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Lexie: a outra Grey

Alexandra Carolina Grey. Little Grey. Lexipedia. Ou apenas Lexie Grey, personagem muito bem conduzida pela atriz Chyler Leigh, é a meia irmã mais nova da protagonista Meredith Grey (Ellen Pompeo), de Grey’s Anatomy. Introduzida lá pelo final da terceira temporada, Lexie é filha da relação entre Thatcher (Jeff Perry), pai de Meredith, e Susan (Mare Winningham), e desde pequena foi uma aluna exemplar, levou a faculdade de medicina com facilidade e, sabendo da existência da meia irmã mais velha, mas sem realmente conhecê-la, opta por fazer sua residência no hospital Seattle Grace. Dali, até sua despedida da série, cinco temporadas depois, Lexie Grey viveu uma grande, e por muitos adorada, jornada.

Atenção: o texto contém spoilers!

A Jornada

A ideia da Outra Grey de se aproximar da meia irmã não dá muito certo no começo: Meredith, de cara, desgosta de Lexie, não quer nada o que ver com a moça. Mas o desgosto logo se torna tolerância e, considerável tempo depois, se torna carinho. A bagagem que Meredith carrega por ter assistido Thatcher a abandonar e, tempos depois, ser um pai exemplar para as filhas de um novo casamento, dificulta o relacionamento com Lexie no início. Susan, mãe de Lexie, falece e, por este motivo, Thatcher começa a beber, sobrecarregando o fígado e vindo a necessitar de um transplante. Após muita conversa e convencimento, Meredith, que era compatível, acaba sendo a doadora de Thatcher. O ressentimento de Meredith sobre o pai reflete em Lexie, por óbvio, mas eventualmente se esvaí.

“I don’t know how you get up in the morning. I honestly don’t. Our dad abandoned you, and your mom, by all accounts, was the meanest person ever, and you can’t let Derek love you, and it all really really sucks. But ever since I knew you existed, I had this fantasy about my big sister, and you have failed on every occasion to live up to that fantasy. But I still love you, whether you are capable of letting me or not. So, I forgive you”.

“Não sei como você se levanta pela manhã. Honestamente não sei. Nosso pai te abandonou, e sua mãe, pelo que dizem, foi a pior pessoa que existiu, e você não deixa o Derek te amar, e isso tudo realmente é uma merda. Mas desde que soube que você existia, tive essa fantasia sobre minha irmã mais velha. E você falhou em toda oportunidade de viver essa fantasia, mas ainda a amo, sendo você capaz ou não deixar que isso aconteça”.

Enquanto tenta evoluir em sua aproximação com Meredith, Lexie começa uma amizade com George O’Malley (T.R. Knight), que também está vivendo o próprio drama, e a amizade é tanta que os dois chegam até a dividir um decadente apartamento. A coisa se torna insustentável depois que pequena Grey se interessa romanticamente pelo colega de casa, que não está nem perto de reciprocar os sentimentos da amiga. Então Lexie se envolve com Alex Karev (Justin Chambers), coisa que Meredith não aprova. Eles terminam, mas por outros motivos. Ao mesmo tempo em que tudo isso acontece, uma espécie de culto dos internos insatisfeitos está rolando por trás das portas do hospital. Os novatos sentem que não estão praticando medicina o suficiente e começam a fazer pequenas cirurgias entre si – por mais esquisito e difícil que seja aceitar isso, Lexie acaba por ceder. A coisa toda fica ainda mais surreal, e os internos começam a fazer sexo para tentar tirar da cabeça as pequenas cirurgias que acontecem por trás das cortinas. Lexie não acha que sexo seja o suficiente, e se dirige a Mark Sloan (Eric Dane), implorando para o cirurgião lhe ensinar o possível sobre medicina. É óbvio que aquilo era só o começo de um grande romance, que evoluiria até se tornar um Dos Grandes Romances de Grey’s Anatomy e, particularmente, o meu favorito.

O relacionamento entre McSteamy e Little Grey sofre muitos altos e baixos ao longo de quatro temporadas. Mark é mais velho, vivendo uma vida diferente, com uma filha com idade o suficiente para ter seu próprio bebê. Lexie não quer ocupar o lugar de avó antes dos trinta. Eles terminam e Lexie se envolve, novamente, com Alex Karev. Mark, contudo, ainda está apaixonado por Lexie, e até tenta confessar o amor, mas não encontra os meios para tal quando ambos estão ocupados demais tentando salvar a vida de Alex, que levou tiros em um final de temporada fatídico. Entre uma volta e outra, Mark engravida a melhor amiga, Callie Torres (Sara Ramírez), e quer fazer parte da vida do bebê. E o relacionamento deles, que parece nunca dar certo, está quase sempre envolto em uma série de doloridos desencontros. Até com Jackson Avery (Jesse Williams) Lexie chega a se envolver a certa altura do campeonato, que só serve pra fazer com que ela perceba que não adianta, Mark é o número um, sempre foi e sempre iria ser.

“Mark said that… that he misses me. But I miss him… I uh, I really, I really miss him. And he thinks that I still love Jackson. I try to tell him that I don’t. I try to tell him that I still love him. But I open my mouth and nothing comes out. And everything is terrible”.

“Mark disse que sente minha falta. Eu também… Sinto muita falta dele. Ele acha que ainda amo o Jackson, tento dizer que não, que ainda o amo… Mas abro a minha boca e não consigo dizer nada. É terrível”.

