Categorias: LITERATURA

Destruidor de Mundos, de Victoria Aveyard

Victoria Aveyard conquistou fama mundial com a publicação de sua série A Rainha Vermelha. Composta por quatro livros principais e quatro contos prequel, a saga que narra a história de Mare Barrow vendeu mais de 150 mil cópias de sua primeira edição, lançada nos Estados Unidos em 2015, e logo se tornou um best seller na lista do New York Times. O segundo volume da saga, Espada de Vidro, chegou com uma tiragem ambiciosa de 500 mil cópias em 2016 que se esgotou em pouco tempo; A Prisão do Rei e Tempestade de Guerra, sendo este o desfecho da saga, não demoraram a acompanhar o sucesso dos livros anteriores, tanto com relação às vendas quanto à crítica. Tanto por isso, A Rainha Vermelha foi escolhida para se transformar em série de TV produzida por ninguém menos do que Elizabeth Banks, responsável pela nova encarnação de As Panteras, com roteiro co-escrito por Aveyard ao lado de Beth Schwartz, que trabalhou em episódios de Arrow.

Se a ideia da série de A Rainha Vermelha é seguir na esteira do sucesso de Shadow and Bone, adaptação da Netflix para a Trilogia Grisha e a duologia Six of Crows de Leigh Bardugo, só o tempo dirá, mas sabemos que material para desenvolver uma trama tão cativante quanto não somente existe como está todinha nos livros de Aveyard. No Brasil, a série literária A Rainha Vermelha foi publicada pela Editora Seguinte quase de maneira simultânea com os lançamentos em língua inglesa, e é a mesma editora que publica, com tradução de Guilherme Miranda e Lígia Azevedo, a nova saga de Aveyard: Destruidor de Mundos. Aqui, a autora sai de sua zona de conforto e parte para uma história muito mais ambiciosa, com uma construção de mundo ainda mais complexa e com personagens diversos, sinais evidentes de seu amadurecimento enquanto escritora de young adult.

Descrito na contracapa da edição brasileira como um livro que contém batalhas emocionantes, um vilão cruel, portais mágicos, tensão romântica e um escudeiro munido de chaleira (essa parte me conquistou!), eu não poderia ter ficado mais curiosa para o que encontraria no novo livro de Aveyard. Destruidor de Mundos já começa mostrando a que veio e sem muitas delongas: logo no prólogo somos engolidos por uma intensa batalha que mostra que nem mesmo grandes cavaleiros e poderosos guerreiros imortais conseguem impedir que um grande mal invada Todala. Enquanto isso, Corayne an-Amarat, uma jovem que vive em uma pacata cidade portuária aguardando sua mãe, uma famosa pirata e contrabandista, retornar dos mares, sente que algo está mudando. Mesmo assim, Corayne quer se aventurar ao lado da mãe em seu navio, o Filha da Tempestade, e desbravar os reinos mais distantes, mas Meliz an-Amarat é contra, alegando manter a menina em terra firme em nome de sua proteção.

Mas o destino não demora a bater na porta de Corayne na forma de um guerreiro imortal e uma assassina treinada e, mesmo contra a vontade da mãe, ela embarca em sua própria aventura para proteger Todala do terror que espreita da escuridão. Além de filha de uma pirata, Corayne também é a última descendente de uma linhagem poderosa, alguém cujo sangue pode ser a diferença entre vencer ou perder a batalha que se aproxima no horizonte. Mesmo com medo e sem a menor ideia de como executará a tarefa à sua frente — uma tarefa para a qual as listas e mapas que tanto ama não são exatamente úteis —, Corayne decide engolir o próprio nervosismo e ansiedade, partindo com os dois desconhecidos em uma aventura que mudará sua vida para sempre. O improvável trio segue em frente mesmo com todas as diferenças gritantes entre eles: a filha adolescente de uma pirata, um imortal que é ao mesmo tempo fascinante e indecifrável, e uma assassina eficiente e impiedosa que tem uma história pregressa misteriosa. Logo se juntarão a eles um escudeiro sobrevivente de uma missão fracassada e uma velha feiticeira tão dissimulada quanto repleta de segredos.

