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A Vida Invisível de Addie LaRue: uma história de liberdade e legado

Indicação comum nos perfis do chamado “booktok”, parte do TikTok direcionado aos conteúdos do mundo literário, A Vida Invisível de Addie LaRue é mais do que um livro de romance jovem-adulto. Sua trama aborda, mesmo que de forma diluída, questões sociais e existenciais profundas. O poder da memória, o significado de um legado, a busca pela liberdade e a força das ideias são algumas das temáticas que V. E. Schwab adiciona ao livro e que fazem dele uma obra tão cativante.

Nascida num pequeno vilarejo francês no século XVIII, Adeline LaRue não queria seguir os passos que foram planejados para ela. Não queria crescer e morrer no mesmo lugar, sem viver as aventuras que sabia existirem fora dos limites da sua cidadezinha. Como as estrelas das sete sardas que marcam seu rosto, ela sonha com a liberdade de ver o mundo. Para isso, ela recorre aos deuses antigos e faz um pacto que a concede vida por tanto tempo quanto ela se dispor a viver, pelo preço de ser esquecida por todos e viver uma vida solitária, sem poder deixar marcas ou lembranças ou revelar seu verdadeiro nome. Até que Henry, um jovem em plena Nova York de 2014, lembra dela.

Acompanhar as aventuras de Addie foi passar por uma montanha-russa de opiniões e emoções. Por isso, ao chegar ao final, precisava colocar em palavras e tornar um pouco mais concreto o que ecoa do livro, que, apesar de ficar um pouco embaçado na trama da história, mantém uma espécie de grandiosidade difícil de conter.

A Vida Invisível de Addie LaRue é um livro sobre liberdade e legado, as diferentes vivências e formas através das quais se busca experimentar o mundo e deixar uma marca nele. Seja de forma utópica, fantasma, trágica, dentro ou fora da vida, os três personagens principais passeiam por diversas possibilidades e tentam o leitor a refletir até onde essas questões se estendem, como um jogo de adivinhação em que o limite é o quão longe sua própria reflexão é capaz de chegar.

“A escuridão afirmava que tinha lhe concedido a liberdade, mas na verdade isso não existe para uma mulher, não em um mundo em que elas são aprisionadas em suas roupas e deixadas de lado, dentro de casa, não em um mundo que só os homens têm permissão de perambular por onde querem.”

Logo no início, conhecemos os sonhos de Addie, o desejo pela liberdade de ir e vir como desejar e se desvencilhar das expectativas que é imposta sobre ela. Uma liberdade utópica para ela, pois seu papel como mulher do século XVIII era se dedicar ao casamento arranjado e a vida doméstica. É interessante ver como ela não aceita o seu destino passivamente, vai em busca dos seus desejos e os alcança com coragem e determinação. Num mundo em que a liberdade feminina nunca foi plena, a jovem atravessa séculos de história quebrando gradativamente as amarras que a seguravam.

Dessa forma, o livro leva a refletir também sobre outras formas de se libertar, mais cotidianas e indomáveis, em pequenas ações diárias. O presente é metaforizado na história como reticências, uma sucessão infindável de pequenas descobertas. Sem poder deixar rastros, Addie não tem um passado e é obrigada a estar viva a cada instante. Apesar de ser doloroso em alguns aspectos, se você não é alguém amaldiçoado ao esquecimento, há ideias interessantes que podem ser cultivadas a partir daí, já que há uma liberdade muito grande em se doar igualmente a cada pequena ação e viver detalhes diários com a disposição de uma primeira descoberta.

“ — Você sabe como se vive por trezentos anos? — pergunta ela.
E quando Henry pergunta como, Addie apenas sorri.
— Da mesma maneira que se vive por um ano. Um segundo de cada vez.”

Uma outra visão sobre a temática vem de Luc, o antagonista da história, quando diz a Addie que ela é livre pois não precisa dar satisfações a ninguém, pode decidir suas ações sem se preocupar com relações ou raízes. Apesar da solidão pesar, estar sozinha faz com que Addie conquiste uma espécie de independência e autossuficiência, que a impulsionam a lutar cada vez mais na direção dos seus sonhos.

De forma semelhante, entra em jogo a liberdade de se perder. Henry se apresenta como alguém que ainda não encontrou seu caminho apesar de ter tentado de tudo. Há uma pressão social forte que exige que jovens decidam a vida o mais cedo possível, para que todos os passos sejam calculados e tenham um destino certo. Mas se perder traz a possibilidade de novas descobertas, de se reinventar, de encontrar felicidade onde não se imaginava viável. E nesse ponto, Henry merecia um final um pouco mais elaborado do que apenas servir de ponto de apoio para a narrativa da protagonista.

A grande questão levantada pelas aventuras de Addie revolve em torno do poder da memória. Fadada a ser esquecida, ela oferece um ângulo único sobre a busca humana por legados, pois a única forma que tem de deixar sua marca é plantando ideais, que crescem e se intensificam. Registros são importantes, mas a inspiração, o impulso para a memória entra com ainda mais força na equação. Pois, afinal, “as ideias são muito mais indomáveis que as lembranças, e fincam raízes muito mais rápido.”

No entanto, a obra deixa a desejar em alguns aspectos. A sensação é que a autora tenta fazer mais do que era possível. A trama se alonga sem necessidade em determinados pontos e esse excesso de trama acaba se sobrepondo ao DNA da história e tirando parte da força da mensagem. O desenvolvimento da protagonista também decepciona um pouco. Enquanto Henry é compreensível, assume contornos mais reais e toma atitudes de um ser humano que vive e sente, tocando de forma superficial mas ainda assim sensível no tópico de saúde mental. E até Luc, com toda a liberdade ficcional que um deus/demônio/força sobrenatural da natureza pode oferecer, possui facetas bem desenvolvidas e uma expansão de caráter ao longo dos capítulos. Addie pereceu rígida e imutável demais.

É sempre bom ver personagens femininas fortes e determinadas, que não se abalam facilmente e continuam no caminho que imaginaram para si. Mas, no lugar de protagonista, senti falta de mais nuances para a personagem que viveu trezentos anos aos olhos do leitor. Seus momentos de fraqueza eram rapidamente vencidos, a dor parecia superficial demais, os erros e acertos sempre os mesmos. No final, suas ações beiravam a previsibilidade, o que incomoda, mas não chega a atrapalhar o fluxo da narrativa.

No final, o saldo da partida é positivo. A trama talvez não consiga abarcar a complexidade do tema, mas as reflexões que ela traz, aliadas ao ritmo rápido dos capítulos curtos, das temáticas instigantes e das peculiares situações que vão e vem pelos séculos foram interessantes o suficiente para compensar. A Vida Invisível de Addie LaRue é, como promete, uma história para ser lembrada.

“Maior do que humanos, deuses e seres indomáveis. Uma história é uma ideia, indomável como uma erva daninha, brotando em qualquer lugar onde é plantada.”


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