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Como uma visão feminina favoreceu a nova geração de As Panteras

Lembro de em algum momento da minha infância gostar muito do primeiro filme da As Panteras, aquele estrelado por Drew Barrymore, Cameron Diaz e Lucy Liu. Existia algo muito mágico em ver três mulheres incríveis batendo em todo mundo, não aceitando levar desaforo para casa e ainda por cima sendo pagas para fazer isso. Afinal, aquilo era o trabalho delas e lembro claramente de pensar que não queria seguir uma profissão normal mas, na verdade, ser uma delas. Isso foi muito antes de descobrir o feminismo. Antes de descobrir meu amor por séries e filmes no geral. Antes de ler qualquer livro da Jane Austen, assistir a um episódio de Buffy: A Caça Vampiros ou consumir qualquer outra coisa que tenha moldado meu gosto ao que ele é hoje. Anos depois, uma mulher adulta, com profissão e tudo, resolvi revisitar os filmes pela primeira vez e o resultado foi… decepcionante, para dizer o mínimo.

Atenção: este texto contém spoilers

O que mais me lembro da experiência recente é um momento onde o namorado de Alex (Liu) na trama (vivido por Matt LeBlanc, o Joey de Friends) conversa com o pai da pantera a respeito de sua linha de trabalho. Ele fala sobre como Charlie chama suas funcionárias na hora em que precisa, sem horário fixo, e até mesmo como ele demorou para aceitar essa profissão, sendo que ela é sua namorada. Durante esse momento, o roteiro achou que era uma boa ideia fazer uma piada com a situação: sem entender o que sua filha fazia, o homem acha que ela é uma prostituta. A piada é machista e aquilo me incomodou mais do que posso colocar em palavras.

No mesmo filme, as três protagonistas precisam criar uma espécie de distração em uma boate e, para tal, elas dançam ao som do tema de A Pantera Cor de Rosa. A cena em si não apenas mostra vários corpos de mulheres como objetos de cena, como também sexualiza Alex, Natalie (Diaz) e Dylan (Barrymore) sem pensar duas vezes. Lembro claramente de assistir aquilo e pensar, “bom, isso obviamente foi feito por um homem” e, sim, As Panteras foi dirigido por McG, de O Exterminador do Futuro: A Salvação. Senti um pequeno pavor, claro.

Veja, não estou tentando desmerecer as personagens, pelo contrário. Apesar desses momentos onde você percebe que atrás da câmeras existiam poucas mulheres envolvidas na produção do filme (é só dar uma olhada na ficha técnica para verificar isso), falo sobre isso porque enquanto protagonistas, Alex, Natalie e Dylan mereciam ter sido tratadas de maneira melhor.

Na nova produção da franquia, Kristen Stewart, Ella Balinska e Naomi Scott vivem a nova geração das Panteras, Sabina, Jane e Elena, respectivamente. O longa foi dirigido por Elizabeth Banks (A Escolha Perfeita) e, coincidentemente (ou não), rolou uma cena bem parecida com a que citei acima, onde elas tem que dançar para criar uma distração. Mas isso é basicamente tudo que as duas têm em comum. Para começar, em nenhum momento a câmera foca no corpo das mulheres enquanto estão dançando, mas sim no seus rostos, ou movimentos que elas fazem na dança. Fora que fica bem claro o quanto o momento é mais divertido e confortável para as atrizes aqui, do que no exemplo anterior.

Essa mudança de tom chega porque o mundo vem enfrentando transformações radicais na hora de tratar mulheres atrás e na frente das câmeras. Recentemente, Hollywood não só descobriu que filmes com mulheres protagonistas (Capitã Marvel, Mulher-Maravilha, só para citar alguns exemplos) dão sim dinheiro, como também teve que enfrentar movimentos como #Time’sUp e #MeToo, que falam sobre igualdade salarial e abuso sexual e psicológico na indústria dos filmes. Então, a missão de Banks era a de reviver uma franquia antiga e querida pelo público e adaptá-la em uma releitura moderna, que não use o feminismo como algo panfletário apenas para  alcançar um público específico, mas tenha o empoderamento abordado de forma natural e verdadeira.

