas. Em um filme carregado de expectativas sobre um futuro relativamente incerto, chega a ser desconcertante não saber o que acontece depois. Mas se esses são os novos tempos, talvez seja a hora de deixar que a vida siga seu próprio curso, afinal.

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