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O falso gore feminista de As Seguidoras

Se unindo a Maria Bopp, a eterna Blogueirinha do Fim do Mundo, o streaming Paramount+ entra para a corrida da teledramaturgia nacional com a série As Seguidoras. O “horror gore” recheado de sangue, suspense e comédia, é uma coprodução em parceria com o canal Porta dos Fundos. Liv (Maria) é uma influencer semi famosa que conseguiu muitos seguidores na rasteira de sua ultra popular cunhada, Ananda (Raissa Chaddad). Com a fama vem também inimigos que ao investigarem o passado de Liv descobrem estranhos acontecimentos, além de uma grande hipocrisia em ideologias de “bem estar” (veganismo, vida saudável e “good vibes” no geral).

Atenção: este texto contém spoilers!

Para que esses segredos não venham à tona e continue famosa, Liv começa a matar os homens que entram em seu caminho. A aparência virtual que Liv passa para seus seguidores entra em conflito tanto com sua vida passada quanto com a vida do presente. No encalço do novo serial killer, além da polícia, está Antônia (Gabz, muito bem em cena), uma hacker e podcaster de crimes reais que disfarça sua identidade na internet com um pseudônimo e modelador de voz. Usando suas habilidades e curiosidade investigativa, ela vai chegando mais perto da assassina, o que inicia um jogo de gato e rato entre as duas, enquanto Liv desce por uma espiral de assassinatos cada vez mais fora de controle.

as seguidoras

O roteiro da série — assinado pela criadora Manuela Cantuária, além de Nina Kopko, Tainá Muhringer e Pedro Perazzo —, permite que Maria Bopp brilhe como a serial killer Liv. Usando e abusando de sua experiência como blogueira para deixar tudo mais absurdo e engraçado, a comédia do seriado tem um timing que beira a perfeição. A sátira mistura elementos de sitcom e gore, muitas vezes remetendo ao estilo do seriado Adorável Psicose (que já trazia influências em antigas sitcoms que mostravam um universo feminino, como I Love Lucy); e ainda referências do horror como o filme Garota Infernal (2009). No campo da investigação de Antônia, a sátira dos podcasts de crime lembra o  seriado já referência Only Murders in the Building (2021).

As Seguidoras seria uma perfeita sátira feminista se depois do episódio 3 não tivesse insistido em tentar trazer empatia para as vítimas dos assassinatos. Era possível fazer com que Antônia continuasse sua investigação apenas pelo seu próprio senso de justiça, sem ser necessário colocar personagens masculinos problemáticos como vítimas perfeitas. Nesse ponto, a série se afasta da catarse feminista ficcional e cai na justificativa da falsa dicotomia entre machismo e feminismo. A famosa frase de Garota Infernal: “Não [estou matando pessoas], estou matando garotos”, traz um senso de vingança ficcional a feminicídios, e As Seguidoras acaba por perder esse sentimento ao forçar uma empatia que não é possível existir às vítimas de Liv.

Ao fazer a vilã-antagonista branca e heterossexual e a heroína justiceira se relacionar romanticamente com outras mulheres, o seriado acerta em representatividade. A personagem de Gabz, Antônia, também reflete o jovem de classe média baixa brasileira em uma das melhores representações teledramatúrgicas dos últimos tempos. Como hacker, Antônia se vira para ter acesso à tecnologia que vem fácil para os outros personagens, trazendo o paralelo entre ela e Liv, que tem acesso a uma tecnologia de ponta mas não se dá conta disso. Apesar de ser empurrada para a margem da sociedade tecnológica, Antônia continua tentando se inserir nesse mundo, mesmo quando sua mãe, a polícia ou a própria situação de moradia a dificultam. A série só funciona pela obsessão de Antonia com A Açougueira (apelido que ela mesma dá a Liv em seu podcast), que pela atuação de Gabz não causa estranheza ao público, mas faz com que torça para que ela descubra a identidade de Liv.

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A série perde muito ao terminar a primeira temporada em aberto, frustrando o público e perdendo possibilidades mais interessantes de narrativa para a segunda temporada. Um caminho fácil, narrativamente falando, numa temporada que até então vinha trabalhando um enredo complexo e interessante. O tema horror gore é diminuído pela falta de mortes em cena. Não há vísceras na tela, embora o resultado dos ataques de Liv (o sangue) predomine em boa parte das tomadas. É como se a série quisesse se inserir no gênero, mas tivesse algum tipo de receio em realmente mostrar o gore do horror. Uma espécie de classificação etária, que não cabe no estilo “streaming” de assistir TV. A fotografia e direção (Pedro Cardillo, Mariana Bastos e Mariana Youssef) elevam o roteiro, embora a direção de atores derrape na atuação de alguns atores secundários.

Apesar dos pontos fracos e questionáveis, o roteiro engraçado e inteligente utiliza artifícios contemporâneos das redes sociais de forma natural e orgânica, os inserindo no contexto da narrativa. As Seguidoras é uma série de crime, gore e serial killer que se passa no presente, onde os personagens usam e abusam de celulares, redes sociais e da internet no geral; algo difícil de ver em filmes e séries de horror hoje em dia, que optam por inserir suas tramas no passado para não ter que “lidar” com a tecnologia do presente. A série é, acima de todas as críticas, uma narrativa bem contada sobre duas mulheres, cada uma com objetivos diferentes, que se entrelaçam através da tecnologia. Uma sátira sobre fama virtual, filtragens do que se mostra nas redes sociais versus o que é mesmo a realidade, e até onde se é capaz de ir para preservar essa persona, As Seguidoras trata com uma comicidade que beira o nonsense assuntos atuais pertinentes numa roupagem que os envolve de forma satisfatória e atraente.

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