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A evolução amorosa de Callie Torres em Grey’s Anatomy

Quando a Callie Torres (personagem interpretada por Sara Ramirez) surgiu em Grey’s Anatomy, ela era quase nada. Sua entrada aconteceu, aparentemente, porque outro personagem, George O’Malley (T.R. Knight), precisava de um par romântico. Mas usar personagens femininas como meios para atingir fins pontuais obviamente não é uma característica da Shonda Rhimes (produtora e criadora da série), e com muita alegria pudemos assistir Callie crescer vertiginosamente em relevância e em tempo de tela, até se tornar uma das personagens mais importantes da série.

Aviso: este texto contém spoilers da décima segunda temporada — e da maioria das anteriores!

Apesar de sádica, Shonda é definitivamente fenomenal, e não constrói personagens vazias. Callie aparece inicialmente como uma residente brilhante na sua área (cirurgia ortopédica) e muito apaixonada pelo que faz. No começo, o que nós ganhamos é isso: uma menina meio estranha e muito empolgada com o próprio trabalho, a ponto de literalmente montar acampamento no hospital. Como quase todos os internos/residentes do então Seattle Grace Hospital, ela é imatura, perdida, cheia de empolgação, com um ar adolescente e levemente inocente. Se tem uma coisa que Grey’s nos deu em 12 temporadas (representando mais ou menos dez anos na vida das personagens), foi a possibilidade de acompanhar o amadurecimento de cada uma — ou pelo menos das que viveram para contar história.

Callie & George

Callie e George

Callie entra na série sorrateiramente, pela porta dos fundos, diretamente para o papel de par romântico de George O’Malley, em um momento em que ele estava precisando profundamente superar a paixão platônica dele por Meredith (Ellen Pompeo). O relacionamento dos dois é exatamente como os personagens naquele momento: imaturo. Ela chama ele pra sair, ele não liga depois; ela diz que o ama e ele não responde, os dois se divertem juntos, se casam por impulso, moram em um hotel, só para se separar em tempo recorde, porque aquilo obviamente nunca ia dar certo.

Callie & Mark

Callie e Mark

Depois disso, Callie não cai imediatamente em outro relacionamento amoroso. Em um dos plots mais divertidos da série, ela desenvolve um relacionamento sexual e duradouro com o melhor amigo, Mark Sloan (Eric Dane), com quem acaba tendo uma filha algumas temporadas depois. Nada entre eles é forçado ou complicado, nunca. Eles carregam em si ainda a leveza da adolescência, no primeiro acordo de sexo sem compromissos que dá certo em todas as obras de ficção que eu já vi. Além da parte física, eles têm uma amizade sincera, de duas pessoas que se amam, se apoiam em todas as circunstâncias, e eventualmente se tornam uma família — o que eu considero em um nível de maturidade superior do relacionamento dela com o George.

Além da quebra de paradigmas do relacionamento com o Mark, isso também deu espaço para que Callie se desenvolvesse como personagem em outras áreas, formasse vínculos de amizade verdadeira e maravilhosa com outras das duas melhores personagens da série — Bailey (Chandra Wilson) e Addison (Kate Walsh) — e encontrasse seu lugar no mundo. E só então sua vida romântica propriamente dita se desenvolve, e se desenvolve de uma forma inesperada.

Callie & Hahn

Callie e Hahn

Assim como todas nós, Callie a princípio é heterossexual — afinal, a heterossexualidade é compulsória. Mas a próxima pessoa com que Callie se relaciona é uma mulher, Erica Hahn (Brooke Smith). A gente acompanha toda a descoberta dela sobre a própria bissexualidade, com seus pontos altos e baixos, alegrias e tristezas, e um fim abrupto e “trágico”. Esse romance dura muito pouco, apesar de a fase pré-romance durar um tempo razoável, e esse ritmo diferenciado é muito consistente com os acontecimentos em si. Não é de se esperar que alguém que sempre se acreditou heterossexual se veja em vias de um relacionamento com alguém do mesmo sexo (nesse caso, alguém que também nunca se relacionou com outra mulher) e as coisas corram em ritmo “normal”. A fase de descoberta é naturalmente maior, os passos são incertos. Tudo começa como amizade, evolui como brincadeira, dá os primeiros passos e então morre abruptamente.

Entre esse relacionamento e o próximo, o vácuo não é longo. Callie tem o tempo necessário para viver o luto (que não é pequeno, considerando a carga emocional do relacionamento que acabou), e então Arizona Robbins (Jessica Capshaw) entra em cena e nossos corações cantam.

Callie & Arizona

Calzona

Arizona é o ponto alto dessa linha do tempo. Não só porque é um dos meus casais favoritos de todo o sempre (é, #calzona4life), mas porque ela é. Nesse ponto, Callie não é mais tão iniciante nessa nova realidade, e Arizona já tem também uma longa estrada. Callie como pessoa por si só já está muito mais madura do que durante o relacionamento com George. O relacionamento delas passa por questões e percalços que poderiam acontecer em qualquer outro relacionamento. Todo o drama anterior com Hahn se torna essencial nesse ponto: ele tira a carga do relacionamento Calzona de ser um relacionamento entre duas mulheres e transforma em um relacionamento. Ponto. Callie precisava sair do armário? Precisava. Mas isso já foi. Para ser completamente justa, ela só se assume para a família quando já está com a Arizona, mas isso se torna mais uma questão dela com a família do que com Arizona — e é um dos muitos momentos que me fizeram amar Callie com força.

