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Colette: “A mão que segura a caneta é que escreve a história”

Sidonie-Gabrielle Colette tinha apenas vinte anos de idade quando se apaixonou por Henry Gauthier-Villars, um homem de trinta e quatro anos e amigo de seu pai. Nascida no povoado francês de Saint-Sauver-en-Puisaye, na região da Borgonha, em 28 de janeiro 1873, ela se muda para Paris em 1893 quando se casa com Henry. A jovem deixa sua rural e bucólica cidade natal para entrar em um universo completamente diferente e que fará de Colette uma outra pessoa.

Atenção: este texto contém spoilers!

Colette, o filme livremente inspirado na vida escritora francesa, estreou no Brasil no final de 2018 e busca retratar os primeiros anos de sua protagonista em Paris, suas descobertas a respeito de si mesma e também o relacionamento abusivo em que vivia com o marido. Com Keira Knightley no papel principal e Dominc West como Henry “Willy” Gauthier, acompanhamos a transformação de Colette de uma jovem inocente do interior para uma mulher determinada a ser dona de si mesma, ainda que tenha que sofrer um bocado até isso acontecer.

Quando se casa com um homem quatorze anos mais velho do que ela, Colette tem em mente apenas o amor que sentem um pelo outro. Quando ela começa a ser apresentada nas festas mais ricas e restritas de Paris, repletas de intelectuais e escritores, é que ela percebe que o mundo que conhece e aquele em que está entrando são completamente diferentes; as pessoas pensam ser genuínas e se dão muita importância, a começar por seu próprio marido, enquanto ela enxerga apenas uma porção de esnobes tentando aparentar ser o que não são. Em determinado momento, quando Colette é apresentada como esposa do renomado autor, uma das mulheres comenta que, finalmente, o libertino Willy havia sido fisgado apenas para, no instante seguinte, depreciar a moça por conta do modelo de vestido que está usando.

Colette

A vida de casada de Colette não demora a entrar em uma rotina: ela permanece em casa como parte do grupo de escritores fantasma de Willy, enquanto o marido sai para se encontrar com editores, escritores e também suas amantes. A fama de Willy como autor nasceu com base nos escritores fantasma que ele contrata para escrever por ele enquanto sua parte no acordo é a de fornecer o esquema geral da narrativa e posterior edição do trabalho feito por outros, colocando apenas seu nome na capa do livro finalizado. No início de seu casamento, Colette escreve pequenas produções, mas quando as economias do casal vão de mal a pior, ela decide, por incentivo de Willy, escrever um romance. É assim que nasce o primeiro trabalho de Colette, Claudine à L’école, um livro inspirado na própria vivência e memórias da autora.

Em um primeiro momento, Willy não dá a devida atenção ao livro, o que deixa Colette visivelmente chateada, mas quando a obra é finalmente publicada, ela se transforma em sucesso de público e crítica, vendendo milhares de cópias, um verdadeiro best-seller. Claudine à L’école também se transforma na obsessão de muitos, principalmente de mulheres em transição da vida adolescente para a adulta que se vêem, pela primeira vez, retratadas em um livro. A obra, que pode ser caracterizada como um coming of age, conta a história de uma jovem de quinze anos e suas aventuras em um município rural e bucólico similar ao que a própria autora nasceu, tanto que o livro é considerado semi-biográfico, e fala não apenas das brigas da protagonista com a nova diretora de seu colégio, como também das descobertas sexuais de Claudine com outra mulher. Willy chega a fazer algumas alterações no manuscrito original durante sua edição, mas sempre com a anuência da esposa — o que não quer dizer muita coisa, visto que, no final das contas, a obra ainda é publicada como autoria única de Willy.

O sucesso de Claudine à L’école logo faz surgir a ânsia por mais material contando as histórias e aventuras da jovem, mas Colette não está muito disposta a escrever. Com o dinheiro recebido das vendas, Willy compra uma casa nos arredores de Paris para que Colette possa se sentir mais próxima do campo, lugar de que sente falta, e ela parece mais inclinada à cuidar da nova propriedade a escrever. Não demora e Willy, em um rompante, decide prender a esposa em um dos cômodos da casa com a promessa de soltá-la apenas quando um novo Claudine tenha sido escrito. Essa não é, inclusive, a única demonstração de abuso por parte de Willy, uma vez que ele não deixa que a esposa tenha ciência das economias do casal e a mantém escrevendo sob pressão um livro que sequer poderá assinar.

Colette

É dessa maneira que Colette escreve o segundo livro de sua vindoura trilogia e o batiza de Claudine à Paris. O livro causa novo rebuliço não apenas entre as rodas de intelectuais de Paris como de qualquer um que leia a obra. A partir de então Claudine se transforma em uma marca, sendo estampada em produtos variados como sabonetes, maquiagem e vestidos. Não demora também para que Claudine seja editado para uma peça de teatro, o que coloca um novo peso sobre os ombros de Colette: a obsessão de Willy em transformar qualquer tema possível em um Claudine faz até mesmo com que a esposa tenha que cortar o cabelo para que fique ainda mais parecida com a atriz que interpretará sua personagem nos palcos de Paris.

Com o reconhecimento de Claudine à L’école em Paris, logo Willy e Colette ficam ainda mais famosos, recebendo olhares e comentários onde quer que vão. É quando o casal está passeando por um dos parques de Paris que se aproxima Georgie Raoul-Duval (Eleanor Tomlinson), a bela e jovem esposa de um rico empresário da Louisiana, nos Estados Unidos. Georgie, tendo sido criada em Paris, está acostumada com o ritmo da cidade e não sente falta do marido que está sempre viajando à negócios, e é valendo-se da ausência dele que a moça decide convidar Colette para visitá-la em seu apartamento. É Willy quem incentiva a esposa a comparecer ao encontro, interpretando as segundas intenções de Georgie de maneira correta — e não é que Willy esteja sendo altruísta ou qualquer coisa do tipo: para ele é perfeitamente aceitável que a esposa tenha um caso com uma bela mulher, desde que ele também o tenha, mas sem que Colette saiba.

