Categorias: LITERATURA

Qual é o seu romance de Jane Austen favorito?

Imortalizada por seis romances, duas novelas inacabadas e sua juvenília, Jane Austen é um nome de peso na história da Literatura Inglesa. No primeiro contato, quem a categoriza como escritora de romances água com açúcar para mulheres está cometendo um grande engano. Se os trabalhos de Austen atravessaram os séculos não foi pelo final feliz entre a heroína e o “herói” de suas tramas, mas pela retratação da sociedade da época e pela crítica dos costumes denunciada pela ironia velada nas linhas de seus escritos, e tudo isso enquanto uma mulher era sempre colocada no centro da trama, ainda que no contexto da narrativa não estivesse no centro da sociedade, e às vezes, sequer no centro de sua própria família, uma unidade essencial dentro da qual a heroína se destacada e se desenvolve.

Por isso, quando adotamos um romance de Jane Austen como favorito, estamos fazendo mais do que escolher um livro cujo romance nos faz suspirar. Estamos adotando uma espécie de bíblia literária com exemplos consistentes de mulheres que quebram os padrões sociais sem atravessar o espaço que ocupam explosivamente, deixando estilhaços para trás, já que a maior de suas transgressões reside, simplesmente, em ter instrução e pensamento crítico. Não é à toa que quando nos falta orientação, a simples pergunta “O que Jane Austen faria?” seja tão esclarecedora.

Razão e Sensibilidade, 1811

Por Michas Borges

Em Razão e Sensibilidade, conhecemos as histórias das irmãs Elinor e Marianne Dashwood, que, com personalidades opostas, representam a dualidade que dá título à obra. Elinor é mais reservada e sensata, pensa muito antes de agir e tem o hábito de esconder os seus sentimentos. Marianne, por sua vez, é bastante efusiva, dramática e costuma agir de forma impulsiva. Após a morte de seu pai, as jovens perdem a condição financeira abastada e o status social com o qual estavam acostumadas e se mudam para uma nova residência, mais simples e localizada no interior. Neste novo ambiente, as protagonistas se deparam com suas primeiras decepções amorosas.

Por meio das histórias de amor e frustrações e do cotidiano das irmãs Dashwood, Jane Austen tece críticas à sociedade de seu tempo de maneira bastante sutil. Levando em consideração que naquela época as mulheres não podiam trabalhar e que a única maneira de obterem aquilo que era considerado sucesso vinha por meio do matrimônio e da maternidade, a rebeldia das heroínas de Austen aparece no desejo e na busca por um casamento com alguém que as respeite intelectualmente e as ame pelo que são e não pelo que representam socialmente ou financeiramente. Elinor e Marianne têm personalidades fortes, sabem o que querem e irão lutar por isso, mesmo que seus anseios mais íntimos não estejam de acordo com as expectativas da sociedade.

Orgulho e Preconceito, 1813

Por Thay

Correndo o risco de ser óbvia, Orgulho e Preconceito é meu livro favorito de Jane Austen. Talvez por guardar a memória de ter sido meu primeiro contato com a escritora inglesa, o que aconteceu por meio da adaptação de 2005 para os cinemas do livro homônimo, com Keira Knightley e Matthew Macfadyen nos papéis de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, ou talvez simplesmente por conter o uma das melhores histórias de amor já contadas. Sei que, de tempos em tempos, retorno para Orgulho e Preconceito como quem retorna para uma melhor amiga e sabe que será recebida de braços abertos. A cada releitura que faço da obra, encontro ainda mais motivos para fazer dela a minha favorita — cada uma das irmãs Bennet é cativante à sua maneira, nos fazendo torcer por elas, desejando que alcancem o almejado final feliz, ao mesmo tempo em que a trama é construída de forma única e especial.

Por meio de sua narrativa, Jane Austen consegue inserir aspectos da sociedade em que vivia e vão muito além do romance, redigindo críticas certeiras sobre esta sociedade enquanto destrinchava seus valores, narrando conflitos a respeito de hierarquias sociais, a ascensão social por meio de casamentos, parte deles por interesse, e o comportamento esperado por parte das mulheres casadoiras. Jane Austen escrevia sobre a realidade em que vivia, e, com sua refinada ironia, tecia críticas à sociedade inglesa por meio de personagens femininas que se recusavam a ficar dentro do molde como, por exemplo, Elizabeth Bennet. Sua heroína para Orgulho e Preconceito é inteligente, perspicaz e corajosa, mas nem sempre perfeita. Sua rapidez no julgamento de Mr. Darcy, por exemplo, é um erro conduzido pelo preconceito, algo que a autora desconstruirá no decorrer do romance. É uma verdade universalmente reconhecida… que Orgulho e Preconceito é um livro atemporal e, portanto, estará para sempre entre os meus favoritos.