O relacionamento entre Callie e Arizona é tranquilo, normal, maduro, e dura um bom tempo. É tão promissor e maravilhoso que elas acabem se casando, tendo uma filha (que biologicamente é do Mark), e ficando juntas por anos. Em nenhum momento elas são tratadas diferente na série por serem um casal de duas mulheres, e nem torturadas de forma sádica como muitas personagens não-heterossexuais são na maioria das séries e filmes. Nesses pontos, elas inclusive assumem muita importância simbólica e representativa. Eu e muita gente por aí ainda não superamos esse término. Ou não tínhamos superado, até os últimos acontecimentos.

Ainda que eu não quisesse que elas terminassem, a forma como terminaram me deixou muito feliz, porque mostrou o amadurecimento total da Callie como pessoa. Apesar de ainda amar Arizona, ela consegue se dar conta de que as coisas não estão dando certo para agir da forma mais racional — seguir em frente. As duas continuam convivendo, se preocupando uma com a outra e, por que não, se amando; mas o tempo delas realmente acabou. Também acho maravilhoso como a série mostra que, ainda que não tenha nenhum vínculo biológico com a filha, a Arizona é sim — e continua sendo — mãe da Sofia (o que é 100% explicito e além de qualquer dúvida razoável no final da décima segunda temporada).

Callie e Penny

Callie e Penny

Apesar de Callie ser explicitamente bissexual, o último relacionamento dela também é com uma mulher. É um relacionamento completamente sem sal, sem emoção e que não curto especialmente, mas inegavelmente deixa claro que Callie pessoa atingiu um nível final de amadurecimento. Ele não tem um plot marcante próprio, servindo mais como porta de entrada para dois pontos de tensão separados (entre Penny — interpretada por Samantha Sloyan — e Meredith, e entre Callie e a ex-esposa) do que como uma história relevante e autônoma, e por isso mesmo não arrasta multidões. Apesar da decepção que isso me causa, não tinha mesmo como ser diferente — não vejo como Callie e Arizona podem ter grandes romances uma sem a outra.

Durante toda essa décima segunda temporada, ficou bem clara a decadência de Callie enquanto personagem, no estilo característico da Shonda de apagar aos poucos os personagens antes que eles saiam da série. Qualquer personagem que saia com um hype muito grande é uma decepção a mais para os fãs, e de boba Shonda não tem nada. Ela sabe que batalhas lutar, ela sabe quando ser sanguinária, e ela sabe quais personagens ela precisa desinflamar antes da separação final. Foi o caso da Callie, que já teve uma décima segunda temporada cada vez mais apagada, e anunciou logo após o último episódio o seu desligamento da série, o que me deixou pessoalmente arrasada, mas pelo menos me permitiu dar um fechamento definitivo a esse texto. Amarrar pontas que não se comunicariam se ela fosse voltar após o hiato.

Diante de toda essa história e de todos os sentimentos vividos com Callie e Sara Ramirez nesses dez anos, o que tiramos é uma perspectiva mais saudável em comparação com a esmagadora maioria dos romances da ficção: histórias de amor que acrescentam e desenvolvem a personagem, e não uma personagem de vive em função de um romance. Já podemos trazer essa lição para nossa vida real, e Callie vai viver para sempre nos nossos corações fanáticos.

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19 comentários

    1. Menina, eu to passada que você é formada em direito. Me formei em
      jornalismo e poxa que texto gostoso que você desenvolve. Parabéns! Nem eu consigo escrever tão bem kkkkk

  1. Que texto maravilhoso! Além de uma excelente análise da personagem e dos relacionamentos dela, me ajudou muito a superar a saudade da série (e da Calzona). ♥

  2. Que texto incrível! Obrigada por me ajudar a amenizar um pouco a decepção de ver a Sara sair dá série… Seria um sonho que ela voltasse? #Calzona4ever 😢

  3. Ótimo texto. Serei sempre apaixonada pelo casal #CalzonaForever e por Sara Ramirez que é uma grande atriz e cantora. E nunca vou superar essa saída dela. Quem sabe um dia ela volte, só pra gente matar um pouquinho a saudade.
    Bjos.

  4. Acho que você precisa assistir de novo, personagens patética e ridicula,já foi embora tarde

    Nojo pelo que ela fez no tribunal,para Arizona

    Callie foi uma das personagens que mais decaiu,se tornou chata e egoísta,e muito imatura

    Feliz que Arizona está livre da embuste da callie

    1. Esse ano que decidi acompanhar Grey’s Anatomy. Foi bonito ver a Torres com Arizona. Mas verdadeiramente, Arizona é um personagem brilhante!! Acredito que muito amada e merecia um final MELHOR…Bela,brilhante atuação da Jéssica Capshaw.

  5. Esse ano que decidi acompanhar Grey’s Anatomy. Foi bonito ver a Torres com Arizona. Confesso que senti um certo ranço da Callie…e verdadeiramente, Arizona é um personagem brilhante!! Acredito que muito amada e merecia um final MELHOR…Bela,brilhante atuação da Jessica Capshaw.
    Com a saída da Arizona..Parei de ver a série.