Tramas sobre escolhidos responsáveis por salvar o mundo de um poder devastador — O Senhor dos Anéis, Star Wars, Harry Potter e tantos outros —, não é novidade e em Destruidor de Mundos as coisas não são tão diferentes assim. A Jornada do Herói, ou Monomito, de acordo com o antropólogo Joseph Campbell, criador do conceito, passa por três etapas e em Destruidor de Mundos estamos justamente passando por duas delas: a separação, que é o momento em que o herói (no caso, heroína), é chamado à sua missão, e iniciação, quando se prepara para a aventura em questão. A terceira e última etapa é o retorno, o momento em que o herói enfrenta qualquer que seja a crise em seu mundo, vence a morte e retorna para casa. Na trama central de Destruidor de Mundos temos Corayne descobrindo o que o destino pede dela, a fase da dúvida e aceitação da personagem, sua partida em direção à aventura e uma enorme pedra no meio de seu caminho se materializando na forma do vilão da história.

E Victoria Aveyard decidiu tomar todo o tempo — e capítulos — necessários para criar essa trama, o que nos leva à longas descrições de um universo tão encantador quanto perigoso. Particularmente, essa é uma característica que amo em livros de fantasia e Destruidor de Mundos não deve nada a nenhum de seus antecessores nesse quesito. Para leitores acostumados com longas campanhas de RPG, ler o primeiro livro da nova saga de Aveyard passa a mesma sensação de um jogo quando descobrimos e criamos cada elemento daquele universo, dos cenários incríveis aos personagens únicos. E escrever personagens é algo que Aveyard sabe fazer muito bem. É fácil se deixar cativar por cada uma das figuras que povoam Todala, mesmo quando elas são jovens rainhas com sede de poder ou escudeiros que não se acham à altura da missão que se apresenta. A autora consegue imprimir diversos tons em cada um de seus personagens, o que só serve para enriquecer a narrativa de Destruidor de Mundos e deixar o leitor ainda mais curioso para o que virá a seguir.

“É o coração dela ou o seu.”

Corayne, por exemplo, tem um crescimento delicioso de acompanhar. De uma menina que passava os dias olhando para o horizonte da beira do porto de sua cidade, desejando embarcar em uma grande aventura ao lado da mãe, ela se transforma na improvável salvadora do mundo todo. O tamanho da tarefa que tem à frente a assusta, mas ela busca em si mesma — e no apoio de seus novos amigos — a coragem de que precisa para lutar. É um pouco clichê? Sim, mas isso não é negativo de maneira nenhuma, visto que Victoria Aveyard soube moldar e desenvolver Corayne de uma forma em que ela pareça crível e não mais uma heroína genérica de romances fantásticos.

Outro personagem cativante é Domachridan, um guerreiro imortal que intimida por seu tamanho e força mas que, na verdade, tem um coração tão grande quanto seu físico imponente. Tendo crescido em um mundo praticamente à parte de Todala, ele frequentemente se surpreende com os costumes dos mortais, chegando até a ser um pouco ingênuo em alguns momentos. Dom, como passa a ser chamado por Corayne, é praticamente o Thor desse universo, um gigante loiro tão assustador quanto adorável —, mas ele que não fique sabendo que é visto assim por seus amigos. Bem, talvez com exceção de Sorasa, uma exímia assassina que não tem a menor paciência para as eloquências de Dom.