As Panteras

Na série original, que nasceu em uma época completamente diferente da atual (1976-1981), onde ver protagonistas em uma franquia de ação era praticamente impossível, as coisas não eram perfeitas também. Na época, quem viviam as protagonistas eram Jaclyn Smith, Farrah Fawcett e Kate Jackson, sendo que elas eram descritas apenas como “police academy beauties” [policiais bonitas]. Fawcett, inclusive, se tornou uma espécie de símbolo para vários meninos adolescentes (sendo que um dos seus pôsteres é conhecido até hoje) e se você pesquisar a abertura clássica da série no YouTube e começar a ler os comentários, vai perceber uma grande quantidade de homens (meninos, na época) falando que a série foi como um “despertar sexual” para eles. Uma produção que supostamente visava falar sobre a independência das mulheres, se apoiava livremente no fato de que elas eram bonitas e serviu como alívio para vários adolescentes. Outro fenômeno interessante de se observar é que artigos antigos sobre a obra original foram, quase todos, escritos por homens e, adivinha? A maior parte dos comentários são relacionados à beleza de Fawcett, seu corte de cabelo ou o ícone que ela se tornou. Nunca seu desempenho na série em si.

Todos esses elementos, ainda que mal utilizados nas versões anteriores, tinham um objetivo em comum: mostrar essa cultura onde os homens estão acostumados a subestimar as mulheres, e como elas usam isso ao seu favor. Na primeira cena de Sabina na versão de 2019, por exemplo, ela fala sobre o que é esperado das mulheres no geral. Se você é bonita, nada, as coisas chegam até você com facilidade; se você não é considerada “bela”, no entanto, consegue passar despercebida. Isso é algo que todas as três versões de As Panteras usam como meios para um fim, e a motivação é totalmente compreensível.

Mas apenas retratar isso é o suficiente? Na época das outras produções, com certeza. Hoje, nem de perto. Banks entende completamente isso e usa dos recursos que teve para criar uma história que tenta ser feminista naturalmente, que ao invés de falar “as mulheres são poderosas e podem fazer tudo”, ela simplesmente mostra esse fato. Frequentemente lembro da cena de Vingadores: Ultimato onde as heroínas se reúnem na batalha final para ajudar Carol Danvers (Brie Larson) com a manopla do Thanos (Josh Brolin). Esse era para ser um momento especial, conquistado por dez anos de desenvolvimento em filmes individuais, mas, como a Marvel negligenciou suas personagens femininas durante tanto tempo, aquilo pareceu vazio, feminismo corporativo e um baita de uma isca de empoderamento, algo inconcebível no seu próprio conceito, mas aqui estamos nós, falando sobre isso!

As Panteras

Banks criou uma coisa parecida no final do seu longa, mas como a obra inteira tem uma relação natural entre mulheres e se apoia completamente nesse aspecto com, inclusive, uma montagem inicial de meninas fazendo de tudo, aqui parece completamente natural e divertido. Quase como se o filme conquistasse o direito de fazer uma cena clichê como essa.

Uma obra sobre amizade entre mulheres 

O novo filme de As Panteras incomoda em alguns aspectos. O roteiro, por exemplo, é cheio de reviravoltas pouco interessantes e revirar o olho uma ou duas vezes é praticamente inevitável. As cenas de ação são bem feitas, mas não passam disso, embora a direção de Banks seja realmente satisfatória. O que realmente se destaca no longa, porém, é a química entre as protagonistas, que surge de forma imediata e faz com que As Panteras seja, principalmente, uma história sobre amizade entre mulheres.

A história começa com Elena procurando a agência de Charlie Townsend (Good Morning Charlie!) para ajudá-la com um problema: ela criou um protótipo de uma tecnologia que oferece energia sustentável, mas cujo objeto foi transformado em uma arma capaz de matar exércitos. É assim que seu destino cruza com a espontânea Sabina e a solitária Jane, que tem como principal objetivo impedir essa organização de colocar as mãos nos objetos. Sendo forçadas a trabalhar juntas, elas criam um esquema fácil e de ajuda mútua para resolver seus problemas, sendo que cada uma delas tem um papel bem específico nessa dinâmica. Como cientista, Elena é fundamental na hora de derrubar barreiras que necessitam mais do cérebro e não de músculo, enquanto Jane é a chata necessária (sempre colocando a missão em primeiro lugar) e Sabina um alívio cômico completamente bem-vindo (quem diria que K. Stew teria um tempo tão perfeito para a comédia).

