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Company: por que queremos um relacionamento?

Seu grupo de amigos é formado por casais, você vai de um relacionamento para outro — por diversos motivos — e toda vez que pensa “talvez eu esteja pronto para um relacionamento sério e estável”, a vida dá outra volta e te tira desse lugar. Esse poderia ser o cenário de qualquer jovem adulto moderno e é assim que começa o musical Company. Escrito e produzido em 1970, a peça, que já passou por diversas produções, continua atual em questionar o público sobre o que é um relacionamento e por quê desejamos estar em um.

Logo no início da produção somos apresentados a Bobby, um homem solteiro em Nova York, no dia do seu aniversário de 35 anos, em que seus amigos o esperam para uma festa surpresa. Enquanto somos introduzidos a dinâmica de cada casal, eles o convidam para jantar, dar uma passada em casa, colocar a conversa em dia — para que todos tenham a oportunidade de perguntar sobre a sua (falta de) vida amorosa.

O musical é construído de forma não-linear e, assim, navegamos por encontros entre o protagonista e seus amigos, que estão sempre discutindo sobre casamento — “o que é um casamento? Uma mistura de todas as coisas boas e ruins que fazemos juntos? É possível se arrepender e mesmo assim decidir ficar? E se você decidir que não vai mais continuar com isso?”

Ao escrever Company, Stephen Sondheim traz para o teatro musical uma das primeiras obras que discute relacionamentos, amor e divórcio, como elementos centrais para o desenvolvimento dos personagens. Um assunto que, no meio da grandiosidade dos musicais da Broadway, parece tão banal, na verdade é, até hoje, um assunto central nas nossas conversas mais cotidianas.

Ao contrário de muitas obras culturais que mostram que “o amor tudo vence”, Company nos convida a olhar tanto para os pontos negativos, quanto para os positivos de um relacionamento — e nos fazer entender porque desejamos tanto por um. A produção ainda coloca na nossa cara a problemática de o outro se incomodar com o nosso status — se Bobby não está com alguém, é questionado sobre quando vai dar um jeito nisso. Se está com alguém, questionam se ela é mesmo a mulher com ele quer se casar.

“Bobby ought to have a woman
Poor baby, sitting there
Staring at the walls and playing solitaire
Making conversation with the empty air
Poor baby… […] You know, no one
Wants you to be happy
More than I do
No one, but…
Isn’t she a little bit, well
You know…?”

“Bobby deveria ter uma mulher
Pobrezinho, sentado ali,
Sentado ali, encarando as paredes e brincando com a solidão
Conversando com o vazio
Pobrezinho […] Você sabe, que ninguém
Quer te ver feliz
Como eu
Ninguém, mas…
Ela não é um pouco…
Você sabe…?”

Bobby, ao longo dos encontros com os casais, indica que está pronto para se casar, porém não no sentindo de querer se envolver com alguém, e sim de resolver o problema de estar solteiro. Ele entende que o casamento servirá como um momento de passagem, algo que deve ser cumprido, que encerrará essa etapa de sua vida, podendo se igualar aos amigos. Porém, não está disposto a se abrir, se permitir ser vulnerável e se deixar ser visto por outra pessoa.

Estar em um relacionamento é apenas um item da nossas obrigações adultas ou é algo que queremos porque gostamos da ideia de dividir os momentos mais ordinários com outra pessoa? Seremos plenamente satisfeitos se tiver uma pessoa do nosso lado? Company faz olhar para as relações amorosas como uma das coisas que nos faz estar vivos, em constante transformação. Se nos relacionamos apenas porque é o que esperado de nós, então por que sofremos tanto — com o outro, com a rejeição, com os nossos desejos?

Ao final do primeiro ato, temos a cena do casamento de Amy e Paul, na qual Amy decide que não irá mais se casar — não é porque não o ama, e sim porque não se sente pronta para se atrelar a uma pessoa pelo resto da vida. Bobby, do nada, propõe que eles se casem, dessa forma, ninguém mais iria questioná-los por estarem solteiros. Amy o responde dizendo que não se pode casar com qualquer um só porque seria mais fácil, confortável e seguro — porque nada na vida é assim. Ao se dar conta disso, Amy sai correndo para se casar com Paul e deixa Bobby com seus pensamentos do que seria um casamento ideal e confortável.