A história de Sorasa, inclusive, é uma das que mais me deixa curiosa a respeito dos livros que ainda virão. Vivendo como parte das sombras desde que se entende por gente, Sorasa é letal, sabe disso, mas nem por isso faz alarde de suas qualidades. Ela acaba entrando na comitiva de Corayne para salvar o mundo, mas o leitor não consegue saber onde reside, de fato, sua lealdade. Sua história pregressa nos é revelada aos poucos, e tanto por isso durante a narrativa de Destruidor de Mundos a dubiedade da personagem sempre nos deixa com um pé atrás. Não confie em ninguém, já diria Game of Thrones.

“— Como estão os ventos?
— Ótimos, pois me trazem para casa.”

Mesmo assim, é impossível não se deixar cativar pela dinâmica que nasce entre o trio de defensores de Todala. Dom e Sorasa possuem muito mais experiência de vida do que Corayne — também pudera, ele, sendo um guerreiro imortal e ela, uma assassina treinada — e isso fica visível quando os dois precisam agir como os responsáveis por ela, mesmo que a jovem não peça a ajuda de ninguém. Dom e Sorasa não conseguem evitar serem protetores com Corayne — a princípio, parece ser apenas pelo bem da missão que o grupo tem pela frente, mas com o desenrolar dos capítulos, que alternam entre os pontos de vista dos personagens, é possível observar que o carinho e os laços de lealdade que se desenvolve entre eles é genuíno.

Para completar o grupo de proteção de Todala, há ainda Andry, um escudeiro munido de um senso de justiça e dever que fará toda a diferença para a missão, e Valtik, a bruxa que está ali para cumprir a cota da pessoa mais velha que fala por meio de metáforas que ninguém entende. Em Destruidor de Mundos há ainda a jovem rainha Erida, governante do reino de Galland, que vive sob a pressão de comandar em um universo dominado por homens que pensam saber o que é melhor para ela. Nesse contexto, Erida vive tentando desviar de propostas de casamento que procuram podar seu poder enquanto rainha, procurando transformá-la em apenas um meio de continuar com a linhagem de sua casa real devido aos herdeiros que pode gerar. Os capítulos narrados por Erida são os mais repletos de política, jogos de poder e artimanhas, mostrando que em Todala, além da horda de terror que se aproxima no horizonte, há muito mais o que temer vindo dos próprios mortais.

Ainda que eu verdadeiramente adore as descrições detalhadas e toda a imersão proporcionada pela narrativa de Aveyard, aliada aos personagens e seus múltiplos pontos de vista, não pude deixar de ficar incomodada em como Destruidor de Mundos acelera os acontecimentos quando está justamente chegando ao clímax do enredo. Após muitos percalços enfrentados pelo grupo de improváveis heróis, o desfecho do livro acontece de maneira apressada, deixando um cliffhanger capaz de nos fazer gritar por horas desejando pra ontem a continuação dessa história. Claro, séries precisam desse “momento à beira do abismo” para prender a audiência e fazê-la retornar para os demais livros, mas me senti ligeiramente desapontada em como um dos momentos mais interessantes de Destruidor de Mundos se passa de maneira tão apressada. O vilão, que se relaciona de maneira pouco surpreendente com Corayne, ainda tem muito a dizer, e sei que Victoria Aveyard não decepcionará nos volumes seguintes de sua saga.

“Só mesmo os homens para falarem o dia todo e ainda assim se sentirem silenciados.”

Destruidor de Mundos é um livro introdutório para uma saga que promete crescer em magnitude e narrativa, possuindo uma base sólida e um universo bem fundamentado para tal. Victoria Aveyard é dona de uma escrita cativante e mergulhar por algumas horas no universo criado por ela é realmente divertido. Ao terminar o livro já senti saudades dos personagens e de Todala, mesmo com a questão de ter achado o clímax um pouco corrido diante de tudo o que aconteceu anteriormente na narrativa. Esse detalhe, no entanto, não é capaz de diminuir o valor da narrativa ou do livro e certamente retornarei para descobrir o que Corayne, Dom, Sorasa e companhia enfrentarão a seguir. Os mistérios são muitos e a curiosidade, maior ainda.


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