Categorias: LITERATURA

O Diário de Nisha: uma mensagem de esperança

No ano de 1947, a Índia deixou de ser uma colônia britânica, mas o que poderia marcar um recomeço para o país deu início a um novo ciclo de violência e relações não amistosas que se estendem até os dias de hoje. Após 200 anos de domínio britânico, a Índia finalmente se viu livre das amarras da metrópole, mas o que ficou após a retirada dos colonizadores foi um país dividido entre hindus e muçulmanos. Durante o período colonial, revoltas foram reprimidas com muita violência pelo Império Britânico, e sua saída da Índia fez com que o país fosse literalmente dividido entre uma “nova” Índia, de maioria hindu, e o recém criado Paquistão, de maioria muçulmana. O Diário de Nisha, escrito por Veera Hiranandani e lançado no Brasil pela DarkSide Books, procura recontar esse período conturbado, conhecido como Partição da Índia, pelos olhos de sua narradora, Nisha, uma menina de doze anos de idade que vê sua vida mudar para sempre da noite para o dia por motivos que ela não consegue compreender totalmente.

Uma menina quieta e reservada, Nisha sempre se sentiu fora de lugar mesmo em sua casa. Ao contrário de seu irmão gêmeo, Amil, um menino falante e ativo que ama desenhar, Nisha prefere ficar quieta, observando, ajudando a preparar as refeições da família e escrevendo em seu diário do que sair por aí correndo e se metendo em encrencas. Filha de mãe muçulmana e pai hindu, Nisha não entende como pode ser um problema carregar essas duas heranças dentro de si, mas para os homens no comando de seu país não há diálogo: hindus e muçulmanos não podem permanecer juntos no mesmo lugar. É por conta da tensão e violência crescentes que seu pai decide que eles não podem mais permanecer na casa em que vivem e que, agora, faz parte do recém criado Paquistão.

“Gandhi quer que todos fiquem juntos, o que eu também quero, mas a maioria do povo não é como gandhiji. Quando você divide as pessoas, elas escolhem lados. Tem muita confusão e medo por aí. Não quero que vocês se machuquem.”

Dessa maneira, Nisha e sua família deixam tudo aquilo que conhecem como lar e partem, o mais silenciosamente possível, em direção a um recomeço e à nova Índia. A jornada de Nisha ecoa diretamente da história da família paterna de Veera Hiranandani que precisou atravessar a fronteira de Mirpur Khas para Jodhour da mesma maneira que Nisha faz no livro — seus pais e avós foram obrigados a recomeçar em um lugar estranho, uma família de refugiados que teve a sorte de permanecer viva durante a travessia que matou tantas outras pessoas. De acordo com a BBC, a Partição da Índia provocou a maior migração forçada da história, um fluxo intenso de pessoas trocando um país pelo outro enquanto ocorriam confrontos religiosos que deixaram milhares de mortos, casas incendiadas e rastros de violência.

É nesse cenário que Nisha se encontra ao deixar o lar carregando apenas aquilo que seu corpo infantil consegue aguentar: uma bolsa com alimentos, água, uma lembrança de Kazi, cozinheiro e amigo da família que deve permanecer no Paquistão por ser muçulmano, e o diário em que escreve sua jornada, sempre endereçando seus pensamentos à mãe falecida. O que Nisha cria, mesmo sem saber, é um relato detalhado dessa perigosa travessia, registrando em suas páginas o ano de 1947 e seus momentos de criança comum, enquanto lê ou ajuda Kazi a preparar deliciosos pratos típicos, costurados com os perigos e medos que chegam a ela durante a jornada como refugiada até Jodhour.

“Todo mundo tem culpa. Eles diz que quando as pessoas são separadas em grupos, elas começam a acreditar que um grupo é melhor que o outro. Penso nos livros de medicina do papai e em como todos temos o mesmo sangue, órgãos e ossos dentro do corpo, qualquer que seja a religião de cada um.”

A Partição da Índia não é algo estudado com grande profundidade em escolas brasileiras, então o relato de Veera Hiranandani em O Diário de Nisha pode vir a ser o primeiro contato de muitos de nós com o que foi esse período violento da história da Índia e do Paquistão. De acordo com matéria do Nexo Jornal, a colonização inglesa é um dos fatores determinantes para o desequilíbrio na convivência entre muçulmanos e hindus, os dois principais grupos que viviam na Índia britânica naquele período, e que culminou na violência desenfreada durante a Partição. Rompendo com o curso natural da sociedade indiana, o Império Britânico forçou divisões dentro do território que dominavam e impôs a criação de comunidades com base na religião de seus membros, o que alterou a percepção que tais grupos tinham de si mesmos. Se antes da interferência britânica hindus e muçulmanos simplesmente conviviam com certa tranquilidade, após intromissão da metrópole os ânimos começaram a se exaltar.

