Categorias: LITERATURA

Livros que eu gostaria de ter lido quando criança

Quando a sociedade geralmente pensa no momento da infância e no fato de ser uma criança no nosso meio, normalmente associa-se a um tempo e uma época que somos não sujeitos dessa mesma sociedade. Isto é, o corpo social não entende as crianças como cidadãos e isso implica diretamente na perpetuação de preconceitos, da exclusão de grupos e até mesmo no desenvolvimento de problemas sociais. Mas por quê?

Ao não compreender as crianças, e também adolescentes, como integrantes da sociedade brasileira, ou como sujeitos propriamente ditos, que necessitam de atenção e de meios apropriados para se desenvolverem enquanto pessoas, corremos o risco de criar cidadãos sem capacidade para pensar em sua própria realidade ou de definirem suas personalidades visto que podem ser condicionados desde cedo a agirem conforme certos padrões e estruturas sociais antiquadas.

As pessoas num geral tendem a achar que por haver uma grande proteção legal desse grupo social, isto é, das crianças e adolescentes, o tratamento delas é quase que perfeito, enquanto não é. Basta perceber que geralmente quando estamos em, por exemplo, um restaurante e alguém encontra um colega ou um conhecido nesse espaço, e ele tem filhos, a pessoa fala com todos da mesa, exceto as crianças. As crianças geralmente são completamente ignoradas nos espaços e não participam das conversas. Quando surge um tema complexo ou até mesmo uma situação cotidiana, fica subentendido que a criança não irá compreender aquilo e simplesmente não conversam com ela, gerando desconforto e uma sensação de não pertencimento.

Precisamos entender a infância como um momento indispensável para se trabalhar quando discutimos a transformação da nossa sociedade, porque geralmente nos esquecemos que essas crianças vão ser adultos atuantes na comunidade. Pensando a esse respeito, me atentei para a falta de leitura durante a minha infância — se, hoje em dia, os livros alcançam mais leitores, o mesmo não pode ser dito de vinte anos atrás. O que teria sido crescer com um clube de leituras como o Leiturinha que envia, por meio de assinatura mensal, livros infantis pelo correio? Dessa forma, formei uma lista de alguns livros que queria ter a oportunidade de ter lido durante a minha infância, pois influiria diretamente na formação da minha identidade e na compreensão das pessoas e do ambiente em que eu vivia, que parecia tão confuso. Que ela influencie os presentes das crianças de suas famílias!

Pode Pegar, de Janaina Tokitaka

dia das crianças

Um livro importantíssimo para repensamos o papel social das mulheres e dos homens da nossa sociedade com o intuito de acabar com a opressão e a desigualdade de gênero. É um livro do selo Boitatá, como muitos outros que estão na lista, parte da coleção infantil da Boitempo, que propõe levar para crianças e adolescentes a discussão de temas relevantes socialmente. Segundo a editora, a sinopse do livro é: “Um coelhinho de saia, batom e sapatinho de salto. Outro coelhinho de botas, calça e gravata. Assim fica fácil saber quem é menina e quem é menino! Mas e quando a menina quer usar botas pra atravessar o riacho? E quando o menino precisa do salto pra ficar mais alto? Batom serve pra desenhar? E esse chapéu, é de quem? Trocar de roupa é divertido! E agora, como faz pra saber quem é menina e quem é menino? Bom… Mas isso importa mesmo?”

O livro tem a pretensão de abordar de uma forma sutil os costumes culturais e os padrões sociais de gênero. Escrito diretamente para crianças em fase de alfabetização, Pode Pegar tem como protagonistas um coelhinho e uma coelhinha que não veem problema em trocar de roupa um com o outro, brincando com os estereótipos do que é dito masculino e feminino e questionando diretamente o que é que faz uma roupa de menino ou a roupa de menina. Extremamente relevante e essencial. — Comprar!

Minha Dança Tem História e Meu Crespo é de Rainha, de bell hooks

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Dois livros incríveis escritos por uma educadora, ativista negra e feminista maravilhosa que é a bell hooks e que tratam de temas urgentes na sociedade brasileira. Minha Dança Tem História, também publicado pelo selo Boitatá, traz uma história sobre um menino descobrindo quem ele é dentro da cultura do hip-hop. Além de mostrar bastante sobre a cultura negra, expõe bastante as contradições que permeiam a própria ideia de masculinidade que é imposta aos meninos em crescimento. Um livro importante e que possui ilustrações lindas do Chris Raschka.

