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The Hours: entre horas, sentimentos e escolhas

No dia 25 de janeiro de 1882 nascia Adeline Virginia Woolf, mais conhecida somente por Virginia Woolf; uma mulher cuja personalidade foi e continua sendo revolucionária mais de 130 anos depois. Suas opiniões, posicionamentos quanto às questões femininas, obras literárias, críticas e biografias a tornaram um nome importante e uma inspiração para muitos, que a homenagearam de diferentes formas. É o caso, por exemplo, do escritor estadunidense Michael Cunningham que, em 1998, publicou As Horas (The Hours, no original), livro vencedor do Prêmio Pullitzer e posteriormente adaptado para o cinema em um filme homônimo lançado em 2002.

Apesar de não ter lido o livro, percebi que o roteiro do filme tem a capacidade de instigar diversas discussões sobre como as mulheres se sentem, além de retratar a depressão e alguns de seus possíveis indícios em diferentes épocas. Em sua adaptação, The Hours propõe uma perspectiva da diferença entre momentos históricos e sociológicos distintos, e do sofrimento psíquico, como não é fácil conviver ou tratá-lo, como a depressão é uma doença que continua presente década após década — uma doença que angustiou tanto a própria Virginia e que a fez escolher deixar o papel e a caneta, seus livros e ensaios, de respirar e existir tão açoita.

Atenção: o texto contém spoilers!

No filme, três mulheres abrem os olhos e despertam para viverem o padrão de vinte e quatro horas que se baseiam em mais um dia de vida — ou sobrevivência — de todo ser. Uma delas se levanta da cama, lava o rosto sobre uma bacia de água e se olha rapidamente com um olhar feroz; a outra, embora desperta, permanece na cama com um livro; e a última delas se levanta, avalia sua imagem no espelho, lava o rosto e inicia sua rotina diária. Virginia, Laura e Clarissa, respectivamente, são introduzidas desta forma, e embora em épocas distintas, suas trajetórias estão conectadas através de Mrs. Dalloway, romance escrito pela própria Virginia e publicado em 1925 — e em seus artifícios cênicos, narrativos e dramáticos, o filme nos convida a mergulharmos na existência de cada uma das personagens, suas almas e mentes femininas.

Virginia Woolf (Nicole Kidman), escritora da obra, vive afastada da rotina agitada de Londres, o que a mata minuto a minuto, tornando-a infeliz e amargurada, demonstrando nitidamente que, das três mulheres, Virginia é a mais atingida pela depressão. Seus sintomas incluem falta de apetite, ausência de cuidado consigo mesma e baixa autoestima, além de relatos de alucinações auditivas, o esforço para se relacionar com outras pessoas e a incapacidade de ser responsável por si mesma em determinadas situações devido tanto às alucinações quanto aos traumas e duas tentativas de suicídio. Falta vida em Virginia. Seu marido, Leonard (Stephen Dillane) mantém um rígido controle sobre suas atividades após recomendações médicas, que resulta no raríssimo contato social. A doença logo a torna prisioneira e a submete, obrigatoriamente, ao único tratamento que havia na época: privação de rotina, pouco convívio social, acompanhamento e vigilância constante, e exílio para lugares tranquilos, afastados dos centros urbanos. A doença diagnosticada em Virginia não havia sido devidamente nomeada, muito menos inteiramente compreendida, no início do século XX, sendo justificada como um mal súbito ou estado de nervos. Hoje, no entanto, este é o mal que chamamos de depressão e este ponto é o que posteriormente interliga a escritora com sua leitora.

Laura Brown (Julianne Moore) é uma dona de casa, mãe e esposa, além de leitora da obra de Virginia Woolf. Vivendo nos anos 40, no auge do american way of life, onde ser casada com um herói de guerra, ter uma linda casa, vestidos e filhos, é o retrato da vida perfeita, Laura experiência um período em que mulheres não tinham o direito de não se sentirem satisfeitas — o que mais elas poderiam querer depois de todo o mal de anos passados? Mas é a partir da insatisfação de Laura que torna-se perceptível o seu desespero em viver um casamento de sentimentos artificiais, mascarados por uma aparente imagem de tranquilidade e felicidade. Ela se sente vazia, deprimida, insatisfeita em ser esposa e mulher perfeita, tanto que cogita o suicídio como forma de escapar de sua própria realidade. Nesse momento, é evidente que a depressão atinge a personagem, que acompanha outros sintomas como a fuga da realidade através da literatura, o esforço para sentir-se feliz, a falta de interesse em interações sociais e afetivas. A angústia faz com que Laura considere acabar com a própria vida e, por um instante, em um efeito metafórico da mise-en-scéne, Laura de fato “morre” submersa dentro de si mesma. A morte, porém, não se concretiza e ela por fim decide abandonar a vida que tem após dar luz ao seu bebê, e assim ver-se livre e viva.