Se tratando de Grey’s Anatomy, tudo o que é bom morre ou some, geralmente em alguma circunstância trágica que, apesar de improvável, leva quem está assistindo a se derramar em uma poça de lágrimas. Poucas vezes o contrário acontece, a gente já sabe que não teremos um final feliz, mas nosso novelão em forma de série não se tornou uma unanimidade na TV com base em nada. O final da oitava temporada marca talvez uma das maiores tragédias de toda a série, e também a despedida da personagem. Em um avião particular, Mark, Derek Shepherd (Patrick Dempsey), Arizona Robbins (Jessica Capshaw), Cristina Yang (Sandra Oh) e as irmãs Grey’s viajam pra outro hospital pra realizar uma supercirurgia. Ou tentam. O avião cai no caminho, resultando em um neurocirurgião – Derek – com uma grande e perigosa lesão na mão, Arizona Robbins em vias de perder a própria perna (ela realmente a acaba perdendo, mais tarde), Cristina com um pé de sapato perdido, e, também, com a morte da nossa querida Little Grey. A cena toda é digna do maior pastelão dramático possível, mas obviamente ela convence, dói, e pros fãs da personagem é algo particularmente difícil de assistir. Recordo bem de acordar no dia seguinte ao episódio ainda inchada de tanto chorar. Os boatos da época giraram em torno da atriz que interpretava a personagem querer deixar a série para poder se dedicar à família. A tragédia, no entanto, foi opção, não saída.

Quem é Lexie Grey?

Lexie Grey definitivamente encontra seu lugar ao sol dentro da série. Sempre muito aberta sobre o que sente, ela é emotiva, vulnerável e sincera, diferente da nossa emblemática protagonista que raramente se deixa ver na mesma posição, o que cria um contraste interessante entre irmãs. Lexie é dona de uma memória fotográfica, o que lhe dá uma vantagem quando comparada aos colegas – é daí que surge o apelido de Lexipedia, inclusive. Por assim o ser, aceita desafios, tomando a dianteira de muitos deles e acaba se tornando residente em neurocirurgia junto a Derek Shepherd quando Meredith decide deixar a área.

“I take things too personally. I get too emotional”.

“Eu levo as coisas pro pessoal. Eu fico muito emocionada”.

Apesar de muito popular quando mais jovem, Lexie tem suas próprias inseguranças; é falha, sabe que é falha, e não tenta fingir o contrário. Em mais de uma vez é possível assistir a personagem sucumbir ao peso de um relacionamento fracassado, uma situação constrangedora, e conseguir verbalizar tudo isso. É muito fácil sentir empatia por Lexie, justamente por ela ser tão crua e óbvia sobre tudo. Além disso, ela é genuinamente divertida, uma das personagens mais divertidas de toda a série, arriscaria dizer. Uma cena que comprova o que digo é uma em que ela corre pelo hospital com sacos de sangue e acaba caindo e estourando tudo – um desperdício, mas engraçado.

Mas, e aí?

Amanda Palmer no livro A Arte de Pedir fala muito sobre ser vulnerável, confiar nas pessoas e se entregar à elas; o melhor da vida vem de fazer paz com a ideia de que o outro pode estar, realmente e de verdade, ali para você. Se entregar sem rédeas e ser vulnerável é assunto antigo, mas que tem sido retomado nos últimos tempos – e é, de certa forma, um dos pessoais favoritos desta que vos fala. A Lady Gaga já falou disso, os homens de Queer Eye também; a banda Daughter muito se expõe, e Sofia Coppola lida diretamente sobre essas questões. A vulnerabilidade de Lexie Grey como mulher, aluna, filha e irmã, a torna uma grande personagem, que só acrescenta dentro dos muitos personagens do nosso hospital favorito e deixa uma saudade tremenda em que ainda acompanha a série. Ela nos ensina – mais uma vez – que ser vulnerável não é uma fraqueza, não é algo a ser diminuído, esquecido, e que não há absolutamente nada de errado em sentir coisas. Todas as coisas. Às vezes coisas até demais – como, em mais de uma vez, assistimos acontecer com a personagem. Ela fraqueja, gagueja, chora (muito!), mas, acima de tudo, está sempre e definitivamente aberta a viver o que pode, o máximo que pode, se entregando completamente no que quer que seja. Se uma lição podemos tirar da trajetória da Pequena Grey em Grey’s Anatomy é: viva, ria, sinta e demonstre. Viver assim é muito melhor.

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6 comentários

  1. Queria muito ter visto o amor de Lexie e Mark crescer…infelizmente não deu. Saudades das caras e bocas do Mark Sloan…😢

    1. Hahaha, somos donas da famosa “opinião impopular”. Nunca vi muita graça na Lexie, claro que é minha opinião, não quando a personagem da Yang é meu paradigma de influência, então é claro que dá pra compreender o meu desgosto da Little Grey. Todas as características listadas sobre a Lexie no texto, são motivos para eu não gostar dela. Mas é a minha “impopular” opinião.

  2. Eu queria que ela fosse mais falada na série sabe que os outros personagens falasse mais dela… eu não senti que houve realmente um luto por ela. Por mais que ela tenha sido homenageada tendo o seu sobrenome no hospital acho pouco. O Mark foi mais homenageado e tudo bem, mas queria que ela também tivesse sido ( aliás se eram para morrer que fosse realmente como aconteceu, os dois morrendo juntos). Queria que ela fosse mais falada na série. E também é minha personagem preferida teve dias que eu não conseguia ver a cena da morte dela.