Mansfield Park, 1814

Por Analu Bussular

Nesta história, publicada em 1814, conhecemos Fanny Price — que é injustamente rotulada por aí como a protagonista mais insossa de Jane Austen. Perto de personagens como Elizabeth Bennet e Emma Woodhouse, ela, de fato, pode causar essa impressão, mas quem se propõe a enxergá-la de verdade percebe o quão subestimada Fanny vem sendo. No livro, acompanhamos sua jornada desde quando, aos 10 anos de idade, ela é levada da casa de seus pais, pobres, para morar com seus tios, ricos, que resolvem fazer uma “caridade”. Desde antes de sua chegada, eles discutem sobre como ela deve ser acolhida de uma maneira precisa, para que não se sinta deslocada, mas que também nunca chegue ao ponto de se sentir no mesmo lugar que as filhas dos donos da casa. Qualquer semelhança com a história de Cinderela pode não ser mera coincidência, mas o livro vai muito além de uma mera analogia ao conto de fadas.

Ao longo das páginas, Fanny cresce e se desenvolve, bem como os quatro filhos legítimos do casal e outros jovens que giram em torno deles pela região. O contexto político da Inglaterra na época é também bastante representado na história, que para os estudiosos da obra de Austen, funciona como uma alegoria da transformação do país no período e de como as tradições conservadoras começaram a ser colocadas em risco pela modernidade e maiores liberdades. Dá pra garantir que, em Mansfield, assim como na maioria dos romances da autora, torcer pelo casal aquece o coração. Mas quem é o mocinho da história? Isso você só vai descobrir quando ler o livro.

Emma, 1815

Por Fer

Na época do meu primeiro contato com Emma, eu já me considerava fã de Jane Austen — minhas leituras de Orgulho e PreconceitoPersuasão e até mesmo Razão e Senbilidade (até hoje a obra dela de que menos gosto) já haviam me conquistado inteiramente através de sua narradora maravilhosamente afiada e de suas heroínas complexas e multifacetadas. Foi quando descobri que As Patricinhas de Beverly Hills, um dos meus clássicos favoritos da Sessão da Tarde, é na verdade uma adaptação moderna da obra de Jane Austen que meu amor por Emma passou a fazer todo o sentido para mim. Emma se presta com perfeição a inspirar um roteiro de comédia adolescente porque ele é, acima de tudo, uma história de aprendizado. Austen permite que Emma Woodhouse seja desagradável, que seja mimada, que seja enxerida na vida alheia sem primeiro conseguir dar conta de si mesma, que seja profundamente ingênua a respeito da vida, das pessoas e das relações humanas e mesmo assim se sinta confortável se intrometendo onde não deve — e nada disso torna sua heroína menos cativante. O bom coração que ela no fundo carrega, o amor que ela carrega pelas pessoas queridas, e sua eventual disposição para aprender e admitir os próprios erros tornam sua jornada uma bela história de amadurecimento.

Emma ocupa uma posição diferenciada em relação às outras heroínas de Jane Austen porque tinha um futuro assegurado, com dinheiro mais do que suficiente para manter-se confortavelmente quando seu pai idoso partisse. É isso que permite que Emma, moça metida a casamenteira, afirme que ela mesma não se casaria — afinal, diferentemente do que acontecia com a maioria das jovens mulheres, para ela o casamento não seria uma imposição nem um modo básico de sobrevivência numa sociedade profundamente machista. Mas é claro que essa afirmação de independência por parte dela também tinha ligação com suas próprias inseguranças, e um dos aspectos mais cativantes de sua história é vê-la aprendendo a derrubar um pouquinho esses muros. Emma traz um dos romances mais bonitos que Austen escreveu, que culmina em uma de suas citações mais famosas: “Se eu a amasse menos talvez eu fosse capaz de falar mais a respeito”. (Relevemos o fato de o mocinho em questão ter literalmente visto Emma crescer.) Mas ler a narrativa de Emma é um presente que vai (como sempre com Jane Austen) muito além do romance: está na voz da narradora, na carga enorme de vida que sua heroína carrega, na maneira como enfatiza primeiramente as jornadas e vidas das personagens femininas, no pano de fundo colorido, bem delineado e cheio de personagens secundários ótimos — às vezes horríveis, às vezes insuportáveis, mas ótimos —, deixando ainda espaço suficiente para que Austen discuta, com seu humor habitual, as rígidas hierarquias e divisões de classe da Inglaterra do século XIX.

A Abadia de Northanger, 1817

Por Mia

Jane Austen gostava de alfinetar a sociedade aristocrata em que vivia. Seu livro mais famoso, Orgulho e Preconceito, é uma alfinetada e tanto com diversas camadas que vão desde leis absurdas sobre obtenção de propriedades até sentimentos nada bonitos, porém naturais, a respeito dos outros. As relações sociais sempre foram o cerne de seus romances, repletos de crítica e ironia. E, apesar de eu amar os romances mais clássicos e sérios, dentre todos os seus livros, o meu preferido ainda é A Abadia de Northanger. Publicado postumamente, em 1817, o livro conta a história da jovem Catherine Morland, uma mocinha de 17 anos que adora ler romances góticos, repletos de castelos antigos, assassinatos, fantasmas que rondam corredores e mistérios a desvendar. Catherine, com toda essa influência correndo solta em sua mente, vibra quando é convidada a passar alguns dias na propriedade que dá título ao livro, pensando que chegou a hora de ser protagonista de seu próprio romance gótico. Obviamente, isso não acontece, mas o que ocorre é que ela se mete em diversas encrencas ao procurar por todo o lado evidências de um crime, fantasmas perdidos ou acontecimentos estranhos. Como todo livro de Jane Austen, é claro que não poderia faltar um romance e aqui temos um dos melhores personagens masculinos da autora: Henry Tilney, filho do senhor da Abadia e também dado a leituras.