Já o Meu Crespo é de Rainha é um livro em forma de poema rimado e ilustrado, apresentando diferentes penteados e cortes de cabelo de forma positiva e bastante elogiosa dos cabelos cacheados e crespos, incentivando crianças a terem o orgulho de seus cabelos e também do cabelo de seus amigos, tios e tias, mães e pais e conhecidos num geral, o que reflete também no próprio orgulho de quem eles são, com seus cabelos “macio como algodão” e “gostoso de brincar”. Com o debate atual da exposição de padrões de beleza inalcançáveis que refletem em alisarem seus cabelos e entrarem em estereótipos sobretudo brancos, esse livro é essencial para compreender o processo que acarreta problemas de autoestima, de dissociação de quem são e de insegurança que o processo de aceitação de seus cabelos levam. Um livro poderosíssimo principalmente para crianças negras que enfrentam a falta de representatividade nos espaços culturais e de poder. — Comprar!

A Ditadura é Assim, de Equipo Plantel

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A Ditadura É Assim, livro de Equipo Plantel, é o segundo volume da coleção Livros Para o Amanhã — com uma literatura voltada principalmente para crianças de 8 a 10 anos de idade, os livros dessa coleção tem como principal proposta discutir como as pessoas agem e se relacionam na sociedade abordando temas diversos. A Ditadura É Assim, vencedor do Bologna Ragazzi Award de 2016 na categoria de não ficção (prêmio concedido pela maior feira de livros infantis do mundo) tem como propósito mostrar, por meio de um ditador carrancudo e emburrado, como a sociedade é dentro de um regime ditatorial e autoritário.

Utilizando-se de exemplos simples e de fácil compreensão, o livro busca mostrar os perigos de uma ditadura para a sociedade, como é que se dá um sistema político que adota apenas uma corrente de pensamento e busca aniquilar e igualar todas as outras, discutindo liberdade, justiça, cidadania e diversidade de uma forma acessível e divertida. — Comprar!

O Capital para Crianças, de Liliana Fortuny 

Com a grande difusão de falsos conhecimentos sobre a influente obra de Karl Marx, O Capital, o livro de Liliana Fortuny busca adaptar, para crianças, quais são os principais ensinamentos deste grande economista e pensador.

Também do selo Boitatá, a sinopse do livro diz: “O vovô Carlos é um barato! Sempre que vão visitá-lo, seus netos pedem que ele conte uma história. Só que dessa vez ele vai contar uma história diferente. Nada de princesas ou dragões! A história de hoje aconteceu de verdade, não faz tanto tempo assim e continua se repetindo em muitos lugares do mundo… A história da luta dos trabalhadores”. Extremamente relevante, especialmente nos dias de hoje. — Comprar!

Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes, de Elena Favilli e Francesca Cavallo

Apesar do título indicar “Para Garotas Rebeldes” acredito que o livro não precise necessariamente ter essa delimitação de gênero. O livro tem como pressuposto contar mais de cem fabulosas histórias sobre grandes mulheres influentes na história do mundo. Ilustrado por mais de 60 mulheres ao longo do globo, o livro fala desde Frida Kahlo, até a famosa atleta Serena Williams.

História de Ninar Para Garotas Rebeldes é extremamente significativo por levar em consideração que muitas meninas crescem sem qualquer representatividade no mundo público, sentindo-se, em consequência, que não são bem vindas nesses espaços, sobretudo naqueles teoricamente considerados masculinos. Partindo dessa necessidade de representatividade e de conhecermos mais mulheres maravilhosas, voltado principalmente para meninas em crescimento, vemos também a necessidade de homens se conectarem com essas histórias, pois para que o machismo seja combatido, a mentalidade de meninos e homens também precisam ser tocadas para que haja a maior valorização do que é ser mulher em nossa sociedade. — Comprar!

Malala, a Menina que Queria Ir Para a Escola, de Adriana Carranca

Livro reportagem feito especialmente para crianças, Malala, a Menina que Queria Ir Para a Escola, escrito pela jornalista Adriana Carranca, busca contar a extraordinária história de vida de Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa baleada por membros do Talibã aos catorze anos por defender o acesso à educação de meninas.

Apesar de parecer uma pretensão um pouco simples, o livro toca de forma profunda no que se entende como os papéis de homens e mulheres da nossa sociedade. Num mundo ocidental e muitas vezes pautado apenas na vida de classe média alta de certos sujeitos, acabamos por esquecer que o direito à educação é negado para muitas meninas ao longo do mundo, inclusive fazendo uso da violência para as afastarem desses espaços. Um livro doloroso, mas também necessário. — Comprar!

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