Dentre as três protagonistas, no entanto, Clarissa Vaughn (Meryl Streep) é a que menos deixa transparecer os sintomas da depressão ou mesmo os próprios sentimentos e frustrações. Responsável por cuidar de seu amigo e antigo amor, Richard (Ed Harris), que por entrelaço da trama, é filho de Laura Brown; um homem debilitado física e psicologicamente pela AIDS, Clarissa cria uma espécie de dependência emocional para com Richard, quando o contrário seria mais óbvio, o que é afirmado pelo próprio várias vezes ao longo do filme. Clarissa nutre um sentimento carinhoso por Richard, nostálgico, vívido em flashbacks, e uma necessidade de manter essas lembranças vivas em sua mente — o que resulta em sua permanência ao lado de Richard e, consequentemente, em seu sofrimento.

A relação de Clarissa com o livro de Virginia nasce do seu apelido: Mrs. Dalloway, como Richard frequentemente a chama, inclusive chegando a recitar alguns trechos do livro ao perceber que as afinidades entre as duas Clarissas vão muito além do nome em comum. Embora consiga socializar, planejar festas, trabalhar e ter um relacionamento estável por dez anos, Clarissa possui uma intensa negação de sentimentos como a frustração, a raiva, a culpa e a tristeza, e busca mantê-las afastadas de sua consciência. Ela sente uma necessidade exacerbada de se mostrar e ser forte, sociável, de lidar com todos os problemas com maestria e manter-se sempre produtiva e atualizada com o que acontece ao seu redor, remontando características muito comuns entre as mulheres do século XXI. O tempo é importante para as três protagonistas, mas Clarissa é quem mais visivelmente é afetada por ele, principalmente porque vive em um momento em que mulheres supostamente deveriam ser capaz de resolver tudo; trabalhar, cuidar da casa, ter uma vida social agitada, posicionarem-se. Mas até que ponto é necessário sacrificar a própria saúde para seguir um padrão socialmente imposto e ser mais uma pessoa afligida pelo dito mal do século?

Vale destacar que, apesar de ser um filme com personagens femininas, Richard assume um papel de grande importância no enredo justamente por ser o único homem que retrata e expõe explicitamente o que as mulheres tanto lutam para esconder. Ele sofre, age de maneira estranha, é frágil, vulnerável, destrutivo, e possui uma visão insuportável do que é o mundo e a sociedade; e é justamente nele que a narrativa de The Hours reflete explicitamente toda a tristeza das três mulheres. Quando salta por uma janela, Richard desaparece, interrompendo a dor e a tristeza; Laura opta por libertar-se da convivência com o passado e Clarissa da dependência que havia nutrido por anos, retomando as rédeas de sua vida, enquanto Virginia opta pelo mesmo fim de Richard.

Mas há mais personagens que, mesmo coadjuvantes, merecem destaque, e que aparecem quando são beijadas pelas personagens principais. Virginia beija a irmã (Miranda Richardson), que se veste elegantemente, tem filhos e um bom relacionamento com o marido. Laura tem uma experiência similar ao lado da vizinha e amiga, Kitty (Toni Colette), que apesar de um diagnósticos de câncer no útero, consegue continuar sorrindo e aceita pacificamente seu papel de esposa dedicada e feliz, que encontra preenchimento na constituição da família. Em ambos os casos, é possível que exista um sentimento de admiração para com as mulheres com quem dividem um momento tão íntimo, que seguem padrões que elas próprias não foram capazes de se encaixar. O beijo de Clarissa e Sally (Allison Janney) é menos surpreendente, uma vez que elas possuem um relacionamento duradouro, mas acontece justamente quando Clarisse sente-se indefesa, pequena e frágil, e decide não esconder mais sua tristeza, especialmente após a morte de Richard. Sally, nesse momento, desempenha o papel da mulher, uma parceira forte e que consegue lidar com as adversidades, ocorrendo novamente ao beijo como uma expressão de admiração, uma vontade de ser como a outra.

Virginia, Laura e Clarissa são mulheres incomuns que sofrem de forma demasiada e não se sentem pertencentes à época em que vivem — desencadeador da solidão, incompreensão e tristeza — o que, de certa forma, as levam a admirar aquelas que estão ao seu redor e conseguem se adaptar à sociedade e ao tempo em que vivem. Mas como a própria Woolf reflete em O Valor do Riso e Outros Ensaios, “[…] é da mulher comum que a incomum depende”: é depois de saber das condições sociais, emocionais e psicológicas à qual as comuns se submetem, ao avaliar o modo de vida e experiências, que torna-se possível compreender o sucesso, o fracasso e os sentimentos das mulheres incomuns.

Lorena Camilo é bacharel em Letras, revisora de textos, feminista, lufana; viciada em podcast, música, seriado, filme, literatura e em escrever. Ama chá e detesta café, tirando isto é uma típica Gilmore. Não interage muito nas redes sociais, mas tem um Twitter.

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4 comentários

  1. Esse filme estava na minha lista há anos, mas por não gostar de dramas, sempre fui deixando pra depois. Mas entendo que não era o momento, e hoje, ao assisti lo, percebo que só agora eu poderia absorver sua mensagem. Adorei seu texto!

    1. Acredito que pela temática ser bem forte cada um tem seu momento, né? Pois toca cada pessoa de uma forma bem singular. Lembro que quando assisti, pela primeira vez, fiquei bastante angustiada, e só depois de um tempinho comecei a refletir sobre a mensagem e consegui assistir de novo para resenhar.
      Obrigada, Daniele! ♥