Um dos motivos para eu amar tanto esse livro a ponto de ele ter se tornado o meu favorito é a defesa apaixonada que Catherine faz dos romances. Na época, histórias de amor (ou mesmo histórias góticas) eram consideradas subliteratura, uma bobagem para mocinhas ingênuas. É claro que tal consideração não é verdadeira, mas puro preconceito com uma literatura destinada a um público majoritariamente feminino. A mulher, sempre vista como frágil, tem seus gostos depreciados até hoje e Jane Austen toca nesse ponto de forma ácida e divertida durante os diálogos entre Catherine e Henry. Não é difícil, mesmo atualmente, se relacionar com Catherine. Ela, uma leitora ávida, sempre se enxergava dentro das histórias que lia e devorou livros sobre heroínas, castelos e tramas sombrias. Uma adolescente normal de quem eram feitas piadas por sua propensão a se inserir nas histórias e pensar que a vida é como a ficção. Além da abordagem do preconceito contra histórias feitas por e para mulheres, há também um ponto importante que é o desprezo que alguns personagens sentem pela jovem heroína de Austen por esta vir de uma família pobre. Num mundo em que o dinheiro falava mais alto do que o coração, ser pobre era o pior dos destinos. Jane Austen tocou na ferida escrevendo uma paródia gótica, mas perfeita, que nos traz um bom olhar sobre a Inglaterra da época, repleta de costumes e preconceitos.

Persuasão, 1818

Por Ana Luíza

Em Como Funciona a Ficção, o crítico inglês James Wood argumenta que um dos grandes diferenciais da obra de Jane Austen, para além das sutilezas e da costumeira crítica social, é o fato de que suas protagonistas são sempre muito conscientes do mundo que as cercam — e, no entanto, dificilmente estão dispostas a compactuar com ele. Anne Elliot, protagonista de Persuasão, não é diferente: filha de um nobre cuja situação financeira já não é capaz de bancar as próprias extravagâncias, Anne é uma mulher muito diferente dos membros de sua família; mais sensata, racional e menos interessada em conveniências sociais. Entretanto, nem mesmo ela é capaz de se desvencilhar completamente de sua própria condição quando, oito anos antes, rompera o noivado com o homem que amava porque este não possuía uma posição social adequada.

Anos mais tarde, os dois se reencontram em circunstâncias que não apenas tornam o passado e os sentimentos mais vivos, como obrigam Anne a lidar com o peso do próprio arrependimento. A dúvida norteia a maior parte do romance, mas Austen não se limita a narrar uma história de amor, utilizando o contexto no qual seus personagens estão inseridos para questionar desde o comportamento da própria Anne em relação à família, como algumas de suas atitudes e sua capacidade de ser tão persuasiva quanto persuadida, até as mudanças sociais que estavam acontecendo, possibilitando que pessoas nascidas em famílias menos abastadas alcançassem ótimas condições financeiras através do trabalho, como acontece com o próprio Frederick Wentworth, enquanto muitas famílias da nobreza passaram a viver de maneira mais modesta e não conseguiram se adaptar inteiramente ao novo momento que vivia a Inglaterra. Escrito durante o período no qual Austen esteve doente e publicado somente após a sua morte, Persuasão é, para muitos, a obra na qual a autora atinge sua total maturidade criativa; o desfecho apropriado para uma das maiores e mais brilhantes escritoras da literatura mundial.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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4 comentários

  1. Adorei o post meninas ! Jane Austen é subestimada por muita gente, e acredito que seu o valor da sua obra é inquestionável.
    Infelizmente uma dificuldade são as traduções, umas muito antigas e tiram a fluência do texto, gostaria de pedir a vocês indicação de uma boa tradução da nossa rainha da língua inglesa.

    1. Oi, Karla! Realmente, esse estigma de que Jane Austen escreve meros romances deve a todo custo ser quebrado porque o teor crítico de suas obras é riquíssimo. Sobre as traduções, as edições mais seguras que indicamos são aquelas publicadas pela Penguin, selo da Companhia das Letras, ou da L&PM. A Zahar também fez um trabalho primoroso com Persuasão, mas eles só possuem esse título no catálogo por enquanto. A Nova Fronteira é outra opção, mas como só li uma tradução deles – Os Watsons e Sanditon – não posso divulgá-la com tanta propriedade. A recomendação final é evitar as edições da Martin Claret, cujas obras traduzidas infelizmente não possuem boa reputação na área.

  2. É uma verdade universalmente reconhecida que quando eu vejo um texto sobre Jane Austen eu tenho que lê-lo. Me apaixonei por ela quando assisti a adaptação de Orgulho e Preconceito de 2005 e não parei mais. Ele se tornou meu livro favorito dela, seguido de Persuasão e A Abadia de Northanger.