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Rio 2096: Uma História de Amor e Fúria

Uma História de Amor e Fúria — animação brasileira lançada em 2013 e disponível na Netflix — apresenta a vivência de um homem com quase 600 anos de vida, um existir dividido entre ser um homem e um pássaro, que atravessa momentos históricos importantes na história do Brasil, com consequências fundamentais na constituição da sociedade brasileira que na análise apresentada na animação levarão a uma distopia. O herói principal está sempre à procura de sua amada, Janaína (Camila Pitanga), e ocupando um lugar extremamente significativo para a maioria dos brasileiros, o de resistência e esperança — esta, ainda que pequena, permanece presente e pronta para despertar, dando inicio a um movimento de revolução diante de uma sociedade que cria e se alimenta das mazelas sociais vivenciadas pelos marginalizados.

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Uma História de Amor e Fúria é atravessada por romance, misticismo, lutas, guerras, sobrevivência, injustiças, dor e sofrimento. Ao transitar por estes elementos, o filme dá a sensação de como nós, brasileiras e brasileiros, fomos condicionados a ignorar nossas raízes e história. É nesse sentido que o ponto alto do enredo de Luiz Bolognesi é a apresentação dos fatos históricos a partir da perspectiva dos vencidos e subjugados que foram negligenciados da história oficial do Brasil. Ao adotar narrativas e discursos permeados pela herança colonizadora, masculina, branca, cristã e heteronormativa sacramentou como heróis homens desbravadores e destemidos que cometeram atrocidades e, assim, empurrou outras dezenas ao apagamento e à marginalidade. Sendo a base da conjuntura social vivida atualmente, permeada pela violência, o descaso com parcelas significativas da sociedade como negros, negras, jovens, mulheres e crianças.

Uma História de Amor e Fúria

Nesse sentido, ao trazer uma nova perspectiva, Uma História de Amor e Fúria traz o personagem principal nessa posição de vencido, mas, na maioria das vezes, distante da passividade, o que lhe garante um lugar de resistência e esperança. O enredo é magnífico ao trazer a tona alguns dos períodos importantes para o país, dentre eles o começo de nossa história com a tomada deste território pelos colonizadores dos indígenas, tendo como contexto disputas de poder entre países europeus que resultaram em confrontos e na dizimação de organizações indígenas inteiras. Sendo o início da trajetória do herói Abeguar (Selton Mello) a predestinado lutar pela libertação de seu povo do Anhangá.

O segundo momento histórico se passa no período imperial, em 1835, tendo a Revolta da Balaiada como contexto, e nosso herói surge como Manoel Balaio, esposo de Janaína e pai de duas meninas que ao terem sua dignidade dilacerada passam a integrar o movimento, como uma tentativa de transformação social. O movimento infelizmente sucumbe às forças exteriores e hoje figura apenas como nota em nossos livros de História, sem nomear os verdadeiros expoentes da Revolta da Balaiada — destino similar ao de outros tantos movimentos de contestação no Brasil.

Uma História de Amor e Fúria

O terceiro contexto abordado é o período ditatorial, na qual vive o herói Carlos Estrada, integrante do movimento pela retomada da democracia que, ao ser pego pela polícia e sofrer diversas torturas e violações, se vê obrigado a deletar seus companheiros para salvar sua amada Janaína. Sobre a ditadura civil-militar, a crescente deslegitimação das atrocidades ocorridas e escamoteadas nesse período demonstram a necessidade em desenvolver pontos de reflexão sobre esta etapa na história do Brasil a partir das produções culturais e audiovisuais, lembrando que a máxima do filme é “Viver sem conhecer seu passado é viver no escuro”. Assim, debater sobre o que já aconteceu é proporcionar a discussão e a percepção sobre como os problemas sociais que viemos hoje possuem profunda relação com o vivido por nossos antepassados.

Depois de transitar pela história nacional, a partir da perspectiva dos vencidos, o filme vislumbra um futuro distópico, onde na cidade do Rio de Janeiro no distante ano de 2096, crianças são assassinadas por terem roubado uma pequena quantidade de água. A cena em questão conta com três crianças distraídas com a “Bola da Copa” em um córrego; são alguns minutos, porém tão significativos, ao apresentarem a infância com todos os seus símbolos negados em troca de uma marca como alvos. Aspecto não tão distante visto que, cotidianamente, a mesma cidade é palco de confrontos onde crianças são vitimadas.

Uma História de Amor e Fúria

Ainda sobre esse ambiente distópico, no lugar do rio Amazonas existe um imenso corredor de um solo seco e rachado servindo como local de disputas de rali, visto que nesse futuro a água superou todas as outras comodities, sendo controlada por milícias e negada aos desfavorecidos. É nessa circunstância que Janaína, a única personagem principal feminina, ganha um maior destaque ao integrar o Comando Guerrilheiro Água Para Todos.

É nesse momento em que o herói já demonstra cansaço, e a máxima “as coisas são assim, não irão mudar nunca” que ao descobrir que sua eterna amada está arriscando sua vida, sua trajetória revolucionária é despertada assim como seu passado, que traçou seu futuro como um guerreiro. Mais do que uma aula de história, Uma História de Amor e Fúria é uma possibilidade do Brasil encarar a sua história, perceber a raiz de seus problemas bem como as suas consequências. A animação não deixa nada a desejar em qualidade demonstrando a grandiosidade das produções brasileiras.

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