Ainda que O Diário de Nisha seja a visão de uma menina sobre o caos em que seu país se encontra, Veera Hiranandani insere a história autêntica em seu relato e não é raro a autora citar personagens reais como Muhammad Ali Jinnah, líder político muçulmano, e Mahatma Gandhi, líder político-religioso hindu. Os dois, que se tornaram lados opostos de uma mesma moeda, foram os fundadores, respectivamente, do Paquistão e da Índia independentes do Império Britânico, e os ataques públicos entre eles refletiam diretamente na população que, inflamada pelo ódio e medo desenfreados, cometiam uma série de atrocidades e massacres. Nisha, inclusive, narra alguns momentos de medo durante sua travessia, com pessoas correndo desesperadas para embarcar no trem que os levaria através da fronteira ou quando aguarda em uma longa fila por um gole de água apenas para descobrir que o poço já havia secado.

“Hindus, muçulmanos, sikhs, todos fizeram coisas horríveis. Mas o que eu fiz? O que papai, dadi e Amil fizeram? O que Kazi fez? Quero saber quem eu posso culpar, mamãe, pelos pesadelos que agora me acordam todas as noites. Deve ser culpa de alguém. Talvez eu culpe todo mundo.”

Estima-se que durante a Partição da Índia, mais de 1 milhão de pessoas tenham sido assassinadas — muçulmanos e hindus mataram-se uns aos outros de maneira desenfreada, mulheres e crianças foram sequestradas e mortas, homens mataram suas próprias famílias com medo do que poderia acontecer a eles do outro lado da fronteira, e muitas pessoas jamais chegaram ao estado recém-criado a que se dirigiam. Para além das 15 milhões de pessoas forçadas a se deslocar em direção à Índia ou ao Paquistão, muitas famílias ficaram divididas entre os dois países, como ocorre com a família de Nisha. Carregando as heranças muçulmana e hindu, a menina tem que se despedir de pessoas queridas enquanto parte em direção a fronteira, sem saber se veria qualquer um deles novamente algum dia.

Veera Hiranandani cria, com base nesse turbulento período da história, uma trama delicada, sensível e permeada de esperança por dias melhores. Nisha é uma protagonista quieta e tímida que prefere extravasar seus sentimentos por meio das palavras — algo com que me identifiquei de imediato —, observando o mundo com seus olhos infantis e tirando suas próprias conclusões daquilo que vê, endereçando todos os escritos à sua falecida mãe. Uma das questões a que Nisha sempre retorna tem, justamente, relação com o fato de ser fruto de um casamento inter-religioso — e que não foi bem recebido pelas respectivas famílias — e o que isso significaria caso sua mãe ainda fosse viva: de que lado da fronteira eles permaneceriam? Na Índia hindu de seu pai ou no Paquistão muçulmano de sua mãe? Carregar essa dualidade dentro de si é uma das grandes questões de Nisha, e ela reflete muito a respeito de qual é o seu lugar em um mundo que não aceita o diferente.

A narrativa cuidadosa e delicada de Veera Hiranandani nos transporta diretamente para o universo de Nisha, mergulhando nos pensamentos e reflexões da menina durante um período tão conturbado de sua vida. A autora consegue mesclar com a maestria a inocência intrínseca à idade de Nisha aos momentos em que ela precisa ser forte, amadurecendo em meio a um cenário de medos, caos e incertezas. O Diário de Nisha é capaz de nos mostrar outra cultura, descrevendo aromas e sabores que são quase palpáveis — como não ficar com vontade de experimentar samosas e pakoras após o preparo cuidadoso de Nisha e Kazi? — mesclando tudo isso com fatos históricos e acontecimentos reais. O Diário de Nisha é uma viagem a outra país e outro tempo, mas que poderia muito bem ser aqui e agora. A crise de refugiados é algo atual e o mundo vive, no momento, sua mais grave crise desde o final da Segunda Guerra Mundial. São mais de 65 milhões de pessoas obrigadas a deixar seus lares, seja fugindo de guerras ou de conflitos políticos, seja por perseguição política ou violação dos direitos humanos. O Diário de Nisha é uma trama ficcional baseada na realidade de setenta anos atrás, mas o medo e a incerteza ainda são parte da rotina de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Vencedor de prêmios como o Newbery Honor Award, Walter Dean Myers Honor Award e Malka Penn Award para Direitos Humanos em Literatura Infantil, O Diário de Nisha evoca outras histórias do selo DarkLove como A Guerra que Salvou a Minha Vida e A Guerra que me Ensinou a Viver, e a história real de Myriam Rawick narrada por ela em O Diário de Myriam. Um livro dolorido, real e necessário, mas também muito doce e esperançoso. Com mais uma edição primorosa da DarkSide Books — o livro é totalmente decorado como se fosse o diário de uma menina indiana, com lombada e folhas coloridas e fita azul para marcar as páginas — O Diário de Nisha é leitura imprescindível para quem quer aquecer o coração. Mesmo em uma trama marcada por momentos difíceis, o amor e a esperança de dias melhores movimenta Nisha e sua família adiante e, às vezes, isso é tudo o que precisamos para continuar.

“Quando fui dormir naquela noite, eu me sentia em paz como nunca tinha me sentido antes. Estávamos juntos de novo. Nehru, Jinnah, Índia e Paquistão, os homens que lutam e matam… Vocês não podem nos separar. Não podem apartar o amor.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a DarkSide Books.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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