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Censura a produções audiovisuais: o caso das séries turcas

Meu primeiro contato com a produção audiovisual turca aconteceu entre os anos de 2015 e 2016, quando a Band estava exibindo, em formato de telenovela, Fatmagul: A Força do Amor. A trama, que havia sido um sucesso em alguns países da América Latina, narra à história de Fatmagul Ketenci (Beren Saat), uma jovem camponesa que é vítima de um estupro coletivo e, para “limpar” sua honra e evitar uma tragédia, casa-se com um de seus agressores. A sinopse da novela é bastante pesada e a trama em si poderia facilmente passar a impressão de que o estupro pode trazer coisas boas para a vítima, tornando-a mais forte — o que não é verdade.

Nesse sentido, porém, Fatmagul: A Força do Amor consegue trabalhar os traumas de todos os personagens envolvidos naquela noite, em especial o casal de protagonistas, Fatmagul e Kerim (Engin Akyürek), de maneira satisfatória. Apesar da relação Kerim-Fatmagul ser romantizada, o roteiro não se esquece do crime cometido por Kerim contra Fatmagul, deixando claro a culpa do personagem e punindo judicialmente os criminosos.

Após o término da novela, tentei acompanhar outras obras de origem turca, mas não consegui. Somente em 2020 foi possível voltar a explorar outras produções do país, quando algumas particularidades ao seu respeito começaram a chamar minha atenção: por que cenas em que há sangue e bebidas alcoólicas são borradas? Por que o casal principal tem pouco contato físico? Por que não há nenhum personagem LGBTQIA+ nas produções? Minha primeira reação a essas indagações foi atribuí-las ao meu olhar ocidentalizado, ou seja, essa estranheza seria “só” uma consequência das diferenças culturais existentes entre o Brasil e a Turquia, país muçulmano localizado entre a Europa e a Ásia. No entanto, como a grande curiosa que sou, resolvi interagir nos grupos do Facebook destinados as fanbases brasileiras dessas produções e pesquisar um pouco mais sobre como elas eram feitas. Com isso, acabei descobrindo que, para além das diferenças culturais, as questões lançadas anteriormente eram também resultado de um forte aparato de monitoramento governamental sobre as transmissões de rádio e TV do país — em outras palavras, censura.

Fatmagul-censura

O RTÜK, em português Conselho Supremo de Rádio e Televisão da Turquia, é um órgão do governo voltado para o monitoramento, regulação e sancionamento das produções audiovisuais no país, ou seja, é o responsável por avaliar o conteúdo das transmissões e, em casos de não conformidade com as exigências da RTÜK, a produção pode ser multada, suspensa ou até mesmo cancelada. Nesse contexto, para que uma cena que tenha sangue, bebidas alcoólicas e/ou objetos perfurantes (utilizados como arma) vá ao ar é recomendado que a pós-produção desfoque esses elementos, já que de acordo com o Artigo 8 da Lei 6112, responsável por regulamentar o estabelecimento, a transmissão e os serviços prestados pelas emissoras, o conteúdo produzido  não pode encorajar o uso de substâncias que causam dependência, como álcool e tabaco. Além disso, é importante ressaltar que as obras podem ser reavaliadas durante a sua exibição, em decorrência de reclamações por parte da audiência. Portanto, geralmente, obras em que há muita violência, “beijos demais” ou “forte conotação sexual”, são denunciadas ao RTÜK, uma vez que essas cenas podem ser interpretadas pelo público como um incentivo a violência e a obscenidade — o que é vetado pela lei já mencionada.

Pesquisando para poder escrever esse texto, encontrei uma matéria que em sua introdução comparava a atuação do Conselho Supremo de Rádio e Televisão da Turquia com o Ministério da Justiça brasileiro, o que considero, no mínimo, equivocado. Primeiramente, por que o Ministério da Justiça não é um órgão do governo criado especificamente para regulamentar, monitorar e sancionar o estabelecimento e funcionamento das emissoras, mas sim uma instituição democrática voltada à defesa da ordem jurídica e dos direitos políticos e constitucionais. Além disso, a agência estatal turca não se ocupa apenas com a regulamentação das condições para o estabelecimento das emissoras, mas também com o conteúdo que será transmitido — ou seja, o próprio Estado atua como censor das produções midiáticas nacionais, o que confronta diretamente a ordem democrática.

Recentemente, além de controlar a maior parte da mídia tradicional, o governo turco implementou medidas voltadas à ampliação do monitoramento sobre o conteúdo online transmitido no país — o que vem levantando debates sobre a expansão da censura no país. De acordo com a nova regulamentação, os produtores de conteúdo digital, como a Netflix, deverão obter uma licença de transmissão da RTÜK. Ou seja, os serviços de streaming, tanto locais como internacionais, devem seguir as diretrizes do Conselho Supremo de Rádio e Televisão da Turquia. E, em casos de “irregularidades” as empresas contarão, inicialmente, com um prazo de 30 dias para “adequar” o conteúdo produzido. Após esse período, se a “adequação” não for efetuada, o provedor de conteúdo terá sua licença suspensa por três meses e, posteriormente, cancelada.

love-101-censura

Nesse contexto, surgem notícias de séries turcas sendo canceladas e, até mesmo, especulações de que a Netflix deixaria o país — o que já foi negado pela gigante do streaming. Após ter a licença de filmagem negada, devido a existência de um personagem gay na narrativa, a produção da série If Only foi interrompida, já que a Netflix se recusou a alterar o roteiro. Além desse caso, de acordo com a BBC Turkey, através de “negociações bilaterais” entre a RTÜK e Netflix, a série Love 101 teve o seu enredo inicial modificado por contar com um personagem homossexual. A censura relacionada a representação da comunidade LGBT nas produções turcas é “justificada”, por ir contra os valores nacionais e morais da sociedade, o que é vetado pela Lei 6112.