Willy visita o apartamento de Georgie em dias alternados aos de Colette, e a esposa não sabe o que se passa entre os três. No início do casamento, Colette, inclusive, briga com Willy quando descobre que ele tem amantes, ameaçando deixá-lo caso ele não seja completamente honesto com ela. Mas o apelo de Colette de nada vale para Willy que decide também tomar Georgie como amante. Todo o relacionamento entre os três degringola quando Colette descobre o que está acontecendo, mas ela e Willy acabam chegando a um entendimento de como lidar com o affair, o que é concluído quando Colette escreve seu terceiro livro, Claudine en Ménage, inspirada pelos encontros entre ela, Willy e Georgie — o que a norte-americana não acha nenhum pouco agradável de saber. Ao ameaçar Colette para que ela desista da publicação, Georgie apenas dá mais munição para que Claudine en Ménage se transforme em mais um sucesso de público e crítica, mas é apenas Willy quem colhe, mais uma vez, os louros e a glória desse trabalho.

Colette

Colette está cada vez mais incomodada com o fato de que é apenas Willy quem leva o crédito por seu trabalho e propõe que os próximos livros sejam assinados pelos dois, mas o marido refuta a ideia partindo do princípio de que mulheres não são capazes de vender livros da mesma forma que os homens. Na Paris do início dos anos 1900, muita coisa está mudando, mas o machismo permanece firme e forte. Procurando ser independente e dona de suas próprias obras, Colette envolve-se cada vez mais com Mathilde de Morny, a Marquesa de Belbeuf, ou simplesmente Missy (Denise Gough). Nascida em uma família nobre, o pai de Missy era meio-irmão de Napoleão III, a marquesa teve uma infância de abusos e negligência que culminou em um casamento sem amor quando ela completou dezoito anos. Missy acreditava que seu marido, Jacques Godart, o terceiro Marquês de Belbeuf, era gay e, assim como ela, estava preso em aparências que detestava manter. O casal se divorciou quatro anos após o casamento e Missy passou a viver sua verdade, relacionando-se com mulheres e vestindo-se como o homem, o que afrontava a alta sociedade parisiense da época. O filme não entra em muitos detalhes a respeito, mas alguns estudiosos se referem a Missy como transgênero, enquanto outros dizem não ser possível afirmar tal coisa a respeito da Marquesa de Belbeuf.

Colette, no entanto, é de uma enorme delicadeza ao mostrar o relacionamento entre Colette e Missy, que se conheceram em 1905 e encantaram-se praticamente de imediato. Missy incomodava a sociedade parisiense, e fofocas a respeito de seu gênero e sua orientação sexual eram comuns. Missy era transgressivo e encontrou em Colette seu par, e logo a dupla começou a se apresentar no teatro o que, novamente, causou comoção em Paris quando, durante a encenação, ela se beijam no palco. Enquanto isso, Willy decide vender os direitos da trilogia Claudine para não ir à falência, o que ele faz sem comunicar a esposa. Colette descobre o que o marido fez da pior maneira possível e, na sequência, decide finalmente se separar. Willy implora para que Colette não o deixe, mas ela não pensa duas vezes: é o momento de ser dona não apenas da própria vida, como também dos próprios livros. Em um novo rompante de raiva, Willy decide queimar os originais de Colette para que a esposa não possa ter como provar a autoria dos livros, mas o assistente do autor, Paul Héon (Johnny K. Palmer) os resgata e entrega à sua dona de direito.

A Colette de Keira Knightley é vivaz e audaz quando tem que ser, demonstrando a fibra de sua personagem e seu incomparável brilhantismo. Oposto a ela está Dominc West, muito bem em um personagem que não consegue despertar a menor simpatia de seu público, ainda que o diretor e roteirista Wash Westmoreland não pese a mão no momento de mostrar suas piores atitudes. O diretor, inclusive, consegue segurar sua câmera e não comete tanto male gaze quanto dita o senso comum para dramas de época dirigidos por homens, principalmente nas cenas em que Colette está com suas amantes, o que é um ponto positivo ainda que ele não tenha feito mais do que sua obrigação. Em nenhum momento a bissexualidade de Colette é colocada como algo exótico ou puramente para chocar, e isso é muito mais do que se pode dizer de diversos filmes com mulheres bi. O longa é um belo tributo a uma autora que lutou para ser reconhecida por seu trabalho e que após o divórcio publicou mais de trinta obras, entre romances e contos. Colette é capaz de contar, com toques de romance, a história real de uma mulher singular, suas dores e seus amores, seus sonhos e ambições — somando a isso uma fotografia incrivelmente inspirada, cenários e arquiteturas belíssimas e um figurino impecável. Você pode até estar cansado de assistir Keira Knightley em dramas de época (eu sei que não estou!), mas a atriz entrega mais um trabalho luminoso em Colette que vale a pena ser conferido. Ao final do filme, Colette assume que é dela a mão que segura a caneta e que ninguém mais escreverá sua história por ela.

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1 comentário

  1. Eu fiquei super curiosa para assistir o filme quando vi o trailer, e assisti nos cinemas no final de 2018. Gostei demais e achei um dos melhores trabalhos da Keira. Eu AMO filmes de época, por ser fã de História, e quando une literatura é melhor ainda.
    Para mim o ponto alto foi certamente o filme tratar de maneira tão bem a bissexualidade de Colette, sua jornada, seus amores, e seu crescimento até o momento que ela consegue sair do relacionamento abusivo.