As Panteras

Justamente porque elas são tão diferentes, o trio funciona bem desde o primeiro momento e os maiores trunfos da produção são encontrados em pequenos detalhes, como uma conversa sincera entre Jane e Sabina sobre a relação delas, ou simplesmente quando Elena luta por um espaço na organização de Townsend. Isso também faz com que elas sejam mais humanas do que as personagens das versões anteriores. Cenas reais como Sabina gritando “shit, shit, shit” [“merda, merda, merda”], ou simplesmente de Elena surtando com tudo que está acontecendo, substituem os saltos mirabolantes e nada compatíveis com a física que as protagonistas davam no começo dos anos 2000. E isso faz com que elas pareçam mais reais, humanas, bem como as situações em que estão envolvidas e suas relações.

O figurino é incrível e de tirar o fôlego, o timing cômico é eficiente e, por fim mas não menos importante, as cenas pós-créditos reúnem uma série de aparições perfeitas como Laverne Cox, Hailee Steinfeld, Lili Reinhart, entre muitas outras.

A questão da bilheteria 

Logo quando a produção estreou nos Estados Unidos e no Brasil, os números de abertura apontaram que o desempenho de As Panteras não seria tão satisfatório quanto o esperado. E como praticamente todos os assuntos abordados pela mídia que cobre cultura pop hoje, o assunto estava esgotado no momento em que saiu a notícia. Foi caótico: algumas pessoas distorceram as palavras de Banks, que alegou o fracasso ao fato de que ninguém está interessado em ver produções de ação e que Mulher-Maravilha e Capitã Marvel, por exemplo, só produziram bons números porque pertencem a um “gênero masculino”. Isso é apenas em parte verdade.

50% do público que consome filmes baseados em quadrinhos são mulheres, sim, mas essas duas produções estão inseridas em dois universos que são os mais famosos do cinema hoje — Marvel e DC. Os homens que acompanham essas produções o fazem porque elas fazem parte do universo compartilhado, e quando o fazem, ainda reclamam sobre qualquer parte da trama que envolve o desenvolvimento das personagens, inclusão, mudanças de gênero em vilões e outras figuras, ou qualquer outra coisa que se encaixe no padrão redutivo do girl power (termo o qual não sou muito fã, mas que se encaixa perfeitamente no exemplo).

Os argumentos para a falha de As Panteras variaram de “nenhuma das protagonistas eram uma estrela grande o suficiente” (sendo que Kristen Stewart fez Crepúsculo e Naomi Scott esteve em Aladdin e Power Rangers, que fez um bilhão de reais em bilheteria), enquanto outros destacam que as críticas mescladas sobre o longa foram o que causou a falha. Em nenhum artigo o machismo foi citado. Ao mesmo tempo em que essas produções de estúdios de quadrinhos são sucessos, outras que têm protagonistas femininas não são. Alita, O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio e Fênix Negra são filmes de grande orçamento que acabaram não tendo bons resultados de bilheteria. O primeiro teve críticas muito positivas, o segundo chegou com recepções mistas e o terceiro foi detonado pelos especialistas. E com essa informação, vou deixar que vocês tirem suas próprias conclusões.

As Panteras dificilmente é o único filme que se deu mal esse ano — ele foi apenas o mais comentado. Se o cinema pode ter vários filmes do Rambo, onde estupram mulheres sem parar e ele mata mexicanos como se o cinema não tivesse evoluído desde a década de 1990, acho que nós podemos muito bem ter um longa das Panteras a cada 20 anos. E que ele não precise fazer 1 bilhão de reais.

Minha versão preferida da franquia com certeza é a de Stewart, Balinska e Scott. Não só porque essa é uma releitura moderna, que realmente se adaptou aos tempos atuais, mas também porque elas tem a melhor dinâmica entre si, de longe. Esse não é um filme revolucionário e super feminista, mas é divertido, atual e esperto, e se ele fosse liderado por homens, as críticas certamente teriam sido (bem) diferentes.

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