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Quem Vai Ficar com Mário?: representatividade pela metade

Toda vez que surge um novo programa LGBT+, sinto que deveria ficar grata. Como alguém que cresceu sem referências na mídia e passou a adolescência assistindo romances gays escondida dos pais, aprendi a ver cada pequeno espaço ocupado como uma vitória pessoal. Mesmo hoje, já adulta, ainda me pego cruzando os dedos e torcendo por novos lançamentos.

Atenção: este texto contém spoilers!

Quando ouvi falar de Quem Vai Ficar com Mário?, uma comédia romântica brasileira em que o protagonista precisa escolher entre dois amores, um homem e uma mulher, minhas expectativas foram lá em cima. Quer dizer, quando foi a última vez que você viu algo assim nos cinemas? Ainda mais com o humor e leveza de uma comédia bem pastelão! Para melhorar ainda mais, a produção teve apoio de grandes empresas como a Globo Filmes e Warner, além de entrar no catálogo da Amazon Prime no começo de agosto.

A história gira em torno de Mário Brüderlich (Daniel Rocha), um jovem escritor que sonha em lançar seu primeiro livro. Ele mora no Rio de Janeiro ao lado do namorado, Fernando (Felipe Abib), e trabalha em uma companhia de teatro chamada Terceira Força. Porém, essa parte de sua vida é mantida em segredo de sua família tradicional e conservadora, que também é dona de uma grande cervejaria na Serra Gaúcha. Para eles, Mário cursa economia e logo vai voltar para trabalhar nos negócios da família… e casar com uma boa moça sulista. O rapaz faz de tudo para enrolar os parentes, mas a tarefa fica cada vez mais difícil. Então, com o apoio do namorado e amigos, Mário decide voltar para casa e contar toda a verdade durante um jantar de família.

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Porém, antes que consiga falar qualquer coisa, seu irmão mais velho, Vicente (Rômulo Arantes Neto), se adianta e conta para toda a família que é gay. O pai dos rapazes fica furioso e expulsa Vicente de casa. Logo depois ele tem um infarto, obrigando Mário a assumir a liderança da cervejaria. Achou que a história teve muitas reviravoltas até aqui? Então você mal sabe o que vem aí. A trama é uma releitura do filme italiano Mine Vaganti (no Brasil, O Primeiro que Disse), lançado em 2010. A grande diferença entre uma obra e outra surge na personagem Ana (Letícia Lima), uma coach contratada para modernizar a empresa da família Brüderlich. Ela e Mário começam a trabalhar em um novo lançamento da cervejaria e desenvolvem uma química instantânea. Os dois se divertem, conversam por horas e, durante uma festa, se beijam e acabam a noite em um hotel.

Mário deixa claro desde o começo que é gay e tem um namorado, mas Ana não se incomoda. “Claro que você é gay! Nenhum hétero é tão divertido!”, ela brinca, deixando claro que considera a sexualidade do rapaz apenas como uma fase. E nem o próprio Mário parece incomodado com isso. Quando está perto de Ana, ele esquece de seu passado e toda a vida que tem no Rio de Janeiro. E isso é um problema. Até aqui, Mário havia construído sua história ao redor de ser um gay dentro do armário. Entender que ele sente atração por mais de um gênero é algo importante, mas perde impacto por ter acontecido durante uma traição. Especialmente porque um dos estereótipos mais comuns sobre bissexuais é que eles são infiéis, não confiáveis e vão trair seus parceiros com pessoas do sexo oposto na primeira oportunidade.

As coisas se complicam ainda mais quando Fernando aparece na cidade, acompanhado de vários colegas da companhia de teatro. Ele está preocupado com o sumiço do namorado e desconfia de uma certa coach que vive na casa dos Brüderlich. Agora o protagonista precisa lidar com a paixão por Ana, o namoro com Fernando e cumprir as expectativas do pai, tudo isso sem chamar atenção do resto da família. E é claro que a situação explode em algum momento. Fernando descobre a traição da pior forma possível, enquanto Ana fica chateada por Mário não ter coragem de assumi-la. Em uma única noite, o rapaz perde as duas pessoas que mais ama e fica sem rumo. Isso é uma marca clássica do personagem. Desde o começo, Mário é descrito como alguém covarde, indeciso e emocionado. E associar tudo isso justamente ao único personagem bissexual da história é uma escolha muito preguiçosa.

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A sensação final é que ele se apaixonou por Ana e Fernando porque é fraco, não porque sua sexualidade é assim. Isso faz ainda menos sentido porque Mário é escritor e trabalha em um teatro formado apenas por pessoas LGBT+. Ele convive com a diversidade todos os dias, mas é ingênuo e mente fechada sobre muitas coisas. O terceiro ato do filme se arrasta enquanto Mário luta para tomar uma decisão. Nessa hora quem se destaca são os personagens secundários, cada um com seu próprio drama. Entre eles está Lana (Nany People), uma mulher trans que se passa por mãe de Fernando e acaba chamando atenção do patriarca Brüderlich, e Bianca (Elisa Pinheiro), irmã de Mário que é ofuscada pelos homens da família.

A trama até abre espaço para um segundo personagem bissexual na figura de Salvador (Marcos Breda), marido de Bianca. Ele é apaixonado pela esposa, mas troca flertes e olhares bobos com um dos colegas de teatro de Mário. Isso poderia servir de gancho para muitas possibilidades, mas é limitado à piadas e ironias. Salvador é empurrado no estereótipo de bi traidor e indeciso, além de virar piada como o homem másculo que não passa de gay enrustido. Faz falta um outro personagem bi que servisse de referência tanto para Mário, Salvador e o resto do público. Talvez os erros do protagonista não pesassem tanto se ele não carregasse o peso de representar uma sigla inteira sozinho e tivéssemos outros exemplos de bissexualidade que fossem mais desconstruídos e seguros sobre si mesmos.

Mário só toma uma decisão definitiva nos últimos minutos do filme, quando assume que está apaixonado tanto por Fernando quanto por Ana, e quer ficar com os dois. A declaração é bonita, mas deixa um gosto amargo porque ele não consegue dizer com todas as palavras que é bi, pan ou aberto ao poliamor. É algo sutil, mas que faz diferença para um público que nunca se viu representado antes — ou uma plateia que conhece muito pouco do tema. O mesmo se repete com o gênero de Lana. É como se a produção dissesse “nós somos progressistas, queremos discutir todos os assuntos, mas temos medo de ir além de tudo que fuja do padrãozinho GLS.” E isso é uma pena.

O único detalhe que se manteve, tanto na versão italiana quanto na brasileira, é a falta de diversidade étnica. Com exceção de Xande (Nando Brandão), um dos amigos de Mário, todos os personagens de Quem Vai Ficar com Mário são brancos. A região sul é conhecida por sua forte imigração europeia, mas isso não significa que ela também não tenha raízes negras e indígenas. Já é hora da comunidade LGBT+ englobar as inúmeras etnias, corpos e diversidades que existem dentro dela.

Quem Vai Ficar com Mário? é um marco apenas por existir em um país como o nosso. Porém, pode (e deve) fazer melhor. Minha versão adolescente teria perdoado todos esses escorregões, porém hoje eu preciso de mais. E só espero, honestamente, que Quem Vai Ficar com Mário? tenha caminhado para que muitas outras produções possam ocupar ainda mais espaço.

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Larissa Cristal é uma quase-jornalista apaixonada pela área de Humanas. Uma paulistana estressada e cinéfila do bem que sempre dá um jeito de dizer o que pensa. No tempo livre, escreve contos de ação e romance LGBT+ na Amazon.

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