Sob essa perspectiva, o “não dito”, o silêncio, é essencial para a compreensão das tramas turcas. Devido a questões culturais e ao monitoramento das produções, há muitos discursos, sentimentos e gestos que são apresentados de maneira mais sutil (para o nosso olhar ocidental) o que pode gerar em nós desde uma sensação de “não saber o que está acontecendo” a  interpretações imprecisas — como atribuir à falta de contato físico entre o casal de protagonistas, exclusivamente, ao romantismo. Por conta dessa sutileza ou devido ao “não  mostrar”, a partir da minha interação nos grupos de Facebook, percebi que muitas telespectadoras consideram as produções turcas family friendly. Particularmente, essa interpretação me incomoda porque, além de desconsiderar o teor das narrativas, atribui o peso de um acontecimento a sua exibição gráfica explícita, ignorando a construção de sentidos da história. Desta forma, a adjetificação me parece mais fruto do olhar conservador da audiência — que não tolera casais LGBTQIA+, mas “passa pano” para um protagonista violento — do que uma característica das produções em si. A maneira como interpretamos essas tramas diz mais sobre nós (como grupo e individualmente) do que imaginamos, já que, inconscientemente, acabamos atribuindo valores morais, entendimentos e significações a partir da “bolha” em que vivemos.

Rafaele Chaves é um projeto de Historiadora, fã de narrativas novelescas, artesã e leitora assídua de fanfics. Apaixonada por cultura pop, acredita que o álbum Reputation foi injustiçado pelo Grammy. 

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9 comentários

  1. Sensacional a reflexão! Recentemente, eu e uma amiga começamos a ver uma novela turca, Kiralik Ass. O conteúdo era sensacional, mas o casal protagonista, embora tivesse MUITA QUÍMICA entre ela, demorou MUUUITO para dar um mísero beijo. Até aí, eu tmb achava que era por causa de ser uma novela livre, bem vibe Orgulho e Preconceito.

    Um pouco depois, vimos alguns rótulos de bebida borrados. Achamos que era por causa da tradução. Na hora de traduzir, os responsáveis colocaram a tarja.

    Agora tudo faz sentido. Ótimo texto e referências!

  2. Obrigada! Sim, as cenas de beijo/contato físico são raríssimas e ( quando tem ), geralmente, acontecem lá pro meio-final da trama. Ainda não vi Kiralik Ask, mas tá na lista 🙂

  3. Entrei no mundo das “dizis” -como são chamadas as séries turcas- faz algum tempo e ,no começo, achava que as características delas condiziam com a maioria muçulmana do país, mas então soube que a situação não era somente por esse aspecto. Se por um lado há aceitação, por outro, não. A audiência lá prefere séries que não são tão próximas aos nossos gostos – digo isso pensando em séries violentas, com agressões constantes e vinganças que não acabam, que é sim uma das características da preferência deles. Nas comédias românticas vemos essa falta do toque muito claramente e no começo é bem ok, depois de um tempo fica bem cansativo, mas existem produções que são muito boas ainda assim. Ótimo texto 🙂

    1. Sim! Dê, tem séries que eu não consigo assistir, justamente, pelo teor violento das produções, principalmente as dramáticas, como: Sila, Sen Anlat Karadeniz e Hercai. Fico metade do tempo pensando “cadê a lei Maria da Penha?”. E essa violência, não é à la Tarantino (com rios e rios de sangue), é, muitas das vezes, implícita no texto da trama.

  4. Parabéns pelo texto! Realmente uma análise sensacional! Há pouco adentrei ao mundo de séries turcas, especialmente por Sen Çal Kapımı! Inicialmente, também achava que seria meu olha muito “ocidentalizado” que sentia falta de algumas coisas. Mas depois de compreender a censura feita (a qual, para mim, é, no mínimo, esdrúxula, pois permite violência explícita, mas aspectos como beijos, há multas…) e entender o papel do governo nisso tudo, violando liberdades democráticas (que deveriam existir se a Turquia é, de fato, um país democrático), fiquei extremamente chateada. Espero que, em um futuro próximo, com possível mudança e saída de Erdogam, tenha maior liberdade nas produções culturais! Mais uma vez, parabéns pelo texto e pelo site, você escreve muito bem e com muita clareza, identifiquei-me muito com você! Um grande beijo!

  5. eu comecei a ver séreis turcas recentemente…… e gosto muitoo mesmo. porém reparei as cenas borradas como vc falou e tbm reparei que quase não havia contato físico. inclusive até mesmo em casais que já eram casados que nunca vi um beijo. Só acho meio estranho vc como artistas viver num país assim onde existe esse tipo de censura né? mas acho que pela cultura deles os próprios artistas talvez estejam satisfeitos de viver assim afinal é o país deles. para mim causa estranheza, apesar de gostar da série.

    1. Diversos atores se manifestam sobre a questão da censura, principalmente, em relação as cenas (gratuitas, ou seja, que não promovem discussão) de violência contra a mulher – mas é bem complicado. :/

  6. Diversos atores se manifestam sobre a questão da censura, principalmente, em relação as cenas (gratuitas, ou seja, que não promovem discussão) de violência contra a mulher – mas é bem complicado. :/