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Encanto: não falamos dos traumas

A maior parte das expectativas que recaem sobre todos nós vêm da nossa família. Para além do fato de que existem infinitas variáveis nessa equação, e de que existem famílias de todo tipo, uma coisa parece certa: as expectativas vão existir. Advindas do amor, de frustrações ou do desejo de êxito para as gerações mais novas, os motivos são vários. E embora elas possam ir se adequando ao longo da vida, conforme crescemos, sentimos sobre as nossas costas o peso daquilo que espera de nós. Nada disso é novidade. Se as paredes dos consultórios de psicólogos ao redor do mundo pudessem contar histórias, não tenho dúvidas de que questões como as apresentadas em Encanto seriam as mais frequentes.

Lançado no final de 2021, Encanto é uma animação da Disney Pixar que conta a história de uma família colombiana que foi abençoada com a magia durante tempos difíceis. A primeira animação musical da Disney que se passa em um país da América Latina, e recentemente vencedora do Oscar de Melhor Animação, conquistou crianças e adultos com muitas cores e músicas. Se a história de uma família colombiana com poderes mágicos parece familiar para você, é porque o filme foi inspirado no Realismo Mágico, movimento artístico latino-americano, do qual o principal representante é Gabriel Garcia Márquez, autor de Cem Anos de Solidão.

A família Madrigal vive num pequeno povoado chamado Encanto, cercado por montanhas, numa casita mágica. Cada uma das pessoas que compõem a família tem um dom: ouvir cada sussurro, falar com os animais, controlar o tempo, se transfigurar, prever o futuro e por aí vai, numa longa lista de atributos que fazem de cada um ali único e especial. Os dons de cada um não servem apenas à família Madrigal, mas são utilizados também em benefício de toda a comunidade de Encanto. Mostrando uma família e uma comunidade latino-americanas, com suas peculiaridades, energia e tradições, é um filme importante para a história da Disney, que começou a se preocupar com inclusão e representatividade nos últimos anos. A questão da comunidade é muito importante para a trama, e do início ao fim do filme fica evidente o quando a família se preocupa com essa comunidade que vive ao seu redor, e o quanto a comunidade se importa com essa família e dela se beneficia.

A harmonia de Encanto começa a ser perturbada na noite em que Mirabel Madrigal (Stephanie Beatriz), da terceira geração da família, irá descobrir qual é o seu dom. Para a surpresa e assombro de todos, Mirabel não recebe nenhum. O tempo passa e vemos que a própria Mirabel tenta superar o fato de que é a única da família que não tem uma característica que a torne tão especial quanto seus tios e primos. O fato de viver com uma família incrível num lugar tão mágico parece ser o suficiente para Mirabel, mas não para sua família, em especial para a sua avó, que havia recebido a magia quando jovem.

Quando Mirabel percebe que alguma coisa estranha está acontecendo com os poderes de sua família, ninguém a leva a sério. Seus pais buscam acalmar o seu coração, pois entendem que a filha está passando por um momento delicado, tentando descobrir quem é e qual é o seu papel nesta família. Ao longo da trama, vamos descobrindo que outras pessoas da família se sentem tão desconfortáveis quanto a própria Mirabel, apesar de terem seus dons. A partir daí, percebe-se que os dons não são suficientes para tornar ninguém mais feliz, e que aqueles que têm dons sofrem tanta pressão familiar quanto Mirabel. Ou seja, todas as pessoas ali estavam buscando superar expectativas que haviam sido criadas sobre elas, ainda que isso servisse para alimentar as expectativas colocadas sobre os outros, criando um ciclo de insatisfação difícil de ser rompido.

Por meio da história de três personagens, além de Mirabel, o filme aborda questões presentes em muitas famílias. Luisa (Jessica Darrow), Isabela (Diane Guerrero) e Bruno (John Leguizamo) personificam pressões que são depositadas sobre as pessoas pelas suas famílias, em geral fruto de uma preocupação excessiva e do amor que sentem. Considero muito significativo o fato de que a maioria dessas personagens sejam mulheres, que historicamente tiveram muitos papéis atribuídos a si, como o da mãe dedicada ou da filha perfeita.