“Marry me a little
Love me just enough
Cry, but not too often
Play, but not too rough
Keep a tender distance
So we’ll both be free
That’s the way it ought to be
I’m ready […] We’ll look not too deep
We’ll go not too far
We won’t have to give up a thing
We’ll stay who we are” — Marry Me a Little 

“Case-se um pouco comigo,
me ame apenas o suficiente
Chore, mas não muito
Jogue, mas não muito duro
Mantenha uma distância segura,
para que nós dois sejamos livres
É assim que deveria ser
Eu estou pronto. […] Não seremos tão profundos,
não iremos tão longe
Não iremos abrir mão de nada,
seremos, para sempre, quem somos”

No decorrer das conversas, Bobby questiona se realmente vale a pena se entregar de corpo e alma para outra pessoa, o quão válido é se deixar ser vulnerável, já que ele consegue ver todos os pontos negativos nos relacionamentos dos amigos — aquele que decide ficar junto porque é mais fácil; o que finge gostar de algo porque o parceiro gosta; o que esconde seus vícios do outro; o casal que está no terceiro casamento.

Essa angústia martela a mente de Bobby até o momento em que ele explode e lista todos motivos para não estar com alguém. Alguém que te conhece tanto, a ponto de saber como te machucar. Que vai atrapalhar o seu sono. Que precisa que você se entregue e que te faz passar pelo inferno, que vai querer conhecer até o sentimentos que você evita. Que, você querendo ou não, vai querer compartilhar o que pensa, sente e faz.

Em nenhum momento seus amigos discordam do que ele fala — de fato, falam que tudo isso é verdade e que acontece em seus respectivos relacionamentos —, apenas apontam que ele é capaz de listar motivos para não estar com alguém, mas não tem motivos para estar sozinho. E assim, a chave vira para Bobby, ele começa a entender que estar com alguém é se permitir ser amado, é ter alguém que se importa e que faz com que ele se importe. Estar em um relacionamento é estar com alguém que está com tanto medo quanto ele, mas que está pronto para encarar a vida.

“Someone to crowd you with love
Someone to force you to care
Someone to make you come through
Who’ll always be there, as frightened as you
Of being alive” — Being Alive

“Alguém que te encha de amor
Alguém que te faça se importar
Alguém que te fará continuar
Que sempre estará lá, tão assustando quanto você,
de estar vivo”

Company encerra com a cena de Bobby sozinho, sorrindo e olhando para a plateia. A interpretação desse momento já foi discutida por críticos, públicos e pelos diretores que já passaram por essa peça. Na opinião dessa autora, Bobby finalmente entende porque ele quer um relacionamento, podendo desprender-se das expectativas dos outros e agora, em um futuro, buscar o relacionamento que ele deseja.

Atualmente, a peça está em cartaz com a proposta de inverter os gêneros de alguns personagens, assim, temos a Bobbie — o enredo segue na mesma linha, porém acrescentamos a discussão da pressão que existe em uma mulher solteira de 35 anos. Por mais interessante e necessária que essa discussão seja, um dos pontos fortes do texto original é, ao contrário do que estamos acostumados em diversos produtos culturais, colocar um personagem masculino como alvo dos questionamentos e comentários sobre sua solterice.

Por todas as temporadas, Lorelai Gilmore (Lauren Graham), de Gilmore Girls, ouve, principalmente de sua mãe, que ela não é capaz de ter um relacionamento estável, que sempre que as coisas ficam sérias, ela pula fora. Jane Nichols (Katherine Heigl), de Vestida para Casar, é a personificação da piada da mulher solteira, que sempre está cuidando dos outros e nunca de si. Ally Darling (Anna Faris), de Qual o Seu Número?, além de ser alvo das piadas ainda é chamada de piranha pela quantidade de homens com quem já se envolveu. Cristina Yang (Sandra Oh), de Grey’s Anatomy, se vê presa em relacionamentos que querem algo que ela não pode dar, mas continua neles por esse ser o próximo passo da vida adulta.

A atual produção está sendo aclamada e reconhecida pela crítica — com 9 indicações ao Tony Awards, incluindo Melhor Revival — e tem a potência de ser o tipo de história que poder ser contada e recontada ao longo dos anos, para diferentes gerações, entendendo quais são as necessidades de cada uma. Independente de termos o Bobby ou a Bobbie, o musical se propõem a nos fazer olhar para relações amorosas como algo além de dar check nas etapas da vida, e sim como algo que desejamos porque entendemos que essa é uma das formas de nos sentirmos vivos. Você pode assistir a gravação da montagem 2011 e ouvir a gravação de elenco de 2006 na internet.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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