A primeira a demonstrar essa infelicidade em relação a seus dons é Luisa, irmã mais velha de Mirabel. O dom de Luisa impressiona a todos: ela tem uma força imensa, consegue carregar todo o peso do mundo nas suas costas, literalmente. Quando Luisa canta sobre a pressão que sente, fala sobre como ninguém pergunta se ela consegue aguentar, apenas assumem que sim e jogam o peso em cima dela.

“Pede pra Luisa, a corpulenta
Não importa o peso, Luisa aguenta
Não sou nada se tirar o meu dom
Eu desmonto

Estou nervosa
Eu fico assim ansiosa
Mas tento fingir ser corajosa
Estou nervosa
Ameaça é raivosa, fatal e silenciosa”

Carregar o peso dessa família sobre os seus ombros é demais para ela, que começa a se sentir fraca. A metáfora do peso sobre si mesma é muito poderosa, evidenciando que frequentemente somos forçadas a lidar com pesos emocionais mais pesados do que podemos aguentar. Ser a pessoa mais forte da família é uma característica que até então vinha sido muito valorizada, mas Luisa já não dá mais conta de cumprir esse papel. Simultaneamente, sem o seu dom, ela sente que não é ninguém.

Mais adiante no filme, conhecemos a história de Bruno, tio de Mirabel e grande tabu dentro da família. Simplesmente não se fala sobre o Bruno, como todas as crianças que assistem esse filme não cansam de repetir. É um assunto proibido, que gera um desconforto geral na família. Bruno, que supostamente havia abandonado sua família, é retratado inicialmente como alguém soturno, com poderes meio macabros e seu sumiço nunca é lamentado. Quando Mirabel descobre que o tio Bruno ainda está morando na casa da família Madrigal e se encontra com ele, vemos que Bruno não é nada daquilo.

O dom de Bruno é ver o futuro. Porém, é muito mal compreendido pela família e pela sociedade, que acredita que Bruno estava, na realidade, criando esse futuro. Bruno era alguém com uma grande sensibilidade e que sabia enxergar além do que via. Isso o levava a dizer coisas que ninguém queria ouvir, como as consequências dos seus próprios atos. Bruno não é aceito pela família porque diz verdades difíceis. Ao invés de observar as próprias ações, parece ser mais fácil para a família abandoná-lo e culpá-lo pelo que acontece. Já o próprio Bruno, amava tanto a sua família que prefere se afastar a continuar os ferindo, ainda que essa nunca tenha sido a sua intenção.

Por fim, conhecemos os sentimentos de Isabela, a irmã mais velha. Seu dom é manipular a natureza, criar plantas e flores. Isabela é linda, perfeita, vive cercada de rosas e está prestes a se casar com o príncipe encantado. Nada ali parece incomodá-la, até que ela não aguenta mais reprimir sua verdadeira personalidade e desabafa com Mirabel: não quer nada daquilo. Conta a ela, então, que estava fazendo tudo aquilo pela sua família. Não queria se casar com aquele homem, não queria mais viver em meio àquelas flores e não aguentava mais a pressão de ter que parecer sempre perfeita.

Num dos momentos que mais me tocaram no filme, Isabela para de criar rosas e começa a criar plantas exóticas, com diferentes cores, formatos e aromas. Aquela é ela de verdade, não perfeita e sempre igual como são as rosas, mas mágica e de todas as formas e cores, com a potência de toda a natureza dentro de si. Isabela é muito mais que perfeita, é criativa e única, mas tudo isso havia sido reprimido por essas pressões familiares durante muitos anos. Quando finalmente percebe, com a ajuda de Mirabel, que não precisa ser perfeita, é que descobre todo o seu potencial.

Embora a romantização da família nuclear seja um problema, Encanto aborda de forma delicada todos esses traumas e toda uma gama de abusos sofridos dentro da família. Por fim, a mensagem mais importante me parece ser a de que tudo isso é apenas uma parte do que somos. Não é aquilo no que somos úteis que define o nosso valor como pessoa. Embora o filme deixe a desejar na representação familiar, entretém crianças e atinge profundamente os adultos, o que lhe rendeu a estatueta do Oscar.


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